Livro: A Menina Submersa – Caitlín R. Kiernan

a-menina-submersa-caitlin-r-kiernan-limited-editionAssim como sua avó e mãe, India Morgan Phelps, ou Imp, é esquizofrênica (doença psiquiátrica que se caracteriza pela perda do contato com a realidade). Os medicamentos e as consultas com a psiquiatra dão uma aparência de controle na sua vida. A outra maneira que nossa protagonista encontrou para dominar suas assombrações foi na escrita: ela começa a escrever uma autobiografia. Vamos caminhando pelo diário de India, pelas histórias que se confundem com a realidade, a fantasia e a loucura.

O que poderia ser uma experiência interessante em estar perambulando pelos pensamentos, experiências e surtos de uma esquizofrênica, tornou-se uma leitura enfadonha. A inconsistência da protagonista faz parte de sua condição e até dá certa credibilidade a narrativa, mas a grande impressão que ficou foi de que Caitlín R. Kiernan nutriu sua obra com redundâncias, tornando bastante cansativo seguir os mistérios que abrangem India. Mistérios estes completamente previsíveis.

Além disso, todas as personagens, sem exceção, são tão padronizadas que se tornam insuportáveis. Todas apresentam trejeitos e personalidades clichês nada bem desenvolvidos, como a típica personagem “excêntrica” ou o tipo “revoltado”. E o campeão dessa bagunça é o namorado transexual de Imp.

A escritora norte-americana preenche a obra com várias referências literárias e artísticas. Mas nem isso ajudou a tornar o livro agradável. Sinceramente não consegui comprar a história. A Menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan, publicado originalmente em 2012, do qual fiz uma leitura compartilhada no mês de dezembro do ano passado com uma querida amiga, foi uma grande decepção. Romance chula e maçante.

Outra coisa, de hoje em diante vou tentar fugir das indicações do Neil Gaiman. Explico: há um comentário destacado do autor na capa da primeira edição nacional de A Menina Submersa. Pela segunda vez dou certa credibilidade nas palavras do escritor britânico, e pela segunda vez me decepciono completamente com a narrativa (*a primeira foi o quadrinho de Vera Brosgol, O Fantasma de Anya*). Caso eu veja qualquer comentário do Gaiman num livro vou tentar passar longe desse título. Gaiman é um autor excelente, mas não tá indicando nenhuma coisa boa.

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Título: A Menina Submersa: Memórias
Título original: The Drowning Girl: A Memoir
Autora: Caitlín R. Kiernan
Tradução: Ana Resende e Carolina Caires
Editora: DarkSide Books
Páginas: 320
Ano: 2015

Livro: Botchan – Natsume Soseki

botchan-natsume-sosekiEm Botchan, quarta obra de Natsume Soseki, publicada originalmente em 1906, narra à vida de um jovem da capital e de seu período como professor de matemática em Matsuyama, região inóspita do Japão localizada na província de Ehime da ilha de Shikoku. Passamos por sua infância nada agradável, conhecemos sua família que foi posteriormente se desfazendo e a única pessoa que tem real afeto por ele, a empregada Kiyo, que carrega um sonho antigo de viver e trabalhar na casa de seu “botchan”.

O jovem mestre apresenta uma personalidade impulsiva, que o leva a certas dificuldades. No entanto, abrigada uma integridade e honestidade imbatível, sendo sua maior qualidade. Acredito que essas características do personagem título carregam o conceito tradicional japonês de masculinidade. Eu me questiono também se Botchan não seria algum precursor do clássico temperamento das personagens do Shōnen Mangá, já que as características são bastante semelhantes aos desses garotos cheios de entusiasmos.

Chegando a seu destino no interior, a narrativa se desloca em torno do mau caráter dos alunos e de alguns colegas de profissão de Botchan. Por ser propendo a atos imprudentes, a história de sua vida como professor é bastante acidentada, mas devido ao seu temperamento e sua boa qualidade essas peripécias se tornam divertidas. Vibramos junto ao jovem quando ele consegue dar o troco naqueles que o fizeram mal ou a seus amigos igualmente prejudicados.

Quanto ao título original, “botchan” é uma palavra que pode ser traduzida como “jovem mestre”. Na obra de Soseki o termo é usado de forma irônica, já que o protagonista não vem de uma família rica ou de prestígio. Além de seu significado literal, ainda pode ser usado para descrever um jovem de família respeitável, ou alguém que é ingênuo ou malcriado. O autor utilizou a sutiliza da língua japonês no título, e acredito que no vocabulário da narrativa, já que o idioma é cheio de nuances e duplos significados. Até gostaria de saber se o tradutor teve dificuldade na tradução. Pois o romance parece trazer uma série de trocadilhos, que provavelmente são difíceis de encontrar um equivalente.

Botchan, de Natsume Soseki, é um romance muito popular no Japão. Acredito por trazer um protagonista que não se incomode com as convenções sociais e que se choca com a hipocrisia e a falsa moral dos indivíduos. Botchan é uma obra descontraída que trás um protagonista vivaz. Entendo o carinho dos japoneses. Eu, por exemplo, quando li a obra em novembro do ano passado, também criei um carinho especial.

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Título: Botchan
Título original: Botchan, 坊っちゃん
Autor: Natsume Soseki
Tradução: Jefferson José Teixeira
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 184
Ano: 2016

Livro: O Marido Dela – Luigi Pirandello

o-marido-dela-luigi-pirandelloO Marido Dela, do italiano Luigi Pirandello, foi originalmente publicado em 1911 e a narra o ambiente mercantil literário romano do início do século XX, tendo como personagens centrais a escritora Silvia Roncella e seu marido, Giustino Boggiolo, que abandonou o emprego para atuar como agente da esposa. Desde o sucesso repentino e o nascimento do filho, o casal está com planos cada vez mais conflitantes, percebendo que seus rumos estão caminhando para lados opostos.

Nota-se um relativismo psicológico das personagens principais. Portanto a narrativa mostra duas diferentes sensações provocadas no casal decorrente da súbita ascensão de Roncella (*diria também que foi o estopim do conflito*). Sabemos no decorrer da trama que Silvia se sente explorada pelo marido e que sua capacidade como escritora é posta em dúvida. Além disso, ela também me passou a impressão de um conflito interno de ansiar por uma família tradicional. Enquanto que o ambicioso Giustino se considera injustiçado por não merecer o devido crédito de sua dedicação e gerenciamento na carreia da esposa.

Há também nas entrelinhas da obra do Nobel de Literatura, agraciado com o prêmio em 1934, uma crítica a mercantilização das artes. O cenário que Silvia e Giustino, e nós leitores, fomos apresentados mostra como a bajulação e a aproximação de certas peças torna possível a abertura ao mundo da arte. Acredito que a crítica se estende através da obsessão de Boggiolo em controlar o talento da esposa.

No geral, a leitura de O Marido Dela não me foi estimulante. É evidente a sagacidade de Luigi Pirandello nas descrições dos efeitos apresentados por cada figura, que me pareceram realistas, em um pontual pensamento de Silvia ao reencontrar o filho num estado lamentável e a sutil critica em torno da arte ter se tornado um artigo, mas infelizmente a trama não me conquistou. Achei a narrativa maçante.

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Título: O Marido Dela
Título original: Suo marito
Autor: Luigi Pirandello
Tradução: Francisco Degani
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 254
Ano: 2016

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A leitura de O Marido Dela, de Luigi Pirandello, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

Mangá: Sakamoto, pour vous servir! (Sakamoto desu ga?) – Nami Sano

sakamoto-pour-vous-servir-nami-sanoPublicado originalmente entre 2012 e 2015 nas revistas Harta e Fellows!!, da editora Enterbrain, posteriormente ganhando quatro volumes encadernados, o seinen de Nami Sano ultrapassa barreiras do gênero cômico, tornando-se um grande sucesso no Japão.

Sakamoto é um estudante do ensino médio nada comum. Além de lindo, nosso protagonista é carismático, elegante e dotado de múltiplos talentos. Com toda perfeição em um único ser humano, alguns homens sentem inveja de suas habilidades e beleza esplendida, e tramam contra ele. Ou então, por ser um rapaz engenhoso, acaba ajudando os colegas de sua turma. Seja qual for à circunstância, Sakamoto nunca perde a calma e usa seus dons para sair de qualquer situação. Claro, sempre em grande estilo. Afinal, tudo que ele faz é cool, cooler, coolest!

O ambiente da narrativa joga inteiramente sobre os exageros do talentoso estudante que consegue sempre nos surpreender e arrancar suspiros. Tudo em Sakamoto desu ga? é construído em torno de um grande escárnio das situações mundanas típicas de tramas escolares. Difícil não gargalhar em todas as páginas. Eu, por exemplo, ria ao ponto de lacrimejar (>_<). Sim, adoro esse humor nonsense japonês. Acho muito engraçado!

Talvez alguns não tenham entendido o estilo da comédia. Fica um pouco difícil explicar tamanho exagero, então deixo o trailer da animação, só para vocês sentirem o gostinho do quão maravilhoso é Sakamoto desu ga?:

A animação foi produzida pelo Studio Deen e lançada em 2016 contendo 12 episódios e 1 OVA (Original Video Animation). Achei uma ótima adaptação! Cobre perfeitamente os eventos apresentados na obra original. Já no OVA, que trás uma historinha extra, os alunos fantasiam e teorizam sobre Sakamoto. É muito legal! Recomendo!

Voltando ao mangá… Curioso que sempre imaginei um mangá dessa natureza, com um personagem bonito que fosse impecável em tudo que fizesse e nada poderia o deter de ser primoroso. Nami Sano teve o mesmo pensamento e materializou essa ideia da melhor forma possível (*-*).

Comecei a leitura de Sakamoto, pour vous servir! ao ser lançado na França e finalizei no mês de dezembro do ano passado. Sem dúvida é um dos mais criativos mangá de comédia dos últimos tempos. Sério, como me diverti com essas loucuras nonsense, hahahahaha. O único ponto que merecia ter sido explorado um tiquinho mais é o grande vilão da série, o repetente trintão que já se divorciou duas vezes.

Quanto à arte de Nami Sano, ela é belíssima! O character design do personagem-título é lindamente desenhado em cada quadro, enquanto as demais personagens, tirando alguma exceção, têm aspectos comuns. O protagonista colabora também para engrandecer o detalhado cenário e seus elementos. Mas o mais hilário disso tudo é que independente do momento o gráfico de Sakamoto sempre permanece sedutor e cintilante.

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Gostaria de destacar o cuidado da editora francesa com a obra. Acredito que o trabalho de tradução esteja bem feito, pois se sente uma fluidez nos diálogos. Quanto ao título da obra, como o título japonês é de difícil tradução: Sakamoto estaria se apresentado e dando a ideia de continuar sua apresentação; acredito que a adaptação do título em francês conseguiu trazer a essência da narrativa.

Sobre a edição, está muito bem cuidada e creio que esteja igual à versão original. Normalmente são. Destaque para os desenhos que ficam na capa e contracapa do mangá, ao retirar a sobrecapa de cava volume. A mangaká fez quatro releituras de obras famosas com a imagem de Sakamoto:

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Adorei todas! (^o^)

No primeiro volume é acrescentado um one-shot intitulado Hiroshi, L’Homme aux Épaulettes (Hiroshi, o homem com ombreiras), que narra a obsessão de Hiroshi por ombreiras. Essa história é demais! O final me surpreendeu e fiquei lá rindo alto. Nami tem sacadas geniais quando o assunto é à fusão da seriedade e de elementos comum com o nonsense.

Nami Sano nos brinda com uma receita simples, funcional e muito bem-humorada. Sakamoto, pour vous servir! começa esplendoroso, continua com um ritmo sedutor e finaliza no momento certo, trazendo algumas interpretações sobre a figura de Sakamoto.

[Atenção!!! Este parágrafo contém SPOILER] A autora deixou uma dúvida no ar: Sakamoto é ou não humano, eis a questão. Para isso não há nenhuma resposta específica. Sano deixou algumas pistas da verdadeira natureza desse herói que ajuda os outros sem esperar nada em troca e que obviamente mentiu sobre os motivos de deixar a escola. Assim os leitores pensam o que quiser sobre ele: alienígena, enviado por Kami-sama, ser o próprio Kami-sama. Seja qual for à resposta, Sakamoto é tão inspirador que melhora o caráter humano. Só vê aquele final completamente maluco, hahahaha. [/ Fim do SPOILER]

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Título: Sakamoto, pour vous servir!
Título original: Sakamoto desu ga?, 坂本ですが?
Autora: Nami Sano
Editora: Komikku Editions
Número de volumes: 4 volumes
Ano: 2014 ~ 2016