Quadrinho: Faminta – Milene Correia

faminta-milene-correiaFaminta, de Milene Correia, lançado em fevereiro de 2016, é um fanzine publicado de forma independente. Pelo título pensei encontrar uma personagem em constante estado de fome (*eu! hahaha*), mas o zine trata além, trás uma narrativa do gênero de terror mesclado com suspense.

Faminta conta à história de uma criatura desconhecida que tem fome. Muita fome! (…) Acho melhor parar por aqui para não estragar a surpresa de vocês. Somente posso dizer que assim como o enganoso título, a narrativa joga com as percepções do leitor.

Por ser curto, eu pensei que não sentiria nenhuma reação. Mas me enganei novamente. A autora consegue em poucas páginas gerar uma tensão e curiosidade desde o primeiro quadro. É uma tensão crescente que trás um insaciável “quero mais páginas!!!”.

Sério mesmo, eu fiquei pasma como Milene conduziu à narrativa. É difícil prender a atenção do leitor numa obra tão curta, mas ela conseguiu com maestria.

faminta

Quanto ao traço, ele é simples e direto. Acho que funciona muito bem com o estilo de narrativa proposta, pois causa uma sensação de ilusão e de mistério. Outro destaque do desenho é a falta de detalhes nos cenários, somente os elementos essenciais estão lá para levar o olhar do leitor no que realmente interessa.

Faminta, de Milene Correia, é uma obra surpreendente. Afinal, o que dizer mais dessa autora que mal conheço e já considero pacas? (^o^) Ah, você pode ler Faminta de graça na página de Milene, bem como outros trabalhos no MEEnhas Aventuras.

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Título: Faminta
Autora: Milene Correia
Editora: Independente
Páginas: 07
Ano: 2016

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Quadrinho: Pombos! – Débora Santos e Márcio Moreira

Pombos! - Débora Santos e Márcio MoreiraPombos!, com arte de Débora Santos e roteiro de Márcio Moreira, é um quadrinho independente publicado em 2015 pelo coletivo Netuno Press.

Admito que no primeiro momento meu interesse pela obra foi somente por causa do título poético. Afinal pombos são criaturas elegantes hahahaha. Checando com mais calma, a sinopse humorada chamou minha atenção e acabou me influenciando a embarcar nesta narrativa sobre o entendimento de nós mesmo.

Cris, nossa protagonista, conseguiu o que a vida moderna define como sucesso e felicidade. Ela tem um bom emprego e está namorando um belo rapaz. Com a confusão de sentimentos diante de sua atual situação, ela acaba contando sua história para um pombo que pede um pedaço do seu pastel. O papo gera uma série reflexões, passando por sua família com conceitos tradicionais, nos bons amigos ouvintes e no primeiro passo para uma mudança interna.

Pombos! mostra o incomodo em encarar o mundo real e de como as pessoas acabam ficando perdidas em definições, praticamente imutáveis, de felicidade, de sucesso, ou seja, da vida ideal. Tais elementos são envoltos sobre a expectativa própria e alheia.

A narrativa tem uma premissa interessante podendo gerar uma reflexão bacana. Entretanto achei que a temática é abordada sem vigor. Em nenhum momento consegui sentir o incomodo da protagonista. Muito menos as incertezas dela. Para mim Cris não passa de uma moça mimada e perdida de uma família padrão de classe média. Seu drama, de encarar o mundo real ou de ter seus sonhos barrados pela oposição de pagar as contas, não me convenceu.

Pombos!

Além disso, a forma como os clichês foram apresentados me incomodaram um pouco. Por exemplo, a amiga sushiman de Cris, com aquele jeitinho de best friends super legal, acessível e irritante. Sei lá, me soou falso. Para deixar claro, eu gosto de clichês, contanto que sejam bem desenvolvidos. Um dos clichês legais em Pombos! foi o devaneio de Cris na chegada de seu irmão bem sucedido. A estrutura dessa cena ficou cômica, pois resumiu de forma escrachada a definição desse conceito.

Destaque para a arte de Débora Santos. Ela tem um traço forte. Gostei como ela representou a protagonista, uma moça à vontade que quer a mesma definição na sua vida. Isso o desenho conseguiu passar muito bem. Ah, e os pombos ficaram uma graça!

Mesmo desgostando de várias partes e achando que a narrativa não dialoga tão bem, Pombos!, de Débora Santos e Márcio Moreira, mostra de forma humorada que a jornada de auto conhecimento não é fácil. Como definiu Cris, somos coisas que não existem na Wikipédia.

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Título: Pombos!
Autores: Débora Santos e Márcio Moreira
Editora: Independente
Páginas: 28
Ano: 2015

Quadrinho: Essa História em Quadrinhos – Milena Fernandes

Essa História em Quadrinhos - Milena FernandesEssa História em Quadrinhos, de Milena Fernandes, publicado de forma independente em maio de 2016, conta sobre todas nós. Sendo autora e / ou leitura, a narrativa desta obra certamente nos atinge, trazendo uma reflexão simples da representatividade e sexualização das personagens femininas no mundo dos quadrinhos.

Milena conta sobre sua experiência pessoal como amante dessa arte, consumidora e agora como autora. Num tom despretensioso, como se estive conversando com amigos, ela pontua seus incômodos nas vestimentas hiper-sexualizadas das heroínas e a falta de protagonismo. Já como autora, ela expõe sua dificuldade em encontrar referências.

Quem gosta de quadrinho, e tem um mínimo de percepção, nota que as mulheres são retratadas como objetos de decoração. Sempre lindas e sensuais. Utilizadas também para afirmar a heterossexualidade do personagem masculino. O herói pode estar rodeado por homens igualmente viris, mas o enfeite feminino, que normalmente é retratado no padrão de beleza daquela sociedade, está lá para garantir a masculinidade dele.

Se o machismo ficasse somente nos quadrinhos poderia ser desconstruído com mais facilidade, já que nossa sociedade estaria numa realidade igualitária, mas somos serem sociáveis e consumimos o que a sociedade, a nossa no caso Capitalista e Patriarcal, determina. O quadrinho, assim como qualquer mídia, reflete, ensina e reforça padrões pré-estabelecidos. Ou seja, esse material tem uma influência direta em nossas vidas, no nosso meio social. Por isso é esperado das mulheres a beleza, a sensualidade, a fragilidade, a falta de participação e de voz, entre tantas outras regras absurdas e contraditórias. Afinal, somos vistas como prêmios, e prêmios devem ser atrativos para o ganhador.

Essa História em Quadrinhos_Arte

Eu não sou uma consumidora voraz de quadrinhos americanos, mas leio muito mangás e nele me vejo mais representada com protagonistas humanas e que apresentam objetivos. No entanto, o mangá também não foge a regra e apresenta igualmente os mesmos problemas dos quadrinhos de super-herói e de outros estilos e nacionalidades. Afinal o machismo é como se fosse uma pandemia, que só será desconstruído definitivamente através das condições materiais.

Aproveitando o tema, gostaria de indicar uma série de vídeos chamada Tropes vs Women in Video Games, do canal Feminist Frequency, em que Anita Sarkeesian analisa de forma crítica a figura feminina nos games (*vale igualmente para os quadrinhos, filmes, etc. Afinal o machismo é o problema de todos eles*).

(A maioria dos vídeos apresenta legenda em Português-BR. Então é só ativar ^_~)

Sobre a singela arte da quadrinista, acho que funciona muito bem, pois dá para perceber que ela foca nos trejeitos engraçados. É um traço divertido e acredito que fácil de agradar. Particularmente achei bem-humorado.

Destaque para as referências reais que passaram na vida da autora, e que a ajudaram a se inspirar. Muito bom ver a Dharilya Sales, autora de Relicário (*tem resenha no blog. Se quiser ler, clique aqui*), como personagem. Ela ficou uma gracinha no traço da Milena.

Essa História em Quadrinhos, de Milena Fernandes, aborda de forma simples e didática sobre a insatisfação do público feminino com a falta de representatividade. É um quadrinho sobre todas nós (^_^).

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Título: Essa História em Quadrinhos
Autora: Milena Fernandes
Editora: Independente
Páginas: 21
Ano: 2016

Quadrinho: Dentro da Gente – Ícaro Araujo

Dentro da Gente - Ícaro AraujoDentro da Gente é de autoria do autor independente Ícaro Araujo do coletivo Caramujolândia. Essa zine fofinha, detalhe feito à mão, tem um formato mini de um papel A4 dobrado em quatro partes que até parece um bilhetinho.

Um bilhetinho que traduz de forma clara e direta aquele sentimento difícil de colocar para fora, mas sentido da forma mais incomoda possível. Sim, estou me referindo à ansiedade. Aquela sensação desconfortável que deixa o coração apertado e à mente estagnada, e que na maioria das vezes tardamos compreender as razões.

O autor utiliza como metáfora um escorregador. Onde suas ondulações representam as variações de sentimentos. Mesmo passando por todo o percurso e chegando ao final pondo os pés no chão, em alguns casos não temos forças para levantar, porque o escorregador / ansiedade nos detém e é nesse exato momento que cada pessoa terá uma dor e reação própria.

Dentro da Gente

Sobre a arte de Ícaro, ela é clean e meiga, mas expressiva e cheia de detalhes em cada pormenor. Ele consegue expor em sua personagem as mínimas feições em seu rostinho arredondado.

Dentro da Gente, de Ícaro Araujo, trás uma mensagem certeira sobre o grande mal-estar físico e psíquico dessa agonia, e principalmente se percebemos e compreendemos esse sentimento de aflição no outro.

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Título: Dentro da Gente
Autor: Ícaro Araujo
Editora: Independente
Ano: 2016