みなさんこんにちは… Estou (de novo) no Japão!

É isso mesmo que vocês leram no título da postagem: estou novamente no Japão (\^o^/). A superstição do Monte Fuji realizou-se, hahaha (*ありがとう富士さん*).

Como eu e meu marido estamos comemorando meia década de casamento (\^-^/♥\^-^/) decidimos fazer um tremendo esforço e revisitar o Japão. Felizmente deu tudo certo e estamos mais uma vez aqui, curtindo esse país lindo em seu momento outonal, com suas regras sem sentido de não tirar foto e de comidas deliciosas (^_^v).

A viagem, de 30 e tantas horas entre voos e conexões, foi previsivelmente cansativa, mas tranquila (*gostei de ter voado com a companhia holandesa KLM*). Assim que chegamos ao final da manhã no Aeroporto Internacional de Narita, partimos direto para Kyoto. Eu não sei como conseguimos chegar, pois eu e meu marido estamos dormindo em pé e o balançar suave do shinkansen não colaborava para nos manter acordados (*pelo extremo cansaço, ficamos com receio de dormir, perder a parada e bater lá em Hiroshima ou mais longe*).

Obvio que já visitamos lugares maravilhosos. Bem, depois conto tudo com mais detalhes por aqui; e acumulo com as postagens especiais da viagem do ano passado que ainda faltam serem publicadas.

Por ser uma viagem frenética, provavelmente o blog ficará paradinho. Não prometo, mas vou tentar comentar alguma coisinha daqui. No mais, estou muito feliz por estar repetindo esse sonho (^_^). Principalmente na companhia do meu honorável marido, que é meu parceiro há tantos anos ♥.

É isso (^_^). またね。

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{Turistando no Japão} Ohishi-Tengudo + Karuta

Iniciei as publicações sobre minha viagem ao Japão, que ocorreu em outubro do ano passado, com {Turistando no Japão} A realização de um sonho ♥. Ao longo do meu relato, comentei diversas vezes sobre postagens especiais que publicaria posteriormente. Eis que hoje segue a segunda de uma série de oito postagens especiais sobre esses momentos mais marcantes dessa viagem tão incrível (^_^). 行きましょう!

Fundada em 1800 em Kyoto, a Ohishi-Tengudo (大石天狗堂) é uma loja tradicional de jogos clássicos japoneses. Se não me engano é a loja do gênero mais antiga da região de Kansai. Quando a visitei em outubro do ano passado, ela havia completado 216 anos de funcionamento.

Ohishi-Tengudo é famosa por produzir uma variedade de jogos tradicionais japoneses, como Shougi, Go, Karuta, Kai-Awase, etc. No local, estão disponíveis uma variedade de conjuntos industriais e artesanais. Meu interesse em conhecer a loja foi por causa do jogo de cartas chamado Karuta.

O Karuta (かるた), como conhecemos, é um jogo de cartas que descende do jogo de conchas do século XII, chamado Kai-Awase, e do jogo de cartas europeu trazido pelos comerciantes portugueses no século XVI. Como os portugueses chamavam o jogo de “carta”, os japoneses filtraram a palavra como ガルタ > かるた para o seu idioma. Durante o Período Edo (1600 – 1868), combinando a carta de papel com o tradicional jogo Kai-Awase, o Karuta evoluiu para um costume da população japonesa que perdura até os dias de hoje.

Os dois tipos principais de Karuta são:

» Uta-Garuta (うたガルタ) significa literalmente “cartas de poemas”, e consiste em 200 cartas divididas em dois conjuntos, cada um contendo 100 poemas Waka. O primeiro conjunto é para leitura e o segundo utilizado na partida. O tipo mais popular de Uta-Garuta é o Hyakunin Isshu (ひゃくにんいっしゅ), algo como “100 pessoas, 1 poema”.

» Iroha Karuta (いろはかるた) baseia-se no kana, ou seja, na ordem da escrita silábica do idioma japonês. É como a ordem alfabética do nosso “ABC”. Iroha Karuta é enderençado as crianças e existem dois conjuntos de 48 cartas. Em vez da poesia Waka, Iroha Karuta apresenta uma diversidade de provérbios dos mais variados temas.

O Karuta Competitivo (競技かるた, Kyōgi Karuta), que é um esporte com partidas intensas que exige bastante resistência, agilidade e memória de seus jogadores graciosamente ferozes, utiliza oficialmente o deck Ogura Hyakunin Isshu Karuta, com total de 200 cartas (100 torifuda e 100 yomifuda). Cada yomifuda mostra um poema completo juntamente com uma ilustração do poeta que a escreveu, e cada torifuda corresponde apenas à segunda metade do poema. Na partida, as yomifuda ficam com o orador, enquanto que as torifuda estão com cada dupla de jogadores.

Ogura Hyakunin Isshu é uma antologia de cem poemas Waka, escrito por cem personalidades japonesas entre o século VII e o século XIII, como o imperador Tenji, a imperatriz Jitō e as famosas Murasaki Shikibu e Sei Shōnagon. Esses poemas reunidos da era clássica até o Período Kamakura foram compilados por Fujiwara Teika (1162 – 1241) enquanto vivia no Monte Ogura, em Kyoto. Então com a junção do Kai-Awase e das cartas, no Período Edo vários artesão produziram Karuta de luxo. Entre eles, o artesão Ogata Kourin criou o design mais original.

Como o Karuta Competitivo não é um jogo em que a diferença de força física predomine, mulheres e homens competem de forma igual. Somente no campeonato nacional realizado pela All Japan Karuta Association (fundada em 1957), que ocorre todos os anos em janeiro no Omi Jingu, um santuário xintoísta em Otsu, na Província de Shiga, há a divisão entre os gêneros. Que no caso definirá os melhores do país: a melhor jogadora ganha o título de Queen (クイーン) e o melhor jogador ganha o título de Mestre (めいじん). Para deixar o Karuta num nível de complexidade mais hiperbólico, se os jogadores ganharem sete vezes o título máximo, é lhes concedido o título de Eterna Queen (永世クイーンえいせいくいーん) e Eterno Mestre (永世名人えいせいめいじん).

Aqui vocês podem assistir à partida de definição da Queen de 2017, no qual a jogadora Tsuruta Sae foi a vencedora.

Uma das jogadoras prodígio da história do Karuta Competitivo é a Saki Kusunoki. Aos 15 anos ela ganhou o título de Queen e na conclusão do primeiro ano na universidade ganhou o título de Eterna Queen. Em ambos os casos ela foi à jogadora mais nova a ganhar os títulos, e se não me engando é a terceira Eterna Queen da história. Veja abaixo o vídeo da competição da Queen de 2014, sendo a vencedora Kusunoki.

Mesmo com regras complexas e me embaralhando para entendê-las, eu adoro ler sobre a história desse jogo e suas particularidades. Eu sei que nunca serei uma jogadora, e nem pretendo, afinal não nutro das habilidades necessárias, mas pesquisar sobre o jogo, sua junção da literatura com a história japonesa me deixa muito empolgada. Assistindo aos vídeos que encontro das competições me faz enxergar como este esporte é tão gracioso, como voraz. Sem duvida um dos jogos mais interessante e sofisticado já inventado.

Eu e uma carta yomifuda dos Cem Poemas do deck de luxo Ogata Korin Hyakunin Isshu (*o*).

Voltando a minha visita maravilhosa na tradicional Ohishi-Tengudo. Focando nos tipos de Karuta, a loja possui uma variedade de deck industrial e artesanal do Uta-Garuta, Iroha Karuta e Kai-Awase, com uma distinta diferença de preços.

O deck artesanal do Uta-Garuta, temos o dos 100 poemas (Hyakunin Isshu), como também vi um do romance Genji Monogatari (*-*) (*para conferir minhas impressões de O Romance de Genji, clique aqui e aqui*). Por serem produzidos manualmente por artesões renomados que utilizam materiais refinados, como folhas de ouro, esses decks têm valores bastante elevados.

Minhas comprinhas ♥.

Para quem não tem essa quantidade de dinheiro (eu o/), há decks industriais bastante acessíveis. Eu, por exemplo, adquiri um modesto deck do Karuta Competitivo (^_^). É uma versão menor do deck padrão e é tão gracinha ♥. Comprei também o CD da associação de Karuta Competitivo com a leitura dos 100 poemas pelo orador Mitsukazu Yoshikawa. Eu adoro ouvir os poemas, pois o ritmo da leitura é tão relaxante (^-^).

Muito incrível conhecer a tradicional Ohishi-Tengudo. Deixo meus agradecimentos à simpática senhora que nos atendeu, que além de ser solicita conosco, agradeceu por eu ter levado meu marido e meus amigos à loja, já que ela perguntou quem havia sugerido a visita. Conhecer uma loja tão antiga, que preserva com carinho os jogos tradicionais, principalmente o Karuta, foi uma experiência e tanto para uma mera admiradora do jogo.

{Turistando no Japão} Família Ando, artesões de Kyoto da boneca Hina

Iniciei as publicações sobre minha viagem ao Japão, que ocorreu em outubro do ano passado, com {Turistando no Japão} A realização de um sonho ♥. Ao longo do meu relato, comentei diversas vezes sobre postagens especiais que publicaria posteriormente. Eis que hoje segue a primeira de uma série de oito postagens especiais sobre esses momentos mais marcantes dessa viagem tão incrível (^_^). 行きましょう!

» Origem e história da Hina:

Todos os anos, na primavera japonesa, exatamente no dia 3 de março, se celebra o Festival das Bonecas e o Dia das Meninas, em japonês Hina Matsuri (雛祭り). Há também quem chame de Festival de Flores de Pessegueiro (momo no sekku), referente ao inicio da floração das cerejeiras, indicando o começo da primavera.

A origem da celebração vem em parte da influência filosófica da China antiga referente ao ritual do Dia da Serpente (joshi-no sekku). A celebração no Japão surgiu pela primeira vez durante o Período Heian (794 – 1185) tornando-se um das datas cerimoniais realizada na corte imperial japonesa. Essas cerimonias tradicionais, que são cinco no total, são chamadas de gosekku, também conhecida como sekku. No calendário moderno, eles são celebradas em 1ª de janeiro, 3 de março, 5 de maio, 7 de julho e 9 de setembro.

No terceiro dia do terceiro mês lunar, eram realizadas cerimônias e preparados pratos especiais para garantir boa sorte. Ao longo do tempo, o sekku de março assumiu aspectos de uma tradição ampla envolvendo a fabricação de bonecas de papel ou tecido, chamadas hitogata. Além de usadas em rituais de purificação, eram brinquedos das crianças de famílias aristocráticas.

O ato de brincar, ou jogar, com essas bonecas era chamado de hiina-asobi e era um jogo popular não só entre os jovens, mas também por mulheres da nobreza. As peças começaram a consistir em um par de bonecas femininas e masculinas, juntamente com alguns elementos em miniatura da vida doméstica.

Naturalmente, o mês de março não era o único momento do jogo. Menções ao hiina-asobi também aparecem na literatura do Período Heian. Por exemplo, no maravilhoso O Romance de Genji (*minhas impressões aqui e aqui), há uma descrição de jovens absorvidas por essa brincadeira no dia do ano novo. Outra menção é na coleção de poemas do Imperado Murakami (926 – 967), onde ele escreveu sobre hiina-asobi no dia do Festival das Estrelas (Tanabata Matsuri) que ocorre no sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar. Esses exemplos mostram como essa peça era apreciada entre a nobreza de Heian.

Dizem que durante o Período Muromachi (1333 – 1573) a hiina começou a ganhar outra forma. Os artesões escultores baseavam-se nas imagens budistas ou das máscaras de nō. Eu já ouvi dizer que o olhar semelhante ao de Buda Amida das bonecas tem como significado a proteção do olhar de Deus sobre a menina. Gradualmente, a data se tornou o dia para agradecer pela saúde e desenvolvimento das jovens; surgindo posteriormente a seguinte crença popular: no ato de expor uma vez por ano as bonecas, ao tocar numa delas a má sorte passa da pessoa para a boneca, onde fica contida a energia negativa.

Com o tempo a boneca ganhou uma forma mais elaborada. Na metade do Período Edo (1600 – 1867), as bonecas representavam um nobre casal em posição sentada com trajes imperiais, chamadas de dairibina. Ou seja, referente à figura do Imperador (Obina) e da Imperatriz (Mebina). Tornaram-se peças populares em Kyoto e se espalharam pelo Japão. Além disso, surgiram itens adicionais para decoração em camadas e o termo “hiina” tornou-se “hina” (雛人形).

Foi durante o Período Edo que o Hina Matsuri se enraizou como evento na comemoração do nascimento de uma menina. Ocorrendo o festival com decoração de duas camadas em Kyoto e Osaka; enquanto que em Edo (antiga Tokyo), o hinadan chegava a três ou quatro degraus. Hoje a maior exibição é composta por sete níveis! Junto com isso, o costume de dar bonecas às meninas de classe mais abastada tornou-se popular.

As bonecas produzidas em Kyoto são consideradas as de mais alta qualidade. Embora a posição das bonecas do imperador e da imperatriz diferem nas regiões de Kyoto e Tokyo, o estilo de Kyoto prevaleceu. Isso revela que a verdadeira essência da Hina se originou em Kyoto (*eu amo essa cidade*).

» Meu primeiro contato com a figura da Hina:

Meu primeiro contato com a figura da boneca Hina foi através do filme de Akira Kurosawa, Sonhos [1990]. Eu fiquei encantada pelo hinadan em diversas camadas representado no conto O Jardim dos Pessegueiros. Desde esse dia eu sou apaixonada pela Hina e estudei a respeito sobre sua origem e desenvolvimento até que descobri a família de artesões Ando, de Kyoto.

» Família Ando:

Caminhando no clima outonal pelas tradicionais ruas de Kyoto, acha-se uma casa tradicional que exala na sua fachada a fragrância da história das bonecas Hina. Ao entrar no local e retirar os sapatos, somos recebidos com toda simpatia pela matriarca da família Ando, junto com uma funcionária. Após a conversa inicial, somos convidados para uma sala lindamente decorada com os trabalhos a mostra.

Por ansiar por esse momento há muitos anos, eu fiquei elétrica quando finalmente pude ver o trabalho artesanal da família Ando. Conferir de perto os detalhes, os estilos, as variedades de combinações, a estrutura em camadas (hinadan de um, de dois… de sete níveis!) e saber que todas elas foram criadas artesanalmente por especialistas é de encher o olhar (*-*).

Enquanto estávamos encantados com as bonecas e conversando animadamente com a senhora Ando, que expressava muitos sorrisos e rizadas (*ela estava curiosa sobre Brasil*), o senhor Ando Tadahiko é apresentado e nos recebe com um sorriso cortês.

A família Ando é famosa pela produção e preservação artesanal da magnífica Hina. Na loja familiar, fundada em 1903, segue com o espírito e os métodos tradicionais de fabricação. Até chegar à sua forma final, a Kyo-Hina passa por diversas mãos especializadas em uma técnica específica.

Sendo o mestre da terceira geração, o sensei Ando Tadahiko confecciona e administra a loja. Outro par de mãos preciosos na produção das Hina é da sorridente senhora Ando que rouba a atenção até mesmo das bonecas (*ela é uma graça!*). Os Ando estão ativos há mais de um século aperfeiçoando e passando o processo dessa belíssima arte por gerações.

Com a produção em massa da boneca, é de grande importância a nível cultural e histórico prestigiar e preservar os grandes mestres artesões dessa arte tão antiga e de beleza inestimável. Os Ando são famosos em todo o arquipélago por seu grande entusiasmo na preservação e divulgação desse elegante e autêntico patrimônio cultural japonês.

As bonecas Hina criadas pelos Ando são tão valorizadas que foram apresentadas a família imperial japonesa, ao rei da Tailândia, ao primeiro-ministro da China, à esposa do presidente da Rússia, bem como outras e variadas personalidades mundiais (*e agora eu, hahahahaha*).

Visitar a família de artesões Ando foi sem sombra de dúvida um dos momentos mais marcantes da viagem (^_^). Fomos recebidos com carinho, sorrisos, chá da região e muita conversa. Conhecer finalmente a família que preserva um monumento cultural tão importante da história do Japão fez meu coração bater mais forte.

どうもありがとうございました, 安藤忠彦さま。

» Minha preciosa Kyo-Hina:

Depois dessa visita marcante, sai de lá com essa lindeza (foto acima) (*0*). Batizei minha Kyo-Hina de Murasaki Shikibu ♥. Ela faz parte do segundo degrau representando a figura central das três damas da corte (sanni-kanjo). Essas mulheres faziam parte de famílias influentes da época de Heian; se não me engano podendo incluir também membros femininos da família real nipônica. A original Murasaki Shikibu, autora do primeiro romance mundial, fazia parte dessa classe na corte imperial.

Extremamente bem embalada (*acho que nunca vi algo tão bem embalado na vida*), carreguei o pacotão, quase do tamanho de uma mala pequena, de Kyoto para Tokyo, de Tokyo para o Aeroporto Internacional de Narita, de Narita para Dubai, de Dubai para o Rio de Janeiro e por fim do Rio de Janeiro para Fortaleza. Carreguei-a comigo sem desgrudar um único momento. Nos voos a levei como bagagem de mão. Zeus me livre perdê-la ou danificá-la. Ela é muito preciosa (*-*).

Ah, aconteceu algo surpreendente alguns meses atrás. Eu e meu marido fomos assistir pela primeira vez o clássico japonês Jigokumon [1953]. Numa determinada cena inicial, quando a infeliz heroína senhora Kesa se passa pela irmã do imperador, ela veste um kouchiki igualzinho ao da minha Hina (O_O). O que difere é o formato do desenho das flores. Entretanto a estampa laranja e o dégradé de cores das flores são completamente os mesmos. Fique surpresa com a semelhança (*0*).

Hoje minha Kyo-Hina Murasaki Shikibu está protegida e lindamente exposta numa cristaleira. Coloquei como decoração um pequeno estandarte que retrata uma passagem do romance Genji Monogatari e uma flor de crochê em tons violeta (*pedi para minha mãe fazer uma flor de crochê na cor roxa*), pois Murasaki significa violeta / roxo. Em alguns momentos eu gosto de ficar admirando-a, pois além de ser uma peça imponente, me trás lembranças maravilhosas da viagem e de meu amor pela história e cultura japonesa ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.