{Turistando no Japão} Castelo de Osaka + Mausoléu de Toyotomi Hideyoshi

Iniciei as publicações sobre minha viagem ao Japão, que ocorreu em outubro do ano passado, com {Turistando no Japão} A realização de um sonho ♥. Ao longo do meu relato, comentei diversas vezes sobre postagens especiais que publicaria posteriormente. Eis que hoje segue a terceira de uma série de oito postagens especiais sobre esses momentos mais marcantes dessa viagem tão incrível (^_^). 行きましょう!

Para falar desses dois pontos históricos, preciso contextualizar sobre a figura de Toyotomi Hideyoshi, o segundo grande unificador do Japão, após Oda Nobunaga e antes de Tokugawa Ieyasu. Como também as figuras de Chacha e Toyotomi Hideyori.

» Toyotomi Hideyoshi (豊臣秀吉):

Sendo filho de camponeses, Hideyoshi nasceu no ano de 1537, na província de Owari, governada pelo clã Oda.

Aos 21 anos, Hideyoshi unisse ao clã Oda, agora liderado pelo imponente Oda Nobunaga, como um ashigaru (soldados de infantaria). Por sua fidelidade e disciplina, ele foi se tornando um dos homens de confiança de seu senhor, participando assim de batalhas e acontecimentos importantes do final do Período Sengoku (1467 – 1573). Apesar de sua origem humilde, Hideyoshi torna-se um dos generais mais notáveis de Nobunaga.

Hideyoshi firma matrimónio com a inteligente Yoshiko (também conhecida como Nene), filha adotiva da família Asano, em 1561. Por sua perspicácia, Nene aconselhava bastante seu esposo em questões de governança.

Em 1582 ocorre o incidente de Honnō-ji, onde Oda Nobunaga e seu filho mais velho, Nobutada, são traídos e assassinados por Akechi Mitsuhide. Hideyoshi então busca e consegue vingança pela morte de seu respeitado senhor.

Com a morte de Nobunaga e de seu sucessor Nobutada, o clã reunisse para decidir sobre o sucessor. Dois lados são formados, as tensões crescem, batalhas acontecem, até que Hideyoshi destrói as forças de Shibata Katsuie e, assim, consolida seu próprio poder, absorvendo a maior parte do clã Oda.

Por pertencer à classe baixa, Hideyoshi não tinha direito a portar um sobrenome. De Nobunaga, ele havia recebido o apelido de Kozaru (“pequeno macaco”) por seus traços e forma se assemelharem ao de um macaco. Quando se destacou por seus feitos e com o casamento, ele ganha o sobrenome Hashiba. E ao se tornar a figura governante do país, ele recebe formalmente em 1586 pela corte imperial, o sobrenome Toyotomi.

O governo de Toyotomi Hideyoshi é chamado de Período Azuchi-Momoyama (1573 – 1603), onde se originou inúmeras heranças culturais. Hideyoshi falece em 1598, aos 61 anos, sendo seu sucessor Hideyori.

» Chacha (茶々) e Toyotomi Hideyori (豊臣秀頼):

Chacha, também conhecida como Yodo-dono (淀殿), nasceu em 1569 e era a mais velha das três filhas de Oichi, irmã mais nova de Oda Nobunaga. Após a morte de seu pai, Azai Nagamasa, e posteriormente de sua mãe, Hideyoshi tornasse o protetor de Chacha e de suas irmãs, já que elas eram sobrinhas de seu senhor.

Posteriormente, a jovem se torna a principal concubina de Hideyoshi, sendo mãe de Toyotomi Tsurumatsu, que falece com dois anos, e de Toyotomi Hideyori nascido em 1593.

Na morte de Hideyoshi, o clã Toyotomi perde grande parte de sua influência e é traído por Tokugawa Ieyasu. Percebendo a perda de poder que seu filho iria herdar, Yodo-dono fixa-se no Castelo de Osaka com Hideyori e planeja com seus aliados, destaque para Ōno Harunaga, Ishida Mitsunari e Sanada Yukimura, a restauração do clã Toyotomi.

No entanto, em 1600, Tokugawa Ieyasu derrota Ishida Mitsunari na batalha de Sekigahara, assumindo o controle do Japão e destruindo o conselho formado por Hideyoshi. Em 1603, Ieyasu estabelece o Shogunato Tokugawa, que durará 265 anos de repressão. Neste momento, apenas os Toyotomi, liderados por Yodo-dono e Hideyori e com sede em Osaka, permanecem como obstáculo.

Ocorrendo então o conhecido acontecimento chamado Cerco de Osaka, que durou de 1614 a 1615, e que se refere às batalhas entre o shogunato Tokugawa contra o clã Toyotomi, resultando na derrota dos Toyotomi.

Ieyasu então ordena que o general Ōno Harunaga (45/46 anos), Yodo-dono (49/50 anos) e Hideyori (23 anos) comentam suicídio; exterminando o clã Toyotomi no ano de 1615.

» Castelo de Osaka (大阪城, Ōsakajō):

O inicio da construção do Castelo de Osaka, situado próximo ao rio Yodo, ocorreu em 1583 a mando de Toyotomi Hideyoshi. Ao ser concluído, tornou-se uma das fortalezas mais importantes, fortes e estratégicas do arquipélago. Além de carregar o significado da unificação do Japão sob o comando do clã Toyotomi, ele é também famoso pelo episódio de sua destruição.

Por ser um ponto estratégico, em 1620 o castelo foi reconstruído a mando de Tokugawa Hidetada, mas sofre um incêndio em 1665. A reconstrução atual só aconteceu em 1931 e milagrosamente sobreviveu aos ataques aéreos da cidade durante a Segunda Guerra Mundial (*dá para ver vários buracos de estilhaços de bomba na estrutura de pedra das diversas bases do castelo*). Somente em 1997 se iniciou um trabalho maciço na reparação do Ōsakajō.

Como vocês viram, o Castelo de Osaka teve uma grande importância na história japonesa. Primeiro por sua imponência; segundo pela resistência da arquitetura do edifício e do terreno estratégico; e terceiro por carregar o significado da unificação do Japão sob o comando dos Toyotomi.

O Ōsakajō está localizado em Chūō-ku, o distrito mais central da cidade Osaka. Quando eu e meu honorável marido avistamos o castelo, ficamos fascinados (*o*). Ele tem uma imponência difícil de descrever. O bicho é enorme e todo bonitão (*o*). Sim, muitos olhinhos brilhando (\*0*/ \*0*/).

Atualmente o interior do castelo é totalmente modernizado, possuindo elevador e escada de segurança, lojas de souvenir, museu interativo sobre a Batalha de Sekigahara, o Cerco de Osaka e sobre a figura de Toyotomi Hideyoshi e outras personalidades, que delas inclui cartas, roupas, armaduras de samurais (*uma delas inclusive feita com pele de urso*), espadas e entre outros objetos originais ou réplicas, e no topo dá para se maravilhar com a bela paisagem do parque do castelo como também da cidade. Infelizmente é proibido tirar fotos do local das peças originais e das réplicas. O que é uma pena tremenda, pois há itens incríveis.

Por simbolizar os períodos da história japonesa e das figuras históricas que mais aprecio, e no caso meu marido compartilha da mesma simpatia, nossa visita ao Ōsakajō foi simplesmente maravilhosa e sem dúvida inesquecível (^_^). Nós desatamos a conversar sobre o período até o final do dia, hahahaha. Vou nem mentir que meu coração saltitava de tanta empolgação ao conferir de perto o que li nos livros e o que aprendi lá também (*-*).

Ah, no dia da nossa visita estava tendo as típicas feirinhas de comidas da região. Sim, fizemos a festa (*¬*). Era cada prato saboroso que devoramos. Minha comida preferida foi à batata japonesa (*e do pombo também*). Que negócio delicioso ♥.

Cercando a construção imponente do Castelo de Osaka, há vários monumentos interessantes, como as muralhas circundantes, as torres, os portões, as impressionantes paredes de pedra, o santuário Hōkoku, o jardim Nishinomaru, instalações modernas e muito espaço verde.

Um desses locais que está nas imediações do castelo que eu gostaria de destacar é o santuário xintoísta, dedicado a Toyotomi Hideyoshi, chamado Hōkoku-jinja. Lá encontrasse uma bela estátua do segundo grande unificador do Japão (*o*). O Santuário Hōkoku é um dos vários santuários dedicados a Hideyoshi espalhado pelo arquipélago.

Achei o Hōkoku-jinja muito lindo e o charme dele é que tem vários gatinhos que transitam por lá. Consegui tirar foto de um gato pretinho (*-*). Eu e meu marido o apelidamos de Oda Nobunaga, em referência a cor negra da armadura utilizada pelo primeiro grande unificador.

Quase não encontrei, mas consegui achar no ultimo minuto da nossa visita o local onde Yodo-dono, Toyotomi Hideyori e o general Ōno Harunaga, foram obrigados a cometer suicídio a mando de Tokugawa após a queda do Castelo de Osaka em 4 de junho de 1615.

O local é escondido e não está mapeado, se não me engano encontra-se na lateral da segunda base do castelo bem ao fundo, e é marcado por uma lápide de pedra. Por Chacha ser até hoje uma figura respeitada e reverenciada, o memorial é rodeado por flores e mantido com zelo.

» Indicação de romance:

Para quem ficou interessando por esse incrível fato histórico e por suas figuras (*eu amo*), recomendo fortemente a leitura do romance O Castelo de Yodo, de Yasushi Inoue, publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade.

O romance histórico narra esses acontecimentos pela visão da principal concubina de Toyotomi Hideyoshi, Chacha. Reforço à recomendação, pois a obra de Yasushi Inoue é espetacular (♥^-^♥).

» Mausoléu de Toyotomi Hideyoshi:

Toyotomi Hideyoshi faleceu em 1598 aos 63 anos. O corpo do unificador foi enterrado, de acordo com seus desejos, no Monte Amidagamina, localizado a leste de Kyoto. No ano seguinte, o Imperador Go-osei Tennó ordenou à construção de um belo mausoléu e o Santuário Toyokuni na base da montanha.

Após a queda do clã Toyotomi, Tokugawa anulou a consagração de Hideyoshi no mausoléu e no santuário, fazendo com que os locais entrassem em ruínas. Somente em 1880 o Santuário Toyokuni foi reconstruído, e em 1898 o mausoléu, que estava em condições precárias, foi reconstruído no cume do Monte Amidagamina. A reconstrução do mausoléu, chamado de Hokokubyo, marca os 300º aniversário do falecimento de Toyotomi Hideyoshi.

Tivemos um pouco de dificuldade para localizar a entrada do mausoléu, mas graças a uma atendente do Santuário Toyokuni, que nos deu um mapa (todo em japonês), conseguimos com esse mapa e com meus escritos, encontrar a entrada. Próximo ao portão do mausoléu há a Universidade Feminina de Kyoto e um estacionamento (*que tem a charmosa linha de ônibus Princess Line. Fofinho, né!*).

Antes de nos encaminhamos ao mausoléu, passamos pelo interessante Santuário Imahie, que têm grande referência à figura do segundo unificador. O santuário xintoísta consagra o Imperador Go-Shirakawa e as divindades de Sanno Shichichu, os sete deuses guardiões do palácio imperial. Sua relação com a figura de Toyotomi Hideyoshi data do Período de Edo, quando habitantes de Kyoto iam adorar secretamente este último senhor da guerra. Ao invés do Komainu (os sagrados guardiões “Cão Leão”), no Imahie há estátuas de macacos como guardiões.

Para subir ao monte é necessário desembolsar 100 yen ao funcionário da entrada; e caso ele não esteja lá, colocar o valor numa caixa de madeira. O senhor que nos atendeu mal deve ver turistas, principalmente estrangeiros, pois é um local que raramente recebe visitação. Engraçado que ele perguntou se conhecíamos Toyotomi Hideyoshi, e imediatamente meu marido e meus amigos olharam para mim, pois estamos lá por minha sugestão, hahahaha.

Tadinhos, mal sabiam do sofrimento. Nada, todos foram devidamente avisados que o passeio seria doloroso. Bem, até chegar ao mausoléu de Toyotomi Hideyoshi é preciso subir 1.935 metros, em vários lances de escadas da mais estreita e mais íngreme que já subi em toda a minha vida! Agora eu falo brincando, mas eu pensei que fossemos ter um infarto de tanto esforço.

Sério mesmo, até o funcionário da entrada nos avisou para termos cuidado, pois o local preserva sua estrutura antiga. Ou seja, não é nada seguro: inexiste corrimão, se chover a escada se torna escorregadia (*felizmente estava fazendo um bonito dia ensolarado quando nos aventuramos*), tem que ir com luz do dia já que inexiste luz elétrica e há inúmeras teias de aranhas no caminho inclusive com as aranhas gigantes nos dando “Konichiwa!” (*descrevendo, até parece jogo de RPG (>_<)*).

Depois de “escalar” por um tempo, chegamos a um platô localizado a meio caminho da montanha. Um portão, que me lembrou o do santuário Toyokuni, embeleza o local. É uma estrutura bonita circundada pela mata silvestre e que fica ainda mais bonita quando dá para sentar numa área com espaço.

Passando o portão, segue o segundo conjunto de escadarias que leva ao mausoléu. Gente, este último conjunto de degraus são os piores. Você já deixou a alma no meio do caminho, e tem que subir essa escadaria que está praticamente num ângulo de 90º. Meu Kami-sama, é pra pedir pinico (Ç_Ç).

Quando chegamos ao topo e eu vi o mausoléu, eu fiquei estarrecida. Agora não sei se minha taquicardia era pelo extremo cansaço ou se estava misturada com a emoção de estar diante do mausoléu de Toyotomi Hideyoshi (*-*). Bem, só sei que estava um caco, mas felizona.

O mausoléu de Toyotomi Hideyoshi fica como uma peça central toda garbosa no topo da montanha, e consiste de um túmulo de pagode de pedra de cinco camadas, conhecido como Gorinto. Cada nível de Gorinto corresponde aos elementos. De cume, ainda conseguisse ver uma bela vista da minha amada Kyoto através das árvores. Como só havia nós quatro por lá, ficamos sentados admirando a tranquilidade do local, até que notamos que era hora de ir, pois faltava pouco para escurecer.

Há um famoso ditado popular que diz que “na descida todo santo ajuda”, mas por incrível que pareça, eu achei mais complicado. Como a escadaria é muito inclinada, eu sentia a força da gravidade bem forte me empurrando. Felizmente, deu tudo certo!

Estar diante do mausoléu de um dos maiores homens da história do Japão, realmente valeu subir cada maldito degrau. Porém, mesmo com significado histórico importantíssimo e por eu adorar o Toyotomi Hideyoshi, eu não visitaria novamente o mausoléu (*extremamente cansativo*).

Como vocês puderam ver, quando o assunto foi Toyotomi Hideyoshi, eu praticamente me tornei uma stalker, hahaha. Meu marido já estava para me rebolar em algum rio de nome bonitinho de tão elétrica que eu estava (>_<). Tentei visitar tudo que pude referente a ele ♥. Também comprei lembrancinhas no Castelo de Osaka e no Santuário Imahie para guardar de recordação. Engraçado que até o acaso ajudou na minha empreitada, rs. Ah, sabe as gashapon (aquelas máquina de tranqueiras legais)?! Só deu clã Toyotomi e seu fiel aliado Sanada Yukimura (*eu sou apaixonada pelo Yukimura*) (*-*).

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みなさんこんにちは… Estou (de novo) no Japão!

É isso mesmo que vocês leram no título da postagem: estou novamente no Japão (\^o^/). A superstição do Monte Fuji realizou-se, hahaha (*ありがとう富士さん*).

Como eu e meu marido estamos comemorando meia década de casamento (\^-^/♥\^-^/) decidimos fazer um tremendo esforço e revisitar o Japão. Felizmente deu tudo certo e estamos mais uma vez aqui, curtindo esse país lindo em seu momento outonal, com suas regras sem sentido de não tirar foto e de comidas deliciosas (^_^v).

A viagem, de 30 e tantas horas entre voos e conexões, foi previsivelmente cansativa, mas tranquila (*gostei de ter voado com a companhia holandesa KLM*). Assim que chegamos ao final da manhã no Aeroporto Internacional de Narita, partimos direto para Kyoto. Eu não sei como conseguimos chegar, pois eu e meu marido estamos dormindo em pé e o balançar suave do shinkansen não colaborava para nos manter acordados (*pelo extremo cansaço, ficamos com receio de dormir, perder a parada e bater lá em Hiroshima ou mais longe*).

Obvio que já visitamos lugares maravilhosos. Bem, depois conto tudo com mais detalhes por aqui; e acumulo com as postagens especiais da viagem do ano passado que ainda faltam serem publicadas.

Por ser uma viagem frenética, provavelmente o blog ficará paradinho. Não prometo, mas vou tentar comentar alguma coisinha daqui. No mais, estou muito feliz por estar repetindo esse sonho (^_^). Principalmente na companhia do meu honorável marido, que é meu parceiro há tantos anos ♥.

É isso (^_^). またね。

{Turistando no Japão} Ohishi-Tengudo + Karuta

Iniciei as publicações sobre minha viagem ao Japão, que ocorreu em outubro do ano passado, com {Turistando no Japão} A realização de um sonho ♥. Ao longo do meu relato, comentei diversas vezes sobre postagens especiais que publicaria posteriormente. Eis que hoje segue a segunda de uma série de oito postagens especiais sobre esses momentos mais marcantes dessa viagem tão incrível (^_^). 行きましょう!

Fundada em 1800 em Kyoto, a Ohishi-Tengudo (大石天狗堂) é uma loja tradicional de jogos clássicos japoneses. Se não me engano é a loja do gênero mais antiga da região de Kansai. Quando a visitei em outubro do ano passado, ela havia completado 216 anos de funcionamento.

Ohishi-Tengudo é famosa por produzir uma variedade de jogos tradicionais japoneses, como Shougi, Go, Karuta, Kai-Awase, etc. No local, estão disponíveis uma variedade de conjuntos industriais e artesanais. Meu interesse em conhecer a loja foi por causa do jogo de cartas chamado Karuta.

O Karuta (かるた), como conhecemos, é um jogo de cartas que descende do jogo de conchas do século XII, chamado Kai-Awase, e do jogo de cartas europeu trazido pelos comerciantes portugueses no século XVI. Como os portugueses chamavam o jogo de “carta”, os japoneses filtraram a palavra como ガルタ > かるた para o seu idioma. Durante o Período Edo (1600 – 1868), combinando a carta de papel com o tradicional jogo Kai-Awase, o Karuta evoluiu para um costume da população japonesa que perdura até os dias de hoje.

Os dois tipos principais de Karuta são:

» Uta-Garuta (うたガルタ) significa literalmente “cartas de poemas”, e consiste em 200 cartas divididas em dois conjuntos, cada um contendo 100 poemas Waka. O primeiro conjunto é para leitura e o segundo utilizado na partida. O tipo mais popular de Uta-Garuta é o Hyakunin Isshu (ひゃくにんいっしゅ), algo como “100 pessoas, 1 poema”.

» Iroha Karuta (いろはかるた) baseia-se no kana, ou seja, na ordem da escrita silábica do idioma japonês. É como a ordem alfabética do nosso “ABC”. Iroha Karuta é enderençado as crianças e existem dois conjuntos de 48 cartas. Em vez da poesia Waka, Iroha Karuta apresenta uma diversidade de provérbios dos mais variados temas.

O Karuta Competitivo (競技かるた, Kyōgi Karuta), que é um esporte com partidas intensas que exige bastante resistência, agilidade e memória de seus jogadores graciosamente ferozes, utiliza oficialmente o deck Ogura Hyakunin Isshu Karuta, com total de 200 cartas (100 torifuda e 100 yomifuda). Cada yomifuda mostra um poema completo juntamente com uma ilustração do poeta que a escreveu, e cada torifuda corresponde apenas à segunda metade do poema. Na partida, as yomifuda ficam com o orador, enquanto que as torifuda estão com cada dupla de jogadores.

Ogura Hyakunin Isshu é uma antologia de cem poemas Waka, escrito por cem personalidades japonesas entre o século VII e o século XIII, como o imperador Tenji, a imperatriz Jitō e as famosas Murasaki Shikibu e Sei Shōnagon. Esses poemas reunidos da era clássica até o Período Kamakura foram compilados por Fujiwara Teika (1162 – 1241) enquanto vivia no Monte Ogura, em Kyoto. Então com a junção do Kai-Awase e das cartas, no Período Edo vários artesão produziram Karuta de luxo. Entre eles, o artesão Ogata Kourin criou o design mais original.

Como o Karuta Competitivo não é um jogo em que a diferença de força física predomine, mulheres e homens competem de forma igual. Somente no campeonato nacional realizado pela All Japan Karuta Association (fundada em 1957), que ocorre todos os anos em janeiro no Omi Jingu, um santuário xintoísta em Otsu, na Província de Shiga, há a divisão entre os gêneros. Que no caso definirá os melhores do país: a melhor jogadora ganha o título de Queen (クイーン) e o melhor jogador ganha o título de Mestre (めいじん). Para deixar o Karuta num nível de complexidade mais hiperbólico, se os jogadores ganharem sete vezes o título máximo, é lhes concedido o título de Eterna Queen (永世クイーンえいせいくいーん) e Eterno Mestre (永世名人えいせいめいじん).

Aqui vocês podem assistir à partida de definição da Queen de 2017, no qual a jogadora Tsuruta Sae foi a vencedora.

Uma das jogadoras prodígio da história do Karuta Competitivo é a Saki Kusunoki. Aos 15 anos ela ganhou o título de Queen e na conclusão do primeiro ano na universidade ganhou o título de Eterna Queen. Em ambos os casos ela foi à jogadora mais nova a ganhar os títulos, e se não me engando é a terceira Eterna Queen da história. Veja abaixo o vídeo da competição da Queen de 2014, sendo a vencedora Kusunoki.

Mesmo com regras complexas e me embaralhando para entendê-las, eu adoro ler sobre a história desse jogo e suas particularidades. Eu sei que nunca serei uma jogadora, e nem pretendo, afinal não nutro das habilidades necessárias, mas pesquisar sobre o jogo, sua junção da literatura com a história japonesa me deixa muito empolgada. Assistindo aos vídeos que encontro das competições me faz enxergar como este esporte é tão gracioso, como voraz. Sem duvida um dos jogos mais interessante e sofisticado já inventado.

Eu e uma carta yomifuda dos Cem Poemas do deck de luxo Ogata Korin Hyakunin Isshu (*o*).

Voltando a minha visita maravilhosa na tradicional Ohishi-Tengudo. Focando nos tipos de Karuta, a loja possui uma variedade de deck industrial e artesanal do Uta-Garuta, Iroha Karuta e Kai-Awase, com uma distinta diferença de preços.

O deck artesanal do Uta-Garuta, temos o dos 100 poemas (Hyakunin Isshu), como também vi um do romance Genji Monogatari (*-*) (*para conferir minhas impressões de O Romance de Genji, clique aqui e aqui*). Por serem produzidos manualmente por artesões renomados que utilizam materiais refinados, como folhas de ouro, esses decks têm valores bastante elevados.

Minhas comprinhas ♥.

Para quem não tem essa quantidade de dinheiro (eu o/), há decks industriais bastante acessíveis. Eu, por exemplo, adquiri um modesto deck do Karuta Competitivo (^_^). É uma versão menor do deck padrão e é tão gracinha ♥. Comprei também o CD da associação de Karuta Competitivo com a leitura dos 100 poemas pelo orador Mitsukazu Yoshikawa. Eu adoro ouvir os poemas, pois o ritmo da leitura é tão relaxante (^-^).

Muito incrível conhecer a tradicional Ohishi-Tengudo. Deixo meus agradecimentos à simpática senhora que nos atendeu, que além de ser solicita conosco, agradeceu por eu ter levado meu marido e meus amigos à loja, já que ela perguntou quem havia sugerido a visita. Conhecer uma loja tão antiga, que preserva com carinho os jogos tradicionais, principalmente o Karuta, foi uma experiência e tanto para uma mera admiradora do jogo.