Mangá: Sakamoto, pour vous servir! (Sakamoto desu ga?) – Nami Sano

sakamoto-pour-vous-servir-nami-sanoPublicado originalmente entre 2012 e 2015 nas revistas Harta e Fellows!!, da editora Enterbrain, posteriormente ganhando quatro volumes encadernados, o seinen de Nami Sano ultrapassa barreiras do gênero cômico, tornando-se um grande sucesso no Japão.

Sakamoto é um estudante do ensino médio nada comum. Além de lindo, nosso protagonista é carismático, elegante e dotado de múltiplos talentos. Com toda perfeição em um único ser humano, alguns homens sentem inveja de suas habilidades e beleza esplendida, e tramam contra ele. Ou então, por ser um rapaz engenhoso, acaba ajudando os colegas de sua turma. Seja qual for à circunstância, Sakamoto nunca perde a calma e usa seus dons para sair de qualquer situação. Claro, sempre em grande estilo. Afinal, tudo que ele faz é cool, cooler, coolest!

O ambiente da narrativa joga inteiramente sobre os exageros do talentoso estudante que consegue sempre nos surpreender e arrancar suspiros. Tudo em Sakamoto desu ga? é construído em torno de um grande escárnio das situações mundanas típicas de tramas escolares. Difícil não gargalhar em todas as páginas. Eu, por exemplo, ria ao ponto de lacrimejar (>_<). Sim, adoro esse humor nonsense japonês. Acho muito engraçado!

Talvez alguns não tenham entendido o estilo da comédia. Fica um pouco difícil explicar tamanho exagero, então deixo o trailer da animação, só para vocês sentirem o gostinho do quão maravilhoso é Sakamoto desu ga?:

A animação foi produzida pelo Studio Deen e lançada em 2016 contendo 12 episódios e 1 OVA (Original Video Animation). Achei uma ótima adaptação! Cobre perfeitamente os eventos apresentados na obra original. Já no OVA, que trás uma historinha extra, os alunos fantasiam e teorizam sobre Sakamoto. É muito legal! Recomendo!

Voltando ao mangá… Curioso que sempre imaginei um mangá dessa natureza, com um personagem bonito que fosse impecável em tudo que fizesse e nada poderia o deter de ser primoroso. Nami Sano teve o mesmo pensamento e materializou essa ideia da melhor forma possível (*-*).

Comecei a leitura de Sakamoto, pour vous servir! ao ser lançado na França e finalizei no mês de dezembro do ano passado. Sem dúvida é um dos mais criativos mangá de comédia dos últimos tempos. Sério, como me diverti com essas loucuras nonsense, hahahahaha. O único ponto que merecia ter sido explorado um tiquinho mais é o grande vilão da série, o repetente trintão que já se divorciou duas vezes.

Quanto à arte de Nami Sano, ela é belíssima! O character design do personagem-título é lindamente desenhado em cada quadro, enquanto as demais personagens, tirando alguma exceção, têm aspectos comuns. O protagonista colabora também para engrandecer o detalhado cenário e seus elementos. Mas o mais hilário disso tudo é que independente do momento o gráfico de Sakamoto sempre permanece sedutor e cintilante.

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Gostaria de destacar o cuidado da editora francesa com a obra. Acredito que o trabalho de tradução esteja bem feito, pois se sente uma fluidez nos diálogos. Quanto ao título da obra, como o título japonês é de difícil tradução: Sakamoto estaria se apresentado e dando a ideia de continuar sua apresentação; acredito que a adaptação do título em francês conseguiu trazer a essência da narrativa.

Sobre a edição, está muito bem cuidada e creio que esteja igual à versão original. Normalmente são. Destaque para os desenhos que ficam na capa e contracapa do mangá, ao retirar a sobrecapa de cava volume. A mangaká fez quatro releituras de obras famosas com a imagem de Sakamoto:

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Adorei todas! (^o^)

No primeiro volume é acrescentado um one-shot intitulado Hiroshi, L’Homme aux Épaulettes (Hiroshi, o homem com ombreiras), que narra a obsessão de Hiroshi por ombreiras. Essa história é demais! O final me surpreendeu e fiquei lá rindo alto. Nami tem sacadas geniais quando o assunto é à fusão da seriedade e de elementos comum com o nonsense.

Nami Sano nos brinda com uma receita simples, funcional e muito bem-humorada. Sakamoto, pour vous servir! começa esplendoroso, continua com um ritmo sedutor e finaliza no momento certo, trazendo algumas interpretações sobre a figura de Sakamoto.

[Atenção!!! Este parágrafo contém SPOILER] A autora deixou uma dúvida no ar: Sakamoto é ou não humano, eis a questão. Para isso não há nenhuma resposta específica. Sano deixou algumas pistas da verdadeira natureza desse herói que ajuda os outros sem esperar nada em troca e que obviamente mentiu sobre os motivos de deixar a escola. Assim os leitores pensam o que quiser sobre ele: alienígena, enviado por Kami-sama, ser o próprio Kami-sama. Seja qual for à resposta, Sakamoto é tão inspirador que melhora o caráter humano. Só vê aquele final completamente maluco, hahahaha. [/ Fim do SPOILER]

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Título: Sakamoto, pour vous servir!
Título original: Sakamoto desu ga?, 坂本ですが?
Autora: Nami Sano
Editora: Komikku Editions
Número de volumes: 4 volumes
Ano: 2014 ~ 2016

Mangá: The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias – Hozumi

the-wedding-eve-a-vespera-do-casamento-e-outras-historias-hozumiMinhas impressões do mangá The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, de Hozumi, contêm sutis spoiler.

Originalmente publicadas em 2012 nas revistas Gekkan Flowers e Rinka, da editora Shôgakukan, o josei The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, da mangaká Hozumi, reuni seis histórias curtas que envolvem melancolia através de eventos comuns da vida com certo toque sobrenatural.

A leitura do mangá foi realizada no mês de novembro deste ano e compartilhada com a querida Lígia, do blog Randomicidades Aleatórias. A obra de Hozumi nos rendeu uma produtiva conversa. Para ler a resenha da Lígia, clique aqui.

A primeira história A Véspera do Casamento (Shiki no Zenjitsu), que dá título ao mangá, narra os últimos momentos juntos de uma dupla de irmãos antes do dia do casamento da irmã mais velha. Carregando uma mistura de melancolia e alegria e uma doce intimidade, acredito que a grande surpresa desse conto é descobrimos que o casal na verdade são irmãos. A relação deles foi fortificada após o falecimento de seus pais e a irmã muito mais velha acabou sendo uma espécie de mãe para o rapaz. Esse sentimento de perda que ambos sentem durante a narrativa só mostra a forte relação que eles cultivaram. Acho que a história trouxe um bonito sentimento de perda.

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A Véspera do Casamento (Shiki no Zenjitsu)

Seguimos para minha história preferida do mangá: Reencontro em Azusa nº2 (Azusa Nigou de Saikai), que narra um determinado dia do mês de agosto da visita de um pai a sua filha na tal Rua Azusa nº2 enquanto a mãe da menina está fora trabalhando. Durante a narrativa, com seu clima de ternura, vamos ligando os pontos até percebermos o final impactante e melancólico. Apreciei imensamente esta história, pois trás elementos do folclore japonês que estão enfatizados na inocência da garotinha e neste dia tão especial que a menina espera com ansiedade.

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Reencontro em Azusa nº2 (Azusa Nigou de Saikai)

Irmãos Monocromáticos (Monochrome no Kyoudai) é o terceiro conto e narra o reencontro de dois irmãos gêmeos de meia idade após a morte de Yukiko, a mulher que ambos amaram. Essa foi à segunda história que mais gostei, porque apresenta personagens idosos (*o que é raro nos mangás*) e pelo teor dramático de um triangulo amoroso que durou a vida inteira. Apreciei o ritmo lento dessa narrativa, no cuidado que a autora teve no reencontro desses irmãos que tiveram rumos de vida diferentes e por se reencontrarem por causa da perda de um amor comum. A conclusão é forte e acredito que destaca a intensidade dos sentimentos que guardamos conosco.

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Irmãos Monocromáticos (Monochrome no Kyoudai)

O Espantalho que Sonha – Parte 1 e 2 (Yume Miru Kakashi) é o maior conto do mangá, pois como vocês podem ver é dividido em duas partes. É o único conto que se passa fora do Japão, o cenário desta narrativa é nos Estados Unidos, e narra o retorno de Jack ao Kansas, cidade onde passou a infância e juventude, para o casamento de sua irmã mais nova, Betty. Neste momento marcante da vida da irmã e o local do casamento que ela escolheu, iremos mergulhar nas memórias do protagonista-narrador ao serem deixamos aos cuidados da família do tio paterno e por sofrerem por não serem bem-vindos. Devido às circunstâncias, Jack criou um senso de responsabilidade para com Betty, tornando-se com o passar dos anos bastante ciumento. Acho que essa história guarda duas versões: a que vemos do narrador e a nossa interpretação dos eventos trazendo a questão da rejeição familiar sentida por Jack ser uma ilusão ou um exagero. O elemento sobrenatural do conto é o espantalho que a menina chama de “mamãe”.

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O Espantalho que Sonha (Yume Miru Kakashi)

O Pequeno Jardim de Outubro (Juugatsu no Hakoniwa) é o conto que trás várias referências em relação à imagem do corvo. Sem dúvida um dos mais sombrio e difícil de interpretar. A história trás um escritor de sucesso único, Kazunori Shinoda, que mora próximo de uma floresta. Devido ao tormento de não conseguir avançar em seus escritos, ele sonha repetidas vezes com um corvo. Neste cotidiano infértil, do nada uma suposta parenta adolescente surge na sua casa. Kazunori até tenta mandar a garota embora, mas se pergunta constantemente de onde ela surgiu e qual familiar teria o deixado cuidar dela. Conversando com a Lígia, perguntei se ela sabia o significado da imagem do corvo no Japão. Pesquisando, ela me disse que os corvos são mensageiros da deusa Amaterasu e se caracterizam pela criatura mística de um corvo de três pernas, chamado Yatagarasu, cuja aparição simboliza uma intervenção divida nos assuntos humanos. O que faria sentindo na narrativa do conto, pois o corvo interfere na vida de Kazunori. A Lígia acha que Hozumi escolheu a figura do corvo como uma referência mais banal: o “ar misterioso”, ou, mesmo a imagem de associação da morte que o animal tem no ocidente. Realmente, ambas as interpretações são possíveis.

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O Pequeno Jardim de Outubro (Juugatsu no Hakoniwa)

O ultimo e o mais curto conto é E então… (Sorekara) (*adoro o som dessa palavra em japonês*), narra à visão de um gato recentemente adotado se perguntando sobre o comportamento de seu dono. A história é fofa e surpreendente quando vemos que o dono do gato é o rapaz do primeiro conto. Isso mesmo, aquela personagem da história que dá título ao mangá. Foi ótimo reencontrá-lo e ver como ficou a relação dele com a irmã. Este conto passou a sensação de certa continuidade. O felino aqui tem sua forma particular de carinho, mas continua com aquela imagem de gato indiferente. Engraçado que a minha gatinha é o inverso (*acho que ela é reencarnação de cachorro, hahahaha*).

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E então… (Sorekara)

Tendo um panorama de todas as narrativas, o conto que mais destoa das demais histórias é O Pequeno Jardim de Outubro. Enquanto a obra foca na relação familiar entre duplas de irmãos, ou, num novo membro da família, o jovem escritor solteiro e frustrado destoa das demais situações. A interpretação que eu tive foi de que mesmo que esta história traga uma sensação de deslocamento das demais, de alguma forma aquele corvo que observava de longe Kazunori, criou certa simpatia pela situação desgastante dele e o ajudou. Talvez o corvo se sentisse próximo a Kazunori, e este sentimento de afinidade e proximidade tenha entrando timidamente na temática do mangá.

Quanto ao traço de Hozumi, ele flerta com o realismo. Além disso, é limpo e elegante. Já os cenários aparecem quando necessários. Amei a arte desta mangaká! Outro detalhe que me deixou mais encantada foram o enquadramento focando nos trejeitos, nos gestos, no olhar e no sorriso, ou seja, nos sentimentos profundos daquelas personagens. Isso tornou as narrativas mais sensíveis, pois o desenho faz com que esses sentimentos internos sejam identificados.

Além da editora Panini trazer um excelente título josei, que é bastante escasso no Brasil e assim como o shoujo sofre preconceito por sua demografia, a edição nacional, com orelhas, está de qualidade. Por ser uma obra tão fenomenal até merecia uma edição luxuosa com páginas coloridas (*-*). O interessante deste lançamento é também para mostrar aos próprios leitores de mangá, e de certa forma a própria editora, que a demografia para o público feminino apresenta uma gama de títulos que não se resumem somente a romance escolar.

The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, de Hozumi, é uma obra que apresenta histórias incríveis, trazendo com maturidade, lirismo e vivacidade sentimentos tão pessoais. Não é de surpreender que no Japão este one-shot fez tanto sucesso. Revelo que estou apaixonada por Hozumi, quero ler tudo dela ♥.

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Título: The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias
Título original: Shiki no Zenjitsu, 式の前日
Autora: Hozumi
Tradução: Luciane Yasawa
Editora: Panini
Páginas: 192
Ano: 2016

Manhua: In These Words (tomos 01 & 02) – Jun Togai e Narcissus [+18]

in-these-words-tomos-01-02-jun-togai-e-narcissusIn These Words, de Jun Togai e Narcissus, é um manhua do gênero Boy’s Love de origem taiwanesa que ainda encontra-se em publicação. Começou a ser publicado como doujinshi (capítulo a capítulo) em 2011 pelo estúdio independente Guilt Pleasure. Com seu sucesso, passou a ser lançado no Japão pela editora Libre Shuppan, e depois seguiu para Coreia do Sul, Alemanha, Estados Unidos e França.

Norteando. Originário do Japão, o gênero Boy’s Love (BL), também conhecido como Yaoi, tem o foco em relações homossexuais entre dois homens. Os mangás BL são escritos por mulheres para mulheres. Sendo que um produto pode exceder o seu público alvo. As leitoras assíduas desse gênero são chamadas de Fujoshi (significa em tom pejorativo “garota podre / corrompida”). Enquanto os homens que curtem são chamados de Fudanshi (“homem podre / corrompido”).

Adoro BL, principalmente as obras com narrativas maduras. Pois é, tenho meu lado corrompido, hahahaha. Gostaria até de conhecer mais títulos, pois acho que li pouco desse vasto gênero de mangá que tem autoras do qual nutro grande admiração, como Hagio Moto e Fumi Yoshinaga, por exemplo, que também publicam em outras demografias. Então aceito dicas das colegas (^_~).

Meu interesse por In These Words começou por causa da belíssima arte de Jun Togai (\*o*/). Quando o título foi anunciado na França eu fiquei tão feliz. No entanto, foi dificílimo conseguir esses dois volumes. Pelo que parece a editora que publica In These Words em francês, a Taifu Comics, deve publicar uma tiragem pequena desses volumes e em doses homeopáticas. Bem, pelo menos nas lojas onlines que enviam para o exterior foi complicado encontrá-los, pois sempre estavam esgotados ou revendidos por preço exorbitantes. Só os consegui recentemente (*aliviada*). Quando os vi disponível pelo preço de capa, adquiri imediatamente. Assim que chegou, tirei do pacote e comecei a ler (^_^).

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♥ ♥ ♥ヽ(*≧ω≦)ノ♥ ♥ ♥

Katsuya Asano é um psiquiatra experiente treinado nos Estados Unidos da América. Por seu talento foi-lhe dada uma atribuição da polícia de Tóquio. Sua ajuda é necessária para traçar o perfil psicológico do serial killer que há vários anos mata pessoas de uma forma cruel e sádica. O assassino é capturado, mas só concorda em entregar a sua confissão para Katsuya. As extensões dessas discussões se dão numa casa restrita. Enquanto que todas as noites, Asano tem pesadelos horríveis, em que um homem sem rosto o sequestra, tortura, estupra e sussurra que o ama. A atmosfera maravilhosamente opressiva nos coloca em dúvida sobre esses acontecimentos.

A partir do prólogo, em forma de texto e ilustrações, somos mergulhando em uma atmosfera escura, opressiva e singular. Katsuya Asano foi torturado mentalmente e fisicamente por um homem desconhecido, e sendo um sobrevivente dessa violência é atormentado por pesadelos horríveis. Essas cenas de torturas e submissão são muito fortes, podendo causar desconforto ao leitor. Eu, por exemplo, fiquei sufocada com tanta violência. Até no final do primeiro volume, na parte dos extras, as autoras se desculpam por isso.

As ligações das cenas do tomo anterior são finalmente reveladas na continuação. O segundo volume trás uma reviravolta surpreendente, levando-nos de volta antes dos eventos presentes. O choque é grande para nós leitores, mas também para a personagem Katsuya Asano. O máximo que posso dizer do segundo volume é que a linha da trama fica mais calma, mais silenciosa e quase doce.

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Existem certas ações na trama que alguns leitores podem achar irreais. No começo eu até estava com essa mesma linha de pensamento em acreditar impossível determinadas atitudes, principalmente à da personagem Shinohara Keiji. Mas conhecendo os absurdos da nossa sociedade, nada é impensável. Grandes e controladoras instituições são capasses de ações chocantes para atingir objetivos; sendo de um pequeno grupo poderoso então, nem se pensa uma única vez no outro. Então acho que In These Words não exagerou tanto nesse sentido.

Um detalhe que me agradou bastante foi à veracidade da relação homoafetiva. Katsuya tem um caso com o investigador dessa missão, mas a relação deles não começou por uma paixão lancinante. Iniciou-se por atração, flerte e dos sinais deixado de um para o outro. Tal como acontece na vida real. Até o pedido ameaçador de Katsuya para com seu amante em guardar segredo do envolvimento deles. Ah, o sexo em In These Words é bastante cru. Ou seja, explícito.

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Sobre a impecável arte de Jun Togai, há um interessante equilíbrio do estilo mangá com quadrinhos de gráficos mais realistas. Uma mistura que ficou encantadora (*0*). Todas as personagens, sendo principais e coadjuvantes, são lindamente bem desenhadas. É um cuidado com os ângulos, músculos, roupas e acessórios, exalando um dinamismo e elegância impar. Em relação às cenas de sexo, elas são bem sucedidas. Na verdade, muito bem sucedidas. No estupro é repassada a aflição e dor, enquanto que na relação consensual é emocionante e sexy (*¬*). Encarregada dos cenários, Narcissus os desenha de forma realista.

In These Words apresenta uma qualidade notável, tanto pela narrativa original e inteligente como por personagens cativantes e misteriosas. Eu diria que é um dos melhores mangá, no caso manhua, do gênero. Para mim já entrou no rank dos favoritos, e sem dúvida se tornará um clássico BL. Jun Togai e Narcissus criaram uma atmosfera sombria absolutamente cativante como perturbadora. Estou ansiosíssima pelo terceiro volume, que infelizmente não tem previsão de lançamento (*snif*).

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Título: In These Words
Título original: Gen no Tsumi, 言之罪
Autoras: Jun Togai e Narcissus – Neko Kichiku
Editora: Taifu Comics
Número de volumes: 2 volumes (em publicação)
Ano: 2014 ~ 2015

Mangá: La jeune fille aux Camelias (Shoujo Tsubaki) – Suehiro Maruo [+18]

couv_camelias_completePublicado originalmente em 1984 pela editora Garo, o seinen La jeune fille aux Camelias (no original: Shoujo Tsubaki), de Suehiro Maruo, narra os tormentos da jovem Midori no Japão do inicio do século 20. Após ser abandonada pelo pai e ficar órfã de mãe, Midori é enganada por Koijirô Arashi, o proprietário do circo de aberrações. Entre o assédio moral e a crueldade física e psicológica, os integrantes grotescos da trupa encurralam a ingênua menina num pesadelo.

O inferno em que vive a protagonista logo é amenizado com a chegada de um anão ilusionista capaz de colocar todo o corpo numa garrafa, chamado Masamitsu le Magnifique. O talento do novo membro da trupa revive o decadente circo. Apesar da grande diferença de idade, afinal Midori tem somente 12 anos, a nova estrela se relacionará com ela. Mesmo num relacionamento inadmissível, acreditamos que a tranquilidade finalmente fará parte da vida da jovem. Entretanto a esperança inexiste no universo de Suehiro Maruo.

Entre o contraste da inocente Midori e as feiuras e atitudes cruéis das demais personagens, o autor consegue nos torturar com uma ficção que poderia ser facilmente uma cruel realidade. Na verdade existe até hoje garotas que são levadas pelo mesmo caminho que Midori. As cenas de violência, que inclui estrupo, nudez infantil, maus-tratos a animais, etc., são totalmente explicitas e brutais, levando-nos a um redemoinho assustador de sensações desconfortáveis.

Suehiro Maruo é considerado o mestre do ero guro (gênero de arte e música japonesa; adaptado para o idioma nipônico das palavras “erotic and grotesque” (erótico e grotesco)). Ele merece realmente o título de mestre. Nas suas obras você sente algo físico, um embrulho no estômago ou nojo que demais títulos do gênero não conseguem causar com suas escancaradas perversões.

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Graficamente, o mangaká se distingue por seu estilo de arte que lembra a estética de desenhos dos anos 30 e por não hesitar em expor seus delírios. Sua arte é polvilhada com cenas chocantes e perturbadoras. O interessante em Shoujo Tsubaki é a vulgaridade de contraste entre a inocência e a opressão. Uma combinação que ultrapassa a bizarrice. A arte também lembra, acredito que haja inspiração, nas gravuras de estilo ukiyo-e que retrata cenas de horror da mitologia japonesa e que eram bastantes populares no período Edo.

Conheci o mangá graça ao anime. Quando assisti a animação do diretor Hiroshi Harada fiquei interessada para conhecer a obra original. Imaginei que a perversão no mangá seria mais forte, mas o anime, acredito por ter sido o primeiro contato, me chocou infinitamente mais. Acho também que a trilha sonora bizarra e a dublagem intensificaram o incomodo que senti. Enfim, só consegui ler La jeune fille aux Camelias com a reimpressão deste ano; sendo que o mangá foi publicado na França desde 2005 e em 2011 ganhou uma nova edição (*talvez a tiragem seja pequena*). A edição francesa é bonita, apresenta papel de qualidade, algumas páginas coloridas em vermelho e inclui uma peça conturbada intitulada L’Allée du Destin. O único ponto negativo é a ausência de orelha ou de uma sobrecapa.

La jeune fille aux Camelias, de Suehiro Maruo, apresenta uma narrativa com tensão crescente e com um final totalmente desesperador. Não sei se a obra apresenta alguma mensagem, acredito que sim, pois a trama se passa num período bastante turbulento da história do Japão. Talvez o autor pretendesse retratar a agitação deste período. No entanto minha interpretação foi à falta de fé na humanidade. Que a vida é essa podridão e que os bons de coração jamais terão paz nesta imundice de sociedade. Shoujo Tsubaki é um mangá que se deve estar preparado para uma sucessão de agressões, que provavelmente te deixará inundado por uma tristeza sufocante e te causará um desconforto físico. Um clássico ero guro estranhamente fascinante.

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Título: La jeune fille aux Camelias
Título original: Shoujo Tsubaki, 少女椿
Autor: Suehiro Maruo
Tradução: Satoko Fujimoto e Éric Cordier
Editora: Imho
Páginas: 180
Ano: 2011

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  • Adaptação:
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Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki [1992] – Hiroshi Harada

Iniciado em 1987, pelo diretor Hiroshi Harada, o projeto independente da animação de Shoujo Tsubaki requereu cinco anos de esforços intensivos para emergir. Apoiado por Suehiro Maruo, autor da obra original, Harada levou a maioria do trabalho sozinho custeando o processo com suas economias, antes de confiar a animação a outros profissionais, como o compositor J. A. Seazer e o diretor de arte Katsufumi Hariu.

O filme foi feito de forma artesanal, Harada desenhou a mão em torno de 5.000 layouts. Ele emulou uma técnica datada do século 12 chamada kamishibai, que é uma forma de contar histórias através do emakimono (rolo de pintura) criada por monges budistas japoneses. Essa técnica exerceu uma grande influência no que seria o mangá. Concluída em 1992, a animação Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki foi exibida de uma forma peculiar, com direito a efeito de fumaça e outros elementos que intensificaram a experiência dos espectadores.

Por apresentar cenas fortes e linguagem discriminatória, no Japão a comercialização da animação foi proibida. Por causa disso quase se tornou desconhecida; parece até que o original foi destruído e somente um punhado de cópias existia por lá. Em 2006, a distribuidora Ciné Malta lançou na França o longa de Hiroshi Harada com o título de Midori. Pelo que andei pesquisando, esta é a única versão encontrável do DVD no mundo.

Quem tiver a oportunidade de ler o mangá primeiro e depois assistir ao anime, recomendo nesta ordem (*no meu caso foi o contrário*). Mas, quem não puder ou não quiser ler a obra original, o anime é bastante fiel ao mangá, inclui poucas cenas extras e cumpre perfeitamente as sensações provocadas pela narrativa do quadrinho. Na verdade acho que em determinados momentos até supera, porque a união da animação limitada, da dublagem e da trilha sonora causa um estranhamento que intensifica o desconforto.

Animação Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki [1992], do diretor Hiroshi Harada, legendado em PT-PT [+18]:

Antes que eu me esqueça, em maio deste ano, Shoujo Tsubaki ganhou uma adaptação em filme live-action. Ainda não assisti, infelizmente, mas conferindo o trailer me parece que será bacana e aparentemente menos ousado que a animação de 92.

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Minhas impressões do mangá La jeune fille aux Camelias (Shoujo Tsubaki), de Suehiro Maruo; com apanhado geral da animação do diretor Hiroshi Harada, intitulada Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki; é minha contribuição para o Mês do Arrepio. This is Halloween!