Mangá: O homem que passeia – Jiro Taniguchi

Meu primeiro contato com Jiro Taniguchi foi através dos mangás O Livro do Vento (Editora Panini) e Gourmet (Editora Conrad). Lembro que havia achado o conteúdo curioso e bem diferente daquilo que eu lia na época (^_^).

Publicado originalmente em 2003 na revista seinen Morning e posteriormente ganhado seu formato tankoubon pela editora Kôdansha, O homem que passeia, do mestre Jiro Taniguchi, ilustra os pequenos prazeres que repentinos ou esperados passeios podem proporcionar. A edição nacional faz parte da coleção Tsuru, da editora Devir, que reúne obras de importantes mangakás, entre clássicos e contemporâneos. O homem que passeia foi o mangá de estreia da coleção; além disso, trouxe novamente, depois de nove anos, obras de Taniguchi ao Brasil.

O mangá de Jiro Taniguchi é uma obra bastante peculiar. De fato, há poucos diálogos, o curioso na história é seguirmos o personagem nos seus passeios despretensiosos e nos ater a cada detalhe da paisagem, do céu, dos edifícios, da vida diária. Acredito que o intuito de O homem que passeia é exalar a poesia na banalidade do cotidiano um tanto esquecida pelas inúmeras responsabilidades da vida. Captando essas paisagens, sentimos os sentimentos em admirar aquilo que nos rodeia e que inúmeras vezes passam despercebidas. Então através dessa mensagem singela, o mangaká nos faz procurar entender a beleza que rodeia seu passeador (*e consequentemente a nossa*): pássaros voando, árvores, neve, chuva, o Monte Fuji, mar, rio, becos e incluindo pessoas que cruzam o caminho do protagonista.

Há também vários one-shots após a narrativa principal, mas gostaria de destacar um em particular. Eu já havia lido em scanlation (e adorado!) e foi uma surpresa encontrá-lo aqui (^o^). Refiro-me ao one-shot Noite de Lua (no original: Tsuki no Yoru), que é baseada no romance Sanshiro, de Natsume Soseki. Tsuki no Yoru foi publicado originalmente em 1993 na antologia AERA COMIC’S Nippon no Manga. Nessa narrativa, acompanhamos um jovem rapaz que acaba por seguir um misterioso gato preto e é transportado para o Japão do início do século XX. Lá ele vive breves momentos que fazem parte da trama de Sanshiro Ogawa. Inclusive Soseki aparece e é comentado sobre seu problema gástrico. Para apreciar e entender melhor a história, recomendo como pré-requisito a leitura do romance (^_~).

Durante a leitura houve uma forte identificação com o personagem de Taniguchi. O homem que passeia causou em mim uma boa lembrança nostálgica. Eu, por exemplo, quando morei algum tempo numa pacata cidade da França, passava meu tempo livre perambulando pela cidade, mas principalmente na região do lago, onde eu comprava pão para dar de comer aos patinhos e cisnes (*hoje eu sei que dar pão é bastante prejudicial ao animal, mas na época da minha pré-adolescência eu não fazia ideia. Afinal era uma atividade comum entre os nativos*). Ficava lá na margem observando o horizonte e ordenando meus pensamentos. Era tranquilizante. O resultado desse passeio despretensioso era aquela agradável sensação de renovação. Por isso entendi completamente os sentimentos do nosso querido passeador (^_^). Bem que eu queria perambular tranquilamente por aqui (no Brasil), mas o fato de nosso país sofrer com a influência do capital estrangeiro acaba que castrando nosso crescimento econômico, colaborando para a falta de investimentos em serviços básicos de urbanização e em outros inúmeros setores, consequentemente aumentando a pobreza e dificultando a ação de uma simples atividade, infelizmente (T_T).

O homem que passeia, de Jiro Taniguchi, oferece uma leitura bastante pessoal, que vai atingir o leitor em menor ou maior grau, vai depender do seu nível de sensibilidade. No meu caso me provocou sensações particularmente profundas. Por isso recomendo que a leitura seja feita num ambiente calmo. Primeiro, porque a arte merece ser contemplada, e segundo, porque o mangá exala uma tranquilidade deveras agradável ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: O homem que passeia
Título original: Aruku Hito, 歩くひと
Autor: Jiro Taniguchi
Tradução: Arnaldo Oka
Editora: Devir Livraria
Páginas: 244
Ano: 2017

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Mangá: Card Captor Sakura – Clear Card Arc ~ Vol. 2 – CLAMP

Após o nostálgico reencontro com Sakura Kinomoto no primeiro volume de Card Captor Sakura – Clear Card Arc, continuamos a seguir no segundo tomo, que foi publicado originalmente em 2017 pela editora japonesa Kodansha, os recentes eventos que incluem a inativação das Sakura Cards / Clow Cards, o surgimento de novas cartas transparentes e o sonho com a silhueta da figura misteriosa. Entretanto nossa protagonista e seus companheiros ainda não encontraram nenhuma pista sobre os fenômenos enigmáticos.

Envolta dos enigmas citados, o interessante deste volume vêm das relações entre os personagens. Enquanto aproveitamos os momentos descontraídos de Sakura com seus amigos na Escola Secundária Tomoeda (Chiharu Mihara, Naoko Yanagisawa e Takashi Yamazaki estão de volta; já Rika Sasaki está ausente, pois é citado no primeiro tomo que ela agora estuda em outro estabelecimento) e na decisão de qual clube eles participarão (nossa heroína permanece no clube das pom-pom girls), a chegada de uma nova aluna, chamada Akiho Shinomoto, e que por ser um doce de pessoa logo ganha à simpatia de Kinomoto, trará novos momentos serenos ou estará envolvida nos mistérios mágicos?

Quanto ao núcleo dos personagens principais, Sakura, Keroberos (carinhosamente chamado de Kero), Tomoyo Daidouji e Yukito Tsukishiro / Yue seguem seu próprio caminho na resolução das questões das cartas transparentes (neste tomo três novas cartas foram acrescentadas ao baralho: source / aqua, reflet / reflect e déplacement / action), enquanto que Shaolan Li e Eriol Hiiragizawa continuam alimentando um segredo que nos mantém em suspense. Ah, no final do volume há uma divertida história extra chamada Kélo et Spinel avant le commencement (tradução livre: Kélo e Spinel antes do começo).

Mesmo o segundo volume não tendo reviravoltas (o que é previsível e normal), acredito que Card Captor Sakura – Clear Card Arc está sendo desenvolvido com a mesma atmosfera do mangá clássico. Até o momento o grupo CLAMP está sendo bem sucedido em manter ancorada essa sequência aos 12 volumes.

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Título: Card Captor Sakura – Clear Card Arc
Título original: Kādokyaputā Sakura Kuriakādo-hen, カードキャプターさくら クリアカード編
Autoras: CLAMP
Volume: Vol. 2
Tradução: Lamodière Fédoua
Editora: Pika
Páginas: 160
Ano: 2018

Mangá: Orange – Futurs ~ Vol. 6 – Ichigo Takano

Algum tempo depois da conclusão do mangá, Orange acabou que ganhando histórias extras. Acrescentando mais um volume na grande obra de Ichigo Takano, o sexto tankoubon intitulado Orange – Futurs, que foi publicado originalmente na terra do sol nascente em 31 de maio de 2017, revive a história de Orange através da perspectiva do personagem Suwa Hiroto.

No primeiro capítulo, Futur, o Suwa do passado abre mão de sua felicidade e de sua vida futura com Takamiya Naho pelo bem de Naruse Kakeru, mas principalmente, eu acredito, que pelo seu amor por Naho. Sem duvida um ato altruísta que acaba o atormentando inicialmente, mas que depois o deixará com o coração tranquilo por ter feito essa escolha.

Alguns podem pensar que o Hiroto do futuro exigiu um pedido pesado demais para o seu eu do passado. Afinal, Suwa não passa de um adolescente apaixonado e seria desleal encarregar uma tarefa de extremo sacrifício a uma pessoa jovem. Porém, eu não consegui enxergar o pedido de Hiroto como uma roga egoísta ou um fardo para o jovem Suwa. Simplesmente acredito que o Hiroto do futuro preveniu o Suwa do passado pela angustia que ele carregou esses anos por ver constantemente Naho entristecida devido a esse acontecimento trágico. Então com o panorama desse novo futuro, me passa a impressão que a renuncia dos sentimentos do jovem Suwa seja por acreditar que ele poderia se sentir culpado ao se tornar um obstáculo na relação de Naho e Kakeru. Afinal, ele presa tanto por Takamiya Naho que prefere vê-la feliz e tranquila com quem ela verdadeiramente ama.

Seguimos então para os capítulos seguintes, Hiroto Suwa #1, #2 e #3, que para mim é o mais rico deste volume. Acompanhamos a história do Suwa Hiroto do futuro, como ele lidou com a morte de Kakeru e como ele se aproximou de Naho. O mais interessante dessa narrativa é a ousadia de Ichigo Takano. Ela explora os sentimentos de Suwa com grande tato, revelando que esse personagem, que acreditávamos ser o mais confiante, esconde insegurança e fragilidade.

Achei importante mostrar os flashbacks da amizade de Suwa com Naruse, pois reforça ainda mais a importância da figura de Kakeru. Outro ponto indispensável que me tocou profundamente foi à forma terna que a autora trabalhou a melancolia de Takamiya (*sério, deu até um aperto no coração quando li essa parte*). Acredito que Ichigo conseguiu desenvolver com compaixão o sentimento de tristeza de Naho, como também a aproximação sem jeito, mas tocante de Suwa, ao nascimento do relacionamento amoroso dessas duas personagens e principalmente do compartilhamento mutuo da angustia sentida por eles.

Além disso, a mangaká mostra como o grupo foi se separando pelo obvio rumo da vida, mas acredito que igualmente pela ausência do amigo querido. No entanto esse desmembramento, que causa certo estranhamento (*pelo menos em mim causou*), faz com que não seja total pela necessidade do grupo se manter unido com intuito de preservar a memória de Naruse Kakeru.

Quanto ao título original, no idioma japonês, pelo meu pouco conhecimento, existem duas palavras para dizer “futuro”. No caso de “mirai” [未来 (みらい)], refere-se ao futuro com sentido de desconhecido ou intangível. Claro que no japonês a definição da palavra trás todo um contexto à narrativa. Enquanto que nos idiomas como português, francês ou inglês, por exemplo, que não apresentam tal distinção, acaba que perdendo a poesia do título. Enfim, achei o título tão significativo, pois brinca com a incerteza das ações das personagens.

My precious! ♥ (Edição Francesa)

Anunciado durante a transmissão do ultimo episódio do anime e lançado nos cinemas japoneses em 18 de novembro de 2016, Orange: Mirai é uma animação especial produzida pelo estúdio Telecom Animation Film (subsidiária da TMS Entertainment), que narra exatamente à primeira parte do sexto volume; que como vocês viram, o mangá ganhou sua publicação no ano seguinte. Acredito que pelo sucesso (e por insistência ($) dos produtores e da editora) que Orange: Mirai acabou surgindo. Devo confessar que adorei a ideia de recontar a história principal a partir do ponto de vista de Suwa Hiroto (^_^).

No final do mangá há um posfácio onde Ichigo Takano comenta sobre a criação de Orange – Futurs, sobre assuntos delicados e, por fim, revela a futura publicação de um sétimo volume!!! (*deveras curiosa*) Ichigo explica que o título Futurs faz referência ao nome de uma música da dupla Kobukuro, chamada Mirai. Ela também revela que havia escrito essa história para a versão do anime, que estava em sua mente desde a criação de Orange. E inclusive pretendia que fosse o ultimo capítulo do mangá, mas acabou desistindo pelo motivo de não querer lançar uma história sobre um novo futuro logo que Kakeru foi salvo.

Vou deixar o PV oficial da banda Kobukuro, que canta a música 「未来」(Mirai); música esta que ficou como encerramento das versões animadas e do live-action. O clip ficou tão fofo, e a letra, que eu já tinha checado a tradução algum tempo atrás, combina bem com a impressão de melancolia e de esperança que a melodia provoca.

Orange – Futurs, de Ichigo Takano, é uma continuação inesperada, mas extremamente bem sucedida (^_^). O sexto volume trás uma grande sensação de satisfação (*o*). Já havia me emocionado quando assisti ao filme animado, mas na leitura do mangá as lágrimas caíram com mais intensidade. Maravilhoso. Maravilhoso ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: Orange – Futurs
Título original: Orenji – Mirai, オレンジ – 未来
Autora: Ichigo Takano
Volume: Vol. 6
Tradução: Chiharu Chujo
Editora: Akata
Páginas: 192
Ano: 2018