Mangá: Akira (Volume 1) – Katsuhiro Otomo

Originalmente publicado entre 1982 e 1990 nas páginas da revista Young Magazine e posteriormente reunido em seis volumes pela editora Kodansha, o tão aguardado mangá Akira, de Katsuhiro Otomo, ganhou finalmente recentemente uma sublime edição nacional que já está ao alcance das mãos (*-*). Os seis volumes do seinen de Otomo são intitulados: Tetsuo, Akira I, Akira II, Kei I, Kei II e Kaneda.

Hoje trago minhas impressões do primeiro volume: Tetsuo (*Tetsuooooooooo! para os íntimos*).

A narrativa começa em 1982, com uma bomba explodindo em Kanto, sendo este evento o estopim de uma guerra em escala mundial. Após trinta e oito anos da Terceira Guerra Mundial, estamos na Neo Tokyo de 2019 D.C. em seu estado terminal. É neste contexto de decadência, que vamos acompanhar os dois adolescentes delinquentes Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima, que fazem parte de uma gangue de motoqueiros. Nas andanças por partes inativas da cidade, Tetsuo sofre um acidente ao cruzar o caminho de uma assustada criança com o rosto enrugado e o número 26 escrito na palma da mão. Muito ferido, Tetsuo é apoiado por um instituto misterioso. O ultimo alimenta projetos estranhos e torna Tetsuo uma cobaia para seus experimentos. Quanto a Kaneda, ele acaba conhecendo membros da resistência que tem como objetivo impedir o desenvolvimento do Projeto Akira.

O primeiro volume de Akira já começa a envolver o leitor de forma definitiva. Não é por eu conhecer essa obra maravilhosa que estou dizendo isso, mas pela capacidade de Otomo de fisgar nossa atenção neste mundo pós-apocalíptico impecavelmente bem desenvolvido. Enalteço este clássico dos mangás em primeiro lugar porque o enredo é emocionante, como também porque o autor consegue desenvolver os elementos presentes na trama com grande dinamismo. E o fato da edição não ter capítulos causa o difícil problema de não lagar o volume até a última página.

Quanto à arte de Katsuhiro Otomo, ela reflete o estilo dos anos 80, e o que poderia ser um traço datado, torna-se um estilo bastante próprio. A arte de Otomo tem surpreendente dinamismo e detalhe. Também gosto da organização dos quadros, todos cuidadosamente elaborados nos ambientes representados e possibilitando uma imersão eficaz na história. Por fim, eu adoro as caras e bocas do Kaneda, hahahaha.

Essa edição que a JBC trouxe é a versão definitiva de Akira. O trabalho editorial foi controlado pelo próprio mangaká e pela editora japonesa Kodansha. Ou seja, a partir de agora as edições de Akira publicadas no mundo terão o mesmo formato e as mesmas características, como por exemplo, à preservação das onomatopeias. Particularmente achei a edição muito bem cuidada e o formato 17,8 x 25,6 cm nos ajuda a perceber mais os detalhes das cenas, que são cheias de elementos. O único ponto negativo é o preço, que convenhamos machuca o bolso. Quanto a não tradução da orelha, foi um pedido do autor. Por isso a forma original do texto (em inglês e mandarim) fora mantida. Mas a JBC traduziu a orelha do texto em inglês e você pode conferir a tradução aqui.

No entanto esta não é a primeira aparição de Akira por aqui. A primeira vez que Akira apareceu no Brasil foi pela Editora Globo, entre anos de 1990 e 1998, numa edição tipo revistinha, com páginas espelhadas e colorizadas, tendo suas capas redesenhadas e totalizando 38 revistas. Uma heresia, sem dúvida. Mas naquela época o acesso ao material era através dos norte americano que trabalhavam dessa estranha forma.

♥ Akira ~ Meu Mangá, DVD e Blu-ray ♥

Para quem acompanhou Akira por essa antiga publicação ou por scanlacition, conhecem a grande potência dessa obra. E para aqueles que desconhecem, vá imediatamente assistir ao filme lançado em 1988, com sua animação e trilha sonora fodástica. Para ambos os casos, recomendo fortemente a aquisição da edição definitiva (^_~). Ah, quando o mangá for concluído por aqui, comento sobre a animação. Eu adoro esse filme! (*-*)

Com os eventos que cercam Kaneda e Tetsuo, os mistérios relacionados ao Projeto Akira e a evolução das personagens neste grande enredo, o mangá de Katsuhiro Otomo apresenta uma narrativa complexa para descobrir e redescobrir. Claro que depois deste primeiro volume, Akira está longe de ter revelado todos os seus segredos. Aguardemos com ansiedade o avançar da narrativa no segundo volume.

.

Título: Akira
Título original: Akira, アキラ
Autor: Katsuhiro Otomo
Volume: Vol. 1 – Tetsuo
Tradução: Drik Sada
Editora: JBC
Páginas: 362
Ano: 2017

O cosmo de Seiji Yokoyama subiu até o céu como uma estrela.

Minha homenagem ao meu amado e inigualável compositor Seiji Yokoyama (横山菁児), que faleceu no último dia 8 de julho aos 82 anos.

{!} Disponible: Sous-titres en Français

Descanse em paz.

Mangá: O Homem que Foge – Natsume Ono

Conheço a mangaká Natsume Ono pelos excelentes Ristorante Paradiso (2006) e Gente (2007) que li quando foram publicados na França. Ono também é bastante conhecida no ocidente por sua obra Sarai-ya Goyou (2006). Então quando a editora JBC anunciou este título fiquei muito feliz, pois gosto demais dessa autora ♥. Eu e a Lígia, do blog Randomicidades Aleatórias, combinamos e realizamos uma leitura compartilhada de O Homem que Foge (*foi ótimo ler mais esse mangá com você*).

O Homem que Foge, de Natsume Ono, foi publicado orginalmente entre 2010 e 2011 na revista seinen Manga Erotics F, ganhando em 2011 seu encadernado pela editora Ohta Shuppan. Em meio à floresta em que se encontra um urso misterioso, a obra carrega em sua narrativa uma grande e importante reflexão sobre as consequências de uma decisão, tendo como elemento dessa mensagem um homem que “fugiu”, sua razão para tal ato e o que acontece quando essa mesma razão deixa de existir.

Nas duzentas páginas, não há tantos diálogos. O foco é nas atividades diárias do protagonista, no ciclo das estações do ano, no urso misterioso, nos curiosos que vão à floresta e intercalando com eventos ocorridos anteriormente. Em meio a esses quadros silenciosos, acredito que a autora quis repassar a sensação da mente do protagonista em constante reflexão sobre sua ação realizada há tantos anos. Para mim, essas cenas trouxeram uma profundidade de que o silêncio diz mais do que as palavras.

Acredito que a obra se aproxima dos pensamentos subconscientes do leitor. Qualquer pessoa pode se identificar com a luta interna travada pelo homem que foge. Por isso pergunto, quem de vocês nunca quis fugir de um problema? Quem se arrependeu profundamente de uma decisão ou da falta dela e fica se remoendo com constância? Quem aqui não teve vontade de desaparecer? A fuga dos problemas do mundo, das decisões mal tomadas, de como lidamos com elas e de como organizamos nossos pensamentos confusos, não são fáceis, mas necessários. A mangaká nos trás justamente essas dificuldades internas, presente em qualquer um de nós. Esse diálogo silencioso é a grande essência desse título.

Quanto à arte de Natsume Ono, ela tem um estilo esboçado bastante original. Eu aprecio imensamente o traço próprio dela pela estranheza que ele causa. Além disso, a arte da mangaká é bastante expressiva e eficaz. Gosto das cenas que focam nos olhos. Acho que ela consegue repassar com habilidade os sentimentos internos mais profundos das personagens.

Escrevendo minhas impressões, O Homem que Foge me fez lembrar a Aokigahara, uma floresta situada na base noroeste do monte Fuji, conhecida mundialmente por ser local comum de suicídios no Japão. Em média são encontrados 100 corpos por ano e esse número vem aumentando. Por motivos diversos, principalmente financeiros, o individuo adentra na floresta para tira a própria vida. Mesmo que o protagonista de Ono não pratique o ato, há uma “morte social”. Por isso fiquei com uma forte impressão de que o mangá seja uma alegoria a este local. Dizendo para aqueles que pensam em se matar para repensarem em não se desconectar definidamente do mundo. Provavelmente eu estou viajando na maionese, mas será que não há nenhuma conexão da obra com este triste fato?! Enfim, recomendo que assistam este documentário sobre A Floresta dos Suicidas:

O Homem que Foge, de Natsume Ono, é o tipo de narrativa que consegue dizer muito através de poucos diálogos e cenas expressivas. Mesmo tendendo para o realismo fantástico, acho injusto definirem este mangá como um conto de fadas para adultos. Acredito que a obra de Ono traga uma mensagem profunda entrelaçada numa narrativa que considera importante, diria até essencial, este diálogo interno. Um diálogo que pode salvar nossa própria vida.

.

Título: O Homem que Foge
Título original: Nigeru Otoko, 逃げる男
Autora: Natsume Ono
Tradução: Edward Kondo
Editora: JBC
Páginas: 200
Ano: 2017

Mangá: Doukyusei / Sotsugyousei – Nakamura Asumiko

Durante minha viagem ao Japão, quando eu estava numa loja especializada em mangás e animes em Ikebukuro, na seção da livraria conferindo os artbooks, um deles, de traço peculiar, chamou minha atenção. Achei o material lindíssimo, mas acabei não levando por conta das minhas prioridades. Voltando ao Brasil, fui procurar a respeito desse desenho. E eis que conheço a obra mais famosa de Nakamura Asumiko.

Doukyusei é um mangá do gênero Shounen Ai lançado inicialmente pela revista Opera entre 2006 e 2007. Enquanto a sequência, intitulada Sotsugyousei, foi publicada entre os anos de 2007 e 2009. Em 2010, a editora japonesa Akaneshinsha publica os encadernados da obra de Nakamura em três volumes.

Devido ao seu sucesso estrondoso, Doukyusei / Sotsugyousei é considerado um dos melhores mangás Boys’ Love (BL) da ultima década, ganhando o raro privilégio de ser adaptado. A animação, produzida pelo estúdio A1 Pictures, foi lançada nos cinemas japoneses em 20 de fevereiro de 2016 e ficou na 9ª posição de melhores bilheterias. Para uma obra que retrata a comum relação romântica entre dois estudantes do ensino médio é de impressionar.

Kusakabe Hikaru e Sajou Rihito estão na mesma classe de uma escola só para garotos. Devido ao festival de canto organizado pela instituição, os alunos praticam constantemente. Sajou acaba também treinando sozinho por sentir dificuldade com o ritmo da canção. O que atrai a atenção de Kusakabe. Intrigado, ele se oferece para ajudá-lo. Durante o tempo que eles passam juntos, Hikaru e Rihito acabam por experimentar variadas emoções, e à medida que as estações avançam, os corações desses dois rapazes vão se aproximando.

Confirmado pela própria autora, Doukyusei / Sotsugyousei é abarrotado de clichês. Entretanto Asumiko desenvolve o molde de sua obra com leveza, tornando a narrativa deliciosa de acompanhar. Ou seja, a mangaká soube utilizar com habilidade os estereótipos da demografia, trazendo de certa forma algo novo.

A identidade oposta do descolado Kusakabe Hikaru e do estudioso Sajou Rihito é o ponto alto da trama. Devido suas diferenças de personalidade e visão de futuro, os dramas vão surgindo e se desenvolvendo sem deixar de acompanhar a evolução do casal. Trazendo também o descobrimento de seus sentimentos com inocência e espontaneidade. É bonito o ritmo que essa união é formada. E quanto às cenas de amorzinho é tão safadinha, mas ao mesmo tempo tão fofinha (=^-^=).

Sem sombra de dúvida o elemento mais marcante desse mangá é a arte sofisticada de Nakamura Asumiko. Seu traço limpo apresenta um efeito de leveza, movimento, expressão e elegância visivelmente singular. A cada quadro a artista ressalta com clareza e harmonia o essencial da cena. Amei demais a arte da Nakamura-sama ♥.

Como comentei no inicio, assim que voltei de viagem pesquisei sobre a obra. Para minha felicidade o mangá havia sido publicado na França (*-*). Quando tive condições ($$) importei imediatamente os volumes que chegaram um mês e meio depois (*pensem na aflição*). Com os volumes em mãos eu primeiramente fiquei encantada com a edição (*o*). O projeto gráfico é muito bem cuidado, apresentado além de páginas coloridas, outros detalhes da edição japonesa. Em seguida devorei os três tomos ♥. Agora estou ansiosa pela continuação, O.B..

Quanto ao filme, ele cobre os eventos do mangá Doukyusei. A animação tem um ritmo fluido e calmo conseguindo captar as características presente na obra original. O visual da animação, desenvolvidos pela diretora de arte Chieko Nakamura (conhecida por seu trabalho no anime Shoujo Kakumei Utena), impressiona por sua alta qualidade e palheta de corres. Um deleite para os olhos (*-*). Destaque também para a ótima dublagem. As vozes combinaram como uma luva. No geral, achei a adaptação fiel e muito boa.

Doukyusei / Sotsugyousei, de Nakamura Asumiko, é um mangá agradável que emana uma atmosfera gentil durante toda a leitura. Recomendo fortemente a qualquer colega leitor, principalmente as leitoras de BL, que apreciam ou procuram por uma história de amor com dramas possíveis (^_^).

.

Título: Doukyusei / Sotsugyousei
Título original: Dôkyûsei / Sotsugyousei, 同級生 / 卒業生
Autora: Nakamura Asumiko
Editora: Boy’s Love – IDP
Número de volumes: 3
Ano: 2016