Livro: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento – Alice Munro

Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro, foi publicado originalmente em 2001. O livro é uma coletânea de contos que fala sobre tipos de amor; não do amor romântico, o que seria reduzi-lo, mas do amor em suas diversas realidades e sensações.

A coletânea engloba nove contos: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento; Ponte Flutuante; Mobília da Família; Conforto; Urtiga; Coluna e Viga; O Que é Lembrado; Queenie; e O Urso Atravessou a Montanha. Sendo os meus preferidos: o que dá título ao livro, Conforto e O Urso Atravessou a Montanha.

Os contos apresentam histórias comuns. Histórias como a minha ou a sua vida. Histórias às vezes simples, às vezes complexas, às vezes alegres. Histórias de mulheres e homens, alguns com conjugues e filhos. Histórias com doenças e mortes a espreita. São histórias feitas de fatias da vida, em que as visões do amor, do ato individual de amar, são o centro da narrativa.

O surpreendente nesta coletânea é como a autora canadense soube criar toda a substância de variadas situações psicológicas e próprias para cada personagem. Conseguir esta construção complexa em poucas páginas é de se admirar. Em todos os contos temos indivíduos complexos e críveis nas suas percepções e nos seus conflitos. Com o tema central, Munro tece narrativas que poderiam ser facilmente consideradas mundanas, mas que apresentam a particularidade de uma “alma” poderosa. É um texto que conversa com aquele que o lê; que torna o embate da ficção uma questão interna.

Notam-se alguns padrões na estrutura dos contos: 1ª Focam em determinados eventos do passado, ou seja, a memória tem importante papel; 2ª Esses eventos anteriores mesclados com o presente, que envolvem as personagens em conflitos internos, criam uma sensação de suspense na trama; 3ª Outro padrão é a quantidade de páginas. Com exceção do primeiro conto, que é maior, os demais apresentam em torno trinta e poucas páginas; e 4ª Por fim, oito dos nove contos apresentam mulheres como protagonistas.

Este é o primeiro livro que leio de Alice Munro, agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2013, e gostei bastante do que li. Ela tem algo na sua escrita e na sua estrutura narrativa que atinge o leitor por dentro. É como se os conflitos dos narradores-personagens fossem emprestados para nosso interior; como se essas dores e incertezas fizessem também parte do observador, ou seja, do leitor.

Com seu estilo de escrita denso, trabalhado e incisivo, Alice Munro trás nessa coletânea de contos, intitulada Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, narrativas agridoces onde o destino pesa fortemente sobre os ombros de todos os seus personagens e causando um estranho desconforto sobre nós.

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Título: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento
Título original: Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage
Autora: Alice Munro
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 340
Ano: 2016

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A leitura de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

Livro: O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos – E. T. A. Hoffmann

Esta coletânea de contos de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (1776–1822), intitulada O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos, teve tradução, organização e notas de Maria Aparecida Barbosa. Aparecida selecionou algumas narrativas de três coletâneas originais de contos do autor alemão para produzir a edição nacional.

O livro começa com um prefácio que ambienta o leitor ao estilo de um dos grandes nomes do romantismo alemão e dando informações acerca das narrativas apresentadas na edição. Seguimos então para os contos divididos por um conjunto das seguintes coletâneas: Quadros Fantásticos à Maneira de Callot (Fantasiestücke in Callot’s Manier), Contos Noturnos (Nachtstücke) e Os Irmãos Serapião (Die Serapionsbrüder).

Na primeira parte, da coletânea Quadros Fantásticos à Maneira de Callot, publicada originalmente em 1814, apresenta os contos Jacques Callot, Cavaleiro Gluck – Uma lembrança do ano de 1809, Kreisleriana e O Reflexo Perdido ou As Aventuras da noite de São Silvestre. Seguindo pela coletânea Contos Noturnos, pulicada originalmente em 1817, apresenta unicamente o conto O Homem-Areia. E por fim, na coletânea Os Irmãos Serapião, pulicada originalmente em 1819, apresenta os contos O Anacoreta Serapião, As Minas de Falun, O Conselheiro Krespel ou O Violino de Cremona e O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos.

Todos os contos desta edição apresentam enredos comuns, mas que contêm na sua confecção inúmeras referências de figuras reais e de teor filosófico envolvendo temas fantásticos que se confundem entre a realidade e a ficção. No caso as várias notas de rodapé, espalhadas na edição, ajudam a nos ambientarmos nessas alusões, contribuindo principalmente para aqueles que não têm tanta intimidade com a literatura alemã, como é o meu caso (*adoro edições com (muitas) notas de rodapé ♥*).

Além de escritor, Hoffmann tinha interesse pela música e pintura. Ou seja, ele também compunha e desenhava. O seu amor pela música clássica e pelo famoso compositor e pianista austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, fez Hoffmann incorporar Amadeus ao seu nome de batismo. Por isso em praticamente todos os contos dessa coletânea incluem a música como tema principal ou como um elemento.

Para quem leu Reflexões do Gato Murr (1822), vai notar pelo título que o protagonista Johannes Kreisler está presente no conto Kreisleriana. Na verdade esta foi à primeira aparição do personagem compositor, já que o conto data de 1813.

Ilustração do conto O Homem-Areia (Der Sandmann) presente na primeira edição alemã, desenhada pelo próprio E. T. A. Hoffmann.

Nos contos com uma atmosfera de terror fantástico, Hoffmann começa suas narrativas com um ambiente agradável, que mesmo com os percalços trás certa esperança. No entanto à medida que somos conduzidos, o cenário se transforma em um tom macabro, permitindo que as neuroses façam parte da condição e fim dessas personagens.

Apesar de apresentar um lirismo, os contos do autor alemão exibem tons escuros e uma atmosfera sinistra em meio aos vícios e tormentos da alma humana, fazendo com que nós leitores acreditemos que os olhos brilhantes do demônio estão à espreita em cada ação de nosso cotidiano. A loucura também é um tema recorrente. Já em outras narrativas, lembram as tragédias gregas com suas premonições mortais.

Acredito que a única narrativa que destoa do ambiente sombrio e sem esperança, é o conto infantil O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos. História conhecida por aqueles que na infância assistiram alguma adaptação animada na época do Natal (*eu o/*). E principalmente por ter dado origem a um dos mais famosos balés, composto em 1891 pelo russo Piotr Ilitch Tchaikovsky, chamado O Quebra-Nozes. O conto é uma graça e foi maravilhoso conhecer a narrativa original, pois eu tenho um carinho por essa história (^_^).

Meus contos preferidos de toda a coletânea foram O Reflexo Perdido ou As Aventuras da noite de São Silvestre e O Homem-Areia. Eu gostei demais da construção da narrativa e de como eles brincam com nossa percepção dos fatos. Essas duas histórias me surpreenderam pela sua densidade e estrutura forte e de sua contínua ambiguidade da relação com a realidade. Por outro lado, como em livros de contos há normalmente uma flutuação entre eles, para mim a narrativa menos interessante foi O Conselheiro Krespel ou O Violino de Cremona. As detestáveis personagens estragam o bom clima da narrativa.

Quanto à escrita de E. T. A. Hoffmann, é um estilo alucinatório. O escritor cria efeitos que lembram histórias populares que nos fascinam, mas ao mesmo tempo instiga com seus paradoxos e simbolismos. Talvez minha percepção repassada nesta impressão faça parece que a escrita do autor é confusa. Nada disso. É um estilo que brinca com a imaginação, que burla nossa percepção em separar o pesadelo da realidade; já que os dois cenários tanto se assemelham. Também há um sarcasmo refinado e frases para a vida. Tipo esta, ideal para se livrar com educação de alguém inconveniente: “Tenha a bondade de ir para o diabo que o carregue!” (p. 51). Grosseiro, mas com finesa, hahaha.

O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos, de E. T. A. Hoffmann, trás uma deliciosa mistura de estranhezas curiosas. Além disso, a seleção feita por Maria Aparecida Barbosa apresenta ao leitor brasileiro os vários lados desse renomado autor alemão do romantismo.

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Título: O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos
Título original: Fantasiestücke in Callot’s Manier, Nachtstücke, Die Serapionsbrüder
Autor: E. T. A. Hoffmann
Tradução: Maria Aparecida Barbosa
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 264
Ano: 2017

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

Livro: A Invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Publicado originalmente em 1940, quando o argentino Adolfo Bioy Casares tinha 26 anos, A Invenção de Morel é um clássico inaugural e marco da literatura fantástica produzida na América Latina.

Narrado em primeira pessoa por um fugitivo condenado à prisão perpétua, pela justiça venezuelana, que chega sozinho a uma ilha inabitada. A ilha apresenta construções abandonadas, como um museu, uma piscina, uma espécie de hotel e um maquinário de complexo funcionamento.

Acreditando que a ilha estava desocupada, para seu profundo espanto, ele avista inúmeras pessoas transitando. Entre esses indivíduos, Faustine encanta o narrador. Ele faz tudo pra chamar sua atenção, mas curiosamente à mulher de seu interesse não o nota. Considerando esta estranha situação, o fugitivo tenta racionalizar e buscar uma resposta.

A narrativa como um gênero do realismo fantástico, também possível classificá-la como ficção cientifica, carrega uma série de reflexões difíceis de extrair. Minha leiga interpretação do tema discutido é referente às questões de sobrevivência, da consciência e da memória. Entretanto, levando em conta a época de publicação da novela, a Argentina havia acabado de completar dez anos desde o primeiro de sucessíveis golpes de estado que durariam 53 anos (1930 – 1983). Ou seja, o cenário no país de origem do autor estava com um governo fantoche de caráter fascista controlado por potências estrangeiras. E este cenário era idêntico em outros países da Americana Latina. Por isso acredito que tenha várias mensagens nas entrelinhas referentes a este período conturbado. Então no ato final da novela, interpreto que o narrador fugitivo, que provavelmente seja por questões políticas, deseja somente uma consciência tranquila, longe da opressão.

Interessante destacar que a obra de estreia do Casares é dedicada a Jorge Luis Borges. Os dois autores eram muito amigos e Borges escreveu um texto sobre A Invenção de Morel que normalmente vem nas edições como prefácio. Infelizmente a editora Folha de S.Paulo o excluiu dessa edição (*lamentável*). Agora tenho que providenciar.

Dizer que achei essa obra primorosa não é exagero. Casares constrói a narrativa com uma habilidade magistral. Admito que minha expectativa estava alta, e surpreendentemente ela foi alcançada (^_^). Mesmo curtinho, a obra exige do leitor total concentração para o grande mistério, para suas múltiplas interpretações. Eu, por exemplo, não consegui concluir em uma sentada. Precisei parar para organizar as ideias. Não que o livro seja difícil, longe disso, mas ele te exige de uma forma peculiar.

Gostaria de indicar a vocês, colegas leitores, que vão à novela sabendo o mínimo possível. Não tenho dúvida de que a experiência será maravilhosa. Eu fui sabendo quase nada e fiquei completamente surpresa quando conclui. Ah, minhas impressões não entregam nada da trama, só exponho a interpretação que tive, então podem ficar tranquilos quanto a isso.

A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, é um livro simplesmente instigante e profundo. Uma grande e clássica obra da literatura latino americana. Todo mundo deveria ler essa perfeição. Eu, particularmente, amei (♥^-^♥).

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Título: A Invenção de Morel
Título original: La Invención de Morel
Autor: Adolfo Bioy Casares
Tradução: Sérgio Molina
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 88
Ano: 2016

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A leitura de A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

Livro: Anne de Green Gables – Lucy Maud Montgomery

No inicio do século XX, na Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, o casal de irmãos solteiros, Matthew e Marilla Cuthbert, proprietários da fazenda Green Gables, estão planejando adotar um menino órfão de uns 11 anos para ajudar Matthew, que está sentindo a idade, com o trabalho no campo. Decisão tomada, Marilla instrui uma de suas conhecidas para trazer o tal menino. Entretanto a criatura que aparece na plataforma da estação é uma órfã: a pequena, ruiva, sardenta e imaginativa Anne Shirley, pronunciando claramente a letra “E” de Anne.

Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery, publicado originalmente em 1908, é o tipo raro de romance tão carismático que torna à tarefa de largá-lo difícil. No meu caso, eu diria impossível (*muito amor*). Os motivos para tal conquista é que a cada frase somos levados a um mundo maravilhoso, cheio de sentimentos poderosos, onde a beleza da natureza circunda e se mistura com a imaginação em constante florescimento dessa heroína tão única. Montgomery dá vida a uma garotinha encantadora, poética, humorada, inteligente, impulsiva e de caráter sem igual que encanta a todos. Seu lado imaginativo e dramático também trás desventuras, por vezes emocionantes, sendo outras desastrosamente cômicas.

O romance trás uma grande riqueza cultural e histórica, mostrando detalhes das figuras e dos costumes da pequena comunidade de Avonlea. Outros elementos que fazem o romance da autora canadense ser tão inesquecível são às belas descrições dos cenários e das estações do ano, principalmente pelo olhar aguçado de Anne. No entanto, um dos momentos mais belos da narrativa é a relação amorosa, porém firme de Marilla e Matthew para com Anne. Acho linda a troca de bons sentimentos entre eles, os dramas envolvidos e de como vão aprendendo a se amar e a se confiar. E eu adoro a Marilla e seu jeito sério com suas emoções escondidas (^_^).

Também aprecio a relação de Anne com a literatura. Não é o tema central da narrativa, mas a sutil presença dos romances está nos devaneios, nas brincadeiras ou nas confusões da protagonista. Por causa da leitura, de alguma forma, pôde ajudar Anne a suportar o cenário de sua vida como pequena trabalhadora ao cuidar de vários pares de gêmeos. Como igualmente auxiliá-la nos estudos após ser adotada pelos irmãos Cuthbert. Sim, ela é uma menina imaginativa, mas para tal imaginação teve influência de algo, e este algo acredito que seja devido ao seu amor pelos livros.

Lucy Maud Montgomery apresenta uma escrita leve e suave, ao ponto das palavras fluírem com grande facilidade e beleza; um verdadeiro deleite. Além disso, dá para notar algumas linhas de ironia. Por seu livro ser encantador em vários aspectos, surgiu em mim uma vontade de conhecer a Ilha do Príncipe Eduardo e sentir as descrições que a autora me proporcionou. Na ilha tem até um museu dedicado a Montgomery e sua principal obra, chamado Anne of Green Gables Museum.

♥ Edições das editoras Martins Fontes e Pedrazul (*My Precious!*) ♥

Eu tenho essas duas edições de Anne de Green Gables ♥. A primeira é a edição comemorativa do centenário da obra, publicada pela editora Martins Fontes em 2009, que inclui dois textos interessantíssimos como extra. Eu adoro tudo dessa edição! A segunda é da editora Pedrazul do qual fiz a releitura. Infelizmente não tem nenhum extra, mas a edição é muito bem cuidada. Recomendo qualquer uma das duas. Ou as duas, hahaha.

Acredito que não seja surpresa para alguns de vocês que acompanham o blog, o amor que sinto por Anne de Green Gables. Estava ansiosa para reencontrar Anne, mas esperei o tal momento certo. Nesta releitura, do qual fiz compartilhada com a Val, do blog Uma Pedra no Caminho, só reforçou ainda mais o meu amor por esta obra. Sinto-me extremamente feliz quando perambulo pelas páginas desse romance. Incrível como ele não perdeu a força para mim. Na verdade só aumentou (^_^). Não tenho dúvida que Anne é uma alma gêmea, que sempre me proporcionará momentos agradáveis de grande emoção que me farão sorrir e chorar.

Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery, traz uma impar e cativante protagonista que nos proporciona momentos inesquecíveis. É um magnífico romance de aprendizagem, que lida com precisão os temas de resiliência, da múltipla definição de família, da amizade e do companheirismo. Anne de Green Gables é o tipo de livro para carregar no coração com muito carinho por toda a vida ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: Anne de Green Gables
Título original: Anne of Green Gables
Autora: Lucy Maud Montgomery
Tradução: Tully Ehlers
Editora: Pedrazul
Páginas: 228
Ano: 2015