Livro: O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, foi publicado pela primeira vez na revista Lippincott’s em 1890. Porém por seu conteúdo considerado imoral, centenas de palavras foram excluídas pelos editores antes da publicação. Mesmo tendo a obra censurada, a narrativa ainda ofendeu a moral dos críticos literários que a consideravam vulgar; além disso, foi usada como peça de acusação no processo do autor irlandês em 1895, do qual ele foi condenado a “flagrante indecência” por sua relação amorosa com o lorde Alfred Douglas. Em 1891, Wilde revisa e amplia seu escrito, publicando em formato romance e anexa um prefácio, que pode ser considerado um manifesto artístico, em defesa dos direitos do artista e da arte.

Inicialmente se pensava que existissem duas versões de O Retrato de Dorian Gray: a primeira edição datada de 1890, com material censurado e contendo 13 capítulos; e a segunda edição datada de 1891, com material autocensurado, contendo 20 capítulos e o prefácio. Mas 120 anos depois, outra versão dessa obra foi apresentada ao público em 2011 por Nicholas Frankel numa edição da editora Harvard University Press. Essa versão que saiu do obscurantismo apresenta o texto sem censura dos 13 capítulos. A edição da coleção Grandes Nomes da Literatura trabalha o texto de Frankel e incorpora o prefácio escrito por Oscar Wilde.

O Retrato de Dorian Gray segue a agitada história de um lindo jovem chamado Dorian Gray, que terá sua vida dramaticamente mudada após o retrato pintado pelo artista Basil Hallward e pelas conversas provocantes com o lorde Henry “Harry” Wotton. Embora Oscar Wilde defendesse a liberdade artística, o protagonista, de seu romance mais conhecido, enfrentará sua consciência moral através do seu retrato que traz em seu lugar os traços de sua perversidade e decadência.

“- Anos atrás, quando eu era um menino – disse Dorian Gray -, você me conheceu, se devotou a mim, me bajulou, e me ensinou a ter vaidade de minha boa aparência. Certo dia, me apresentou a um de seus amigos, que me explicou a maravilha da juventude, e você terminou meu retrato, que me revelou a maravilha da beleza. Num momento de loucura, do qual ainda hoje não sei me arrependo ou não, fiz um pedido. Talvez pudesse ser chamado de prece…” (p. 145)

Estava com expectativa quanto à leitura desse clássico, mas me decepcionei. A narrativa começa bem, porém não consegue decolar, tornando a leitura um tanto cansativa. Na verdade só decola em alguns poucos momentos. O ritmo e a construção das ideias apresentadas poderiam ser realmente surpreendentes, mas não passa de palavreados vazios. Particularmente não consegui sentir simpatia pelas personagens e muito menos pelas ideias apresentadas no romance. E outra coisa, me incomodou o rastro de misoginia em suas observações, que claro devem ser atribuídas ao tempo, mas igualmente pela opinião de ódio contra a figura feminina sentida pelo próprio Oscar Wilde.

Oscar Wilde

Inicialmente eu pensei que a obra fizesse um apelo à eterna juventude. Mas como a narrativa apresenta um teor filosófico, com seus exemplos contraditórios e nada interessantes sobre a temática, acredito que a real mensagem de O Retrato de Dorian Gray seja a liberdade artística. Também o prefácio me direcionou a ter essa impressão. Em outro momento pensei que a obra teria alguma relação com o caso amoroso do autor com lorde Douglas, já que vários críticos afirmam a fusão da vida e obra de Wilde.

Quanto à escrita do escritor irlandês, notasse o tom de desenvoltura, mas eu particularmente não me senti encantada. Creio que pela frustração de uma ideia tão brilhante, o fato de o retrato envelhecer, tenha sido executado de forma limitada e nada saborosa. Enfim, como também tenho a edição da versão de 1891, a lerei no futuro e quem sabe O Retrato de Dorian Gray se torne um pouquinho melhor. Ou não, afinal a obra de Oscar Wilde sofre de uma confusão de ideias vazias.

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Título: O Retrato de Dorian Gray
Título original: The Picture of Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 176
Ano: 2016

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A leitura de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

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Livro: A Amiga Genial – Elena Ferrante

Publicado originalmente em 2011, A Amiga Genial, de Elena Ferrante, é o primeiro livro da tetralogia chamada Série Napolitana, que conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. Nesse primeiro volume é apresentada a infância e adolescência da narradora Elena “Lenu” Greco e de sua amiga Raffaella “Lila” Cerullo.

O livro começa com um prólogo comentando sobre o desaparecimento de Lila alertado pelo filho. Sabendo que sua amiga desejava sumir, afinal Lia acabou com quaisquer vestígios de sua vida, Elena Greco, com 66 anos, começa a escrever sobre sua amizade com Lila. Fazendo com que a história delas, de Lila, jamais fosse esquecida. A narrativa da infância e adolescência (até os 16 anos) em A Amiga Genial se passa nos anos 50 em um subúrbio de Nápoles, na Itália.

Elena Ferrante, cuja identidade permanece um mistério, descreve com grande destreza a diferença das personalidades de Lenu e Lila, dos laços firmados e do apoio compartilhado entre elas, mas sem se esquecer de evocar sentimentos ambivalentes que caracterizam essa amizade, como a admiração, a inveja, a concorrência e o amor que elas nutrem uma pela outra.

Gostei tanto da insegura e estudiosa Lenu, quanto da dotada e destemida Lila. Ambas me pareceram personagens palpáveis, com suas qualidades e defeitos e com conflitos internos criveis. Quanto à amizade desenvolvida entre elas, vemos tanto uma forte união como uma competição inerente. Sem dúvida é uma amizade complexa, mas me parece que Lenu e Lila sentem a necessidade de aprovação mutua, de engrandecerem, de certa forma, simultaneamente. É como se as duas se complementassem. Como se a presença de uma fosse necessária para a existência da outra, e vice-versa.

Ao redor da construção dessa amizade, a autora desenha o retrato dos pequenos comerciantes e artesões italianos desse subúrbio. Nele é apresentada uma violenta sociedade hierárquica onde o dinheiro e poses definem quem detém o poder e influência naquela comunidade. Junto com a forte presença desse cenário opressor, as demais personagens, em situações financeiras distintas, aparecem como figuras importantes para o desenvolvimento da vida de Lenu (que continua a estudar) e de Lila (que pela limitada condição financeira é obrigada a largar os estudos e ajudar a família). Essa bifurcação provocada pelo cenário pós-guerra, ou seja, pela restrição da condição material presente na família Greco e Cerullo, como também das outras famílias do bairro, é um elemento decisivo no destino dessas personagens. Com esse cenário maravilhosamente bem descrito, Ferrante revela a tirania do machismo com as mulheres e do sistema de classe capitalista naquela comunidade.

A Amiga Genial me fez desconfiar se o que eu estava em minhas mãos não seria um relato autobiográfico (*no lançamento do livro, Ferrante estaria com 70 e poucos anos*). Não por a narradora Lenu ter o mesmo nome do pseudônimo da escritora italiana, mas por aquele cotidiano descrito naquelas páginas, sendo da própria autora ou emprestados de alguém, apresentar um teor próximo à realidade. Se a obra não tem nenhum teor autobiográfico, com certeza Elena Ferrante é uma boa observadora.

Mesmo sabendo que iria gostar da escrita, afinal o estilo de Ferrante tem algo viciante, para a narrativa fui totalmente sem expectativa, pois anteriormente havia lido dois romances da autora que dividiu minha opinião: Dias de Abandono (*muito bom, mas peca no final*) e A Filha Perdida (*desgostei da narrativa como um todo*). Acredito que começar pelos romances antigos e depois passar para a tão aclamada Série Napolitana foi à melhor escolha para mim. De certa forma acompanhei a “evolução” da autora.

A leitura de A Amiga Genial foi deliciosa! Em nenhum momento senti tédio, muito pelo contrário, devorei o romance. O trabalho que Ferrante faz nessa obra é incrível! Ela desenvolve a narrativa de forma direta, com um cenário fértil e com um contexto rico nas condições e bifurcações da vida dessas personagens. E que gancho para o segundo volume, hein.

Quanto à escrita de Elena Ferrante, que primorosa. A combinação da extraordinária narrativa com esta escrita prazerosa torna a leitura em algo que te consome. Eu, por exemplo, terminava de trabalhar e corria para continuar a leitura (*falando nisso, a leitura de A Amiga Genial foi realizada em abril deste ano*).

A Amiga Genial, de Elena Ferrante, é o inicio de um relato emocionante que trata do amor, da amizade, do estatuto das mulheres, da ascensão social e da dureza da vida. Extremamente ansiosa para as sequências: História do Novo Sobrenome (*que eu já li*), História de quem Foge e de quem Fica e História da Menina Perdida. (…) Entretanto, e a pena de “gastar” os romances, hahaha.

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Título: A Amiga Genial
Título original: L’amica geniale
Autora: Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 336
Ano: 2015

Livro: Anne de Avonlea – Lucy Maud Montgomery

Publicado originalmente em 1909, Anne de Avonlea, de Lucy Maud Montgomery, é a sequência de Anne de Green Gables. Nesse segundo volume seguimos a jovem Anne Shirley, pronunciando claramente a letra “E” de Anne, durante dois anos, dos 16 aos 18 anos.

Agora Anne Shirley ensina na escola de Avonlea. Entre seu trabalho como professora, nos afazeres domésticos, nos devaneios corriqueiros e posteriormente no cuidado com os gêmeos adotados, ela ainda encontra tempo para criar com Gilbert Blythe e outros jovens da comunidade uma sociedade que visa melhorias para tornar a vida dos moradores da cidade mais agradável. Pela sua deliciosa impetuosidade e ingenuidade, às vezes, lhe rendem algumas peripécias bem engraçadas (*o episódio da vaca foi um dos melhores, hahahahahahahaha*). Felizmente nessas mudanças, Anne ainda mantém sua visão dramática da vida (*que eu adoro*).

Novos personagens são incluídos na vida de nossa heroína, como o vizinho ranzinza Mr. Harrison, a excêntrica Miss Lavendar Lewis, o imaginativo Paul Irving e os gêmeos Davy e Dora Keith que foram adotados por Marilla após episódios infelizes.

Entre as antigas e as novas amizades, Anne de Avonlea está totalmente em sintonia com o primeiro volume. O fato de Anne se tornar professora revela que ela não é mais simplesmente “de Green Gables”, mas agora ocupa um lugar na sociedade de Avonlea. Achei isso significativo, pois mostra que nossa querida heroína firma suas raízes naquela comunidade, tornando-a sua terra natal, sua terra do coração.

Megan Follows, a eterna Anne Shirley, e Jonathan Crombie, o eterno Gilbert Blythe. Adaptação Anne of Green Gables: The Sequel [1987].

Mesmo com todas as qualidades, Anne de Avonlea fica um tiquinho abaixo do livro anterior. Essa leve caída foi pela inclusão dos gêmeos Davy e Dora. Bem, seria injusto dizer que Dora incomoda; afinal a menina é tão boazinha que sofre nas mãos do irmão endiabrado. Por outro lado Davy é um rapazinho problemático que não aprende com seus erros. O romance perdeu o ritmo por causa dessa inclusão que particularmente achei bem desnecessária. Enfim, vamos ver o se eles farão diferença nos volumes posteriores.

Quanto à escrita de Lucy Maud Montgomery, continua tão agradável (*-*). A autora ainda retrata com suavidade os vários detalhes das paisagens e hábitos dos habitantes da Ilha de Príncipe Edward. As emoções são expostas com sensibilidade e modéstia; o humor onipresente traz um alívio nas situações mais escuras e difíceis. Sim, li o romance quase numa sentada de tanto que ansiava por esse encontro com Anne ♥.

Anne de Avonlea, de Lucy Maud Montgomery, não deixou de me surpreender. É sempre uma felicidade acompanhar Anne nas suas peripécias e terminar o livro em um estado leve e com um sorriso de orelha a orelha. Bem, esse é o efeito da companhia de Anne Shirley.

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Título: Anne de Avonlea
Título original: Anne of Avonlea
Autora: Lucy Maud Montgomery
Tradução: Tully Ehlers
Editora: Pedrazul
Páginas: 220
Ano: 2017