Livro: O Curioso Caso de Benjamin Button – F. Scott Fitzgerald

O primogênito do casal Button nasce… Mas aparência do filho surpreende os pais e causa desespero aos funcionários do hospital. O médico que realizou o parto, por exemplo, acredita que sua carreia acabou. Benjamin Button nasce com a aparência de um idoso, não só a aparência, mas falando e do tamanho de um velho, e à medida que os anos passam sua fisionomia regride até se tornar um recém-nascido. Ou seja, sua vida caminha de forma inversa.

Mesmo que inicialmente o patriarca tenha sentido dificuldade em aceitar o singular fato, o senhor Button quis que seu único filho recebesse uma criação normal como qualquer criança de sua classe. Quanto à senhora Button, ela não tem voz durante na narrativa. Com o avançar dos anos, Benjamin segue uma vida em crescente agitação. Fitzgerald não insiste tanto nas frustrações do personagem título. Ao contrário, ele vai se adaptando a sua condição.

Acredito que o tema central do conto não seja a própria anomalia, mas a forma como o protagonista é acusado por sua particularidade. Como se ele tivesse feito isso de proposito; e Benjamin sempre é acusado (*algo bastante comum endereçada a qualquer um que envelhece. Com certeza já ouvimos frases do tipo: “A fulana tá tão velha, né?!”. Como se a culpa por envelhecer fosse da pessoa*). Além disso, o escritor norte-americano critica as convenções sociais da classe abastarda. Essa sociedade que vive de aparência, que não aceita o diferente. Aquele indivíduo que não atende as expectativas terá que fazer um esforço tremendo para se encaixar ao padrão definido como normal.

Outro ponto que para mim ficou em destaque é que independente da ordem cronológica de nosso físico, o meio em que vivemos continua a nos trazer dificuldades. E por fim acabamos tendo o mesmo final na mesma condição de incapazes. Como se a lei da natureza fosse imutável.

O Curioso Caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, publicado originalmente em 1922, trás um realismo fantástico muito bem construído e vamos descobrindo, junto as suas boas críticas sobre a sociedade, que o mais importante para o meio social conservador é a aparência.

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Título: O Curioso Caso de Benjamin Button
Título original: The Curious Case of Benjamin Button
Autor: F. Scott Fitzgerald
Tradução: Rodrigo Breunig
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 56
Ano: 2016

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A leitura de O Curioso Caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

Livro: A Metamorfose – Franz Kafka

Originalmente escrito em 1912 e publicado em 1915, A Metamorfose, de Franz Kafka, narra a curiosa transformação de Gregor Samsa em um inseto e de como ele e a família lidam com a situação. No primeiro momento Gregor, o primogênito provedor, fica horrorizado com sua nova condição. Enquanto que os pais e a irmã caçula espantam-se com a desgraça que assolou a família. Com o cenário imutável, acabam por aceitar o incidente e reorganizarem suas vidas. Ao longo da história, inúmeros pensamentos assolam Gregor e vamos acompanhando sua progressiva degradação.

Acredito que a singular narrativa do autor tcheco seja marcada por múltiplas interpretações. Sendo uma delas importante de destacar, o teor autobiográfico nas entrelinhas da obra que denuncia a conflituosa relação de Franz Kafka com seu pai, Hermann Kafka. Como complemento, até recomendam a leitura de Carta ao Pai.

As situações descritas da condição do primogênito Gregor em carregar a máxima responsabilidade de prover o sustento da família e, junto a isso o claustrofóbico cenário de trabalho que demanda além da capacidade do funcionário, leva o protagonista a um estado de angustia e consequentemente um pesadelo em vida. Em meio a este cenário, Kafka mostra todos os medos do metamorfoseado. Entretanto ele não se esquece do outro lado, o drama familiar dos Samsa. A família sente-se insatisfeita com a modificação de papeis devido à nova condição do filho provedor. O pai, a mãe e a irmã sofrem em carregar as responsabilidades que antes eram de Gregor, apresentando desejos de descartar o incômodo filho inútil.

O momento mais próximo de uma referência objetiva da nova forma de Gregor é quando a nova faxineira o chama de “rola-bosta”. De acordo com o tradutor, no original em alemão Mistkäfer (rola-bosta) tem duplo significado. Pode referir-se a uma pessoa suja e descuidada, ou tratar de um escaravelho qualquer. Importante destacar também que Kafka pediu ao seu editor que não houvesse nenhum desenho da figura do metamorfoseado.

A Metamorfose, de Franz Kafka, apresenta uma qualidade inquestionável, uma força que evoca a autoanalise, o mal-estar e as circunstâncias que as provocam. Além disso, evoca também demônios pessoais do autor. Uma obra que trás um retrato do mais repugnante e triste pesadelo. Um livro que me surpreendeu pelo seu realismo mágico.

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Título: A Metamorfose
Título original: Die Verwandlung
Autor: Franz Kafka
Tradução: Marcelo Backes
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 72
Ano: 2016

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A leitura de A Metamorfose, de Franz Kafka, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

Livro: A Menina Submersa – Caitlín R. Kiernan

a-menina-submersa-caitlin-r-kiernan-limited-editionAssim como sua avó e mãe, India Morgan Phelps, ou Imp, é esquizofrênica (doença psiquiátrica que se caracteriza pela perda do contato com a realidade). Os medicamentos e as consultas com a psiquiatra dão uma aparência de controle na sua vida. A outra maneira que nossa protagonista encontrou para dominar suas assombrações foi na escrita: ela começa a escrever uma autobiografia. Vamos caminhando pelo diário de India, pelas histórias que se confundem com a realidade, a fantasia e a loucura.

O que poderia ser uma experiência interessante em estar perambulando pelos pensamentos, experiências e surtos de uma esquizofrênica, tornou-se uma leitura enfadonha. A inconsistência da protagonista faz parte de sua condição e até dá certa credibilidade a narrativa, mas a grande impressão que ficou foi de que Caitlín R. Kiernan nutriu sua obra com redundâncias, tornando bastante cansativo seguir os mistérios que abrangem India. Mistérios estes completamente previsíveis.

Além disso, todas as personagens, sem exceção, são tão padronizadas que se tornam insuportáveis. Todas apresentam trejeitos e personalidades clichês nada bem desenvolvidos, como a típica personagem “excêntrica” ou o tipo “revoltado”. E o campeão dessa bagunça é o namorado transexual de Imp.

A escritora norte-americana preenche a obra com várias referências literárias e artísticas. Mas nem isso ajudou a tornar o livro agradável. Sinceramente não consegui comprar a história. A Menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan, publicado originalmente em 2012, do qual fiz uma leitura compartilhada no mês de dezembro do ano passado com uma querida amiga, foi uma grande decepção. Romance chula e maçante.

Outra coisa, de hoje em diante vou tentar fugir das indicações do Neil Gaiman. Explico: há um comentário destacado do autor na capa da primeira edição nacional de A Menina Submersa. Pela segunda vez dou certa credibilidade nas palavras do escritor britânico, e pela segunda vez me decepciono completamente com a narrativa (*a primeira foi o quadrinho de Vera Brosgol, O Fantasma de Anya*). Caso eu veja qualquer comentário do Gaiman num livro vou tentar passar longe desse título. Gaiman é um autor excelente, mas não tá indicando nenhuma coisa boa.

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Título: A Menina Submersa: Memórias
Título original: The Drowning Girl: A Memoir
Autora: Caitlín R. Kiernan
Tradução: Ana Resende e Carolina Caires
Editora: DarkSide Books
Páginas: 320
Ano: 2015

Livro: Botchan – Natsume Soseki

botchan-natsume-sosekiEm Botchan, quarta obra de Natsume Soseki, publicada originalmente em 1906, narra à vida de um jovem da capital e de seu período como professor de matemática em Matsuyama, região inóspita do Japão localizada na província de Ehime da ilha de Shikoku. Passamos por sua infância nada agradável, conhecemos sua família que foi posteriormente se desfazendo e a única pessoa que tem real afeto por ele, a empregada Kiyo, que carrega um sonho antigo de viver e trabalhar na casa de seu “botchan”.

O jovem mestre apresenta uma personalidade impulsiva, que o leva a certas dificuldades. No entanto, abrigada uma integridade e honestidade imbatível, sendo sua maior qualidade. Acredito que essas características do personagem título carregam o conceito tradicional japonês de masculinidade. Eu me questiono também se Botchan não seria algum precursor do clássico temperamento das personagens do Shōnen Mangá, já que as características são bastante semelhantes aos desses garotos cheios de entusiasmos.

Chegando a seu destino no interior, a narrativa se desloca em torno do mau caráter dos alunos e de alguns colegas de profissão de Botchan. Por ser propendo a atos imprudentes, a história de sua vida como professor é bastante acidentada, mas devido ao seu temperamento e sua boa qualidade essas peripécias se tornam divertidas. Vibramos junto ao jovem quando ele consegue dar o troco naqueles que o fizeram mal ou a seus amigos igualmente prejudicados.

Quanto ao título original, “botchan” é uma palavra que pode ser traduzida como “jovem mestre”. Na obra de Soseki o termo é usado de forma irônica, já que o protagonista não vem de uma família rica ou de prestígio. Além de seu significado literal, ainda pode ser usado para descrever um jovem de família respeitável, ou alguém que é ingênuo ou malcriado. O autor utilizou a sutiliza da língua japonês no título, e acredito que no vocabulário da narrativa, já que o idioma é cheio de nuances e duplos significados. Até gostaria de saber se o tradutor teve dificuldade na tradução. Pois o romance parece trazer uma série de trocadilhos, que provavelmente são difíceis de encontrar um equivalente.

Botchan, de Natsume Soseki, é um romance muito popular no Japão. Acredito por trazer um protagonista que não se incomode com as convenções sociais e que se choca com a hipocrisia e a falsa moral dos indivíduos. Botchan é uma obra descontraída que trás um protagonista vivaz. Entendo o carinho dos japoneses. Eu, por exemplo, quando li a obra em novembro do ano passado, também criei um carinho especial.

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Título: Botchan
Título original: Botchan, 坊っちゃん
Autor: Natsume Soseki
Tradução: Jefferson José Teixeira
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 184
Ano: 2016