Livro: Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

A obra mais conhecida de Virginia Woolf foi publicada originalmente na primavera de 1925 e inspirada a partir de dois contos: Mrs. Dalloway em Bond Street (Mrs. Dalloway in Bond Streed) e O Primeiro Ministro (The Prime Minister). Tendo como cenário a Inglaterra do pós-primeira guerra mundial em algum dia de junho de 1923, Mrs. Dalloway narra de forma detalhada um dia na vida de Clarissa Dalloway, uma elegante mulher de 50 e poucos anos da alta sociedade inglesa, esposa do politico Richard Dalloway e mãe da jovem Elizabeth, na organização de uma festa que será realizada naquela noite.

Com uma perspectiva interior, a narrativa viaja no tempo, como também dentro e fora da mente das personagens, construindo assim uma imagem da vida de Clarissa e da estrutura social daquele período. Nesse mar de vozes, sendo as principais da heroína e do veterano Septimus Warren Smith, notamos a consciência de cada individuo, percebendo assim a acentuada diferença entre os pensamentos íntimos e a aparência externa. Desses indivíduos conhecemos os traumas de um veterano de guerra; as paixões de um amante; o retorno de um antigo amigo; a evolução dos sentimentos entre conjugues; alianças políticas; discussões de negócios; frivolidades; fofocas; etc. Todos esses caracteres estão entrelaçados, pois todos estão relacionados um com o outro de uma maneira ou de outra. E a senhora Dalloway é o ponto comum entre eles.

Através desses elementos percebidos ao longo da narrativa, a extração de temas pertinentes é abordada, como a presença avassaladora da passagem do tempo (materializado pelo Big Ben) e o iminente destino da morte; a exploração do inconsciente nas neuroses dolorosas de Septimus; crises existenciais; o papel da mulher; a discrepância e a repressão econômica; e por fim a bissexualidade.

A técnica literária que Virginia Woolf trás em seu quarto romance é definido como fluxo de consciência ou fluxo de pensamento, que, pelo menos para mim, é um estilo difícil de captar todos os detalhes numa única leitura. Afinal, cada discurso direto ou indireto trás pensamentos e expressões que são facilmente notáveis e outros guardados nas entrelinhas que aparecem numa próxima leitura.

Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores.

Quanto à escrita de Virginia Woolf, é um estilo laborioso. O fluxo de consciência da escritora britânica chega ao teor de uma exuberância poética. É um estilo refinado, um tanto trabalhoso, mas muito próprio. Pegando o gancho, gostaria de ressaltar que não é por menos que a primeira frase do livro seja tão celebre. É uma frase simples, mas soa tão bonita.

Não sei se pelo momento a leitura infelizmente não fluiu como eu gostaria e acabou sendo nada proveitosa. Mesmo com alguns momentos curiosos, achei o romance enfadonho. Acredito que não estava no clima para lê-lo. No futuro gostaria de reler com outro animo e numa outra edição. Por aqui, tenho a edição da finada Cosac Naify (com tradução de Cláudio Marcondes) e da Nova Fronteira (com tradução de Mario Quintana). Assistindo ao programa Literatura Fundamental sobre Mrs. Dalloway com Noemi Jaffe, ela elogia bastante a tradução de Denise Bottmann, que foi lançada pela editora L&PM. Bem, acho que vou providenciar um exemplar depois. Enfim, reencontrarei Clarissa Dalloway em algum momento da minha vida futura e espero que possamos nos entender melhor.

Mesmo não tendo me animado com Mrs. Dalloway, Virginia Woolf consegue descrever com grande habilidade uma complexa rede de sentimentos e reflexões, desfigurando a fronteira entre palavras e realidade, como também por nutrir uma consistência real a cada personagem através da percepção deles com os outros, com os eventos e com o meio.

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Título: Mrs. Dalloway
Título original: Mrs Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Gabriela Maloucaze
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 190
Ano: 2016

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A leitura de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

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Livro: Vulgo Grace – Margaret Atwood

Publicado originalmente em 1996, Vulgo Grace de autoria da escritora canadense Margaret Atwood, narra à história de Grace Marks, uma jovem acusada de assassinar seu empregador e a governanta. A leitura dessa obra espetacular foi realiza em conjunto com a Michelle, do blog Resumo da Ópera, para nosso projeto Lendo Margaret Atwood (^_^).

O romance de Atwood se inspira em fatos factuais dos famosos assassinatos de Thomas Kinnear e sua governanta Nancy Montgomery por dois criados, James McDermott e Grace Marks, que foram condenados pelo crime em meados do século XIX no Canadá. Enquanto McDermott recebe a pena de morte por enforcamento, Marks é condenada a prisão perpétua. Durante a pesquisa para o livro, a autora encontrou discrepâncias e certa quantidade de embelezamento no caso; incluindo na narrativa essas falhas de conexão para contar sobre a duvidosa honra de Grace ser uma das primeiras mulheres criminosas do país.

Embora o romance seja baseado em fatos reais, a autora constrói com grande destreza uma narrativa incrivelmente bem elaborada, nos conduzindo passo a passo na vida de Grace, seja pela voz da personagem título, seja pelo olhar de terceiros. Acompanhamos a jovem desde sua infância, da migração de sua família da Irlanda para o Canadá, das suas experiências dolorosas num ambiente de extrema pobreza e de violência doméstica, das distintas mudanças que ocorreram na sua vida, da cumplicidade, das certezas e incertezas de variados fatos até o ponto final.

Também descobrimos nesse rico cenário, flagrantes do cotidiano das criadas, das condições do ambiente doméstico, do comportamento frívolo da classe abastada, do sistema judiciário medíocre, dos jornalistas sensacionalistas, do terror dos asilos psiquiátrico e das prisões, das opressões do sistema para com a classe desfavorecida e dos estigmas. Um escrito primoroso que engloba um panorama detalhado de contextos daquele período. E não posso me esquecer das personagens, que são construídas com uma realidade impressionante, cheia de nuances, de crueza nas suas ações e pensamentos mais íntimos.

A interação de Grace com o jovem médico em saúde mental Simon Jordon é um dos momentos instigante do romance. Enquanto que Jordon aceita o caso para atingir um objetivo que lhe será proveitoso; que é o de abrir um asilo particular. Por outro lado, Marks dança conforme a música nas sessões; mesmo que esses momentos sejam uma boa distração da realidade de prisioneira. Nesse envolvimento, ambos, mas principalmente Simon, estão jogando por benefício próprio. Se o jovem médico conseguir provar sua teoria através de seus métodos, ele atingirá um bom benefício; enquanto que Grace nutre uma esperança de ter uma vida fora das grades. Com esse panorama, mesmo que achamos que Grace “manipule” o ingênuo doutor, devemos entender a situação limitada dela, que viu nessa ação de Simon, uma chance.

Esboços de Grace Marks e James McDermott de seu julgamento em 1843. Coleção da Biblioteca Pública de Toronto.

Ah, por favor, não vão pensando que Vulgo Grace é um thriller psicológico que lhe entregará mastigado a solução do caso. Essa não é a essência do romance. Acredito que Atwood quis mostrar nessa obra a gritante diferença de classe e a submissão dos desfavorecidos, principalmente da mulher pobre. Bem como comparar o caráter moldado daqueles que vivenciaram os percalços da vida, dos indivíduos de família de meios que estão desconexos da realidade. Todos os elementos da vida da protagonista, bem como de todas as personagens que cruzam seu caminho, estão ai para mostrar a realidade injusta do sistema como um todo. Então o fato de Grace ser ou não culpada fica completamente em segundo plano. Até porque nem se sabe realmente se ela foi um instrumental no assassinato, ou simplesmente um acessório que agiu de forma involuntária.

Quanto à escrita de Margaret Atwood, ela é primorosa e extremamente viciante. Chega a impressionar como suas palavras exalam uma espiritualidade e sensibilidade social daquele período, seja nas vozes altas e nos pensamentos, como dos momentos comuns e dos fenômenos sobrenaturais. Apreciei também os anexos, como as citações, trechos de jornais e outros elementos que complementaram a reunião das peças dessa trama. Margaret tem um estilo tão próprio, tão grandioso, que eu fico impressionada como alguém consegue ser tão maravilhosa. Me faltam elogios para afirmar o quão Atwood tem uma escrita poderosa.

Ao entrelaçar fatos históricos com ficção, Margaret Atwood trás em Vulgo Grace uma narrativa fascinante, cheia de nuances e riquezas. Um belo escrito da sociedade e de seus mecanismos. Um romance que merece todos os louvores por sua estrutura narrativa impecável. Sem sombra de dúvidas, uma das melhores leituras deste ano (*-*).

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Título: Vulgo Grace
Título original: Alias Grace
Autora: Margaret Atwood
Tradução: Geni Hirata
Editora: Rocco
Páginas: 496
Ano: 2008

Livro: Tsugumi – Banana Yoshimoto

Tsugumi, de Banana Yoshimoto, foi publicado originalmente em 1989 e agraciado em março do mesmo ano com o prêmio literário concedido a livros que se destacam por sua arte narrativa, o Yamamoto Shugoro.

Baseado em suas férias de verão na costa oeste da Península de Izu, em si mesma e na sua amizade com duas Yoko, Yoshimoto narra a relação de duas primas com personalidades bastante distintas. A história começa quando a estudante universitária Maria Shirakawa, a narradora, se muda para Tóquio com sua mãe depois de morar boa parte da vida com parentes maternos numa pousada da cidade litorânea da Península de Izu. A convite de sua prima Tsugumi, Maria retorna à sua cidade natal durante o verão para lembrar os bons momentos, pois a estalagem será em breve vendida. Nessas páginas que marcam o último verão de Maria, ela conta os momentos mais marcantes da conexão com sua instável prima.

Tsugumi sofre desde pequena de uma doença não especificada que a impede de se esforçar demais. Sendo uma fonte constante de preocupação para sua família, a personagem que dá título ao livro tem uma personalidade difícil. Ela é bastante mimada, carente e indelicada. Por seu caráter grosseiro, a relação que ela tem com seus familiares chega ao teor do desagradável. Entretanto, com o avançar da trama entendemos o lado revoltado da enferma Tsugumi e boas qualidades são reveladas dessa figura rude. Assim tanto os familiares como nós, leitores, tentamos compreender sua língua ácida. E é por essas revelações que a potente figura de Tsugumi acaba roubando a posição da narradora, tornando-se a protagonista dessa despretensiosa narrativa.

Particularmente gostei da tímida Yoko e posteriormente de Tsugumi, mas tive uma simpatia maior pela narradora. A voz de Maria é bastante intima. Às vezes ela parece triste, em outros esboça uma alegria sincera. Um dos detalhes que mais amei no romance é como as coisas mundanas acontecem de forma natural. Ainda acrescento a essa lista, a maneira espontânea que as personagens se relacionam.

Banana Yoshimoto

A obra de Banana Yoshimoto não trás grandes personagens nem empolgantes desfechos, mas a simples narrativa apresenta uma complexidade sobre a nostalgia agridoce, sobre a consciência da passagem do tempo, sobre a fragilidade… Enfim, sobre uma série de questões da vida comum, das relações e dos cenários que chegam e se vão, da memória, do presente e do futuro. Eu adorei essa narrativa pelo encanto das palavras que a autora tece sobre vulnerabilidade e mudança.

Tsugumi, de Banana Yoshimoto, apresenta em suas palavras singelas uma obra profunda e cheia de identificações. Eu adorei as personagens, o clima, a maneira simples que a autora conduz essa narrativa totalmente sem pretensões, mas grandiosa nas sensações que ela provoca. Revelo ainda que era difícil não ansiar por virar cada página. Mas preferi dosar a leitura, apreciar essas passagens aos poucos. Acredito que por isso a obra foi tão poderosa para mim.

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Título: Tsugumi
Título original: Tsugumi, つぐみ
Autora: Banana Yoshimoto
Tradução: Lica Hashimoto
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 184
Ano: 2015

Livro: O Garoto do Riquixá – Lao She

O Garoto do Riquixá, do romancista e dramaturgo Lao She, foi publicado incialmente em parcelas na revista Yuzhoufeng a partir de janeiro de 1937, tendo a revista parado com a publicação devido à eclosão da guerra contra o Japão no verão do mesmo ano. Posteriormente, após uma série de sorte e má sorte, os 24 capítulos foram finalmente compilados e lançados em livro.

Ambientada na Beijing dos anos 1920 e 1930 e baseado em histórias reais de puxadores de riquixá, o romance narra a trajetória angustiantes de Xiangzi, apelidado de “Camelo”. O protagonista é um rapaz honesto que deixou sua terra natal para ganhar a vida na capital como condutor de riquixá. Xiangzi nutre um desejo de comprar o próprio veículo para se tornar um trabalhador autônomo. Com esse objetivo firmado, ele segue com grande perseverança, sem se desviar um único milímetro do caminho, de atingir esse propósito. Mesmo dando seu sangue e suor, a vida, personificada na inocência do protagonista, como nos patrões mal-intencionados ou por figuras interesseiras, dá rasteiras que torna a capacidade de se reerguer cada vez mais difícil.

Inicialmente eu pensei que O Garoto do Riquixá fosse aquele típico dramalhão a lá novela mexicana (*que eu adoro*), mas o drama que Lao She trás em seu escrito é algo mais cru. Ou seja, um drama que tem maior impacto, que nos faz ficar com o coração apertado com a sequência de má sorte de Xiangzi, bem como de outros que cruzam a vida do protagonista que estão em condições similares ou ainda piores. Essas sucessivas quedas acontecem não por culpa desses personagens, mesmo que algumas vezes nos irritemos com a atitude de alguns deles, mas por o sistema vigente daquele período ser extremamente injusto e mortal para os desafortunados.

Acredito que a obra de Lao She foca na exploração, no individualismo e na ausência de dignidade humana. Mas acima de tudo serve para mostrar que a falta de condições materiais na vida pode transformar o caráter de qualquer indivíduo. Quando a “vida” lhe dá inúmeros pontapés e não mostra uma perspectiva de melhoria, nota-se como é cada vez mais difícil aguentar tantas pancadas, tantas injustiças. Um indivíduo verdadeiramente estraçalhado, como ficou Xiangzi, poderá perder completamente a esperança e acabar por nutrir uma magoa crescente ao ponto de explodir num comportamento agressivo. Já em alguns casos, como o da infeliz Xiaofuzi, a solução da intensa dor causada pelo grande sacrifício em tentar no mínimo sobreviver, é deixar de existir.

Estátua do condutor de riquixá Xiangzi, localizada no Museu Camel Xiangzi em Qingdao, na província de Shandong, na República Popular da China. Museu dedicado ao escritor Lao She.

Inicialmente eu pensei que a época em que se passa à narrativa de O Garoto do Riquixá fosse mais bem contextualizada, pois além de serem anos que carregaram diversos problemas da dominação estrangeira do final do século XIX; da Primeira Guerra Mundial; bem como da divisão do país que se estendeu com o surgimento dos Senhores da Guerra, sendo o vencedor dessa luta o líder militar Chiang Kai-shek do partido conservador chinês Kuomintang; e posteriormente as tentativas de Kai-shek em erradicar os comunistas; tornaria o cenário de Xiangzi mais instigante. Porém como suspeitei os fatos históricos foram mostrados timidamente, trazendo referências como os soldados e a perseguição aos cidadãos com ideais progressistas. Até entendo a dosagem, afinal foi uma época bastante conturbada e tensa na China.

Quanto à escrita de Lao She, ela é bastante singela. Gostei do estilo do autor por se aproximar dos pensamentos comuns, trazendo como resultado uma fluidez natural à leitura. Deve ser interessante ler no original, pois pelo que entendi no ótimo texto Como escrevi O Garoto do Riquixá (datado de 7 de julho de 1945), que está em anexo na edição nacional, as expressões do dialeto de Beijing estão na escrita tornando-a uma linguagem límpida e direta. Ou seja, popular. Também fiquei curiosa com outros títulos do escritor mencionados, como, por exemplo, A Cidade dos Gatos e Quatro gerações sob o mesmo teto.

Considerado um clássico da literatura chinesa do século XX, O Garoto do Riquixá, de Lao She, não é um romance bonito. Na verdade é uma obra triste que mostra com sensibilidade como um ambiente desestabilizado que carece de condições mínimas para o bem-estar dos indivíduos, estraçalha o pilar e aniquila a esperança do simples ato de viver.

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Título: O Garoto do Riquixá
Título original: Luotuo xiangzi, 骆驼祥子
Autor: Lao She
Tradução: Márcia Schmaltz
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 336
Ano: 2017

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.