Livro: Contos da Tartaruga Dourada – Kim Si-seup

Contos da Tartaruga Dourada, de Kim Si-seup, é um escrito datado do século XV considerado a ponto fundador da prosa coreana. Supõe-se que as narrativas dessa coletânea foram escritas quando Si-seup mudou-se para a Montanha da Tartaruga Dourada, onde viveu por sete anos. Por isso a escolha do título acaba reforçando ainda mais a importância do caráter histórico dessa prosa, que provavelmente foi escrita na década de 1470.

A edição publicada pela Editora Estação Liberdade e organizada pela tradutora e professora Yun Jung Im, trás cinco surpreendentes contos, chamados: Um jogo de varetas no Templo das Mil Fortunas; Yi espreita por cima da mureta; Embriaguez e deleite no Pavilhão do Azul; Visita à Terra das Chamas Flutuantes do Sul; e O baquete esvanecido no Palácio do Fundo das Águas.

Em todos os contos são apresentados o mundo dos humanos misturando-se as divindades, reinos imortais, amor entre vivos e mortos, episódios históricos (como a invasão de piratas japoneses) e outras fantasias da cultura coreana. Mesclado à junção dessas duas realidades distintas, ensinamentos filosóficos e religiosos, como as doutrinas do taoísmo, budismo, xamanismo e neoconfucionismo, incrementam o panorama das prosas. Combinado a essa riqueza de narrativas, a escrita de Si-seup trás um lirismo junto às características de diversas crenças e mensagens para a vida.

Na época desses escritos, na Dinastia Joseon (Reino das Manhãs Calmas; de 1392 a 1897), a Coreia estava passando por mudanças importantes no âmbito governamental. O budismo tinha uma forte influência no sistema politico, administrativo e econômico dos reinos coreanos há quase um século. Por esse sufocante domínio, determinou-se o banimento do controle da instituição religiosa sobre o sistema, para a construção de um estado com princípios do sábio Mêncio, filosofo chinês do século IV a.C. e seguidor do confucionismo.

Pintura dos Dez Símbolos Tradicionais da Longevidade. 십장생도. Os dez símbolos tradicionais da longevidade são o sol, as montanhas, a água, as rochas, os pinheiros, as nuvens, os bulaocao (planta Costus Spicatus), as tartarugas, os gruidae (conhecidos também como grous) e os cervos. Derivados da filosofia taoísta, esses elementos eram tradicionalmente objetos de adoração da natureza.

Um episódio parecido aconteceu no Japão do século VIII, quando a capital era Heijō-kyō (atual Nara; de 710 a 784; entre esse tempo teve duas outras breves capitais). Em resumo, o budismo nesta época tinha forte controle da região. Por causa disso, o Imperador Kammu mudou a capital japonesa primeiramente para Nagaoka-kyō (de 784 a 794) e posteriormente transferiu para Heian-kyō (atual Kyoto; de 794 a 1868).

Porém, nos contos, elementos budistas estão entre os ensinamentos. Mesmo que a Coreia estivesse passando por uma transição, e de acordo com Yun Jung Im tal evento era um grande choque de identidade interno do autor, concluí que Si-seup não se referia a fé, mas a nível institucional. Ou seja, isso não significa o extermínio da religião, da fé das pessoas, mas da instituição budista, do controle religioso no governo. Mas questões assim nunca são simples e normalmente não tem um único motivo.

No conto Visita à Terra das Chamas Flutuantes do Sul tem um elemento na narrativa que eu acreditava ter aparecido somente no mundo da literatura na publicação do livro infantil Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, em 1865. Mas não, no século XV Kim Si-seup já o utilizou (*fico pensando se existem outras narrativas orientais mais antigas utilizando tal elemento*).

Contos da Lua Vaga (1953) e Kwaidan (1965) ♥

Meus contos preferidos do livro foram Um jogo de varetas no Templo das Mil Fortunas e Yi espreita por cima da mureta, mas principalmente o primeiro. Eu gostei demais do clima sombrio, histórico e de devaneio de Um jogo de varetas no Templo das Mil Fortunas. E esse título é tão estiloso (*-*). Esse conto me lembrou dos filmes Contos da Lua Vaga (1953), do diretor Kenji Mizoguchi, e a primeira história – O Cabelo Negro – do longa Kwaidan (1965), do diretor Masaki Kobayashi. Dois filmes clássicos japoneses que eu adoro ♥ e recomendo fortemente (^_~).

Para completar a leitura, várias notas de rodapé estão espalhadas e nos ambientando quanto às referências históricas e culturais importantes daquele período. Eu fiz várias marcações! Tornando nossa leitura ainda mais rica, foram incluídos três excelentes textos escritos por Yun Jung Im, mostrando um panorama detalhado e bastante interessante do contexto histórico e cultural da obra e da vida de Kim Si-seup.

Um ponto importante para destacar sobre Contos da Tartaruga Dourada é da obra original ter sido redigida em ideogramas chineses, sendo a escrita vigente no reino coreano, mas principalmente da classe dos letrados que a consideravam de maior valor. A escrita coreana hangeul, inventada pelo Rei Sejong em 1443, ainda estava sendo firmada no país. Posteriormente os escritos de Kim Si-seup foram traduzidos para o idioma coreano.

Por ser uma obra amplamente lida, acredita-se também que o autor coreano teve influencia numa novela chinesa intitulada Jiandeng Xinhua (Histórias novas ao apagar das lanternas), de Qu You, datado de 1378. Mesmo com grande referência nos clássicos chineses, Kim Si-seup trás em suas histórias reflexões filosóficas bem interessantes acerca de um contexto histórico de transição do Reino das Manhãs Calmas.

Retrato de Kim Si-seup (1435–1493)

Outras informações que achei curiosas foram o sucesso da obra no Japão e de um inesperado achado numa biblioteca chinesa no final do século XX. Enquanto os escritos de Kim Si-seup caiam no esquecimento em seu país de origem, um volume havia sido levado ao Japão na década de 1660, provocando uma redescoberta e ocasionando seguidas impressões em xilogravuras e reeditado em 1884. Já em 1999 uma edição coreana em xilogravura datada do século XVI, cerca de cinquenta anos depois da morte do autor, foi encontrada numa biblioteca chinesa. Em ambas as edições trazem ao final a expressão “Volume Primeiro”, indicando a existência de mais volumes. Esses acontecimentos inesperados são tão empolgantes (“\^-^/”).

Com suas narrativas de títulos simples, mas imponentes, Contos da Tartaruga Dourada, de Kim Si-seup, é um livro que trás em sua prosa poética uma arte literária multifacetada da literatura fantástica e da filosófica. Carregando também em suas entrelinhas uma importância histórica e cultural da Coreia. Um escrito que merece ser gravado em ouro e considerado tesouro de nossa estante.

Para mais informações do livro, do autor, da tradutora e do evento de lançamento (*parece ter sido tão legal*), recomendo que acesse a página destina especialmente a obra de Kim Si-seup, Contos da Tartaruga Dourada.

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Título: Contos da Tartaruga Dourada
Título original: Geumo Sinhwa, 금오신화
Autor: Kim Si-seup
Tradução: Yun Jung Im
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 176
Ano: 2017

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

Mangá: Akira (Volume 1) – Katsuhiro Otomo

Originalmente publicado entre 1982 e 1990 nas páginas da revista Young Magazine e posteriormente reunido em seis volumes pela editora Kodansha, o tão aguardado mangá Akira, de Katsuhiro Otomo, ganhou finalmente recentemente uma sublime edição nacional que já está ao alcance das mãos (*-*). Os seis volumes do seinen de Otomo são intitulados: Tetsuo, Akira I, Akira II, Kei I, Kei II e Kaneda.

Hoje trago minhas impressões do primeiro volume: Tetsuo (*Tetsuooooooooo! para os íntimos*).

A narrativa começa em 1982, com uma bomba explodindo em Kanto, sendo este evento o estopim de uma guerra em escala mundial. Após trinta e oito anos da Terceira Guerra Mundial, estamos na Neo Tokyo de 2019 D.C. em seu estado terminal. É neste contexto de decadência, que vamos acompanhar os dois adolescentes delinquentes Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima, que fazem parte de uma gangue de motoqueiros. Nas andanças por partes inativas da cidade, Tetsuo sofre um acidente ao cruzar o caminho de uma assustada criança com o rosto enrugado e o número 26 escrito na palma da mão. Muito ferido, Tetsuo é apoiado por um instituto misterioso. O ultimo alimenta projetos estranhos e torna Tetsuo uma cobaia para seus experimentos. Quanto a Kaneda, ele acaba conhecendo membros da resistência que tem como objetivo impedir o desenvolvimento do Projeto Akira.

O primeiro volume de Akira já começa a envolver o leitor de forma definitiva. Não é por eu conhecer essa obra maravilhosa que estou dizendo isso, mas pela capacidade de Otomo de fisgar nossa atenção neste mundo pós-apocalíptico impecavelmente bem desenvolvido. Enalteço este clássico dos mangás em primeiro lugar porque o enredo é emocionante, como também porque o autor consegue desenvolver os elementos presentes na trama com grande dinamismo. E o fato da edição não ter capítulos causa o difícil problema de não lagar o volume até a última página.

Quanto à arte de Katsuhiro Otomo, ela reflete o estilo dos anos 80, e o que poderia ser um traço datado, torna-se um estilo bastante próprio. A arte de Otomo tem surpreendente dinamismo e detalhe. Também gosto da organização dos quadros, todos cuidadosamente elaborados nos ambientes representados e possibilitando uma imersão eficaz na história. Por fim, eu adoro as caras e bocas do Kaneda, hahahaha.

Essa edição que a JBC trouxe é a versão definitiva de Akira. O trabalho editorial foi controlado pelo próprio mangaká e pela editora japonesa Kodansha. Ou seja, a partir de agora as edições de Akira publicadas no mundo terão o mesmo formato e as mesmas características, como por exemplo, à preservação das onomatopeias. Particularmente achei a edição muito bem cuidada e o formato 17,8 x 25,6 cm nos ajuda a perceber mais os detalhes das cenas, que são cheias de elementos. O único ponto negativo é o preço, que convenhamos machuca o bolso. Quanto a não tradução da orelha, foi um pedido do autor. Por isso a forma original do texto (em inglês e mandarim) fora mantida. Mas a JBC traduziu a orelha do texto em inglês e você pode conferir a tradução aqui.

No entanto esta não é a primeira aparição de Akira por aqui. A primeira vez que Akira apareceu no Brasil foi pela Editora Globo, entre anos de 1990 e 1998, numa edição tipo revistinha, com páginas espelhadas e colorizadas, tendo suas capas redesenhadas e totalizando 38 revistas. Uma heresia, sem dúvida. Mas naquela época o acesso ao material era através dos norte americano que trabalhavam dessa estranha forma.

♥ Akira ~ Meu Mangá, DVD e Blu-ray ♥

Para quem acompanhou Akira por essa antiga publicação ou por scanlacition, conhecem a grande potência dessa obra. E para aqueles que desconhecem, vá imediatamente assistir ao filme lançado em 1988, com sua animação e trilha sonora fodástica. Para ambos os casos, recomendo fortemente a aquisição da edição definitiva (^_~). Ah, quando o mangá for concluído por aqui, comento sobre a animação. Eu adoro esse filme! (*-*)

Com os eventos que cercam Kaneda e Tetsuo, os mistérios relacionados ao Projeto Akira e a evolução das personagens neste grande enredo, o mangá de Katsuhiro Otomo apresenta uma narrativa complexa para descobrir e redescobrir. Claro que depois deste primeiro volume, Akira está longe de ter revelado todos os seus segredos. Aguardemos com ansiedade o avançar da narrativa no segundo volume.

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Título: Akira
Título original: Akira, アキラ
Autor: Katsuhiro Otomo
Volume: Vol. 1 – Tetsuo
Tradução: Drik Sada
Editora: JBC
Páginas: 362
Ano: 2017

O cosmo de Seiji Yokoyama subiu até o céu como uma estrela.

Minha homenagem ao meu amado e inigualável compositor Seiji Yokoyama (横山菁児), que faleceu no último dia 8 de julho aos 82 anos.

{!} Disponible: Sous-titres en Français

Descanse em paz.

Impressões de Berserk (2017)

Ano passado compartilhei com vocês minhas primeiras impressões do novo anime Berserk, incluindo também um panorama da minha relação com a obra e das animações anteriores.

Quem acompanhou a primeira parte do novo anime, ou seja, os doze primeiros episódios lançados no Japão entre 1º de julho a 16 de setembro de 2016, notou que o Arco da Convicção foi reduzido. Este arco do Guts em busca da Casca com o medonho inquisidor Mozgus e seu grupo de torturadores da Ordem Religiosa da Santa Fé como antagonistas, é um dos momentos mais angustiantes e de teor violento do mangá. Mesmo bastante resumido, perdendo partes bacanas da trama e tendo como consequência alguns momentos apressados, no geral não achei o resultado tão desastroso e acredito que os produtores conseguiram repassar os elementos mais importantes.

Então seguimos para os doze episódios seguintes, que foram lançados no Japão entre 7 de abril e 23 de junho de 2017, e inicia o longo Arco do Império Milenar do Falcão. A continuação do anime apresenta inicialmente o breve reencontro de Guts com Griffith renascido; a aparição dos apóstolos comandados por Griffith em seu Novo Bando do Falcão; a formação do novo grupo de Guts, com Ishidoro, Farnese, Serpico e posteriormente com a bruxa Schierke; Guts vestindo a armadura amaldiçoada Berserker; e finaliza com uma ponta para a próxima temporada.

Irvine, apóstolo.

Conclui o anime na semana retrasada e estou com aquele vazio de uma obra tão boa não estar mais presente na minha vida. Sim, é nesse nível de exagero, hahahahaha.

Como a metade anterior houve uma redução significativa da trama mostrando apenas os pontos chaves, achei que os episódios iniciais do Arco do Império Milenar do Falcão foram melhores trabalhados. Mesmo cortando alguns momentos, você sente que a história flui com mais naturalidade. Por isso foi incrível acompanhar a continuação ♥.

E quando Guts finalmente veste a Berserker meu coração acelerou (*0*). A música Ash Crow, do compositor Susumu Hirasawa, tornou o clima desse momento tão aguardado um misto de sensações ao telespectador e de uma esperança duvidosa para Guts que poderá ter seu espírito dominado pela armadura.

Momento épico de Guts vestindo a armadura Berserker (legendado em português pela equipe do Saikô Animes):

Ai meu corassaum!!! (((o(*゚▽゚*)o)))

Esperava ver um dia este momento animado. Estou suspirando até agora ♥. Acho que já revi o 9º episódio (ou 21º episódio) umas dezenas vezes (^o^ ~ hahahaha).

Quanto à animação em CG (Computação Gráfica), mesmo achando desengonçada, consegui aproveitar bastante esses episódios. Acredito que tenha me acostumado. Porém cooperou o fato da sequência estar bem melhor trabalhada que os episódios do ano passado, causando aquela boa expectativa ao apertar o play (^_^).

Depois de concluir o anime, eu fiquei com vontade de reler o mangá. Acompanhando a obra de Kentaro Miura desde sua primeira publicação no Brasil, aquela edição (fuleragem) meio-tankōbon. Se não me engano é o título que acompanho há mais tempo. Atualmente estou adquirindo as nova edição tankōbon da editora Panini. Enfim, não sei se virei comentar alguma coisa sem pretensão por aqui. O tempo anda tão escasso, mas quem sabe aparece alguma coisa. Só não prometo (>_<).

No mais, aguardo com ansiedade a sequência (^-^/).