Livro: A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

A poetisa norte-americana Sylvia Plath publicou seu primeiro e único romance um mês antes de seu suicídio em 1963. A Redoma de Vidro é considerado um roman à clef, ou seja, de caráter (semi) autobiográfico, onde a ficção é somente uma fachada para os elementos da vida real.

Estamos nos Estados Unidos dos anos 50, a jovem estudante de literatura originária da periferia de Boston, a narradora Esther Greenwood, ganha, com outras moças sortudas, um estágio de verão em uma importante revista em Nova York. No entanto, Esther não se sente animada com a vida glamorosa da cidade grande e acaba se sentido desorientada. Após o fim do estágio, ela retorna a sua casa em Massachusetts sem ânimo e com uma série de questionamentos sobre o melhor caminho a trilhar. Porém, sua mente é jogada num turbilhão de frustrações. Cada vez mais deprimida e incapaz de dormir, sua mãe a incentiva a procurar um psiquiatra, onde ele prescreve a desumana eletroconvulsoterapia (ECT), também conhecido por eletrochoques. Depois dessa experiência terrível, o estado mental de Esther piora…

Com uma linguagem poética, mas ao mesmo tempo sombria, os questionamentos da jovem Greenwood sobre o significado de sua vida são bastante angustiantes. Tem sido dito que o sofrimento dela veio do dilema quanto ao papel de mãe e esposa contra o desejo de escrever / ter uma carreira. Em resumo, o limitado papel da mulher na sociedade e o valor baixo desta. Mas, eu senti algo um pouquinho diferente. Tive a impressão de que a protagonista estava sofrendo quanto às questões existenciais mais profundas, bem como da exaustão moral… Talvez Esther tenha revelado uma lucidez na tragédia do que é a vida. Acredito que o forte questionamento da narradora do porque tentar se tudo é tão difícil de adquirir, traduz a tristeza do que é viver nas regras desse cruel sistema, principalmente quando se é mulher em condições materialmente limitadas.

Sylvia Plath ♥

Através de Esther, Sylvia revela que desligou o botão automático para viver. Há quem consiga desligar e seguir organizando as íntimas questões, mas outros não aguentam e caem no desespero que envolve essa interrupção. Infelizmente sua morte racional é o resultado mais trágico quando a cortina da fantasia que engloba a fachada da vida se fecha e a realidade nua e crua é percebida. Por esses elementos que A Redoma de Vidro é tão querido, pois os leitores de alguma forma, alguma vez, se identificaram nessas dúvidas tão intensas e ao mesmo tempo tão confusas. Afinal, as questões de Esther vieram de Plath, então, como qualquer pessoa que vive neste mundo propositalmente conturbado, acontece de nos fazermos também essa difícil auto-interrogação quanto a nossa realidade, as nossas escolhas, aos nossos propósitos, as nossas opções fornecidas (que estão ligadas às condições materiais), as nossas frustrações e principalmente a incompreensão da real fonte desta angústia.

Um dos momentos que senti um intenso desamparo na narrativa de Plath, foi na parte da primeira seção de eletrochoque, quando ela descreve o processo e suas sensações de sofrimento, de desorientação e principalmente de desamparo. Sério, eu não consegui conter as lágrimas. A frase “Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de tão terrível.” (p. 140) foi um golpe poderoso demais para passar despercebido.

Quanto à metáfora do título, acredito que a autora desenvolve a figura da redoma de vidro ao crescente aprisionamento do indivíduo, estando este em qualquer lugar, ao seu próprio ar viciado. Ar este que paira, oprime, sufoca e denegri ao ponto de se tornar insuportável, de desejar um fim para tanta dor.

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, é um romance que trás uma beleza perturbadora nas suas idas e vindas do presente ao passado de Esther. Sendo minha primeira leitura a narrativa visceral me deixou sem fôlego ♥; mas acredito ser exigida uma releitura para melhor compreender as entrelinhas. Espero reler esta obra impecável no futuro próximo, em conjunto com Diários de Sylvia Plath (1950 – 1962) que está me esperando na estante, pois este clássico do século XX realmente crava na alma.

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Título: A Redoma de Vidro
Título original: The Bell Jar
Autora: Sylvia Plath
Tradução: Chico Mattoso
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 240
Ano: 2016

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A leitura de A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

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Livro: O Gato e as Orquídeas – Kwong Kuen Shan

Após a publicação de O Gato Filósofo e O Gato Zen, a artista chinesa Kwong Kuen Shan volta com mais uma preciosidade dessa coleção, nos apresentando O Gato e as Orquídeas. Publicado originalmente em 2015, este charmoso livro apresenta 40 novas aquarelas que reproduzem o charme da criatura mais perfeita do universo, claro que me refiro aos gatos, em conjunto com a beleza das flores.

Antes de imergimos na obra, há uma introdução que nos apresenta sobre a linguagem e simbolismo das flores na República Popular da China. Lá se acredita que as flores têm Qi, ou seja, uma energia vital. É essa energia interna que permite o rejuvenescimento das flores em retornar ano após ano. Também se atribui as flores como símbolos da vida e modelos de virtudes. Por exemplo, às orquídeas, tem como significado a pureza, a serenidade, a nobreza e o afastamento da vida mundana. No final da obra uma pequena introdução aos diferentes selos chineses é exibida e por fim há uma parte dedicada aos agradecimentos.

Como nos livros anteriores, as pinturas são acompanhadas por poemas, provérbios ou ditados populares da milenar cultura chinesa. Esses trechos foram escolhidos, e alguns adaptados à linguagem contemporânea, pela própria artista. Vemos, e para muito de nós leitores ocidentais conhecemos, as figuras de Han Yu (escritor, poeta, influenciador do neoconfucionismo e funcionário do governo da dinastia Tang [618 – 907]), Hung Ying-Ming (filósofo do final da dinastia Ming [1368 – 1644]), Cao Xueqin (escritor durante a dinastia Qing [1644 – 1912]), entre outros.

Segue meus trechos preferidos de O Gato e as Orquídeas:

(clique na imagem para ampliar)

Eu fiquei bastante curiosa pelo filósofo Hung Ying-Ming e pelo escritor Cao Xueqin. Pesquisando sobre essas duas personalidades, Hung é uma figura historicamente enigmática, enquanto que uma das obras de Cao Xueqin está entre os quatros grandes romances clássicos da literatura chinesa, chamado: Sonho da Câmara Vermelha (título original: 紅樓夢, Hónglóumèng), também conhecido com o título A História da Pedra. Lendo o resumo da obra clássica de Xueqin, me parece ser um romance instigante e cheio de dramas (*-*). Gostaria muito de ler!!! Então, fica aqui minha sugestão a Editora Estação Liberdade pela publicação de Hónglóumèng (*por favorzinho!*).

Quanto às aquarelas de Kwong Kuen Shan, notasse que são baseadas no elegante estilo clássico chinês, porém em O Gato e as Orquídeas o traço está forte e as cores mais vibrantes; o que difere do traço e cores suaves de O Gato Filósofo. Como o título sugere na maioria das artes o gato é acompanhado por uma flor, sendo a orquídea a principal entre elas. Ainda fico encantada com o olhar observador da artista quanto aos trejeitos dos gatos, pois as posturas desse pequeno e encantador felino são semelhantes da realidade (*eu que tenho uma gatinha, a vi retratada em várias imagens (=^.^=)*) Falando na Artemísia, ela adorou o livro e agradece a humana por afirmar a superioridade dos gatíneos, hahaha.

Artemísia, a gata tricolor ♥.

O Gato e as Orquídeas, de Kwong Kuen Shan, é um delicado, colorido e acalentador livro (*adoro o projeto gráfico quadradinho da edição nacional, pois dá para apreciar melhor as encantadoras aquarelas*). Uma obra totalmente necessária para os apaixonados por animais, mas principalmente aos que amam gatos (os tão conhecidos gateiros). Também indico aos leitores que apreciam livros confortáveis. Enfim, é necessário ter O Gato e as Orquídeas na estante, já que é o tipo de obra para manter em mãos e folhar de vez em quando.

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Título: O Gato e as Orquídeas
Título original: Le Chat à l’orchidée
Autora: Kwong Kuen Shan
Tradução: Denise Bottmann
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 96
Ano: 2018

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

Mangá: Card Captor Sakura – Clear Card Arc ~ Vol. 2 – CLAMP

Após o nostálgico reencontro com Sakura Kinomoto no primeiro volume de Card Captor Sakura – Clear Card Arc, continuamos a seguir no segundo tomo, que foi publicado originalmente em 2017 pela editora japonesa Kodansha, os recentes eventos que incluem a inativação das Sakura Cards / Clow Cards, o surgimento de novas cartas transparentes e o sonho com a silhueta da figura misteriosa. Entretanto nossa protagonista e seus companheiros ainda não encontraram nenhuma pista sobre os fenômenos enigmáticos.

Envolta dos enigmas citados, o interessante deste volume vêm das relações entre os personagens. Enquanto aproveitamos os momentos descontraídos de Sakura com seus amigos na Escola Secundária Tomoeda (Chiharu Mihara, Naoko Yanagisawa e Takashi Yamazaki estão de volta; já Rika Sasaki está ausente, pois é citado no primeiro tomo que ela agora estuda em outro estabelecimento) e na decisão de qual clube eles participarão (nossa heroína permanece no clube das pom-pom girls), a chegada de uma nova aluna, chamada Akiho Shinomoto, e que por ser um doce de pessoa logo ganha à simpatia de Kinomoto, trará novos momentos serenos ou estará envolvida nos mistérios mágicos?

Quanto ao núcleo dos personagens principais, Sakura, Keroberos (carinhosamente chamado de Kero), Tomoyo Daidouji e Yukito Tsukishiro / Yue seguem seu próprio caminho na resolução das questões das cartas transparentes (neste tomo três novas cartas foram acrescentadas ao baralho: source / aqua, reflet / reflect e déplacement / action), enquanto que Shaolan Li e Eriol Hiiragizawa continuam alimentando um segredo que nos mantém em suspense. Ah, no final do volume há uma divertida história extra chamada Kélo et Spinel avant le commencement (tradução livre: Kélo e Spinel antes do começo).

Mesmo o segundo volume não tendo reviravoltas (o que é previsível e normal), acredito que Card Captor Sakura – Clear Card Arc está sendo desenvolvido com a mesma atmosfera do mangá clássico. Até o momento o grupo CLAMP está sendo bem sucedido em manter ancorada essa sequência aos 12 volumes.

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Título: Card Captor Sakura – Clear Card Arc
Título original: Kādokyaputā Sakura Kuriakādo-hen, カードキャプターさくら クリアカード編
Autoras: CLAMP
Volume: Vol. 2
Tradução: Lamodière Fédoua
Editora: Pika
Páginas: 160
Ano: 2018