Livro: Querida Konbini – Sayaka Murata

Originalmente publicado em 2016, Querida Konbini é uma famosa obra da autora nipônica contemporânea Sayaka Murata. Ao longo de sua carreira como escritora, Murata trabalhava meio período numa konbini (loja de conveniência japonesa) de Tóquio. Ela então tomou como base sua experiência como funcionária na criação de seu célebre romance.

Na idade em que todas as amigas de infância têm empregos estáveis, maridos e filhos, a tranquila Keiko Furukura de 36 anos nunca se envolveu romanticamente, ainda mora na quitinete alugada e continua a trabalhar na mesma konbini que começou quando era estudante universitária.

Desde a infância Keiko não era como as outras crianças, ela era considerada pela família e pela escola uma peça desajustada. Percebendo que suas atitudes pragmáticas não eram bem vistas, para se adaptar ao convívio social a jovem tenta pinçar elementos dos trejeitos de seus conhecidos. O polimento de sua máscara se aperfeiçoa quando Furukura, aos 18 anos, se perde num bairro comercial e acaba encontrando uma loja de conveniência; do qual se candidata, passa para a vaga e se torna uma Funcionária.

Embora Keiko apareça durante a maior parte do romance como uma mulher sem personalidade, que tenta copiar os hábitos de vida dos outros, buscando inclusive se encaixar nos códigos sociais que lhe resulta em decisões erradas. Mesmo com todas essas particularidades, eu não a vejo como uma pessoa excêntrica. As observações e ações de Furukura me dizem mais a respeito das pessoas ditas normais, que tem o igual comportamento *pasmem* de imitar uns aos outros.

De manhã serei novamente uma Funcionária, uma engrenagem do mundo. Essa era a única coisa que fazia de mim um ser humano normal. (p. 29)

Enfim, Keiko não passa de uma moça que não tem interesse em nada. Pode-se supor que ela sofria com algo, mas logo no começo da narrativa a autora revela que o jeito da protagonista é uma característica de nascença. No entanto, como ela não é um ser blindado, o meio social interfere no seu comportamento. Pois é, assim como de qualquer pessoa. Foi no cotidiano da konbini que ela descobre uma solução. Trabalhando há quase duas décadas na loja de conveniência, onde as instruções são claras e repetidas incansavelmente, Furukura encontra uma estabilidade emocional dos problemas que veio enfrentando desde a infância.

Maximamente espalhada no território japonês, a konbini é um estabelecimento incrível! (*o*) Diferente da loja de conveniência que temos no Brasil, a nipônica é bastante funcional e acessível. Na konbini há venda de uma série de produtos necessários no dia a dia (como meias, curativos adesivos, máscaras, lenços, guarda-chuvas, maquiagens, revistas, etc.), também oferece outros serviços (como postagem, caixas bancários, fotocópia, etc.) e claro apresenta uma grande variedade de comida e bebida (*¬*). Além disso, nas maiores existem alguns lugares para sentar e realizar sua refeição.

Ser menosprezado por causa do trabalho é bastante comum quando se trabalha em uma loja de conveniência. Acho muito interessante observar o rosto das pessoas quando elas demonstram esse desprezo. São tão humanas nesse momento.
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Volta e meia também aparece alguém que, apesar de trabalhar na konbini, despreza quem faz essa mesma atividade. Olhei curiosa para o rosto de Shiraha. (p. 67)

Mesmo a konbini sendo um exemplo de ideal da loja de conveniência, o estabelecimento esconde nos bastidores uma faceta nada agradável. O Japão é conhecido por sua avançada tecnologia, mas no âmbito social, ele ainda é, infelizmente, bastante classista e machista. Trabalhar numa konbini, ou em qualquer setor da área de atendimento das grandes redes de refeição rápida e barata, é considerado um subemprego. Normalmente quem está neste tipo de trabalho são estudantes, estrangeiros, donas de casas que precisam de renda extra ou indivíduos sem qualificação. Então numa sociedade ainda estagnada nessas questões de classe e bastante competitiva, o preconceito com os considerados subempregos, que se expande para outras áreas, torna o trabalhador um cidadão de segunda classe.

Sabendo de antemão do preconceito com esse tipo de trabalhador, nas minhas visitas ao Japão, acabei notando que o cliente japonês, na sua grande maioria, entra mudo e sai calado nesse tipo de estabelecimento (o máximo que vi foi um rápido aceno de cabeça). Não há da parte dos clientes nativos nenhum cumprimento como um simples ‘bom dia’, ‘por favor’, ‘obrigado’ ou ‘de nada’ (já que o funcionário agradece pela compra). Essa atitude de indiferença é uma visível desconsideração com o trabalho / trabalhador. Por outro lado, nós sempre sorríamos e saudávamos os funcionários, e com essa simples atitude eles abriam o sorrisão e alguns até se curvavam bastante (a tal reverência). Acho que o mínimo de educação e gentileza faz diferença num dia de trabalho (^_~). Afinal, o atendimento japonês é normalmente acima da média. Os atendentes na sua grande maioria, mesmo visivelmente cansados, são esforçados, simpáticos e solícitos.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, ainda era comum pessoas da minha idade não terem um emprego fixo, então eu não precisava de desculpa alguma. Mas aos poucos todos foram criando laços com a sociedade – arranjando empregos ou se casando – e agora eu era a única que não tinha feito nenhuma das duas coisas. (p. 41 e 42)
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Nas últimas duas semanas, me perguntaram catorze vezes por que não me casei e doze vezes por que eu trabalhava como temporária numa konbini. Concluí que seria uma boa ideia começar eliminando o problema que fora mencionado mais vezes. (p. 91)

Tendo um panorama da questão do trabalho de nossa protagonista, passamos para as convenções sociais enfrentadas pelas mulheres: casar e procriar. Mesmo tendo uma satisfatória estabilidade econômica e contente com sua condição atual, a sociedade não deixará Keiko tranquila, pois para os olhos do incomodado indivíduo padrão, aquele que desvia das normas nunca faz o suficiente. Afinal, tem que preencher todos os requisitos para chegar ao nível aceitável. Sabemos que os familiares e amigos de Furukura estão insatisfeitos com seu precário emprego. Apesar disso, a maior reclamação da parte deles é o status social de solteira da moça.

Então conhecemos o novo funcionário da loja de conveniência: Shiraha, de 35 anos. Ele é contratado pelo oitavo gerente, e depois de alguns dias demitido por ser relapso e por assediar as clientes. Shiraha é um sujeito patético, ocioso, aqueles típicos misóginos que colocam a culpa de suas frustrações nas mulheres. Isso mesmo, um completo babaca, e uma cria da podridão rasteira do sistema vigente. Para resolver o problema que lhe atormenta, Keiko acaba fazendo um acordo com seu ex-colega de trabalho: eles vão simular uma relação (O_o).

No tempo em que Keiko e Shiraha ficam juntos, ele a humilha e usufrui da sua boa vontade. Ela não diz nada e parece pronta para ser manipulada e dominada. Inclusive renuncia seu emprego na konbini para achar um trabalho aceitável e assim sustentá-lo (O_O). Furukura aguenta essa nova realidade, pois socialmente, ter Shiraha lhe é vantajoso. Afinal seus familiares, amigos e conhecidos estão satisfeitos. As pessoas pararam de perturbá-la nessa questão. Entretanto, há novas cobranças: casamento e filhos. Diante disso (e do comentário sensato da cunhada de Shiraha), vocês acham que chegará o momento em que Keiko se desamarrará das amarras sociais, tomará as rédeas e voltará à realidade que ela achava confortável?

Sayaka Murata e a Voz da Konbini.

O interessante de Querida Konbini é como a normalidade é representada e também como imitar a normalidade para não acabar sendo descartado. O cuidado que Furukura tem para se encaixar nas normas, revela a forte pressão social japonesa e mostra que aqueles que não escolheram viver “como todos os outros” tornam-se cidadãos estigmatizados. O que é um paradoxo, pois nossa protagonista parecia escrava do trabalho. Uma funcionária modelo! Engraçado que as caraterísticas de Keiko faz com que ela seja o ser humano perfeito do Capitalismo. Não tem motivação, não tem aspiração, se contenta com qualquer coisa e não contesta nada. Ou seja, um trabalhador barato, dócil e que não almeja nada além da sua sobrevivência. O sonho de todo empregador. Visto que a dedicação incessante do trabalhador com a empresa é bem vista no Japão (*algo nada bom e que causa inúmeras mortes por excesso de trabalho, ou seja, karoshi*). Contudo, a escritora não quis abordar esse lamentável assunto e muito menos questões materiais impostas pelo sistema que influenciam nas decisões de vida, e sim utilizar o funcionamento prático da konbini como uma solução e identificação por parte de uma pessoa que se sente deslocada.

Sayaka Murata expõe as normas sociais de uma forma passivo-agressiva. Os elementos estão lá para serem interpretados, mas sem diretamente apontar o culpado. Noto esse recato na literatura contemporânea japonesa, onde a crítica está nas entrelinhas. Porém, mesmo com as palavras tênues e algumas irônicas, Sayaka consegue trazer nesta ótima narrativa à rigorosa e inflexível mentalidade da sociedade japonesa. Revelando inclusive que o conformismo generalizado e a pressão imposta pelos padrões, torturam aqueles que não são adeptos as convenções sociais. Com a empolgante conclusão de Querida Konbini, acredito que a autora pergunta ao seu leitor: nós realmente temos que viver de uma maneira que não podemos viver?

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Título: Querida Konbini
Título original: Konbini Ningen, コンビニ人間
Autora: Sayaka Murata
Tradução: Rita Kohl
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 152
Ano: 2018

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

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7 respostas em “Livro: Querida Konbini – Sayaka Murata

  1. As konbinis são uma das melhores coisas que existem no Japão. Refrigerantes, bolinhos de arroz e sanduíches deliciosos. Elas também estão entre as empresas que mais maltratam os trabalhadores no Japão. Quanto ao livro, eu nunca sei se o autor japonês está fazendo alguma crítica à sociedade japonesa, ou se a narrativa não passa de uma história, sem nenhuma intenção de crítica. Eles são muito contidos no que tange a falar mal do próprio país.

    • Com certeza, konbini é uma das melhores coisas do Japão. Eu adoro! Pois é, há vários casos mencionados de humilhações =/ Sim, moderados quando tange a falar mal do próprio país (e isso não é um elogio, já que eles sofrem em silêncio; acho que tal moderação seja por receio de sofrer represálias do sistema. O Japão é bem ditatorial). Mas acredito que Murata esteja fazendo uma crítica contida no preconceito descabido com o trabalhador da loja de conveniência e principalmente quanto às convenções sociais.

  2. Pingback: Keiko e Margherite | Ludo e Vico

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