Livro: Livro do Desassossego – Fernando Pessoa

Sendo um dos principais trabalhos de Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego é assinado pelo semi-heterônimo: o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, Bernardo Soares. O livro é dividido em duas partes, a primeira parte trás o Diário de Bernardo Soares e a segunda parte engloba Os Grandes Trechos.

Heterônimo e semi-heterônimo são praticamente marcas registradas do autor português. O heterônimo é um autor fictício que possui personalidade, como é o caso do engenheiro Álvaro de Campos, como também do médico Ricardo Reis, que são uns dos mais famosos heterônimos de Pessoa. Enquanto que o semi-heterônimo, que se refere ao ajudante de guarda-livros, seria uma mutilação da personalidade do próprio escritor. Fernando Pessoa afirma tal informação no prefácio do Livro do Desassossego: “Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.” (p. 7)

Diante dessa dita “outra personalidade” de Fernando Pessoa, ele escreveu durante 20 anos o que seria o Livro do Desassossego. Mesmo com mais de 500 textos, que não apresentam qualquer sentido concreto ou sequências entre si, a obra acabou ficando inacabada decorrente de sua morte precoce, aos 47 anos.

Após a morte de Pessoa, um baú com inúmeros fragmentos de textos foi encontrado em sua casa. Alguns eram poemas, já outros se assemelhavam a diários, revelando pensamentos, confissões, inquietações, reflexões filosófica, religiosa, política e literária. Depois de um complicado trabalho de edição, o Livro do Desassossego que conhecemos hoje chegou ao público pela primeira vez em 1982.

Acredito que o Livro do Desassossego possa ser considerado uma forma de diário, onde o “outro Pessoa” repassava para aqueles papeis soltos seus sentimentos e suas percepções sobre os contextos da sociedade. Percebe-se nesses fragmentos que Fernando Pessoa se entregava intimamente. Ele não esconde suas ansiedades, seus sofrimentos, seu perpétuo vazio e suas confusões. Parece que escrever era um ato de refúgio para sua mente vaga.

Dizem que o Livro do Desassossego aparenta ser um (não) livro onde se extrai uma reflexão sobre a própria alma do ser humano ou do homem moderno, do qual eu discordo completamente. Existem momentos onde há um bacana jogo de palavras com a língua portuguesa, mas no geral, a obra é superestimada. Naquelas páginas há somente os pensamentos desordenados, e algumas vezes ordenados, de uma figura desinteressante que trata somente dos seus próprios interesses.

Pesquisando sobre Fernando Pessoa, nota-se que as definições vindas do meio literário sobre o escritor português se limitam há palavreados floreados e sem consistência. É como se a crítica tentasse encontrar algum sentido obscuro onde não há nenhum.

Durante a leitura, estava achando Fernando Pessoa somente um pretensioso, mas depois de ler a citação abaixo, que está presente no trecho 160 do livro em questão, uma antipatia a sua figura surge:

Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incômodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador – o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e reta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emenda-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso no seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida. (p. 137)

Fernando Pessoa escreve que a violência é um ato de estupidez humana, mas finge ignorar a violência diária sofrida por essas pessoas que se rebelam. Sua colocação é extremamente infantil, pois desconsidera totalmente que o maior elemento de transformação da humanidade e gerador de progresso é a revolução. A revolução transformou o “maravilhoso” mundo feudal no confortável capitalismo no qual ele viveu. Ele gozou dos benefícios de uma sociedade transformada pela violência e assume uma posição conservadora e hipócrita ao dar todo apoio ao Ditador Salazar. Além disso, Pessoa parece esquecer que Portugal só se tornou mais proeminente e embelezado devido ao trabalho escravo, extração e domínio das riquezas de países alheios e muita morte.

O Livro do Desassossego é simplesmente um amontoado de palavreado que soa sofisticado, mas que na realidade está carregado de uma perturbação tediosa. Fernando Pessoa não é uma grande mente e nem apresenta ideias intensas, ele não passa de um autor superestimado.

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Título: Livro do Desassossego
Autor: Fernando Pessoa
Editora: Folha de S.Paulo
Páginas: 480
Ano: 2016

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A leitura de Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, faz parte do projeto [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Para acompanhar os demais títulos do projeto recomendo que verifique esta publicação.

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5 respostas em “Livro: Livro do Desassossego – Fernando Pessoa

    • Lígia, obrigada pelos elogios (^_^). Gosto de ser sincera com minhas impressões. Acho importante repassar nas resenhas o que eu senti, percebi ou pesquisei. Eu entendo o receio, mas não podemos no sentir intimidada por transcrever impressões de leituras ou por detonar com motivo autores renomados (afinal, quem o renomeou e por qual motivo?). Beijos!

    • Foi extremamente tedioso ler essa coisa. Pois é, Fernando Pessoa é típico conservador vazio. Bem, pelo menos ele escreve melhor que os atuais intelectuais da direita, hahaha.
      Fico feliz que tenha gostado de minhas impressões (^_^). Beijos!

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