Livro: A Bela e a Fera – Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont

Assim como vários leitores, eu conheci a história de A Bela e a Fera pela bonita animação de 1991 da Disney. Também quando pequena, ouvia com atenção na vitrola alguns vinis coloridos de contos de fadas trazendo versões mais próximas do original. Dessa coleção, o vinil que eu mais gostava de ouvir era d’A Bela e a Fera (*mesmo estranhado à presença das irmãs de Bela, como a falta dos objetos falantes, hahaha*).

Com a adaptação do live-action da Disney de A Bela e a Fera estreado ano passado (*do qual achei péssima! Escolheram uma Bela que não sabe cantar e muito menos atuar*), a editora Zahar aproveitou o embalo e publicou na coleção Clássicos Zahar uma charmosa edição de bolso que reuni duas variantes da história que inspirou inúmeras composições e adaptações que hoje conhecemos.

No inicio do livro, uma boa apresentação de autoria do escritor Rodrigo Lacerda é apresentada, conjecturando primeiramente a fonte histórica, que seria o caso da figura de Pedro González, um espanhol nascido no arquipélago de Canárias, em 1537, que apresentava a doença hipertricose (mutação genética que tem como característica o crescimento excessivo de pelos no corpo, com exceção das regiões das mucosas, palmas das mãos e plantas dos pés), conhecida popularmente como “síndrome do lobisomem”; após essa breve curiosidade sobre a suposta Fera, há informações interessantes acerca dos antecedentes literários; e por fim um panorama da vida e obras das autoras. Seguimos então para as duas narrativas, ambas de origem francesa, datadas do século XVIII.

Livro infantil da Walter Crane’s Toy Books de Beauty and the Beast, ilustrado por Walter Crane e impresso por George Routledge and Sons em 1874.

Começamos conhecendo a versão clássica, e mais notável, da escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711 – 1780), que foi publicada originalmente em 1756 na revista destinada as meninas e moças Le Magasin des Enfants. Depois passamos para a versão original, de autoria da escritora Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (1685 – 1755), que foi publicada originalmente em 1740 na coletânea La Jeune Américaine et Les Contes Marins.

É evidente que Madame de Beaumont baseou sua La Belle et la Bête na narrativa de Madame Villeneuve que fora publicado dezesseis anos antes. No entanto, Beaumont trás em seu conto de fadas uma história moral, abordando o modelo de bom comportamento para as jovens. Além disso, enaltece o sacrifício, a recompensa pelas boas ações, o amor romântico e a admiração pela gentileza e não pela inteligência ou beleza.

Além de mais bela, a caçula era mais ajuizada do que elas. As duas mais velhas gostavam de ostentar sua riqueza, bancando as damas e se recusando a receber as filhas dos outros comerciantes. Iam todos os dias ao baile, ao teatro, ao passeio, e zombavam de Bela, que dedicava a maior parte de seu tempo livro à leitura de bons livros. (p. 31)

O bondoso comerciante não pensava igual às filhas. Sabia que Bela possuía mais dotes do que as irmãs para bilhar em sociedade. Admirava não só as virtudes da moça como principalmente sua paciência, pois as mais velhas não satisfeitas em deixar todo o trabalho pesado para ela viviam a insultá-la. (p. 34)

– Bela – disse-lhe a dama, que na verdade era uma grande fada -, venha receber o prêmio por ter escolhido o lado certo, preferindo a virtude à beleza e à inteligência. Você merece encontrar todas essas qualidades reunidas em uma só pessoa. Será uma grande rainha e espero que o trono não destrua suas virtudes. (p. 54)

Por outro lado, Madame Villeneuve trás na primeira versão de La Belle et la Bête um mundo cheio de reinos, castelos, fadas, encantos, súditos, grandes destinos, batalhas, traições, revelações e muitos outros elementos mágicos. Porém sem se esquecer do âmbito moral. No entanto, a escritora revela pensamentos que (talvez) possam soar chocantes para a época, como a ideia do casamento de pessoas da mesma idade, e declara um teor classista bastante elevado, como o interesse de um bem-nascido estar acima de qualquer coisa.

– Coragem, Bela; seja o modelo das mulheres generosas, sensata e encantadora. Não hesite sacrificar a inclinação ao dever. Você está no verdadeiro caminho da felicidade. Será feliz, mas para isso não pode se fiar nas aparências enganadoras. (p.125)

É mais vantajoso ter um marido de bom caráter que um cujo único mérito é a estampa bonita. Quantas moças não são obrigadas a desposar Feras ricas, porém mais feras que a Fera, que só o é pelo aspecto, e não pelos sentimentos e ações? (p.134)

– Sou-lhe muito grata – respondeu a Rainha -, mas, poderosa Inteligência – acrescentou -, não posso me impedir de lhe apontar o disparate da aliança do mais nobre sangue do mundo, de que me filho procede, com um sangue obscuro, de onde vem a pessoa a quem deseja uni-lo. Confesso que não me entusiasma muito a felicidade do Príncipe, se ela deve ser obtida por meio de aliança tão humilhante para nós e tão indigna dele. Será mesmo impossível encontrar no mundo alguém cuja virtude esteja à altura de sua origem? Sei o nome de inúmeras princesas adoráveis, por que não me seria permitido vê-lo unido a uma delas? (p. 157)

Aquela proposta me deixou confuso. Ainda criança, no meu país, eu percebera que, entre as pessoas casadas as mais felizes eram as que compartilhavam idade e temperamento, ao passo que davam pena os cônjuges que haviam se unido contra a vontade e descoberto diferenças irreconciliáveis. (p. 170 e 171)

Foi muito bacana a experiência de ter acompanhando as duas narrativas. Ver o surgimento de uma história clássica e o desenvolvimento desta. Particularmente simpatizei mais com a versão curta de Beaumont, por trazer uma visão da importância da união pela voz do coração. E também por ter adorado a cena do espelho mágico (*-*). O que me desagradou um pouco na versão original, foi o fato do status ter um peso maior que os sentimentos. Talvez Villeneuve tenha se baseado no seu credo, afinal ela pertencia a uma poderosa família protestante e só foi obrigada a trabalhar devido o marido, de origem aristocrática, ter desperdiçado grande parte da fortuna. Porém há dois detalhes que se destacam no conto de fadas da criadora original: 1) a construção de uma Bela com ações e pensamentos mais humanos e não tão perfeitos, e 2) o ato de dar voz ao monstro que também merece narrar sua história.

Ilustração de La Belle et la Bête da edição de 1756 da revista Le Magasin des Enfants (Librairie Hachette & Cie. Boulevard St Germain, nº. 79).

Uma particularidade nos contos de fadas que normalmente me causa um impacto é a crueza dos atos, como, por exemplo, a punição sofrida pelas irmãs invejosas de Bela na versão mais conhecida. Acredito que esse caráter cruel introduzido na narrativa seja para salientar alguma parte do real cenário da época.

A Bela e a Fera, de Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont, é um simpático livro que trás a origem e a essência de um dos contos de fadas mais queridos. As ilustrações espalhadas na edição, que são de autoria do ilustrador e pintor inglês Walter Crane e de outros artistas desconhecidos, vão incrementar nas descrições da magia do ambiente, como das figuras místicas da Bela e da Fera.

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Título: A Bela e a Fera
Título original: La Belle et la Bête
Autoras: Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont
Tradução: André Telles
Editora: Zahar
Páginas: 240
Ano: 2016

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4 respostas em “Livro: A Bela e a Fera – Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont

  1. Comprei essa edição lindona logo que saiu, mas ainda não li. Pelo jeito, fiz um bom investimento. E ainda nem vi a versão live action (porque só chegou aos cinemas em 3D). Agora que está no Telecine, vou conferir 🙂

    • Michelle, as edições da coleção “Clássicos Zahar” é uma lindeza. Bem, se você gosta de contos de fadas, não vai se decepcionar com “A Bela e a Fera” de Villeneuve e Beaumont (^_~). Agora o live-action vá sem expectativa. Como disse na postagem, eu achei uma droga. Beijos!

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