Algumas palavras sobre: The Handmaid’s Tale e Alias Grace

Deu vontade de comentar alguma coisinha sobre duas séries que são baseadas nos romances da (maravilhosa) Margaret Atwood. Afinal eu e a Michelle estamos realizando o projeto Lendo Margaret Atwood, que está rendendo excelentes leituras e ótimas discussões. Por conta disso, seria interessante compartilhar com vocês algumas impressões que eu tive dessas duas séries e sugerir, obviamente, a leitura dos romances.

» The Handmaid’s Tale:

The Handmaid’s Tale

Baseado no impactante romance de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale é uma série de origem americana, criada por Bruce Miller e tendo no papel principal de June Osborne a atriz Elisabeth Moss. A série, que conta com 10 episódios, foi lançada em abril deste ano pelo serviço de streaming Hulu. Confira o trailer! Pelo sucesso, ganhou uma segunda temporada que terá estreia em abril de 2018.

The Handmaid’s Tale narra a fundação da República de Gileade, um governo teocrático cristão, que reduz as poucas mulheres ainda férteis ao grau de escravas sexuais. Acompanhamos então June Osborne / Offred, uma Aia obrigada a colocar seu corpo ao serviço do Comandante Fred Waterford e de sua esposa. Ela, e outras mulheres da sua classe (vestidas de vermelho), estão sujeitas as regras rigorosas e vigilância constante. Em caso de desobediência ou revolta, são punidas severamente.

Acompanhei fielmente a série. Afinal quando li o romance em 2015 fiquei impressionada com o poder daquela história; que fora banida de algumas escolas norte-americanas. Então eu queria ver como os produtores conseguiriam adaptar os horrores do Sistema Fascista de caráter cristão descrito com precisão pela autora canadense.

Tortura psicológica e física como condicionamento.

The Handmaid’s Tale apresentou algumas mudanças, acredito que com o objetivo de expandir e ocluir detalhes da narrativa original, como também para dar dinamismo ao formato televisivo. Uma das mais notáveis mudanças é que a narradora Offred (que significa “of Fred”, ou seja, que pertencente a Fred) ganhou um nome. No romance acredito que o fato de não sabermos o nome da protagonista-narradora é justamente para mostrar a desumanização que é feita com aquelas mulheres. Elas são instrumentos com prazo de validade que serão repassadas e descartadas pelas famílias que tem uma fatia do controle do sistema. Creio que o fato de ter dado um nome a Offred na série seja para causar uma aproximação do telespectador para com a personagem, que por sinal, oh atriz expressiva. Os olhos de Elisabeth Moss são praticamente diálogos.

Enfim, há outras mudanças, mas nada que atrapalhe ou desmereça. Mesmo preferindo o livro, acredito que a série complementa bem o romance, pois não temos somente o ponto de vista de Offred; o seriado expande para os olhares de Moira (Samira Wiley), do motorista Nick (Max Minghella), de Luke (O-T Fagbenle), e de outras personagens secundárias. A inclusão desses outros olhares revela ainda mais os horrores do sistema de extrema opressão para com a classe oprimida, focando principalmente na crueldade com as Aias. Dentre as personagens segundarias, eu gostei demais da Ofglen (Alexis Bledel – atuação sensacional) e da Alma (Nina Kiri). Há também a visão dos opressores, focando em Fred Waterford (Joseph Fiennes) e Serena Joy Waterford (Yvonne Strahovski).

Rebeldes são severamente punidos.

Só teve uma coisa que eu não gostei na série. A atriz que interpretou Moira. Não acho que a atuação de Samira Wiley ficou bem no papel. Para mim ela não passa o desprezo e a raiva sentida pela Moira do romance. Sinceramente ficou uma atuação que deixou a desejar. Deveriam ter escolhido outra atriz para o papel.

Notasse que na série há uma maior escalação de atores negros. Achei muito legal, porém no romance todos os negros tornam-se escravos e são realocados para fazendas. É de conhecimento de todos que nos Estados Unidos os cristãos com ideologia de extrema direita, são extremamente racistas e fascistas. Ou seja, esse tipo asqueroso de ser humano despreza gente negra e latina. Mulheres negras nunca seriam Aias. Poderiam ser confinadas em outro local para serem usadas. Acho que mascarar essa realidade não torna gente dessa ideologia menos racista.

Margaret Atwood marca presença como uma “Tia” (vestida de marrom).

Além do chocante condicionamento desumano e da horrenda doutrinação das Aias, que causa um grande impacto na mente de quem lê o romance ou vê a série, principalmente nas mulheres, há uma parte no livro que é suavizado e também desconsiderado na série. Acho que é um ponto crucial que não deveria ter sido ignorado. Refiro-me ao momento em que Offred relembra quando todas as mulheres do país perderam seus empregos, revelando na nova lei que elas não podem mais ter propriedade, tendo seus bens agora administrados por um parente homem. Bem, isso na série é mostrado, mas o que é ocluído é que o marido de Offred quer fazer sexo com ela naquela noite. Ela se sente diminuída pelos acontecimentos que exterminaram sua liberdade (econômica), mas não pode se dar ao luxo de perdê-lo.

Infelizmente essa parte foi desconsidera. O que é uma pena, pois essa condição é bastante real para a maioria da população feminina mundial. A questão de salário e moradia, principalmente para as mulheres da classe desfavorecida, é uma questão séria e fatal. As mulheres, por exemplo, do Brasil, podem não ter suas contas congeladas, mas ganham menos realizando a mesma função que um funcionário do sexo masculino. Ou seja, incapacitando o crescimento material econômico dessas mulheres e as sujeitando a lares violentos, ao medo de uma situação de desamparo para elas e para seus filhos.

Então, a realidade mostra que o romance de Atwood não está tão distante quanto imaginamos.

» Alias Grace:

Alias Grace

Baseado em outro romance da escritora Margaret Atwood, Alias Grace é uma minissérie de origem canadense e americana, adaptada por Sarah Polley, dirigida por Mary Harron e tendo a atriz Sarah Gadon no papel de Grace Marks. A minissérie conta com seis episódios e foi transmitida no Canadá pela CBC Television entre os meses de setembro e outubro deste ano e posteriormente com distribuição mundial pela Netflix. Confira o trailer!

Alias Grace se passa em meados do século XIX no Canadá e narra a condenação de Grace Marks por seu envolvimento nos assassinatos de seu empregador e da governanta. Tendo como pena a prisão perpétua, alguns acreditam na inocência de Grace, sendo que outros já pensam o contrário. Porém a moça afirma não ter recordação dos assassinatos, o que envolve o doutor Jordan, médico do campo das doenças mentais, pelo grupo de reformadores e espiritualistas que procuram o perdão da moça.

Ilustre presença de Margaret Atwood como a velha mulher da igreja.

Eu estava muito ansiosa para assistir Alias Grace, pois amei o romance. Melhor leitura deste ano sem sombra de dúvida ♥. Mas devido às coisas da vida, só conseguir assistir agora em dezembro. Devorei os seis episódios no final de semana. Bem, foi fácil assistir, pois que adaptação bem cuidada (*-*).

Sim, eu só tenho elogios à minissérie. Mesmo a trama focando integralmente em Marks, resumindo as partes do doutor Simon Jordan, achei bastante fiel à obra original. Gostei dos atores, do ritmo, da trilha, de todos os detalhes. Realmente impecável! Sarah Gadon dá um show como Grace Marks, como também Rebecca Liddiard como Mary Whitney e o Edward Holcroft como Simon Jordan. Pois é, só tenho elogios!

Espero que tenham se interessado pelos romances e também pelas séries. Reforço minha recomendação na leitura, pois ler Margaret Atwood é uma experiência fascinante.

Anúncios

14 respostas em “Algumas palavras sobre: The Handmaid’s Tale e Alias Grace

  1. Que coincidência! Ontem antes de dormir eu estava pesquisando sobre essas séries. O livro da segunda parece bem interessante e a série também. A primeira me interessou por causa da atriz principal que estava maravilhosa na série Mad Men. Adorei as resenhas🌻🌷Bjos!

  2. Não li os livros, mas as séries estão com qualidade excelente! Gostei muito da história da Grace. As séries da Margaret Atwood estão humilhando as séries do Martin. Bem feito!

  3. Foi bom ler seu post porque pude relembrar vários detalhes de ‘The Handmaid’s Tale’. Eu gostei ainda mais da série do que do livro porque acho que conseguiram ir mais fundo nas questões levantadas na obra impressa. Sim, uma negra jamais seria aia, mas acho que era a única forma de mostrarem na série que os horrores eram iguais para todas as mulheres que não pertenciam à elite (explicar a segregação racial em Gilead exigiria tempo (e dinheiro) e isso é complicado na TV).
    ‘Alias Grace’ ainda está aqui aguardando sua vez 🙂

    • Também acho que expandiram muito bem o universo de “O Conto da Aia” na série. Mas ainda assim, eu gosto mais do romance por mostrar uma crueza dos fatos.

      Quanto às aias negras, acredito que incluíram na série para que a mesma não fosse taxada de racista. No filme de 1990 explica de forma rápida e clara para onde os negros foram realocados. Então não precisaria de muito tempo ou dinheiro. Michelle, o pior que as mulheres negras iriam sofre muito mais no governo da República de Gileade. Afinal no romance, os negros (homens e mulheres) tornaram-se escravos e foram também realocados para aquela limpeza nuclear, ou seja, fatal.

      Ah, na série eles não precisariam explicar a segregação racial, pois infelizmente ela existe até os dias de hoje nos Estados Unidos. Aquele episódio monstruoso que aconteceu em Charlottesville não é algo novo ou por acaso, mas uma realidade que os negros americanos enfrentam (*há uma forte repressão policial nos bairros de negros e latinos dos USA*).

      Espero que a vez de “Alias Grace” chegue logo. Gostaria de saber sua opinião (^_^).

      Beijos, Michelle!

  4. Eu tenho me interessado pelos livros da Margaret e ainda não li O Conto da Aia, mas tá nos meus desejados. Li e assisti Vulgo Grace e se tornou uma das melhores coisas que fiz em 2017. O desfecho é surpreendente e mal posso esperar pra ler outros livros da autora. Acompanho teu blog porque tens um gosto literário admirável e adoro ler o que tu escreves sobre tuas experiências com a Margaret.

    • Desde o primeiro livro que li de Margaret Atwood, ela se tornou uma das minhas autoras favoritas ♥. Espero que goste de “O Conto da Aia” (^_^). “Vulgo Grace” também entrou nas minhas melhores leituras de 2017; e a série é incrível! Haise, se você quiser acompanhar o projeto Lendo Margaret Atwood conosco, fique a vontade (^_~). Agora vamos ler “Oryx e Crake”.

      Muito obrigada, Haise (^_^). Suas gentis palavras me fizeram dar um sorrisão (*também estou me achando, hahaha*). Obrigada por acompanhar este cantinho.

      Beijos!

  5. Ainda não vi nenhuma das duas séries, mas pretendo ver em breve. Acho ótimo que as séries estejam fazendo tanto sucesso e trazendo mais leitores para a Margaret Atwood, que é uma escritora maravilhosa. 🙂

  6. Pingback: Alguns comentários sobre a 2ª Temporada de The Handmaid’s Tale | Lulunettes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s