Livro: A Fórmula Preferida do Professor – Yoko Ogawa

Publicado originalmente em 2003, A Fórmula Preferida do Professor, de Yoko Ogawa, narra à singela relação da empregada doméstica, narradora dos fatos, e de seu filho de 10 anos apaixonado por beisebol apelidado carinhosamente de Raiz (√), com o velho docente de matemática nomeado simplesmente como Professor. Devido a um acidente que infelizmente deixou uma sequela irreparável, a capacidade de memória do Professor se estagnou até o ano de 1975 e no momento presente se limita há exatos 80 minutos. Para compensar sua memória, ele anexa a sua vestimenta inúmeros lembretes. Devido a essa limitação, o contato inicial é um pouco estranho, mas gradualmente eles criam uma cumplicidade graças aos números.

Praticamente toda a narrativa, que começa no ano de março de 1992, acontece na pequena residência do Professor, mas em nenhum momento nos sentimos sufocado. Muito pelo contrário, os eventos cotidianos fornecem a oportunidade de conhecermos essas personagens e de nos afeiçoamos a elas. Eu adorei o vinculo que foi somando entre eles a cada página virada. A forma como a autora nipônica constrói essa inesperada união é tão sincera e nada exagerada.

A matemática, com seus números primos, logaritmos e teoremas de todos os tipos perambulando na trama (*uma das explicações que achei mais curiosa foi à origem do zero*), torna a ciência do raciocínio lógico e abstrato no elemento que trás a fórmula da estrutura dessa relação palpável entre as três figuras. Checando a definição de matemática, do grego μάθημα, apresenta “aprendizagem” como um de seus significados. No decorrer do romance, todos aprendem com suas particularidades e devoção ao outro, trazendo a soma dessa relação uma afinidade duradoura.

Como a matemática está em qualquer detalhe da vida, o beisebol se apresenta como outro elemento importante à soma da aproximação da empregada doméstica e Raiz com o Professor, que também é fascinado pelo esporte e principalmente pelo jogador canhoto Yutaka Enatsu, detentor da camisa de número 28 do time Hanshin Tigers.

Quanto à escrita de Yoko Ogawa, é um estilo humilde, sem adornos, mas intimista, cheio de ternura e que carrega uma atmosfera familiar. Cada palavra é passada com equilíbrio, como numa equação perfeita ou um bonito movimento. Mesmo com um ritmo lento a narrativa em nenhum momento é monótona, pois somos levados a sentir o enobrecimento diário, das coisas simples da vida, como também das diversas dificuldades e obstáculos trazidos por essa mesma existência.

Adaptação de A Fórmula Preferida do Professor (2006), dirigida por Takashi Koizumi.

Por ter se tornado um romance extremamente popular no Japão, Hakase no Aishita Sūshiki ganha uma adaptação cinematográfica em 2006 dirigida por Takashi Koizumi. Quem faz o papel do Professor é o ator Akira Terao, conhecida figura dos filmes de Akira Kurosawa e protagonista do primeiro filme dirigido por Koizumi, Depois da Chuva (1999). Mesmo a adaptação apresentando algumas mudanças da narrativa original – como a história ser narrada por Raiz já adulto, a velha cunhada ter uma presença mais constante, a conclusão ser diferente do livro e entre outras – mesmo preferindo a estrutura do romance, não é algo que atrapalhe. Acredito que o diretor conseguiu repassar de forma cativante a sensação de como os números no cotidiano influenciaram na conexão do trio. Destaque para os ótimos atores, a bonita fotografia e a marcante música tema. Vale a pena conferir (^_~).

A sensível obra de Yoko Ogawa mostra com humanidade a comunhão dessas três personagens. Mostrando também a sensibilidade aos sentimentos dos outros. A fórmula poética desenvolvida com fineza pela autora consegue, com seus números graciosos e complexos, ligar o cotidiano e a matemática a um dos sentimentos mais nobres desenvolvidos com grande sutileza no romance: a cumplicidade. Uma cumplicidade improvável, no entanto que se desenvolveu como um número perfeito. No mais, te convido a descobrir A Fórmula Preferida do Professor.

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Título: A Fórmula Preferida do Professor
Título original: Hakase no Aishita Sūshiki, 博士の愛した数式
Autora: Yoko Ogawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 232
Ano: 2017

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

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10 respostas em “Livro: A Fórmula Preferida do Professor – Yoko Ogawa

  1. Já encomendei o meu exemplar. Espero gostar desse livro como gostei de “O Museu do Silêncio”. Li sua resenha, ótima por sinal, e fiquei mais curioso 🙂

    • Carlos, tenho certeza que você vai amar “A Fórmula Preferida do Professor”. É um romance difícil de largar, mesmo depois de concluído. Depois quero saber sua opinião (^_^).

      • Lulu, li o livro… Que romance notável ! É tudo que você disse na sua ótima resenha: sensível sem ser exagerado; uma cumplicidade improvável, mas que se desenvolve como um número perfeito entre as três personagens. Meus olhos ficaram marejados em várias passagens. Um primor “A Fórmula Preferida do Professor” =D Yoko Ogawa foi fenomenal nesse trabalho. Ainda falta assistir o filme.

        • Lulu, assisti o filme. Não curti as modificações. Para mim o livro é mais poético e sensível. Mas é uma adaptação que vale conferir. Obrigado pela indicação ! 🙂

          • Eu também prefiro o livro pela mesma razão que você. Estava com um pouco de receio quando fui assistir, mas não achei a adaptação ruim e sim bem cuidada.

        • Fico feliz que tenha gostado do livro e de minhas impressões (^_^). Acho um pouco difícil alguém desgostar desse romance. Quem aprecia uma narrativa sensível sem ser piegas tem que ler “A Fórmula Preferida do Professor”. Ah, e o pessoal da matemática também.

          Ogawa só nos surpreendendo, né Carlos!

  2. Bem que eu estava achando esse título familiar… Tenho o filme aqui para assistir e agora fiquei com mais vontade ainda. Parece ser o tipo de história que eu gosto ❤

    • Sei que a sugestão é obvia, mas recomendo a leitura do livro antes de assistir ao filme. O romance é maravilhoso e muito sensível ❤ A relação formada por essas personagens é afetuosa sem ser exagerada. Então, acho que te agradará bastante a narrativa. Beijos, Michelle!

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