Livro: A Filha Perdida – Elena Ferrante

a-filha-perdida-elena-ferranteA Filha Perdida, de Elena Ferrante, publicado originalmente em 2006, narra os sentimentos conflitantes de Leda, uma professora universitária de meia-idade. Essa série de reflexões sobre a maternidade tem como cenário uma praia localizada no litoral sul da Itália e uma família de napolitanos.

Em poucas páginas damos um mergulho na vida de Leda, nas suas observações, angustias e arrependimentos, e isso se aflora quando a protagonista-narradora rouba uma boneca, o que torna seus pensamentos sobre o ato de ser mãe mais forte, mostrando um lado sem hipocrisia social, de como o ônus de ter um filho acaba ficando com a mulher.

Acredito que a relação da boneca com Leda tenha múltiplos significados: de ser um porto seguro; de certa forma uma representação da sua persona; de um ciúme retraído pela mãe e filha, donas da boneca; entre outros sentidos. Mas o que ficou evidente para mim, foi que Leda tenha se limitado ao papel de mãe. Além do fato dela cuidar da boneca, vestindo-a, como se fosse uma criança de verdade. Nota-se sua imensa insatisfação com essa vida limitada, principalmente quando ela afirma que está morta, mas bem.

Fiquei dividida em relação A Filha Perdida. Enquanto tudo começa com uma boa preparação para o sofrimento interno de Leda. Por outro as questões da maternidade não apresentam um desenvolvimento tão claro. As questões são desenvolvidas de forma morna, diria até moderada. Leda também não foi a melhor representante desta questão. Acredito que limitar o problema da maternidade para o âmbito individual ou de uma determinada classe, não trará uma boa discussão nesse assunto. A nossa pobre definição de família e maternidade é um problema sistêmico, propositalmente criado para limitar as mulheres, principalmente as de classe baixa.

O forte do romance é sem dúvida a escrita de Elena Ferrante. O estilo dela tem algo que conecta o leitor ao drama. Ferrante não tem uma escrita extraordinária, mas dialoga muito bem com o leitor. Mesmo a narrativa sendo fraca, é como se ela conseguisse deslizar com as palavras, tornando a leitura fluida. Acho curioso o estilo narrativo dessa autora.

A Filha Perdida, de Elena Ferrante, poderia ser um romance cheio de questionamentos, mas infelizmente acaba se perdendo neste essencial assunto do ato de maternar, que é visivelmente deturpado por nosso sistema vigente.

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Título: A Filha Perdida
Título original: La Figlia Oscura
Autora: Elena Ferrante
Tradução: Marcello Lino
Editora: Intrínseca
Páginas: 176
Ano: 2016

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4 respostas em “Livro: A Filha Perdida – Elena Ferrante

  1. Ainda não li esse, Lulu. Mas lendo seus comentários sobre a questão da maternidade, fiquei pensando em como a autora aborda o assunto na quadrilogia napolitana, principalmente nos livros 2 e 3. Acho que você vai fazer as ligações quando ler esses volumes e gostar mais.
    Beijo!

    • Por enquanto Ferrante me agradou 50% e desagradou 50%. Bom saber, Michelle. Espero que na tetralogia o assunto seja melhor abordado, já que em A Filha Perdida deixou muito a desejar. Beijos!

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