Livro: A gata, um homem e duas mulheres e O cortador de juncos – Jun’ichiro Tanizaki

a-gata-um-homem-e-duas-mulheres-e-o-cortador-de-juncos-junichiro-tanizakiA gata, um homem e duas mulheres e O cortador de juncos reuni duas novelas do renomado autor japonês Jun’ichiro Tanizaki, nascido no distrito de Nihonbashi, Tóquio, Japão, em 24 de Julho de 1886 e falecido de um ataque cardíaco em 30 de julho de 1965, pouco depois de celebrar seu 79º aniversário.

Originalmente publicado em 1936, A gata, um homem e duas mulheres narra uma confusa relação triangular e da pobre refém desses problemas humanos, a gata com pelagem de escama de tartaruga chamada Lily.

Tratando com humor e ironia, sem excluir alguns momentos preciosos de emoção, vamos seguindo as peripécias do casal Shozo e a esposa Fukuko, e a ex-mulher, Shinako, em torno da figura felina. Por ser um homem acomodado e sem ambição, Shozo, com a ajuda da mãe, acabou traindo Shinako para ficar com o dote de Fukuko. Nessa relação conturbada, Lily, a grande paixão de seu dono, acaba sendo o objeto de discussão e manipulação dessas mulheres.

Com um assunto completamente banal, o autor desenvolve os pensamentos de cada uma das personagens envolvidas. Causando também incomodo com o comportamento patético de Shozo e dó dessas mulheres que tentam controlar a situação, mas só tornam suas vidas mais difíceis.

A gata é o catalizador que irá desencadear paixões. Além da obsessão de Shozo, uma das personagens, no caso Shinako, evoluirá ao longo da história. Apreciei a construção desse crescimento. Antes ela havia conspirado e conseguido Lily para si com objetivo egoísta, sendo que detestava o animal e até maltratava. Com a convivência, a ex-cônjuge criou um carinho especial por Lily, que a conquistou com sua inteligência e afeto.

Jun’ichiro Tanizaki descreveu com grande sensibilidade os trejeitos de Lily. Só alguém observador e que ama gatos consegue perceber a sutileza das expressões quase imperceptíveis dessas criaturas.

Antes que eu me esqueça, há uma citação sobre o Takarazuka Kagekidan. Devido minha fraca memória, acredito ser a primeira vez que vejo uma alusão, mesmo que rápida, a companhia de teatro japonesa formada exclusivamente por mulheres. Foi breve, mas adorei a inclusão da referência, pois acho o trabalho dessas artistas encantador. Enfim, queria deixar registrado.

No geral, A gata, um homem e duas mulheres é uma novela bastante divertida, trazendo nas entrelinhas o tema da fraqueza e da obsessão humana na figura de Lily; a gata que revela a cegueira do espírito dos homens.

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Jun’ichiro Tanizaki e o Neko-chan

Passando para a próxima e ultima novela, O cortador de juncos — publicada originalmente em 1932 —, seguimos o narrador no seu caminhar próximo do Santuário Minase de Mishima (Osaka-fu), antigo palácio do imperador Go-Toba (século XII) transformado em um lugar de culto. Sua narrativa é intercalada com descrições históricas e geográficas e pontuada com citações literárias e poéticas. Na verdade, a ação acontece no Festival Otsukimi, também conhecido como Jugoya, que corresponde à celebração do meio do outono em contemplo a lua cheia.

Sua caminhada o leva ao rio Yodo, em Okamoto, até chegar a uma pequena ilha. Nesta restinga, nosso narrador decide contemplar a lua cheia. No local ele encontra um cortador de juncos que lhe traz uma anedota de sua juventude: seu pai o levava a um passeio anual nas margens do rio Yodo para observar uma bela mulher de alta classe a tocar koto. Os anos se passaram e o pai finalmente decide contar ao filho a história desta mulher chamada Oyu.

Não vou dizer mais, a fim de não revelar a riqueza da trama.

Por falta de familiaridade tive certa dificuldade nas menções históricas dessa novela. Porém nada que desanime, pois a tradutora Maria Luísa Vanik Pinto, que fez um excelente trabalho, não nos deixa perdidos. Ela acrescenta várias notas de rodapé para entendermos cada referência, personalidade, hábitos e artes tradicionais.

Nesta emocionante novela, Jun’ichiro Tanizaki nos eleva deliberadamente e gradualmente a uma atmosfera delicada, suave, etérea e bizarra. Na contemplação da lua cheia, o leitor gradualmente leva ao coração à narrativa. Sim, eu fiquei completamente invadida pela excentricidade refinada de O cortador de juncos (*o*).

O grande autor japonês compõe um conjunto de sutiliza requintada, refletindo a submissão na relação ambígua e sensual das personagens desta novela. Além disso, num estilo figurativo, coroado com uma melodiosa poesia, ele consegue evocar os temas como paixões, beleza e acredito que no mal sentido a força da tradição.

Na sinopse da Editora Estação Liberdade, comenta-se que a novela propõe uma homenagem ao Teatro Nô ao estruturar uma “história dentro da história” e que também faz alusão ao clássico incrível de Murasaki Shikibu, Genji Monogatari (*li o romance na primavera japonesa deste ano e compartilhei minhas singelas impressões aqui, aqui e aqui*). Acredito que a obra de Murasaki esteja referida nos trejeitos de Oyu, nas apresentações anuais do evento de celebração a lua cheia do outono – festival tradicional do Período Heian (794 – 1185) – e na submissão da irmã mais nova, Oshizu.

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Senhorita Oyu (1951), dirigido por Kenji Mizoguchi

Como complemento da leitura, recomendo o excelente filme Senhorita Oyu (Oyû-sama, 1951) dirigido por Kenji Mizoguchi. A película é justamente inspirada nesta novela de Tanizaki. Mesmo com mudanças da narrativa original, acredito que Mizoguchi conseguiu captar a sensibilidade de O cortador de juncos. Aqui no Brasil o filme foi lançado em fevereiro de 2014 pela distribuidora Versátil Home Vídeo e se encontra no terceiro disco no primeiro volume da coleção O Cinema de Mizoguchi.

A gata, um homem e duas mulheres e O cortador de juncos, de Jun’ichiro Tanizaki, são como gravuras no estilo Ukiyo-e pintadas por um dos grandes mestres da literatura japonesa moderna. Do qual minha admiração por suas obras me conquistam a cada leitura.

No entanto, amei especialmente a construção da narrativa de O cortador de juncos. Esta novela é rica na intertextualidade da cultura japonesa. Embora eu provavelmente não tenha compreendido todas as nuances da história, nota-se que Jun’ichiro Tanizaki sabe honrar os clássicos oferecendo uma beleza e delicadeza facilmente apreciáveis ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: A gata, um homem e duas mulheres e O cortador de juncos
Título original: Neko to Shozo to Futari no Onna, 猫と庄造と二人の女 / Ashikari, 蘆刈
Autor: Jun’ichiro Tanizaki
Tradução: Andrei Cunha, Clicie Araujo, Lidia Ivasa, Maria Luísa Vanik Pinto e Tomoko Gaudioso
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 192
Ano: 2016

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

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10 respostas em “Livro: A gata, um homem e duas mulheres e O cortador de juncos – Jun’ichiro Tanizaki

  1. Que resenha instigante ! Já fiquei com vontade de ler o livro, principalmente à novela que você destacou. Como te disse nunca li nada do Tanizaki, então acho que vou começar por esse livro. Não conhecia esse diretor até você citar no post anterior “Presentes de Natal 2016”. Valeu pelas indicações !

    • Fico feliz que tenha gostado de minhas impressões (^_^). Recomendo fortemente as duas novelas, principalmente “O cortador de juncos”. Acredito que seria uma boa conhecer Tanizaki por esses títulos (*qualquer obra será um bom começo*). Kenji Mizoguchi é um dos meus diretores favoritos ❤ ❤ Ele é fantástico! Uma peça rara no cinema japonês. Por favor, assista! De nada, Carlos (^_~).

    • Kenji Mizoguchi é incrível! (*-*) Até o momento todos os filmes que assisti dele foram marcantes e trouxeram uma série de boas conversas com você ❤ De nada, Mozinho! (^_^)

  2. Pingback: Os melhores de 2016 | Lulunettes

  3. Já li quase toda a obra de Tanizaki e, recentemente, indiquei A gata, um homem e duas mulheres para uma amiga. Hoje tive curiosidade de procurar um review para perceber se outros tiveram a mesma boa impressão do livro que eu tive. Parabéns pela resenha.

    • FredC, eu notei que estou economizando os livros do Tanizaki, hahaha. Excelente indicação que você faz a sua amiga. Espero que ela tenha gostado. Agradeço o elogio (^_^). As obras de Tanizaki são tão maravilhosas que fica fácil gostar.

  4. Pingback: TAG: Ler é um presente | Lulunettes

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