Mangá: The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias – Hozumi

the-wedding-eve-a-vespera-do-casamento-e-outras-historias-hozumiMinhas impressões do mangá The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, de Hozumi, contêm sutis spoiler.

Originalmente publicadas em 2012 nas revistas Gekkan Flowers e Rinka, da editora Shôgakukan, o josei The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, da mangaká Hozumi, reuni seis histórias curtas que envolvem melancolia através de eventos comuns da vida com certo toque sobrenatural.

A leitura do mangá foi realizada no mês de novembro deste ano e compartilhada com a querida Lígia, do blog Randomicidades Aleatórias. A obra de Hozumi nos rendeu uma produtiva conversa. Para ler a resenha da Lígia, clique aqui.

A primeira história A Véspera do Casamento (Shiki no Zenjitsu), que dá título ao mangá, narra os últimos momentos juntos de uma dupla de irmãos antes do dia do casamento da irmã mais velha. Carregando uma mistura de melancolia e alegria e uma doce intimidade, acredito que a grande surpresa desse conto é descobrimos que o casal na verdade são irmãos. A relação deles foi fortificada após o falecimento de seus pais e a irmã muito mais velha acabou sendo uma espécie de mãe para o rapaz. Esse sentimento de perda que ambos sentem durante a narrativa só mostra a forte relação que eles cultivaram. Acho que a história trouxe um bonito sentimento de perda.

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A Véspera do Casamento (Shiki no Zenjitsu)

Seguimos para minha história preferida do mangá: Reencontro em Azusa nº2 (Azusa Nigou de Saikai), que narra um determinado dia do mês de agosto da visita de um pai a sua filha na tal Rua Azusa nº2 enquanto a mãe da menina está fora trabalhando. Durante a narrativa, com seu clima de ternura, vamos ligando os pontos até percebermos o final impactante e melancólico. Apreciei imensamente esta história, pois trás elementos do folclore japonês que estão enfatizados na inocência da garotinha e neste dia tão especial que a menina espera com ansiedade.

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Reencontro em Azusa nº2 (Azusa Nigou de Saikai)

Irmãos Monocromáticos (Monochrome no Kyoudai) é o terceiro conto e narra o reencontro de dois irmãos gêmeos de meia idade após a morte de Yukiko, a mulher que ambos amaram. Essa foi à segunda história que mais gostei, porque apresenta personagens idosos (*o que é raro nos mangás*) e pelo teor dramático de um triangulo amoroso que durou a vida inteira. Apreciei o ritmo lento dessa narrativa, no cuidado que a autora teve no reencontro desses irmãos que tiveram rumos de vida diferentes e por se reencontrarem por causa da perda de um amor comum. A conclusão é forte e acredito que destaca a intensidade dos sentimentos que guardamos conosco.

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Irmãos Monocromáticos (Monochrome no Kyoudai)

O Espantalho que Sonha – Parte 1 e 2 (Yume Miru Kakashi) é o maior conto do mangá, pois como vocês podem ver é dividido em duas partes. É o único conto que se passa fora do Japão, o cenário desta narrativa é nos Estados Unidos, e narra o retorno de Jack ao Kansas, cidade onde passou a infância e juventude, para o casamento de sua irmã mais nova, Betty. Neste momento marcante da vida da irmã e o local do casamento que ela escolheu, iremos mergulhar nas memórias do protagonista-narrador ao serem deixamos aos cuidados da família do tio paterno e por sofrerem por não serem bem-vindos. Devido às circunstâncias, Jack criou um senso de responsabilidade para com Betty, tornando-se com o passar dos anos bastante ciumento. Acho que essa história guarda duas versões: a que vemos do narrador e a nossa interpretação dos eventos trazendo a questão da rejeição familiar sentida por Jack ser uma ilusão ou um exagero. O elemento sobrenatural do conto é o espantalho que a menina chama de “mamãe”.

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O Espantalho que Sonha (Yume Miru Kakashi)

O Pequeno Jardim de Outubro (Juugatsu no Hakoniwa) é o conto que trás várias referências em relação à imagem do corvo. Sem dúvida um dos mais sombrio e difícil de interpretar. A história trás um escritor de sucesso único, Kazunori Shinoda, que mora próximo de uma floresta. Devido ao tormento de não conseguir avançar em seus escritos, ele sonha repetidas vezes com um corvo. Neste cotidiano infértil, do nada uma suposta parenta adolescente surge na sua casa. Kazunori até tenta mandar a garota embora, mas se pergunta constantemente de onde ela surgiu e qual familiar teria o deixado cuidar dela. Conversando com a Lígia, perguntei se ela sabia o significado da imagem do corvo no Japão. Pesquisando, ela me disse que os corvos são mensageiros da deusa Amaterasu e se caracterizam pela criatura mística de um corvo de três pernas, chamado Yatagarasu, cuja aparição simboliza uma intervenção divida nos assuntos humanos. O que faria sentindo na narrativa do conto, pois o corvo interfere na vida de Kazunori. A Lígia acha que Hozumi escolheu a figura do corvo como uma referência mais banal: o “ar misterioso”, ou, mesmo a imagem de associação da morte que o animal tem no ocidente. Realmente, ambas as interpretações são possíveis.

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O Pequeno Jardim de Outubro (Juugatsu no Hakoniwa)

O ultimo e o mais curto conto é E então… (Sorekara) (*adoro o som dessa palavra em japonês*), narra à visão de um gato recentemente adotado se perguntando sobre o comportamento de seu dono. A história é fofa e surpreendente quando vemos que o dono do gato é o rapaz do primeiro conto. Isso mesmo, aquela personagem da história que dá título ao mangá. Foi ótimo reencontrá-lo e ver como ficou a relação dele com a irmã. Este conto passou a sensação de certa continuidade. O felino aqui tem sua forma particular de carinho, mas continua com aquela imagem de gato indiferente. Engraçado que a minha gatinha é o inverso (*acho que ela é reencarnação de cachorro, hahahaha*).

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E então… (Sorekara)

Tendo um panorama de todas as narrativas, o conto que mais destoa das demais histórias é O Pequeno Jardim de Outubro. Enquanto a obra foca na relação familiar entre duplas de irmãos, ou, num novo membro da família, o jovem escritor solteiro e frustrado destoa das demais situações. A interpretação que eu tive foi de que mesmo que esta história traga uma sensação de deslocamento das demais, de alguma forma aquele corvo que observava de longe Kazunori, criou certa simpatia pela situação desgastante dele e o ajudou. Talvez o corvo se sentisse próximo a Kazunori, e este sentimento de afinidade e proximidade tenha entrando timidamente na temática do mangá.

Quanto ao traço de Hozumi, ele flerta com o realismo. Além disso, é limpo e elegante. Já os cenários aparecem quando necessários. Amei a arte desta mangaká! Outro detalhe que me deixou mais encantada foram o enquadramento focando nos trejeitos, nos gestos, no olhar e no sorriso, ou seja, nos sentimentos profundos daquelas personagens. Isso tornou as narrativas mais sensíveis, pois o desenho faz com que esses sentimentos internos sejam identificados.

Além da editora Panini trazer um excelente título josei, que é bastante escasso no Brasil e assim como o shoujo sofre preconceito por sua demografia, a edição nacional, com orelhas, está de qualidade. Por ser uma obra tão fenomenal até merecia uma edição luxuosa com páginas coloridas (*-*). O interessante deste lançamento é também para mostrar aos próprios leitores de mangá, e de certa forma a própria editora, que a demografia para o público feminino apresenta uma gama de títulos que não se resumem somente a romance escolar.

The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias, de Hozumi, é uma obra que apresenta histórias incríveis, trazendo com maturidade, lirismo e vivacidade sentimentos tão pessoais. Não é de surpreender que no Japão este one-shot fez tanto sucesso. Revelo que estou apaixonada por Hozumi, quero ler tudo dela ♥.

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Título: The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias
Título original: Shiki no Zenjitsu, 式の前日
Autora: Hozumi
Tradução: Luciane Yasawa
Editora: Panini
Páginas: 192
Ano: 2016

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5 respostas em “Mangá: The Wedding Eve – A Véspera do Casamento e Outras Histórias – Hozumi

  1. Mangá excelente ! Surpreendente como Hozumi narrou esses eventos tão bem em poucas páginas. Autora de qualidade. Espero que publiquem mais obras dela por aqui. Lulu, você tinha me dito que tem o mangá Sayonara Sorcier. Você vai resenhar?

    • Para mim foi uma das melhores leituras de 2016. Concordo. Hozumi consegue dizer muito em poucas páginas. Também torço para que publiquem mais obras dela no Brasil (*espero ver Usemono Yado*). Sim, tenho o mangá em francês de Sayonara Sorcier. Lerei no próximo ano e terá resenha. Abraço, Carlos!

  2. Só agora reparei que “Sorekara” é o nome de um romance do Natsume Soseki (traduzido aqui no Brasil como “E depois”). O conto do mangá é protagonizado por um gato, assim como o livro “Eu sou um gato” do Soseki. Será que tem alguma relação ou é só coincidência?

    • Será que tem alguma relação?! Pode ser que o gatinho do mangá tenha sido inspirado no romance “Eu Sou um Gato”. Quanto ao romance “E Depois”, eu ainda não li, mas ele faz parte daquela trilogia que discute as transformações pelas quais o Japão passou do final do século XIX para o início do século XX. Então neste caso acredito que seja coincidência. O “Sorekara” do mangá deve fazer alusão ao primeiro conto. Beijos, Lígia!

  3. Pingback: Os melhores de 2016 | Lulunettes

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