Livro: O Museu do Silêncio – Yoko Ogawa

o-museu-do-silencio-yoko-ogawaPublicado originalmente no ano 2000, O Museu do Silêncio, de Yoko Ogawa, narra sobre um museólogo, narrador da história, que é contratado por uma rabugenta velha senhora para a criação de um museu em sua propriedade. O museu em questão preservará a passagem do tempo, a memória, a vida e a morte dos habitantes de uma remota vila.

Os objetos reunidos anteriormente pela velha, e agora pelo museólogo contratado, devem descrever com exatidão o falecido. No entanto não é qualquer peça que será posteriormente exposta, os objetos escolhidos devem conter características marcantes e serem representativos do que foram essas pessoas em vida.

Assim como o personagem-narrador é caraterizado pelo seu dever, as demais personagens são apresentadas igualmente por suas funções e não por nomes. Além da velha impaciente, que é a idealizadora do Museu do Silêncio, temos sua dedicada filha adotiva, o jardineiro faz-tudo, a criada e os pregadores do silêncio, que são monges vestidos por uma pele de bisões-dos-rochedos-brancos de uma seita misteriosa que defendem o desaparecimento das palavras. Além da presença constante dessas figuras, temos outras que existem para reforçar a união deles. E claro, a alma e a memória dos mortos transmitidos pelos objetos recolhidos.

Com um enredo bastante curioso em um limite de espaço, o ambiente não identificado em que a história se passa, que às vezes me parece estar no fim do mundo, ganha uma aura mística. Eu fiquei com a impressão de que a narrativa acontece numa fronteira entre a realidade e o irreal.

Por o narrador ser um experiente museólogo, temos um apanhado geral do trabalho cuidadoso desses profissionais. Particularmente achei interessante conferir o processo de catalogar, preservar, reparar e projetar o futuro espaço. Ou seja, todo o passo a passo da criação da alma desse mundo particular que é um museu. No caso do romance, na criação de um mundo irreal e silencioso.

[Atenção!!! Este parágrafo contém SPOILER] Conclui a obra sem captar muito bem se o assassinato daquelas mulheres foi realmente pelas mãos do jardineiro, ou, se ele somente recolheu os mamilos como peças destinadas ao museu. Tendo a ficar com a segunda opção, pois não teria sentido o assassinato proposital, já que a proposta do museu é esperar a morte para depois agir. Mas também fico a pensar que além dos objetos talvez o museu almeje uma variação de falecimentos. Bem, acredito que a autora acabou de nos levar a um beco sem saída. Ou sou eu que estou sem conseguir encontrar o caminho? [/ Fim do SPOILER]

Quanto à escrita de Yoko Ogawa, ela nos oferece ao mesmo tempo uma simplicidade e sutileza. Combinando também com um ritmo lento que casa perfeitamente com a atmosfera que começa suave e torna-se cada vez mais sombria e cheia de simbolismo no decorrer da narrativa.

Em relação à arte da capa, a imagem utilizada é “Detalhe de Grande Buda”, referente ao Grande Buda de Nara (Nara-no-daibutsu) localizado no Templo Todaiji, na cidade de Nara, Japão. Combinou muito bem com a obra, pois além do tema do romance, a figura dos pregadores do silêncio dá a impressão de serem monges de uma antiga seita budista.

A leitura de O Museu do Silêncio me fez lembrar um filme japonês que adoro, chamado Depois da Vida (no original: Wandafuru Raifu), do diretor Hirokazu Koreeda. Na trama, os falecidos estão numa espécie de purgatório para escolher e reviver durante a eternidade um momento marcante de sua vida. Acho que o filme veio à mente, porque o museu endereçado aos mortos da obra de Yoko Ogawa fala de certa forma de um tipo de eternidade.

O Museu do Silêncio, de Yoko Ogawa, é um romance pungente e difícil de explicar. O assunto principal é a memória, mas os temas são muitos e interligados de modo que acabamos por nos perdermos como o protagonista ao percorrer a linha de ligação da vida e da morte. Leitura mais que recomendada! (^_^) Também sugiro que confiram a entrevista com a autora, e o comentário da tradutora Rita Kohl sobre o romance.

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Título: O Museu do Silêncio
Título original: Chinmoku Hakubutsukan, 沈黙博物館
Autora: Yoko Ogawa
Tradução: Rita Kohl
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 304
Ano: 2016

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

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9 respostas em “Livro: O Museu do Silêncio – Yoko Ogawa

  1. Já estava com vontade de ler O Museu do Silêncio desde que você publicou que tinha recebido da editora. Depois da resenha (não li a parte do spoiler) fiquei interessado ainda mais. Pelo jeito o livro “foge” da identidade japonesa.

    • Legal que minha resenha tenha causando o efeito de você sentir vontade de ler o livro (^_^). Espero que consiga lê-lo em breve. Carlos, não diria que foge da identidade japonesa, na verdade estamos vendo outro lado da literatura japonesa. Abraço!

      • Comentário com SPOILER: Lulu, li o livro e estou com a mesma dúvida sobre o final que você. Mas opto pela opção que o jardineiro mantou essas mulheres, só por causa do corte nos mamilos que se assemelham ao da lâmina da faca que o cara produziu. Acho que é um ponto importante.

        Você recomendaria “O Museu do Silêncio” para quem curte romance policial?

        • [SPOILER no comentário] Carlos, muito boa a sua observação. Realmente tem esse elemento da faca / lâmina que nos faz acreditar com mais certeza que o jardineiro assassinou essas mulheres. Menino, tu tá um Sherlock Holmes! [Fim do SPOILER no comentário]
          Acho que “O Museu do Silêncio” agradaria bastante os fãs de romance policiais (^_^).
          Abraços, Carlos!

  2. Agora que li o livro, vamos ao comentário com spoiler: acho que foi o jardineiro que matou as mulheres. Além do que já foi apontado pelo Carlos, acho que seria meio difícil o jardineiro ficar sabendo da morte das mulheres e ir lá rapidinho cortar os mamilos antes da polícia chegar (a não ser que ele fosse cúmplice do assassino). E é muito mais assustador se ele for o assasino, né?

    • [Comentário com SPOILER] Boa observação, Lígia! Realmente não teria sentido o jardineiro saber das mortes com antecedência. Mas como o romance tem um clima meio sobrenatural, eu estou que nem o museólogo: carregando uma dúvida que nunca será respondida.
      Sim, bastante. Conviver com o assassino é realmente assustador. Ou a angustia e paranoia da dúvida. [Fim do SPOILER]

  3. Pingback: [Cortesia] Editora Estação Liberdade ~ A Fórmula Preferida do Professor | Lulunettes

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