Mangá: La jeune fille aux Camelias (Shoujo Tsubaki) – Suehiro Maruo [+18]

couv_camelias_completePublicado originalmente em 1984 pela editora Garo, o seinen La jeune fille aux Camelias (no original: Shoujo Tsubaki), de Suehiro Maruo, narra os tormentos da jovem Midori no Japão do inicio do século 20. Após ser abandonada pelo pai e ficar órfã de mãe, Midori é enganada por Koijirô Arashi, o proprietário do circo de aberrações. Entre o assédio moral e a crueldade física e psicológica, os integrantes grotescos da trupa encurralam a ingênua menina num pesadelo.

O inferno em que vive a protagonista logo é amenizado com a chegada de um anão ilusionista capaz de colocar todo o corpo numa garrafa, chamado Masamitsu le Magnifique. O talento do novo membro da trupa revive o decadente circo. Apesar da grande diferença de idade, afinal Midori tem somente 12 anos, a nova estrela se relacionará com ela. Mesmo num relacionamento inadmissível, acreditamos que a tranquilidade finalmente fará parte da vida da jovem. Entretanto a esperança inexiste no universo de Suehiro Maruo.

Entre o contraste da inocente Midori e as feiuras e atitudes cruéis das demais personagens, o autor consegue nos torturar com uma ficção que poderia ser facilmente uma cruel realidade. Na verdade existe até hoje garotas que são levadas pelo mesmo caminho que Midori. As cenas de violência, que inclui estrupo, nudez infantil, maus-tratos a animais, etc., são totalmente explicitas e brutais, levando-nos a um redemoinho assustador de sensações desconfortáveis.

Suehiro Maruo é considerado o mestre do ero guro (gênero de arte e música japonesa; adaptado para o idioma nipônico das palavras “erotic and grotesque” (erótico e grotesco)). Ele merece realmente o título de mestre. Nas suas obras você sente algo físico, um embrulho no estômago ou nojo que demais títulos do gênero não conseguem causar com suas escancaradas perversões.

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Graficamente, o mangaká se distingue por seu estilo de arte que lembra a estética de desenhos dos anos 30 e por não hesitar em expor seus delírios. Sua arte é polvilhada com cenas chocantes e perturbadoras. O interessante em Shoujo Tsubaki é a vulgaridade de contraste entre a inocência e a opressão. Uma combinação que ultrapassa a bizarrice. A arte também lembra, acredito que haja inspiração, nas gravuras de estilo ukiyo-e que retrata cenas de horror da mitologia japonesa e que eram bastantes populares no período Edo.

Conheci o mangá graça ao anime. Quando assisti a animação do diretor Hiroshi Harada fiquei interessada para conhecer a obra original. Imaginei que a perversão no mangá seria mais forte, mas o anime, acredito por ter sido o primeiro contato, me chocou infinitamente mais. Acho também que a trilha sonora bizarra e a dublagem intensificaram o incomodo que senti. Enfim, só consegui ler La jeune fille aux Camelias com a reimpressão deste ano; sendo que o mangá foi publicado na França desde 2005 e em 2011 ganhou uma nova edição (*talvez a tiragem seja pequena*). A edição francesa é bonita, apresenta papel de qualidade, algumas páginas coloridas em vermelho e inclui uma peça conturbada intitulada L’Allée du Destin. O único ponto negativo é a ausência de orelha ou de uma sobrecapa.

La jeune fille aux Camelias, de Suehiro Maruo, apresenta uma narrativa com tensão crescente e com um final totalmente desesperador. Não sei se a obra apresenta alguma mensagem, acredito que sim, pois a trama se passa num período bastante turbulento da história do Japão. Talvez o autor pretendesse retratar a agitação deste período. No entanto minha interpretação foi à falta de fé na humanidade. Que a vida é essa podridão e que os bons de coração jamais terão paz nesta imundice de sociedade. Shoujo Tsubaki é um mangá que se deve estar preparado para uma sucessão de agressões, que provavelmente te deixará inundado por uma tristeza sufocante e te causará um desconforto físico. Um clássico ero guro estranhamente fascinante.

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Título: La jeune fille aux Camelias
Título original: Shoujo Tsubaki, 少女椿
Autor: Suehiro Maruo
Tradução: Satoko Fujimoto e Éric Cordier
Editora: Imho
Páginas: 180
Ano: 2011

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  • Adaptação:
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Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki [1992] – Hiroshi Harada

Iniciado em 1987, pelo diretor Hiroshi Harada, o projeto independente da animação de Shoujo Tsubaki requereu cinco anos de esforços intensivos para emergir. Apoiado por Suehiro Maruo, autor da obra original, Harada levou a maioria do trabalho sozinho custeando o processo com suas economias, antes de confiar a animação a outros profissionais, como o compositor J. A. Seazer e o diretor de arte Katsufumi Hariu.

O filme foi feito de forma artesanal, Harada desenhou a mão em torno de 5.000 layouts. Ele emulou uma técnica datada do século 12 chamada kamishibai, que é uma forma de contar histórias através do emakimono (rolo de pintura) criada por monges budistas japoneses. Essa técnica exerceu uma grande influência no que seria o mangá. Concluída em 1992, a animação Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki foi exibida de uma forma peculiar, com direito a efeito de fumaça e outros elementos que intensificaram a experiência dos espectadores.

Por apresentar cenas fortes e linguagem discriminatória, no Japão a comercialização da animação foi proibida. Por causa disso quase se tornou desconhecida; parece até que o original foi destruído e somente um punhado de cópias existia por lá. Em 2006, a distribuidora Ciné Malta lançou na França o longa de Hiroshi Harada com o título de Midori. Pelo que andei pesquisando, esta é a única versão encontrável do DVD no mundo.

Quem tiver a oportunidade de ler o mangá primeiro e depois assistir ao anime, recomendo nesta ordem (*no meu caso foi o contrário*). Mas, quem não puder ou não quiser ler a obra original, o anime é bastante fiel ao mangá, inclui poucas cenas extras e cumpre perfeitamente as sensações provocadas pela narrativa do quadrinho. Na verdade acho que em determinados momentos até supera, porque a união da animação limitada, da dublagem e da trilha sonora causa um estranhamento que intensifica o desconforto.

Animação Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki [1992], do diretor Hiroshi Harada, legendado em PT-PT [+18]:

Antes que eu me esqueça, em maio deste ano, Shoujo Tsubaki ganhou uma adaptação em filme live-action. Ainda não assisti, infelizmente, mas conferindo o trailer me parece que será bacana e aparentemente menos ousado que a animação de 92.

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Minhas impressões do mangá La jeune fille aux Camelias (Shoujo Tsubaki), de Suehiro Maruo; com apanhado geral da animação do diretor Hiroshi Harada, intitulada Chika Gentō Gekiga: Shōjo Tsubaki; é minha contribuição para o Mês do Arrepio. This is Halloween!

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8 respostas em “Mangá: La jeune fille aux Camelias (Shoujo Tsubaki) – Suehiro Maruo [+18]

      • Lulu, eu assisti o anime. Fiquei chocado com as violências apresentadas. Quando acontece aquilo com os cachorros eu quase desisti. Também quase abandono quando a Midori pensa em se matar. Realmente tem que assistir com o espírito feliz. E acho que não é para qualquer um.

        • Shoujo Tsubaki é muito chocante. Quando assisti eu fiquei angustiada com a sucessão de desgraça que acontece com Midori. Essa menina está no centro de toda a violência. O pior que essa realidade é possível.

  1. Pingback: Os melhores de 2016 | Lulunettes

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