Livro: Guerra de Gueixas – Nagai Kafu

guerra-de-gueixas-nagai-kafuPublicado originalmente no jornal literário Bunmei entre 1916 e 1917, Guerra de Gueixas, de Nagai Kafu, retrata o mundo do distrito da luxúria do início do século XX localizado em Shinbashi, Tóquio.

O romance narra à jornada de Komayo, uma mulher que ao casar deixou para trás a vida de gueixa, mas ao torna-se viúva decidiu retornar ao antigo ofício por não suportar viver com a família de seu falecido esposo. A trama não só passa pelas intensas percepções da heroína, mas também dos donos das casas onde ela trabalha e de seus clientes.

Durante a leitura é fácil ouvir o ruído dos treinamentos com instrumentos tradicionais, dos passos de dança e da preparação das gueixas para seus compromissos; ver as luzes das casas de chá que indicam à primeira hora da vida noturna e da apresentação especial no famoso Kabuki-za; e por fim, entrar no íntimo de cada consciência entre colegas de profissão, clientes e familiares. É um turbilhão de sensações e cenários aos quais acompanhamos Komayo e as personagens secundárias sempre em um tom de curiosidade da condição do que é ser gueixa.

Uma das grandes qualidades desta obra é a descrição de cada ambiente. Noto que os autores japoneses são mestres em encontrar a poesia nos momentos mais comuns. Kafu faz jus a esse detalhe da literatura clássica japonesa. Na verdade acho que ele foi realmente muito bem sucedido em Guerra de Gueixas, pois sua narrativa carrega uma franqueza desse mundo fetichizado, pelo menos no ocidente. Acredito que Nagai mostra que esse objeto de admiração e respeito, que é a figura da gueixa, são mulheres reais que foram levadas ainda meninas ou se submeteram a esse tipo de profissão que carrega uma tradição repleta de status, mas que também apresenta um lado oculto.

Nos bastidores dessa arte viva não existe tanta alegria; a vida das aprendizas e das gueixas é preenchida com conflitos, estresses, limitações e humilhações. Mesmo com toda bela tradição milenar da arte, essas mulheres ainda são sujeitas aos caprichos dos homens.

Em meio a várias percepções que são montadas para a direta e excelente conclusão, fiquei com a impressão que Nagai Kafu escutou ou presenciou várias dessas histórias. Porque o nível de precisão desses acontecimentos e ações é impressionante. Caso esses episódios do romance não tenham sido adaptações das experiências pessoais do autor ou como ouvinte, Kafu é um ótimo observador. Algum colega leitor que leu o romance sentiu a mesma sensação?

Há várias passagens em Guerra de Gueixas que foram cortadas por apresentarem teor erótico. Desde sua primeira edição em livro, publicada em 1918, até os anos 1960, somente edições censuradas circularam pelo Japão. Na edição nacional o tradutor Andrei Cunha, também responsável pelas notas de rodapé, pontuou os momentos em que havia a censura. Muito interessante incluírem tal detalhe, pois além de ser uma informação curiosa sobre a obra, podemos ter um pouco da percepção dos leitores da época e de como uma edição censurada perde-se pormenores essenciais para melhor compreendimento da narrativa.

Sobre o título original, Udekurabe (腕くらべ), significa algo como “Rivalidades” ou “Jogo de Forças”. A rivalidade narrada na obra de Kafu está mais entre as emoções do que diretamente entre indivíduos. Ao longo do romance, torna-se evidente que as gueixas não devem cair na armadilha do amor; elas terão que manter suas emoções sob controle. O autor salienta a dificuldade delas em dependerem de seus clientes e amantes. O jogo de forças mostra a luta de uma mulher para equilibrar a vida de gueixa com seu desejo de independência.

Achei belíssima a ilustração em estilo Ukiyo-e escolhida como arte da capa. Verificando as informações da gravura na ficha catalográfica: titulada de “Gueixa com Hibashi”, a gravura é de autoria do artista Utagawa Kunisada II (1823 – 1880) e data do século XIX. Observando com atenção as vestimentas e os penteados e adereços das moças, nota-se que além da definida como gueixa em atividade no hibashi (dispositivo de aquecimento tradicional japonês), na imagem também está presente uma oiran (cortesã da alta classe) e acredito que a menorzinha seja uma kamuro (menina que serve a oiran). Acredito que a gravura indique a seguinte norma: que a gueixa, mesmo trabalhando no bairro dos prazeres, era proibida a ter relações com o cliente da cortesã. Essa regra existia a fim de proteger o negócio da oiran. No entanto, eu ainda estou na dúvida se a moça no hibashi é realmente uma gueixa.

Para informações sobre a oiran, recomendo minhas impressões do excelente mangá Sakuran, de Moyoco Anno. Na resenha apresento um panorama da cortesã de alta classe. Vale a pena conferir (^_~).

Então, entre a aprendiza (maiko) e a formada (gueixa), há uma diferença visível, mas sutil na indumentária, maquiagem e adereços. Sigam-me os bons!

» Maiko (舞子 ou 舞妓 ~ literalmente “pequena dançarina”):

maiko

A jovem aprendiza de gueixa é chamada maiko. Pode ser referida como oshaku (literalmente “a que serve o saquê”), hangyoku (em Tóquio) e maiko (em Kyoto).

A maiko usa kimonos com cores vivas. O vermelho é sua cor predominante, pois se refere a pouca experiência. A cor está predominantemente presente na haneri (gola), que passa por vários estágios com diferentes bordados determinando a elevação de aprendiza até chegar a torna-se gueixa. Na maquiagem, a jovem pinta o rosto e pescoço de branco e o vermelho no lábio começa de forma modesta somente na parte inferior; quando a maiko aumenta de rank, começa a preencher mais o lábio. O obi é chamado de darari (“obi que pende”), são longo e largo e no fim tem o kamon (brasão) da casa que a maiko pertence, e é posicionado na altura dos seios. As tamancas (okobo) são altas, e também no avançar da aprendizagem vão ficando cada vez mais baixa. O penteado varia de acordo com o grau do rank e são feitos com o cabelo real da aprendiza.

» Gueixa (芸者, Geisha ~ literalmente “pessoa que faz a arte”):

gueixa

Às vezes era chamada de ippon, que significa “um bastão” (de incenso). Refere-se ao incenso consumado durante as atividades. Nas regiões oeste do Japão, região que inclui Kyoto, era referida como geiko. A gueixa tem que ser registrada no kenban, viver em okiyas (casas de gueixas) e cultivavar a arte da dança, música, caligrafia, conversação e literatura. Ou seja, a gueixa tem a função de entreter.

A gueixa usa kimonos com tons suaves ou discretos. O branco é sua cor predominante, pois significando sabedoria e seriedade, e está presente na haneri (gola) que é toda branca e bordada. Ela usa sandálias zori, e em tempo de chuva a geta. O obi é curto e um pouco estreito, geralmente em tons dourados, e é posicionado abaixo dos seios. Na maquiagem, ela pinta o rosto e pescoço de branco e o lábio é completamente vermelho, significando seu alto status e sua versatilidade em várias artes. Usa peruca feita de cabelo humano, chamada katsura, e o penteado é em estilo Shimada, que indicada que a mulher é casada, mas no caso da gueixa significa seu comprometimento com a arte. Os acessórios no cabelo se limitam a três kanzashis e um pente. Caso case, terá que abandonar a profissão.

eriashi

Eriashi

Ambas usam tabi (meia) e o obi são atados para trás. Na pintura em branco do rosto e pescoço, a eriashi (parte de trás do pescoço que mostra um pouco da pele), tanto a maiko como a gueixa deixam essa parte visível. A eriashi tem a forma de um “U” e se expõe um pouco das costas, sendo que no caso da gueixa expõem-se menos. O comum é de “duas pernas”, mas existe também o desenho com “três pernas” que parece ser usado em ocasiões especiais.

Se eu me confundi em alguma coisa nos pormenores das maikos e das gueixas, por favor, me alerte nos comentários.

No ocidente a quem acredite que gueixa é uma prostituta de luxo. Gostaria de deixar claro que é um equivoco confundi-la com prostituta. Mesmo que as gueixas tenham relações sexuais com seus clientes mediante pagamento, elas não são consideradas prostitutas. No Japão, desde o Período Feudal, uma mulher só era considerada prostituta se sua principal fonte de renda fosse o sexo. A mulher que obtém renda de atividades diversas, mas tem vários amantes que pagam ou não por essas relações sexuais, não é considerada prostituta.

Guerra de Gueixas, de Nagai Kafu, é um romance que brilha em seu retrato perspicaz e incisivo do mundo das gueixas. Expondo como as casas funcionavam, quais os desafios e responsabilidades que essas mulheres enfrentavam. A intensidade do drama que se passa por trás das cortinas fechadas desta história é realmente impressionante. Romance maravilhoso ♥.

Além de indicar fortemente a leitura de Guerra de Gueixas, de Nagai Kafu, gostaria de recomendar uma obra de não ficção como complemento da leitura: Minha vida como gueixa – A Verdadeira História de Mineko Iwasaki, de Mineko Iwasaki. Há 10 anos que o li, então não recordo de tantos detalhes, mas me lembro de ter gostado bastante.

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Título: Guerra de Gueixas
Título original: Udekurabe, 腕くらべ
Autor: Nagai Kafu
Tradução: Andrei Cunha
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 248
Ano: 2016

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.

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12 respostas em “Livro: Guerra de Gueixas – Nagai Kafu

    • Obrigada, Michelle! Fico muito feliz que tenha gostado (^_^).
      Pois é, enaltecem demais o lado bonito das gueixas e se esquecem das demais condições e obrigações dessas mulheres. Guerra de Gueixas mostra um pouco desse outro lado, então recomendo fortemente a leitura (^_~).
      Beijos!

    • Que bom que gostou de minhas impressões, Carlos! (^_^) De nada! Recomendo fortemente “Guerra de Gueixas”, pois além de ser um ótimo livro, Kafu tem uma escrita muito agradável. Depois me diz o que achou, ok?! Ah, esse é o primeiro romance que leio do Nagai Kafu. Tenho outro aqui que lerei depois, e falta adquirir “Crônica da Estação das Chuvas”.

  1. Li esse que você indicou da Mineko Iwasaki e achei ótimo. Muito informativa sua resenha, agora vou ler esse do Kafu. Indicação anotada 😉 Um beijo pra tu!

    • Também gosto bastante do livro da Mineko Iwasaki! (^_^) Opa, quando finalizar a leitura de “Guerra de Gueixas” gostaria de saber suas impressões, ok?! Um beijo pra tu! [2]

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