Mangá: Sakuran – Moyoco Anno

sakuran-moyoco-annoPublicado originalmente na revista Evening da editora Kôdansha, Sakuran, da versátil Moyoco Anno, ganhou seu formato tankōbon em 2003. Este curioso seinen trás uma narrativa que abre as portas do distrito do prazer no período Edo.

Kiyoha é uma prostituta de alto status, sendo muito famosa por sua beleza e seu dom inato para a sedução. No famoso bordel Tamagiku, quando a Oiran principal da casa falece, os donos tentam convencer Kiyoha a substituí-la, pois era obvio que ela seria perfeita para tal papel. Voltando alguns anos atrás, quando a protagonista ainda se chamava Tomeki, descobrimos sua origem e seu caráter extraordinário até torna-se essa figura conhecida no distrito da luz vermelha de Yoshiwara.

As mudanças que a heroína enfrenta desde menina até torna-se mulher, mostra uma parcela da vida de uma prostituta de luxo. Quando pequena, ela se recusava a ser trancafiada e servir o bordel Tamagiku e constantemente tentava fugir. Essas fugas, e outros maus comportamentos, resultavam numa punição física violenta. Tornando-se cada vez mais bonita ao crescer, Kiyoha é cotada a ser uma prostituta de alto status, mas ela não acha nada encantador à ideia de satisfazer os desejos de desconhecidos todos os dias de sua vida.

Com uma vida limitada e servil, afinal as prostitutas eram proibidas de sair do distrito (somente poderiam lagar a profissão caso conseguissem pagar suas dividas, ou ao casar), curioso que a paixão é o grande medo das cortesãs. Com uma vida de solidão e abusos, elas tornam-se suscetíveis à má intensão de seus clientes. Então o único caminho para que elas não caiam na armadilha do amor, que pode causar prejuijos imensuráveis, é tornarem-se indiferentes.

Mesmo carregando em certos momentos uma leveza, Sakuran trás um universo em que opera uma realidade. A mangaká desenvolve a narrativa da cortesã de alto status de uma forma crua, deixando pouco espaço para esperança e algum sonho de liberdade.

O único ponto negativo do mangá é se limitar ao passado da protagonista. Vemos a evolução de Kiyoha de uma miserável a uma Oiran, mas não há um desenvolvimento além. Gostaria de ver como ela manteria seu novo pensamento e se ela algum dia chegaria a ter condições de parar de servir essa prisão. Sei que para tal desenvolvimento seria necessário bem mais que um único volume.

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Durante o período Edo (1600 – 1868), com leis restringindo os bordéis, surgiu à criação de distritos murados localizados a certa distância do centro da cidade que ofereciam todo tipo de entretenimento. Foi desses distritos reclusos e fechados que as Oiran surgiram.

Oiran (花魁 – 花 que significa “flor”, e 魁 que significa “primeiro” ou “carregada à frente dos outros”) é considerada a cortesã de status mais elevado. Tecnicamente, apenas as prostitutas de alta classe de Yoshiwara foram chamadas assim, embora o termo seja amplamente aplicado a todas a partir de meados de 1700. Antes disso, em Kyoto, o nome dado ao posto mais alto da cortesã era Tayuu (太夫).

As Oiran se distinguem das prostitutas comuns por serem versadas em várias artes, como conversação, música e caligrafia, chegando até a tornarem-se uma figura ritualizada e famosa fora do distrito. Por seu status e estilo de vida luxuoso, ela era adequada para os daimyo (senhores feudais). Só os mais ricos podiam patrociná-las e ter oportunidade de serem clientes regulares.

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A Oiran tem um estilo de indumentária, penteado e adereços chamativos, mas sofisticados. Seus kimonos têm várias camadas e são brilhantes, estampados e extravagantes. O obi é amarrado na frente (alguns dizem que é para facilitar que se vestisse sozinha depois de atender seus clientes). Com um penteado bastante complexo, como adereço no cabelo usa-se até uma dúzia de kanzashi (grande espeto decorativo para o cabelo, considerado joia) e até três pentes de casco de tartaruga. Outros detalhes da indumentária são a não utilização de tabi (meia) e a okobo (tamanca) era extremamente alta. Já a maquiagem é tradicional e elegante. Os pés e a nuca a mostra eram considerados um detalhe erótico.

Somente a Oiran era servida por uma Kamuro. Kamuro é uma menina ou um menino, entre 6 e 10 anos, vendidos pelos pais, órfãos ou o próprio filho da cortesã, que a atendia em várias tarefas. A Oiran era pessoalmente responsável por sua alimentação e vestuário. No caso das meninas, elas poderiam torna-se prostitutas. Somente a cortesã de status alto detinha duas Kamuro, a cortesã de médio escalão uma, e a prostituta comum de qualquer categoria não poderia ter nenhuma.

Acredito que pelo aspecto econômico e material, afinal os custos para manter tal aparência e treinamento eram elevados, com o tempo as Oiran foram perdendo seu espaço para as Gueixas. Atualmente, as poucas mulheres restantes praticando as artes da cortesã de luxo, sem o aspecto sexual, fazem como preservação do patrimônio cultural.

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Além da excelente narrativa, outra grande atração de Sakuran é sem dúvida o traço sofisticado de Moyoco Anno. Os olhos expressivos da heroína são maravilhosamente bem desenhados e você facilmente se sente seduzido. A capa em si já apresenta uma arte belíssima e bastante convidativa. Destaques aos fios do cabelo no penteado, os mamilos e os pelos pubianos, pois são detalhes que proporcionam naturalidade ao character design. Além disso, é interessante mergulhar no cenário do distrito do prazer. Sobre as páginas coloridas, desnecessário comentar o óbvio.

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Normalmente a edição francesa segue o mesmo modelo da edição japonesa. Que edição! (*0*) Uma das mais bonitas da minha estante, sem sombra de dúvida. A editora Pika foi realmente muito bem sucedida no projeto gráfico de Sakuran, que está altamente extravagante e atrativa como as Oiran.

Apesar do luxo aparente, no mundo das Oiran elas não têm controle sobre suas vidas. Mesmo tendo um status que lhe permitem alguma liberdade, no final, elas compartilham do destino da solidão. Sakuran, de Moyoco Anno, tem o mérito de mostrar o funcionamento do distrito do prazer de Yoshiwara, trazendo uma narrativa amarga e tocante do cárcere que enfrentam as Oiran. Sendo uma releitura feita após alguns anos, Sakuran continua com seu status elevado.

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Título: Sakuran
Título original: Sakuran, さくらん
Autora: Moyoco Anno
Tradução: Fédoua Thalal
Editora: Pika
Páginas: 308
Ano: 2010

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2 respostas em “Mangá: Sakuran – Moyoco Anno

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