Livro: O Castelo de Yodo – Yasushi Inoue

o-castelo-de-yodo-yasushi-inoueO Castelo de Yodo, de Yasushi Inoue, publicado originalmente em 1955, é a segunda obra que leio do autor japonês nascido em Asahikawa, Hokkaido. Havia me presenteado com este romance há alguns anos e estava esperando o tal momento certo para lê-lo. Este momento finalmente chegou e foi uma das leituras mais intensas que já tive (*suspira*). A razão de tamanha intensidade? Bem, aprecio imensamente este período histórico da terra do sol nascente (^_^).

Japão, século XVI, Período Azuchi-Momoyama (1573-1603): vários clãs poderosos estão em guerra civil. Oda Nobunaga, do clã Oda, uma figura importante da força política durante o Período Sengoku (1467-1573), avança em seus planos de unificação com maestria, até que morre durante o Incidente de Honnō-ji (ocorrido em 1582, refere-se ao seppuku forçado do daimyō Oda Nobunaga sob as mãos do general Akechi Mitsuhide). Foi neste momento que o filho de um camponês-guerreiro, o general Toyotomi Hideyoshi, que servira Nobunaga, sucedeu seu antigo senhor. Sendo que na morte do regente, Tokugawa Ieyasu toma o poder e funda o Xogunato Tokugawa, tornando-se o primeiro xogum do ultimo xogunato da história do Japão (ordem dos três xogunatos que existiram: Kamakura > Ashikaga > Tokugawa).

Diante desse panorama histórico, quem relata os detalhes dessas inúmeras batalhas e das três figuras unificadoras do Japão é Chacha (茶々), filha de Azai Nagamasa, sobrinha de Oda Nobunaga e futura Yodo-dono (淀殿). Chacha é uma princesa de alto escalão, filha mais velha de Oichi, irmã de Nobunaga. Após a morte do pai, do avô e de seus irmãos e da destruição do castelo de sua família, sua mãe e suas irmãs, Ohatsu e Ogo, são poupadas da morte. Com o segundo casamento de Oichi com Shibata Katsuie, seguem outros desentendimentos e novamente um castelo em chamas aparece diante dos olhos da heroína, levando a morte de sua mãe e de seu padrasto. Diante de todas essas mortes violentas, Chacha tem que se tornar forte para não vacilar. Ela acaba virando concubina de Toyotomi Hideyoshi, o homem que matou sua família e tornou-se após a morte de Oda o homem mais poderoso do Japão.

A história é baseada em fundamentos históricos sólidos, incluindo principalmente o papel de uma figura muito importante, Toyotomi Hideyoshi, considerado o segundo “grande unificador” do Japão, o primeiro é Oda Nobunaga e o terceiro é Tokugawa Ieyasu. Assim como seu antigo senhor, Hideyoshi queria deixar o Japão forte, enquanto que o regime de Tokugawa foi de reclusão durante mais de 200 anos e internamente era autoritário com a população.

A narrativa tem um desenvolvimento incrível. Faltam-me palavras para expressar o quão à trama é extraordinária e a escrita fluida. Também é importante destacar que o magnífico relato desse valoroso período da história japonesa seja passado através dos olhos atentos de uma mulher corajosa, orgulhosa e notável. Com seu poder limitado, afinal Chacha era mulher, acredito que a heroína fez o possível para que seu filho com Hideyoshi, Hideyori, fosse o sucessor do pai.

yodo-dono

Pintura do século XVII. Representação de Yodo-dono (Chacha).

Como Chacha foi uma figura histórica feminina notável, por sua importância, gostaria de compartilhar a primeira e mais curiosa referência sobre a dama de Yodo: Yoshitsune Takadachi Shin. Datado do século XVII, Yoshitsune Takadachi Shin é uma peça de teatro de marionetes (jōruri) que conta a história do conflito entre Minamoto no Yoshitsune e seu irmão, o xogum Minamoto no Yoritomo. Embora a narrativa da peça se passe no século XII, e com base em versões anteriores da história deste conflito, ela faz fortemente alusão ao cerco de Osaka, em que as forças de Tokugawa derrotaram o clã Toyotomi, levando a morte de Chacha e Hideyori. A mudança de período na trama era para evitar a censura dos Tokugawa. O caráter da personagem Kyō no Kimi / Shizuka Gozen inspira-se fortemente em Yodo-dono.

Achei peculiar a construção das personagens em destaque. Acredito que Yasushi Inoue construiu-as de forma bastante realista. O tom poético, elemento importante da literatura japonesa, fica nos momentos íntimos, nos pensamentos e na contemplação das estações. O completo inverso aparece quando a “realidade” é narrada. Creio que isso dá um toque de riqueza na história, pois lida com as percepções do ser humano diante das informações passadas pelo meio e como melhor utilizá-las.

Só para esclarecer, há um grande número de personagens citados que não desempenham um papel importante na narrativa e acabam passando despercebidos aos olhos de algum leitor, mas que foram historicamente de extrema influência para um lado ou para o outro, como é o caso de Ishida Mitsunari, que liderou o Exército do Oeste na Batalha de Sekigahara, apoiando até o fim o clã Toyotomi; e Date Masamune que serviu tanto os Toyotomi nas invasões à Coreia (Guerra Imjin), como os Tokugawa nas campanhas em Osaka.

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Pintura do século XVII. Retrata o Cerco de Osaka: A Campanha de Verão (decisiva batalha entre os clãs Toyotomi e Tokugawa).

O romance não permanece somente em meio às batalhas, assassinatos, castelos sitiados e queimados, seppuku, reféns, alianças e traições… Estão reunidos também todos os ingredientes para um grande afresco histórico. O Castelo de Yodo está cheio de informações sobre as tradições e a sociedade japonesa da época, como o estatuto da concubina, o estilo de vida da aristocracia, as tradições guerreiras, a política, a cerimônia do chá, e principalmente o estilo de vida e o nível de poder da figura feminina da classe alta.

O título japonês 淀どの日記, Yodo dono nikki (O diário de Yodo-dono) faz menção aos diários escritos por nobres. Além da curiosa referência histórica, a ideia de que o romance é o diário de Chacha, e podemos considerá-lo, foi uma intenção precisa no quesito do protagonismo ser feminino. Afinal como mulher, que é mais considerada uma peça para as relações dos clãs, a heroína somente teria suas percepções “ouvidas” através dessas páginas em que relata suas transações cotidianas. Ou poderia ser também um costume desse período, pois de acordo com os estudos de Hisayasu Nakagawa, autor de Introdução a Cultura Japonesa. Ensaio de Antropologia Recíproca, no século VXI e época Edo, expressar abertamente um sentimento era considerado vulgar.

Recentemente comecei a assistir o anime Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, que resumindo superficialmente fala sobre rakugo (monólogos humorísticos). Estou adorando a série! (^_^) Vocês devem estar se perguntando qual a relação da animação com a obra de Inoue? Na verdade nenhuma diretamente, rs. No entanto, no primeiro episódio uma personagem coadjuvante comentou a seguinte frase durante a apresentação do senhor Yakumo Yuurakutei.

shouwa-genroku-rakugo-shinjuu_sensacao

Sinto exatamente essa sensação (^.^).

Eu me sinto exatamente desta forma e provavelmente com esta cara, hahaha. Fico imersa, em estado de concentração total quando estou a ler coisas do meu interesse. O Castelo de Yodo narra justamente sobre um período histórico do Japão que aprecio demais (*-*). Deparar-me com essa sensação que resume perfeitamente o que sinto foi uma coincidência agradável. Além disso, a leitura dessa obra extraordinária veio também num momento bastante propicio (^_^).

Apesar da multiplicidade de personagens e da abundância de fatos históricos, Yasushi Inoue consegue guiar-nos nesta trama complexa. Um terreno fascinante para explorar o período Azuchi-Momoyama. Como comentei anteriormente, fiquei fascinada com esta prosa que me levou a sensações maravilhosas (*-*).

O Castelo de Yodo, de Yasushi Inoue, é um belo afresco da turbulenta e fascinante guerra civil e unificação japonesa, mas também o retrato de uma heroína trágica, de uma mulher que mesmo estando na alta classe foi movida de acordo com a vontade desses três unificadores, tendo a única opção de encontrar a felicidade nos cenários que lhe eram propostos. Um livro essencial! Sim, virou romance do coração ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: O Castelo de Yodo
Título original: Yodo-dono Nikki, 淀どの日記
Autor: Yasushi Inoue
Tradução: Andrei Cunha
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 312
Ano: 2013

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8 respostas em “Livro: O Castelo de Yodo – Yasushi Inoue

  1. Apesar de a história mais antiga do Japão não me interessar tanto (gosto mesmo é da Era Meiji em diante), o livro parece ser fascinante.

    Adoro Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, um dos melhores animes que vi nos últimos tempos! Bom saber que você está assistindo. 🙂

    • “O Castelo de Yodo” é muito amor (*-*) Mais que recomendado ❤ Quando você ler, quem sabe se apaixone por este período (^_~).

      Lígia, eu também estou adorando “Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu” (^_^). Ah, parece que terá segunda temporada (*animada*).

      Beijos!

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