Livro: A Odisséia de Penélope – Margaret Atwood

A Odisséia de Penélope - Margaret AtwoodMargaret Atwood e outros autores contemporâneos foram convidados pela editora escocesa Cannongate Books para reescrever grandes mitos de sua escolha, assim constituindo uma coleção chamada Canongate Myth Series.

Diante de alguns incômodos em Odisséia, a autora canadense escolheu a aventura de Odisseu (ou Ulisses, como era chamado no mito romano) para expor, ou tentar explicar, a razão do enforcamento das doze escravas, e o que realmente pensava Penélope. Apoiada em várias pesquisas, Atwood oferece uma obra rica e emocionante que dá voz a essas personagens silenciadas da narrativa grega.

Odisséia é um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, existindo variantes regionais do mito, não unicamente a atribuída por Homero, pois o poema que relata o regresso de Odisseu é uma história oral interpretada de acordo com a localidade e repassada por gerações. Até que foi fixada, provavelmente no fim do século VIII a.C., por escrito.

Nunca li Odisséia. Entretanto tenho um conhecimento básico da história. Mesmo sabendo um mínimo, não me senti perdida em nenhum momento durante a leitura. Então quem tem interesse de ler A Odisséia de Penélope antes de Odisséia sua leitura não será prejudicada. E para quem já leu e lerá posteriormente a obra de Atwood, com certeza será uma leitura rica.

Através dos olhos da mulher de Odisseu, A Odisséia de Penélope trás a visão feminina de Odisséia. Neste pequeno livro, descobrimos que a lenda, embelezada por séculos pelo patriarcado, não coincide com a realidade. No submundo, Penélope e as escravas, contaram sua própria versão da história.

A narrativa é extremamente bem construída. Margaret envolve o leitor em torno das injustiças sofridas pelas escravas e principalmente por Penélope. Dentre os mortos, elas revelam tudo e sabem tudo. Finalmente, não precisam ficar em silêncio. Essas vozes formam no além um coro que anuncia os acontecimentos e as mais profundas sensações da tragédia dessa história. Melhor, dá tragédia pessoal dessas mulheres que clamam por justiça. Mesmo em tom de lamentação, o livro tem seus momentos humorados, mas é um tipo de humor agridoce.

Penélope

Penélope

Fiquei mais uma vez surpreendida com o poder da escrita de Atwood e por sua ousada interpretação desta famosa história. Ela consegue trazer ideias que trazem reflexões sobre o papel coadjuvante feminino; da nossa falta de voz; da subjugação da nossa capacidade; e das injustiças feitas ao nosso gênero. Tudo isso simplesmente pela sociedade patriarcal determinar nosso papel de cidadão de segunda classe.

Meu momento preferido da narrativa foi o julgamento. No tribunal atual, diante dos “profissionais” que interpretam as leis, a versão da vitima é completamente desmerecida. A vozes dessas mulheres não tem peso, mesmo com todas as evidências. Achei incrível a forma crua que ela abordou tal momento. Foi uma tapa bem dada a sociedade hipócrita em que vivemos, de que a justiça só é dada aquele que tem mais poder. Não sei se a autora teve a intensão de dizer algo além, mas eu obtive uma mensagem: que os direitos iguais que nós mulheres tanto lutamos, não será dado pelo legislativo de um sistema decadente como este em que nós vivemos.

A Odisséia de Penélope, de Margaret Atwood, é um mergulho na mitologia que revela uma faceta diferente, trazendo conceitos antigos paralelamente com os atuais, da tão famosa história de Odisseu / Ulisses. Eu simplesmente convido vocês a lerem esta obra que oferece uma ideia original.

A leitura deste drama grego foi realizada no mês de junho deste ano e compartilhada com a Michelle, do blog Resumo da Ópera. Então quem quiser conferir das impressões da Mi, clique aqui.

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Título: A Odisséia de Penélope
Título original: The Penelopiad
Autora: Margaret Atwood
Tradução: Celso Nogueira
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 160
Ano: 2005

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6 respostas em “Livro: A Odisséia de Penélope – Margaret Atwood

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