Livro: Stoner – John Williams

Stoner - John WilliamsO clássico moderno de John Williams, publicado originalmente em 1965, foi quase esquecido. Somente em 2003 com a reedição que começou a ganhar de modo progressivo seu verdadeiro reconhecimento. No Brasil, o romance americano chegou pela primeira vez após cinquenta anos, sendo o primeiro e certeiro lançamento da editora Rádio Londres.

Stoner, de John Williams, narra à história de uma vida, da jornada do filho único de agricultores humildes, chamado William Stoner, que se torna doutor em Literatura Inglesa e professor universitário. Acompanhamos a personagem, que dá título ao livro, desde o início do século XX, na sua entrada na Universidade do Missouri aos 19 anos, até sua morte. Nas primeiras frases do livro é revelado que Stoner teve uma vida banal, com rumos inesperados, decepcionantes, triste e certamente alguns sucessos e alegrias. Diria uma vida comum, mas certamente melhor que a maioria das pessoas tem.

Quando ouço que William Stoner teve uma vida simples e / ou infeliz, não consigo concordar com tal afirmação. Simples é a vida de seus pais agricultores, principalmente de sua mãe com sua face inexpressiva. Infeliz é o rumo da vida de Grace, única filha de Stoner, que se torna alcoólatra. Diferente delas, Stoner teve sorte em Archer Sloane notar seu interesse pela literatura, de conduzi-lo para a área acadêmica, tirando-o do que poderia ter sido uma vida com menos sentido. Eu acredito que nosso protagonista fez o que desejava, encontrando até um amor, no caso a literatura, que moldou a sua personalidade.

Não sei vocês que leram, mas estou até agora tentando entender o comportamento agressivo de Edith com Will. Achei exagerada a conduta dela. Cheguei a pensar que o autor incluiu tal personagem com este tipo de atitude para sentirmos pena do pobre Stoner, como também para não julgarmos o seu relacionamento extraconjugal e avassalador com Katherine Driscoll. Depois refleti que talvez John Williams quisesse mostrar que mal conhecemos as pessoas. No entanto tenho uma teoria da razão da implicância doentia de Edith com o marido. Creio que para ela o matrimonio não lhe deu nenhum beneficio. Afinal Edith veio de uma família com condições e mordomias, e ao casar com Stoner isso foi tirado dela. Outra razão seria de uma raiva concentrada por ela de ser controlada pelos outros, então achou no marido uma forma de se vingar indiretamente. Realmente eu não sei. Edith Stoner é uma personagem incógnita e de difícil, quase impossível, enxergar suas razões. Eu, por exemplo, me baseei somente em ideias subjetivas que percebi na leitura.

Diferente de Hollis Lomax que, por razões de ego ferido ou de pura implicância, prejudica a vida acadêmica de Stoner, e quase arrasa a de Driscoll. Acho que por isso William nunca conseguiu sair do cargo de professor assistente, mesmo sendo muito bom profissional.

Respeitei todos os momentos da apatia e da falta de ação de Stoner. A única passividade que não o perdoo foi abandonar sua filha, que acabou tendo atitudes impensadas para fugir do ambiente sufocante que a mãe criou e que o pai simplesmente desviou o olhar. Enquanto ele só assistia a repressão da real vitima e tristeza desta história, quase com indiferença, Grace transforma-se numa figura apática que para ter um pouco de alívio precisa recorrer ao álcool.

Sobre a escrita do autor texano, ela é simplesmente clara e apresenta um ressoar com precisão e beleza nas passagens da paixão do protagonista pela literatura. Gostei desses momentos tão íntimos com os livros.

Presente na segunda edição nacional, e vi que também na edição de capa dura, um ótimo posfácio de Peter Cameron que dá um bom complemento a leitura. Eu e Peter tivemos a mesma impressão da falta de atitude de Stoner com Grace.

William Stoner teve uma vida comum como vários tiveram e vários terão, e como também muitos jamais tiveram e jamais terão. Acredito que por esse motivo os leitores tenham uma grande simpatia por este romance. Não pela identificação com o protagonista, mas por mostrar que na vida existem consequências das nossas ações nas mais diversas circunstâncias. Stoner, de John Williams, simplesmente mostra uma vida honesta.

.

Título: Stoner
Título original: Stoner
Autor: John Williams
Tradução: Marcos Maffei
Posfácio: Peter Cameron
Editora: Rádio Londres
Páginas: 320
Ano: 2015

Anúncios

7 respostas em “Livro: Stoner – John Williams

  1. Ouço muitos elogios a esse livro e tenho muita vontade de ler. Interessante isso que você disse de que a vida do personagem não é simples e triste, é uma perspectiva diferente de algumas que vi por aí. 🙂

    • Lígia, o livro é ótimo! Vale muito a pena a leitura!
      Pois é, eu discordo dessa visão de que a vida de Stoner foi simples e triste. Como comentei na resenha “William Stoner teve uma vida comum como vários tiveram e vários terão, e como também muitos jamais tiveram e jamais terão.”
      Beijos!

  2. Lulu, a personagem Edith é um dos mistérios do livro. Como já li faz um tempo eu não tenho a lembrança fresca, mas se não me engano existe um capítulo em que o ponto de vista da narrativa passa pra ela, você lembra? Isso só acontece uma vez pois por todo o livro a visão é de Stoner. Nesse momento que o ponto de vista é dela dá pra desconfiar de muita coisa, dos motivos que fazem ela agir assim, lembro que tinha algo a ver com a família ou o pai. De qualquer forma ela me pareceu uma pessoa com problemas mais sérios mentalmente falando. Acredito que o autor tenha tido necessidade de usar esse ponto de vista dela para que o leitor não ache ela uma pessoa má por completo, só não sei se ele conseguiu, rs. Beijinhos!!!

    • Pois é, que mulher incógnita. Sinceramente não me lembro desse capítulo que existe o ponto de vista da Edith *desmemoriada*. Seu problema de oscilação de humor tinha que ter relação com a família de origem. Não a acho completamente má, existem sim maldade e indiferença na personagem, mas o comportamento frequentemente violento dela acaba se tornando doentio. E o leitor quer entender a razão de tanta ira. Olha, acho que praticamente todo mundo vai detestar a Edith, mas acho também que Stoner não fica muito atrás. Beijos, Lua!

  3. Pingback: Os melhores de 2016 | Lulunettes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s