Livro: Irmãos – Yu Hua

Irmãos - Yu HuaEste calhamaço de Yu Hua, publicado originalmente em 2005, apresenta a história dos meio-irmãos, Li Carequinha e Song Gang, na Cidade de Liu. Durante cerca de 40 anos acompanhamos a vida dessas duas personagens, de personalidades opostas, envolta de tragédias, decepções e também de sucessos, passando pela China do século XX ao inicio do século XXI.

É o terceiro livro que leio de Yu Hua. O conheci pelo incrível Viver. Depois passei por Crônica de um vendedor de sangue. E conclui os romances do autor chinês publicados no Brasil com Irmãos. Adianto que este foi o pior dos três. Persisti na leitura, realizada no mês de setembro do ano passado, somente pelo estilo da escrita fluida, pela curiosidade de como se concluiria a desgraceira dessa narrativa e por ter combinado de ler e discutir o romance com a Taciele, do blog Viva Livros.

Talvez Irmãos impressione por mostrar uma China crua, por denunciar os absurdos cometidos pelo governo de Mao Tsé-Tung e por revelar como a estratégia de Deng Xiaoping ao incorporar o capitalismo ergueu o país. Já que Yu Hua é chinês, ele sabe muito bem do que está falando. Bem, se seguirmos com este tipo de argumento, os brasileiros que anseiam pela volta da ditadura de 1964 ou que acreditam que a tal corrupção vem de um único partido, por exemplo, seriam profundos conhecedores da nossa história. O simples fato do nascimento e vivência no país, não significa que o cidadão é conhecedor dos fatos.

Parte da narrativa de Irmãos perpetua as atrocidades do período da Revolução Cultural, como quando o personagem Song Fanping é acusado por possuir terras e é brutalmente torturado, humilhado e por fim morto da forma mais horrorosa possível. Só para esclarecer, a Reforma Agraria aconteceu no começo do regime comunista e a Revolução Cultural foi no final do governo de Mao, quando ele alertava sobre o golpe de um setor da burocracia do Partido Comunista que pretendia fazer uma restauração do capitalismo na China. Sempre querem nos fazer acreditar que Reforma Agraria é confiscar terrinha. Reforma Agraria visa os latifundiários e as classes altas que detém muito mais do que precisam e que exploram quem não tem nada; Ou quando Su Mamãe é humilhada por ser mãe solteira. Não faz sentido, pois o regime maoísta queria livra-se de pensamentos retrógrados e de superstições que atrasam uma sociedade.

Enfim, essas supostas ações violentas do regime com a população em algum momento resultaria em revoltas. Não se tem dados de revoltas contra o governo de Mao Tsé-Tung. Há no período posterior a Mao, como o conhecido Protesto na Praça da Paz Celestial, ou, Massacre da Praça da Paz Celestial, que ocorreu em 1989. Que foi quando o estado confiscou direitos estudantis e respondeu violentamente com tanques aos manifestantes. Mas essa revolta tão conhecida e importante nem é ao menos citada no romance.

Engraçado que tal período, me refiro a Revolução Cultura, sempre é mostrado como um equívoco de Mao Tsé-Tung. O Partido Comunista pós-revolução cultural não pode fazer tanto a caveira do revolucionário, pois até hoje ele é uma figura querida e respeitada por ter recebido um país falido e o tirado de tais condições, dando dignidade aquela população. Não é algo espantoso o dito “Partido Comunista” (*que de comunista só tem nome, já que a economia como um todo é uma economia capitalista*) use sua imagem como símbolo.

Não me surpreende que até agora não li nenhum romance chinês que critica a atual burocracia (*quem souber, por favor, me avise*). Essa mesma que deixa sua população trabalhar como escravo para empresas estrangeiras, com alto índice de suicídio. Quanta falta de criticismo. Para a burocracia atual é conveniente esse tipo de romance como Irmãos, Crônica de um vendedor de sangue, Balzac e a Costureirinha Chinesa, etc., porque foram eles os atacados durante a Revolução Cultural.

Yu continua com sua escrita forte e descontraída. Gosto da escrita dele. Em termos de narrativa, no geral achei apelativa. Uma pena, pois as várias personagens, como o Li Carequinha, Song Gang, Li Lan, Song Fanping e Su Mamãe, são bem legais. Nota-se também que o autor constantemente e exaustivamente se repete, chegando a ser cansativo. Em alguns momentos tive vontade de desistir da leitura por não estar me acrescentando nada. Mas lembrei daqueles três motivos que me fizeram continuar.

Irmãos, de Yu Hua, apresenta uma narrativa de puro sofrimento sem nenhum proposito em relação ao crescimento pessoal das personagens, como acontece nos dois romances anteriores que li do autor. A única mensagem desta obra é mostrar os absurdos da Revolução Cultural e de como as medidas de Deng Xiaoping, tirando direitos básicos de moradia, trabalho, renda e alimentação, implantadas pelo equivocado Mao Tsé-Tung, foram maravilhosas para a China (*sqn!*).

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Título: Irmãos
Título original: Xiōng Dì, 兄弟
Autor: Yu Hua
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 632
Ano: 2010

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2 respostas em “Livro: Irmãos – Yu Hua

  1. Também li esse livro recentemente. Como não sei quase nada sobre a história da China, a visão do Yu Hua sobre a época não me incomodou. O que me incomodou foi o humor forçado, apelativo e repetitivo, mas ainda assim gostei bastante do livro, da escrita e dos personagens.
    Preciso ler Viver, que parece ser o melhor livro do autor.

    • Também achei o humor bastante forçado =/ Mesmo com esses pontos negativos que você notou e ainda assim gostou de “Irmãos”, acredito que “Viver” será uma ótima surpresa. Abraços, Lígia!

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