Livro: Frankenstein – Mary Shelley

Frankenstein - Mary ShelleyMeu primeiro contato com Frankenstein foi com a versão cinematográfica de 1994. Sempre fiquei receosa de ler o romance, pois desgostei do filme e o motivo talvez se desse pela pouca idade com que assisti. Quando iniciei o Especial Horror ~ Clássicos ~ no blog, tive receio que a leitura desse grande clássico do terror fosse cansativa. Felizmente, minhas impressões acerca do romance foram bastante positivas. Falando de forma empolgada e descontraída: AMEI Frankenstein!! ❤

Frankenstein, de Mary Shelley, publicado originalmente em 1818, é um romance gótico com inspirações do movimento romântico e considerada a primeira obra de ficção científica da história. A escritora britânica, filha do filósofo William Godwin e da escritora e defensora dos direitos das mulheres Mary Wollstonecraft, o escreveu quando tinha apenas 19 anos, entre 1816 e 1817.

A edição mais publicada e usada para traduções é a terceira edição, de 1831, versão esta revisada e corrigida por Mary Shelley – a narrativa não sofreu nenhuma alteração; e que inclui uma valiosa introdução escrita pela autora, onde ela relata um pouco da infância, da gênese do romance e reforça sua autoria. A editora Nova Fronteira, edição que li, traduziu e publicou justamente a terceira edição.

É enriquecedor ler a introdução escrita por Mary Shelley. De saber, pela própria autora, como se deu, em detalhes, a origem de seu clássico. Resumindo a gênese do Criador e da Criatura: aconteceu no verão de 1816, quando Mary Shelley e seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley, convidados pelo amigo e escritor lorde Byron, passaram o verão em Genebra, na Suíça. No local, os três e mais outro hospede, o também escritor John William Polidori, passavam horas de lazer no lago ou caminhando por sua margem. Durante vários dias, impedidos de sair por causa da incessante chuva, em meio a livros com histórias de terror alemãs traduzida para o francês, lorde Byron propõe um desafio para que cada um escrevesse uma trama com a temática. As ideias começaram a surgir. Porém, passados vários dias, Mary Shelley ainda não havia pensando em nada. Numa noite, ela reflete sobre as conversas que assistiu entre lorde Byron e Shelley, e imagina a base do que seria a narrativa de Frankenstein.

A narrativa começa com as cartas do capitão Robert Walton para sua amada irmã, Margaret. O capitão Walton segue seu desejo de descobrir uma rota nas regiões polares ao outro extremo. Durante a expedição, sua tripulação avista algo estranhamente grande. No outro dia, surge um cansado homem que, ao embarcar no navio, contará sua história e como seu forte desejo o amaldiçoou.

Victor Frankenstein é um jovem discreto apaixonado pela ciência natural. Ele não é nenhum doutor louco, mas alguém que avistava um desejo que o dominou e o deixou obcecado sem pensar nas consequências. Em vez da satisfação de seu feito, o pânico e o arrependimento crescem em seu interior assim que a Criatura, sem nome, abre os olhos. Pelo intenso medo, Victor simplesmente rejeita sua criação logo ao nascimento, abandonando-a a própria sorte. O reencontro do Criador e da Criatura acontece após dois anos (*esta parte me deixou arrepiada*).

Rothwell_Mary_Shelley

Retrato de Mary Wollstonecraft Shelley (1797 – 1851) pintado por Richard Rothwell em 1840.

Frankenstein abre uma série de reflexões acerca da relação entre o homem e a ciência. Quando a ciência é usada para fornecer um beneficio a humanidade, é um objetivo louvável de progresso. Mas quando o pesquisador tenta jogar de feiticeiro, os efeitos contrários podem ser adversos. Outro fundamento do romance é a construção psicológica do criador e da criatura, enfatizadas com as caracterizas do estilo romântico (personagens guiados pelos impulsos do coração e contemplando o mundo a sua volta) e do gótico (presente na natureza raivosa e nos elementos sobrenaturais. O que impressiona, pois a onipresença da natureza no livro é como se fosse um dos protagonistas).

Os capítulos narrados pela Criatura, que são uma verdadeira joia da literatura, ficaram bastante marcados na minha leitura. O “monstro”, “demônio” ou “desgraçado”, como seu criador sempre o define, é uma criatura forte, ágil, veloz, resistente e de aparência que causa pavor, mas por trás de sua fisionomia asquerosa, há um ser de sensibilidade extraordinária. A ação violenta que move a Criatura pode ser definida como uma rebeldia. Rebeldia esta alimentada pelo abandono de seu Criador e pelo ostracismo e injustiça dos homens. A Criatura, uma personagem profunda de fácil simpatia, é simplesmente um incompreendido criado por aquele que brincou com a ciência. Acredito ser difícil julgar os atos do rebelde, pois imaginei minha reação se eu estive na mesma situação. Será que manteria a gentiliza com as pancadas constantes no corpo? Pediria algo em troca para compensar o sofrimento que o outro me infligiu? Não estou tirando a culpa das mortes dos inocentes que a Criatura causou, mas gostaria de estimular a reflexão sobre a origem de uma ação de revolta na sociedade e que tipo de sociedade influência tal ato. Pois o que determina o modo de existência do homem é o meio. Apesar de a Criatura ter uma consciência positiva, o meio agressivo modificou seu modo de agir. Se o meio fosse caridoso com ele, acredito que sua ação seria condizente. Por exemplo, a família que ele anonimamente ajuda, caso não houvessem se assustado e o expulsado, poderia prosperar com sua boa ação.

Ainda na Criatura, a vivência dele com os elementos do ambiente me passou a impressão de ser uma alegoria a nossa evolução como espécie. A consciência vai desenvolvendo desde a relação com o fogo, que aquece enquanto queima, até o conhecimento do aprendizado da linguagem e escrita.

Curioso também observar a relação entre o Criador e a Criatura. Havia um forte desprezo de ambas as partes, mas também uma fagulha de algum sentimento próximo à ternura. Digo isso, pois não percebi no inicio um grande esforço da parte de Victor diante das situações. Claro que o medo é uma sensação primitiva paralisante, mas a sequência de perdas só fortalece o elo com seu Adão. Posso estar sendo equivocada acerca de Victor Frankenstein. Porém, em relação à Criatura, seu Criador era o único elo com a humanidade, o único sentimento, mesmo que desgastante e conturbado, que ele tinha com o mundo. O final do romance, muito triste por sinal, reforçou essa minha impressão.

A escrita de Mary Shelley é maravilhosa! É um prazer percorrer as páginas uma por uma e conhecer o mito em torno de Frankenstein. Em sua escrita sofisticada, ela dá tempo do leitor observar as consequências dos atos do Criador e da Criatura, sendo um deleite descobri-las com o avançar da narrativa. Interessante também à homenagem (*acredito que seja uma homenagem*) da autora a terra natal de Victor Frankenstein ao local em que a história ganhou vida.

Frankenstein, de Mary Shelley, apresenta temas ricos, nos faz navegar entre os sentimentos da compaixão e da indignação. Foi uma leitura extremamente agradável e considerá-lo um dos favoritos da vida me surpreende, já que resisti por alguns anos à leitura. Caso conheça alguém que resista ao romance, tal como resisti, sentarei ao seu lado e direi para não cometer o mesmo erro que cometi.

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Título: Frankenstein, ou O Prometeu Moderno
Título original: Frankenstein, or The Modern Prometheus
Autora: Mary Shelley
Tradução: Adriana Lisboa
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 240
Ano: 2014

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  • Adaptação Cinematográfica:

Mary Shelley's Frankenstein (1994)

Adaptações de Frankenstein é o que não faltam, seja pra rádio, televisão, cinema ou quadrinhos. A primeira adaptação para o cinema começou no ano de 1910 e perdura até os dias de hoje. Gosto muito do visual da Criatura da famosa (e confusa) adaptação de 1931, que é a aparência mais conhecida, mas que distorce da descrição original. Na verdade nenhum visual até hoje parece com a descrição feita por Mary Shelley. No máximo, poucos se aproximam em alguns pequenos detalhes.

Um fato curioso nas adaptações cinematográficas é a personalidade insana de Victor e de como ele dá vida a sua criação. Cada diretor tem uma visão própria e vários deles inspiram-se nos colegas das gerações passadas. Primeiramente, Victor não tem ajudante e muito menos é um cientista maluco que grita “It’s Alive!”. Sobre o modo que dá vida ao mostro, Mary não descreve com detalhes este processo. Ela só joga alguns elementos. Então, cada um tem a liberdade de interpretação.

Após concluir a leitura, revi a versão considerada mais próxima do original: Frankenstein de Mary Shelley (Mary Shelley’s Frankenstein), do diretor Kenneth Branagh, adaptação cinematográfica de 1994. Talvez desde pequena desconfiasse dessa péssima adaptação. Não entendo como os produtores ousaram incluir “de Mary Shelley” no título, pois da obra original só existe as nuances e, neste caso, superficialmente. Entendo que adaptar um livro para a mídia visual requer mudanças, mas quando descaracterizam as personagens, principalmente a personalidade, é querer inventar demais. Outros pontos que me desagradaram foram os rodopios, as correrias e os gritos incessantes (*até parece que todo mundo é môco no filme*). Sério, ficou algo cansativo e exagerado. Filme decepcionante! (¬_¬) Daqui em diante, sempre vou sugerir o original, pois manter-se nessas adaptações bagunçadas é perder um tesouro da literatura inglesa.

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10 respostas em “Livro: Frankenstein – Mary Shelley

  1. E eu que estava em dúvida se o incluiria na lista dos desejados acabei de decidir por lê-lo em breve! Obrigada por me ajudar a decidir 🙂

  2. Este livro está na minha lista de desejados há bastante tempo, quero comprar o box da Nova Fronteira ainda esse ano, e sua resenha só me deu mais certeza de que preciso dele. Hahahaha
    Beijinhos!

  3. Acabei de publicar minha resenha e vim ler a sua! rs
    Eu desconfio que li esse livro na época que saiu o filme de 1994, mas não tenho certeza. Mas vi o filme no cinema e lembro de ter gostado, apesar de que hoje eu duvido muito que eu gostasse, deve ter ficado bem datado. Morri de rir você comentando que o pessoal era môco kkkkk. Agora rumo a Stevenson e Bram Stoker!
    Beijos!

    • Nunca gostei desse filme, e depois de concluir o livro e rever, continuo achando uma droga. Acho que não seria o caso de ser datado. O filme é ruim mesmo. Lua, é inacreditável como todo mundo fala gritando (>_<). Boa leitura! (^_^) Ah, já fui conferir sua resenha! (^_~) Beijos!

  4. Mais uma releitura que fiz, mais um sucesso!…rs
    Esse eu tinha lido na adolescência e não sabia se ia continuar gostando. Felizmente, gostei ainda mais.
    Eu detesto o Victor! O medo inicial eu até entendo, mas em momento algum ele se arrepende de ter abandonado a criatura nem tenta ajudá-lo. Agiu primeiro por orgulho e depois por covardia. Sou #TeamCriatura até o fim!
    Beijo!

    • Que massa, Michelle! No meu caso eu tinha receio de ler o romance por detestar a versão cinematográfica de 94. Felizmente a leitura de Frankenstein foi maravilhosa e tornou-se um dos preferidos da vida ❤

      Pois é, em nenhum momento Victor se arrepende de ter abandonado a Criatura, mas sim de tê-la criado =/ E o “problema” poderia ter sido facilmente resolvido com uma simples atenção. Eu também sou #TeamCriatura! o/

      Beijão, Michelle!

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