Livro: Sanshiro – Natsume Soseki

Sanshiro - Natsume SosekiSanshiro, de Natsume Soseki, publicado originalmente entre setembro e dezembro de 1908 no jornal Asahi Shimbun, segue um jovem estudante do interior de 23 anos, Sanshiro Ogawa [lê-se “Sanchirô”], em Tóquio na virada do século 19 para o século 20. Sanshiro é o primeiro livro da trilogia informal de Soseki, composta ainda por E Depois (1909) e O Portal (1910), ambos publicados pela editora Estação Liberdade.

Pela primeira vez saindo de sua cidade natal, localizada na província de Kumamoto na ilha de Kyushu, a capital para estudar na Universidade Imperial, Sanshiro terá experiências conduzidas por outras personagens, como seu colega Yojiro, o pesquisador Nonomiya, o professor Hirota e a fascinante Mineko, que brotam em sua vida e permanecem com ele durante todo o romance. Digo guiado, pois em toda a narrativa o personagem-título age de acordo com a vontade de terceiros. Quando pensei que Sanshiro teria finalmente uma atitude própria, ele recua. Mas não o culpo, pois o novo nos causa estranhamento e uma sensação de insegurança. É como se estivéssemos caminhando em ruas desconhecidas. Perder-se é inevitável.

“Subiu ao segundo andar da pensão, entrou no próprio quarto e sentou-se, constatando que o vento ainda uivava. Toda vez que ouvia o som do vento, Sanshiro se lembrava da palavra “destino”. E sempre que a brisa vinha assoviando assim, o rapaz tinha vontade de se encolher. Não se achava um homem de pulso forte. Se parasse para pensar, desde que viera à capital seu destino fora em grande parte arquitetado por Yojiro. Ainda por cima, fora até certo ponto arquitetado de modo que ele ficasse à mercê das alegres brincadeiras do amigo. Yojiro era um peralta que ele se via obrigado a adorar, e de agora em diante também achava que seu destino poderia continuar preso às garras desse adorável travesso. O vento soprava incessante. Era, sem dúvida, um vento mais forte do que Yojiro.” (p. 211)

Em sua história, Sanshiro é em grande parte observador. Sua atenção se volta nas pessoas, no transporte e nas ruas de Tóquio, no céu e no deslocamento das nuvens. Sendo intimidado pela modernidade, ele avança aos passos de seus guias e deixa ser banhado com o novo, mas sem esquecer as antigas tradições.

As experiências do protagonista são uma metáfora ao Japão do Período Meiji (1868 – 1912) com sua crescente modernização e ocidentalização. O regime do Xogunato Tokugawa, que durou 256 anos, deixou o Japão num sistema feudal economicamente atrasado, consequentemente tornando-se um país vulnerável à invasão e dominação estrangeira. A abertura dos portos japoneses aconteceu em julho de 1853, quando quatro navios da esquadra dos Estados Unidos da América chegaram à baía de Edo (nome da antiga capital japonesa, hoje chamada Tóquio) exigindo entrada. Essa ação estrangeira iniciou uma cadeia de eventos que levaram ao fim do shogunato. As mudanças politicas e econômicas que ocorrem nesse período de transição foram desenfreadas. O Japão assimilava velozmente a tecnologia ocidental preparando-se para o capitalismo. A elite japonesa pretendia torna-se, como se tornou, os invasores e não os invadidos da Ásia.

A escrita de Natsume Soseki é muito sutil e agradável. Interessante perceber que assim como Sanshiro observa o mundo, o leitor observa Sanshiro. Minha impressão do romance foi mostrar, através do personagem-título, a passividade do povo japonês, que seguem as regras sem ao menos questioná-las. De maneira geral os romances de origem nipônica são reflexivos. Isso não significa que os japoneses tem facilidade para se expressar. Pelo contrário, essa ação de submissão na comunidade, diante de regras por demais burocráticas, só reforça a internalização das emoções. Sendo possível unicamente ao individuo a expressão interna.

As diversas notas de rodapé espalhadas no romance só enriquecem a leitura. Gosto muito de livros com notas, porque a imersão na época em que a obra foi escrita é mais completa e principalmente por entender as referências. No entanto, alguns termos acabaram sem explicações.

Sanshiro, de Natsume Soseki, é um romance que fascina por sua simplicidade e ritmo lento. Mas não acho um livro acessível para aqueles que querem experimentar a literatura japonesa pela primeira vez. Ou não, pensando bem. Talvez observar Sanshiro seja uma oportunidade para entender o conflito do povo nipônico nesse período de transição.

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Título: Sanshiro
Título original: Sanshirô, 三四郎
Autor: Natsume Soseki
Tradução: Fernando Garcia
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 272
Ano: 2013

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6 respostas em “Livro: Sanshiro – Natsume Soseki

  1. Ótima resenha! Gosto bastante de como os livros do Soseki retratam a era Meiji.

    Não sei se você já leu, mas descobri recentemente um one-shot do Jiro Taniguchi que mostra um personagem que vai parar no mundo de Sanshiro (na verdade ele meio que vira o Sanshiro) e vive algumas das cenas do livro. O mangá chama Tsuki no Yoru. Eu achei bem interessante e inusitado. 🙂

    • Obrigada, Lígia! (^_^) Também gosto. Acho curioso.

      Desconheço. Agradeço a indicação! Ah, estou esperando chegar uma antologia do Jiro Taniguchi. Não sei se contém esse one-shot, mas independente disso, vou procurar. Depois te digo o que achei (^_~).

  2. Oi, Lulu! Eu sempre me interesso por personagens um pouco assim, observadores de quem é realmente protagonista. Adorei seu comentário sobre essa coisa da escrita japonesa ser reflexiva mas que eles não expressam as emoções. Linda resenha! =)

    • Lua, se você curte personagens contemplativos, vai gostar de Sanshiro 😉 Noto que os japoneses têm uma bonita forma de expressão interna (*este termo existe?*), mas são indivíduos introspectivos. Acabei de me lembrar de uma matéria, que vi há alguns anos atrás, sobre o dia dos namorados no Japão mostrando que várias mulheres ouviam pela primeira vez de seus namorados, maridos, enfim, companheiros, que a amavam. [Comentário OFF: felizmente somos mais calorosos com quem amamos. Acho essa nossa característica incrível!] Obrigada! (^_^) Bjs!

    • (^_^) Sim, as narrativas não são continuas. Então acredito que podemos ler sem uma ordem certa que não compromete a leitura. Elissa Gabriela, quando eu ler E Depois (*acredito que próximo ano*) vou visitar seu blog e ler suas impressões, ok! 😉 Obrigada! =D Qualquer livro do Soseki é ❤ Abraços!

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