Livro: O Conto da Aia – Margaret Atwood

O Conto da Aia - Margaret AtwoodNum futuro próximo, a República de Gilead – um sistema teocrático totalitarista cristão que derrubou o anterior governo dos Estados Unidos da América – é o cenário que se passa o romance distópico da escritora canadense Margaret Atwood, publicado em 1985, e que está na lista dos livros banidos da Associação Americana de Bibliotecas (37ª entre os anos de 1990 e 1999; 88ª entre os anos de 2000 e 2009) por ser considerado antirreligioso.

Os acidentes nucleares poluíram a atmosfera e os corpos. Consequentemente, deixando parte da população estéril. Mas de acordo com a nova lei “Eu quase engasgo de espanto: ele disse uma palavra proibida. Estéril. Isso é uma coisa que não existe mais, um homem estéril não existe, não oficialmente. Existem apenas mulheres que são fecundas e mulheres que são estéreis, essa é a lei.” (p. 77). Esta nova ordem social dominada por homens, põe as mulheres em funções pré-definidas: identificadas pela cor azul estão as Esposas dos Comandantes; pela cor branca as Filhas; pela cor cáqui as “Educadoras”; pela cor verde as Marthas, que são responsáveis pelos afazeres domésticos; pela cor vermelha as Aias; pela mistura das cores azul, verde e vermelha as Econoesposas, homens e mulheres pobres; e por fim, as Não Mulheres, que são enviadas as temidas Colônias ou ao Muro por razões que contrariam o sistema vigente (solteiras, divorciadas, estéreis, prostitutas, as que abortaram e homossexuais). Os homens também apresentam funções, mas de opressores, e há entre eles “ovelhas negras” que são eliminados. Na classe das mulheres vestidas por um sufocante vestido vermelho (“prisão individual”, como gosto de definir), privadas até do mínimo conhecimento da alfabetização, são designadas unicamente a conceber filhos aos seus comandantes e suas esposas estéreis vestidas de azul.

Margaret Atwood descreve esta sociedade totalitarista patriarcal cristã através da memória da protagonista-narradora identificada pela cor vermelha, chamada Offred – Offred é “of Fred”, “de Fred”, “pertencente ao homem chamado Fred”. A aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwayne. Inicialmente estranhei um pouco o relato em primeira pessoa, acredito por saber vagamente da narrativa e por ansiar por mais detalhes. Aparentemente estava apressada, mas rapidamente percebi que já me sentia sufocada neste sistema com leis extremamente tirânicas.

“Existe mais de um tipo de liberdade, dizia tia Lydia. Liberdade para: a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de: que significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos da anarquia, era liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a subestimem.” (p. 36)

O Conto da Aia me passa a impressão de ser uma alegoria ao nosso sistema patriarcal. De como o patriarcado, com o passar das gerações, foi definindo o objeto, no caso a mulher. Tomamos como verdades as inversões culturais que nossas antepassadas foram forçadas a acreditar, como: na família monogâmica (a monogamia existe apenas para a mulher. Aos homens a poligamia é permitida.); o aprisionamento da mulher ao lar (nas sociedades comunitárias essas atividades eram divididas entre a comunidade. Surgindo a propriedade privada, as atividades domésticas, que não geram riqueza, são impostas as mulheres. Consequentemente impedindo-as de propriedade.); a alienação de que as mulheres devem ser submissas, obedientes e presar pela beleza física como principal qualidade; etc.

“Vocês são de uma geração de transição, disse tia Lydia. É muito mais difícil para vocês. Sabemos os sacrifícios que são esperados de vocês. É duro quando homens as insultam. Para as que vierem depois de vocês, será mais fácil. Elas aceitarão seus deveres de boa vontade com o acordo de seus corações.” (p. 145)

Ainda há quem acredite que atualmente as mulheres atingiram a igualdade. Infelizmente o cenário se mostra bastante diferente do ideal, pois não temos o mínimo direito à escolha ao aborto seguro e sofremos com a desigualdade de salário na mesma função. Já começando por ai. Na Arábia Saudita, por exemplo, um estado teocrático em que as mulheres não têm o direito de dirigir. A condição da mulher é uma questão global e tudo por causa da condição material. Em seu romance Margaret Atwood abraça a causa feminina e mostra da forma mais tirânica uma realidade que ainda nos atinge, mas que o sistema, capitalista patriarcal, manipula como um curso natural da vida. Dando razões mais absurdas que a outra (a religião é um exemplo) para preservar a mulher nessa classe de subserviência.

The Handmaid’s Tale_Book Illustrations by Balbusso Sisters

Ilustrações das irmãs Anna e Elena Balbusso para The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood.

Quando estava comentando com meu marido sobre o livro e depois assistimos ao filme, ele fez uma observação muito curiosa. De que quando um sistema chega ao ponto de ser controlador com a população, significa que os outros meios menos invasivos já não são suficientes. Ou seja, quando existe todo um aparato repressor, do qual achamos que estão controlando, na verdade está fora do controle e pronto para passar para um novo sistema.

Compartilhando essa leitura com a Michelle, do blog Resumo da Ópera, do qual tivemos conversas enriquecedoras desse livro maravilhoso, chegamos ao ponto de termos uma visão diferente do final aberto da obra. Enquanto a Michelle acredita no triste fim. Por outro lado, eu que me apego à esperança, acredito que Offred saiu ilesa. E o Notas Históricas Sobre O Conto da Aia só reforça a minha positiva impressão.

Nesta atmosfera sufocante de um sistema destruído, Margaret Atwood discute várias questões importantes: como a face de um sistema opressor e a posição das mulheres na sociedade. O Conto da Aia apresenta uma narrativa impactante que nos faz abrir os olhos e refletir a respeito da nossa realidade e condição.

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Título: O Conto da Aia
Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margaret Atwood
Tradução: Ana Deiró
Editora: Rocco
Páginas: 368
Ano: 2006

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  • Adaptação Cinematográfica (contém spoiler):

A Decadência de uma Espécie [1990]

A Decadência de uma Espécie (The Handmaid’s Tale / Die Geschichte der Dienerin), do diretor Volker Schlöndorff, é a adaptação estadunidense-alemão para o cinema de 1990, com Natasha Richardson no papel de Offred, Robert Duvall como o Coronel e Faye Dunaway como a Esposa, Serena Joy.

Um detalhe que gostei no filme foi mostrar, mesmo que rapidamente, a exclusão dos negros ao novo governo. Adeptos ao sistema teocrático cristão são dominados por homens brancos extremamente racistas que usam a bíblia como escudo para seus preconceitos. Achei interessante acrescentar este fato, pois esses energúmenos não veem os negros, latinos e mulheres como iguais, mas como uma subclasse.

Em relação aos pontos negativos, conta com vários que me desagradaram ou que distorcem a ideia do romance. O primeiro deles é a forma de como a trama é contada. Acredito que ficaria melhor se a história fosse apresentada por uma narradora, assim como é no livro, pois acho que geraria mais tensão. A exclusão do significado de repressão das roupas foi uma das grandes mancadas. As caras e bocas da protagonista perde por completo a sensação de angustia e medo da morte que perpetua em toda a narrativa da obra original. E por fim, a gota d’água, o piti do Nick em relação à tarefa de Offred ao ir com o comandante a uma festa obscura. Esse momento de incompreensão por parte do personagem masculino foi uma idiotice de drama. Sobre o final, achei desconexo e sem nenhuma tensão. Além disso, me passou a impressão que a fuga de Offred foi simplesmente para salvar a vida que ela carrega em seu ventre.

No geral, A Decadência de uma Espécie é razoável e resume bem o livro, mas não acho que consiga passar a sensação de sufocamento do romance que é extremamente intensa.

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6 respostas em “Livro: O Conto da Aia – Margaret Atwood

  1. O post ficou ótimo, Lulu!
    Você resumiu bem como a mentalidade de naturalidade dos papéis se instaurou e como é difícil viver sob a ilusão de igualdade nos dias atuais.
    E essas ilustrações são maravilhosas, né?
    A observação do seu marido faz todo sentido! Quando finalmente começamos a perceber o sistema opressor, ele já está entrando em colapso…
    Achei muito legal termos visões diferentes sobre o fim da história. Nos permitiu explorar mais possibilidades.
    Sobre o filme: tem muitos problemas, principalmente essa romantização, mas acho que pode ser um primeiro passo para entrar nessa sociedade caótica da Margaret Atwood.
    E estou louca para ler outros livros dela!
    Mais uma vez, agradeço pela companhia durante a leitura e pelas conversas estimulantes, Lulu. Tô pronta para a próxima! 🙂
    beijo

    • Obrigada, Michelle! (^_^)
      Pois é, sabemos do problema, mas qual a origem e razão dessa opressão? É importante entendermos para mudarmos realmente e não permanecer nessa ilusão.
      Maravilhosas! Nem leio em inglês, mas gostaria dessa edição ilustrada por dois motivos: 1) adorei o romance; e 2) as ilustrações estão fantásticas. As irmãs se garantiram!
      Também achei legal nossa visão oposta do fim. Como você bem comentou, nos permitiu explorar as possibilidades.
      Em relação ao filme, tem razão. Ele é muito bom para instigar a curiosidade do expectador. Não necessariamente para “O Conto da Aia”, mas pelo menos para outros romances da autora.
      [2] Estou tentando ver aqui qual o próximo hahahaha. Mas tá difícil escolher (>_<). Só sei que quero ler tudo dela. Podemos escolher juntas e combinar a próxima leitura. O que acha? =D
      Adorei nosso debate sobre o livro e os momentos de rizadas e revoltas ❤
      Beijos!

  2. Li a resenha da Michelle e achei esse livro muito interessante! Já estou até com meu ebook em mãos, rs. Acho que primeiro vou ler “Um teto todo seu” e provavelmente ele deve ser o próximo nas minhas leituras feministas, rs 😉
    beijo grande, Lulu!

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