Livro: Crônica de um vendedor de sangue – Yu Hua

Crônica de um vendedor de sangue - Yu HuaCom dois amigos, o jovem Xu Sanguan descobre que pode ganhar dinheiro vendendo seu sangue. O ganho relativamente favorável desta transação permitirá ao protagonista pensar em casamento. Ele corteja e firma união com Xu Yulan, à bela rainha da rosca frita. Desta união, nascem três filhos: Yile, Erle e Sanle. Vários eventos na vida da família Xu fazem com que o protagonista recorra ao anúncio do título do livro.

Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua, lançado inicialmente em 1995 na República Popular da China, tem uma atmosfera simples em tom de fábula (ou teatral *como comentou a Taciele na nossa agradável conversa sobre a obra do Yuzinho*). Acompanhamos a vida de Xu Sanguan da juventude até a velhice, de seus altos e baixos com sua família e nas mudanças políticas. No entanto, a história política não é o verdadeiro tema do livro e sim a implacabilidade para sobreviver.

O ritmo da leitura é agradável, alegre e cruel ao mesmo tempo. Os dramas em tom de comédia criam uma atmosfera ácida em torno das personagens. Engraçado que Crônica me lembrou dos programas televisivos que lidam com os problemas pessoais dos humildes em tom de chacota. Mas acho que mesmo com esta sensação bizarra, Yu Hua consegue abordar os temas da pobreza, da fome, da luta pela sobrevivência, da ignorância, da superstição, do amor e apoio da família com certa delicadeza.

Sobre o panorama histórico descrito, dois pontos apresentados sobre o governo de Mao Tse Tung são fantasiosos. O primeiro é as acusações de pessoas comuns que tiveram seus nomes expostos nas paredes e nos postes. O que realmente existia era uma tensão nas universidades. Havia planos da burocracia reacionária de implantar o sistema capitalista no país e esses indivíduos eram julgados e condenados. Mao Tse Tung avisava sobre o golpe capitalista e depois de sua morte aconteceu exatamente o que ele havia alertado. E o segundo ponto é sobre os jovens serem obrigados a trabalhar no campo. Na verdade ocorreu à ida de voluntários aos interiores para levar um bem estar àquela população mais necessitada.

Apesar de não ter a mesma força que Viver, Crônica de um vendedor de sangue é um bonito trabalho de Yu Hua. Afinal, ele tem uma escrita envolvente que cativa.

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Título: Crônica de um vendedor de sangue
Título original: 许三观卖血记, xǔ sān guān mài xuè jì
Autor: Yu Hua
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 272
Ano: 2011

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7 respostas em “Livro: Crônica de um vendedor de sangue – Yu Hua

  1. Oi, Lulu! ^_^
    Eu anotei “Viver” na minha lista desde que li sua resenha sobre ele, mas ainda não li. Sempre gosto das suas dicas de livros, que fogem um pouco do lugar comum.
    Uma curiosidade: como você sabe tanto sobre a Revolução Cultural?
    Beijo! ^_^

    • Oi, Eduarda! Leia assim que você tiver oportunidade 😉 “Viver” apresenta um drama tocante e acredito que seja difícil não gostar.
      Por ser um período complexo, ainda sei pouco sobre a Revolução Cultural Chinesa e vou aprendendo aos poucos.
      Beijão! (^_^/)

  2. Faz tempo não faço nenhuma incursão pela literatura oriental, mas adoro te ouvir falar dela. Sabe o que mais me chamou a atenção? Esse tom de chacota que você menciona…achei estranho e deve ter gerado uma experiência interessante de leitura, acho.
    Beijão!

    • É mesmo?! Que bom! (^_^) É uma impressão que tive em alguns eventos da narrativa que apresentam um teor sério, mas as atitudes das personagens eram de certa forma cômica. Davam uma certeza “leveza” ao problema. Por isso me lembrei desses programas que ganham audiência em cima dos mais humildes. Beijos, Maira!

  3. Mais uma vez foi um prazer compartilhar a leitura de um Yu Hua contigo, Lulu! E a leitura desse livro especialmente é muito leve, mesmo falando sobre a implacabilidade da vida (como você perfeitamente colocou) numa época tão complicada. Parece-me que falar sobre coisas cruéis e tristes de uma maneira extremamente despreocupada é uma característica do Yu Hua, vide Viver, que é só tragédia sobre tragédia e em nenhum momento a leitura se arrasta. Assim também aconteceu com Crônica, mesmo sendo, comparavelmente, mais leve mesmo e com esse tom de chacota.

    Só nos falta agora Irmãos, Lulu, e já to bem animada por mais uma leitura compartilhada. Gostei muitíssimo! Beijão!

    • Digo o mesmo! (^_^) Pois é, Yu Hua tem essa maneira despreocupada de escrever e em nenhum momento a narrativa fica arrastada. Muito pelo contrário, na minha humilde opinião, o Yuzinho sabe desenvolver drama. Lembro que terminamos rapidamente “Viver” e “Crônica”, sem nem perceber que estávamos chegando ao fim. Engraçado isso, rs. “Crônica” não chega aos pés de “Viver”, por motivos óbvios, mas não deixa de ser um ótimo romance.

      Depois temos que combinar a leitura de “Irmãos”! *ansiosa* Também estou adorando nossas leituras compartilhadas (^_^). Falta a Companhia publicar mais livros do Yu Hua (^_~).

      Beijão, Taciele!!

  4. Pingback: Livro: Irmãos – Yu Hua | Lulunettes

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