Livro: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas – José Saramago

Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas - José SaramagoMinha curiosidade em ler Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas foi desde que li uma notícia de um livro inacabado de José Saramago após seu falecimento em 18 de junho de 2010, que me deixou extremamente triste na época. O interesse se intensificou quando assisti à conferência do lançamento de Caim (2009), disponível no canal Fundação José Saramago. Nos últimos minutos, Saramago comenta sobre seu romance em desenvolvimento do qual ele não pôde concluir, infelizmente.

Saramago deixou escritas 30 páginas do que seria seu próximo romance depois do sensacional Caim. Com essas poucas páginas, que viraram algo em torno de 50 páginas em formato de livro, divididos em três capítulos definido pelo autor, já se vê que Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas seria um grande romance, uma narrativa que colocaria em discussão intensa uma das formas mais lucrativas do sistema vigente.

O romance inacabado é narrado em terceira pessoa, e seus dois protagonistas já estavam desenhados – Artur Paz Semedo e sua ex-mulher Felícia. Artur Paz Semedo, homem comum e funcionário exemplar, trabalha com orgulho na fábrica de armas Produções Belona S.A.. Artur Paz Semedo nunca questionou a finalidade dos artigos fabricados e seu grande interesse era ser promovido a chefe da seção das armas pesadas. Por outro lado, seu antagonista, Felícia é uma pacifista.

Depois da leitura do livro de Malraux, L’Espoir (1937), que relata o fuzilamento de operários de Milão por terem sabotado obuses, Artur Paz Semedo sentiu-se confuso, verificou com nervosismo a tradução e viu exatamente o que tinha lido. Estava ali, preto no branco. Telefonou para Felícia. Durante uma longa conversa, ela sugere a Artur Paz Semedo que investigue nos arquivos da empresa os anos da Guerra Civil Espanhola, entre 36 e 39, e se foram vendidos armamentos aos fascistas. E assim segue o início da pesquisa de Artur Paz Semedo até que as páginas acabam.

Seguindo a obra inacabada, estão disponíveis nove anotações, muito espaçadas entre elas, que José Saramago escreveu entre 15 de agosto de 2009 a 22 de fevereiro de 2010. Pormenores interessantes que mostram a escolha do título até decidir um que lhe agrada-se (foi certeira à escolha, acho que casa com o estilo saramaguiano), a decisão do final e a angústia do autor em não conseguir avançar em seus escritos por conta da doença.

Complementado o livro, foram incluídos três ensaios de Roberto Saviano, Fernando Gómez Aguilera e Luiz Eduardo Soares. Gostei de todos os textos, acredito que cada autor enriqueceu a leitura de sua forma.

Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas - Günter Grass

As belas ilustrações espalhadas pela edição são de Günter Grass. O estilo da arte lembraram-me desenhos da 1ª Guerra Mundial, como por exemplo, Potut est sorti de son trou pour regarder un avion Boche, de Georges Victor Hugo (1868-1925), e também, La brèche, de Georges Scott (1873-1943). Talvez o também Nobel de Literatura Günter Grass tenha se inspirado nessas artes.

Como comentou Pilar del Río na edição de Setembro de 2014 da revista Blimunda # 28 da Fundação José Saramago: “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas é um romance sobre as armas e a responsabilidade cívica.” (pg. 4) Mesmo com estes breves capítulos, a definição de Pilar só reforça a grandiosidade do romance inacabado, pois acreditem, em poucas páginas Saramago consegue fazer o leitor imergir na narrativa.

Infelizmente o autor não concluiu o livro e nem está conosco para discuti-lo, como gostaria que estivesse, mas Saramago nos convida em seu romance inacabado a refletir, a abrir os olhos, a pensar sobre a intensão da indústria da morte. Mesmo inacabado, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas tem um poder surreal. Fico imaginando se ele tivesse concluído… Este seria um dos grandes romances da humanidade.

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Título: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas
Autor: José Saramago
Ilustrações: Günter Grass
Textos: Fernando Gómez Aguilera, Roberto Saviano e Luiz Eduardo Soares
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 112
Ano: 2014

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9 respostas em “Livro: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas – José Saramago

  1. Ai, Lulu, que bom que você gostou. E le do seu texto também fiquei com vontade de ler, mas confesso que quando vi o livro da livraria achei que era um pouco de oportunismo. Não sei, e também não sei como foram as conversas para a publicação da obra, então nem viu ficar julgando. Agora, gostei muito dessa ideia dos textos analisando a o ra e o qye ela talvez seria. Acho que deve ser um ótimo exercício.
    Enfim, saudades de você.
    Bjs.

    • Maira, adorei Alabardas! Delicada a situação de publicação de uma obra póstuma. Não vejo problema caso o(a) autor(a) deixe instruções. Neste caso acredito que não foi oportunismo, já que Pilar del Río, além de esposa, trabalhava junto com Saramago – traduzindo vários títulos para a língua espanhola – e preside até hoje a Fundação José Saramago. Então acho que ela não faria algo que Saramago desgosta-se. E concordo com a declaração dela sobre o assunto:

      A jornalista espanhola respondeu com bom humor à provocação de Manuel Alberto Valente, que quis saber como ela havia recebido algumas críticas que classificavam a publicação de Alabardas de oportunista. “Acho que deveríamos ser não oportunistas mas oportunos. É o que tem faltado à cultura nestes tempos diante da voracidade dos negócios, que tantas vezes nos atropela”. [link]

      Saudade de você e do seu cantinho (^_^).

      Beijos!

  2. AMEI!!! Pronto, Lulu, seu blog me cativou já na primeira visita. Design e escrita impecáveis, temas que realmente me interessam. Por exemplo, esse livro do Saramago com ilustrações do Günter Grass.
    Eu sou fã de carteirinha do Saramago, tenho muitos livros dele, e no ano passado descobri o Günter. Você sabia que ele também escreve? Eu me apaixonei por um livro dele chamado “A Caixa”, você já leu? Estou há um tempão para resenhá-lo pro meu blog, mas sinto que não o compreendi por inteiro, sabe? Então precisarei lê-lo novamente antes.
    Aliás, seria um prazer te ver lá no meu blog. O endereço é http://www.literasutra.com.
    Um abraço,
    Mona

    • Obrigada pelos elogios, Monalisa! (^_^) Também sou fã do Saramago, tenho um carinho imenso por ele ❤ Sei que o Günter Grass escreve, até comentei na resenha que ele também é Nobel de Literatura, mas infelizmente nunca li nada dele U_U. Monalisa, as obras do Günter Grass só foram publicadas em Portugal? Boa sorte com a resenha de “A Caixa” 🙂 Espero que consiga o mais breve possível, pois fiquei curiosa e quero ler suas impressões. Abraços!

  3. “Alabardas…” foi uma das minhas aquisições de fevereiro. Sempre fico dividida sobre essas publicações póstumas, mas, como você disse, a esposa sempre esteve envolvida nos trabalhos dele, então acho que dá para ficar mais tranquila. Acabado ou não, estou muito a fim de ler!
    bjo

    • Ótima aquisição, Michelle! 😉 Também, mas não posso negar que fico feliz com publicações póstumas. Pois é, neste caso não vejo problema. “Alabardas” é incrível mesmo inacabado ❤ Espero que goste! Beijos!

    • Anna, a escrita ousada do Saramago pode assustar inicialmente, mas o que ele escreve naqueles longos parágrafos é tão interessante que facilmente a leitura flui. Sim, Alabardas segue o estilo saramaguiano, mas não o recomendaria como primeira leitura. Ainda não li todos os livros do José Saramago, mas vou tentar te indicar algo para começar. Eu, por exemplo, comecei com Ensaio sobre a Lucidez e me apaixonei. Foi amor à primeira vista ❤ Enfim, vamos lá: pra você acostumar com a escrita, indicaria o belo A Maior Flor do Mundo. Em seguida, por causa do filme (que pode te auxiliar), recomendo o pesado Ensaio sobre a Cegueira. O excelente O Evangelho Segundo Jesus Cristo seria também interessante depois da leitura do livro infantil. Espero ter ajudado (^_^).
      Beijão, Anna!

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