Livro: Minha Vida de Menina – Helena Morley

Minha Vida de Menina - Helena MorleyHoje, 25 de julho, é dia nacional do escritor e para comemorar e agradecer a quem nos proporcionam emoções e nos levam a conhecer outros mundos e épocas, resolvi indicar um clássico esquecido da literatura nacional: Minha Vida de Menina, da Helena Morley.

Adoro esse gênero de livro direcionado as garotas com suas histórias dramáticas e cheias de bons sentimentos. São adoráveis, ricos e acima de tudo literatura de excelente qualidade. Fiquei muito feliz em descobrir que somos bem representados nesse tipo de narrativa e que a obra de Helena Morley além de ser uma delícia, é historicamente valiosa.

Minha Vida de Menina é um diário que relata a pré-adolescência de Helena Morley, quando ela tinha entre doze e quinze anos, em Diamantina, cidade do interior de Minas Gerais, cobrindo os anos de 1893 a 1895. Por sugestão de seu pai, a jovem começa a escrever sobre as ocorrências cotidianas que compunham sua vida no interior: a relação com familiares e conhecidos, contato com diferentes classes sociais, tarefas domésticas, ócio, igreja, escola, passeios pela ribanceira, superstições (a da comunhão foi hilária!), festas religiosas e o racismo cordial. Minuciosos detalhes sobre a sociedade diamantinense do século XIX.

Outro ponto curioso é época histórica em que se passam as presepadas da menina. Estamos no cenário da mineração e exploração de diamantes que chegou ao ponto do esgotamento das lavras e a perda da importância da região, como também dos recentes acontecimentos da abolição da escravatura (Lei Áurea de 13 de maio de 1888) e da Proclamação da República Brasileira (15 de novembro de 1889).

É interessante ressaltar que a partir dos olhos de Helena vemos que 5 anos após a Lei Áurea os negros ainda não tinham opções e meios para sobreviver, vários deles acabavam permanecendo nas fazendas de seus senhores, trabalhando como semiescravo. A jovem questionava o preconceito:

Eu dou razão à mamãe de ficar zangada comigo. Mas que hei de fazer se não posso mudar meu gênio? Penso que se a menina fosse branquinha mamãe não se incomodava. Mas ela sempre ralha da gente pajear negrinhos. Que culpa têm os pobrezinhos de serem pretos? Eu não diferenço, gosto de todos. (pg. 126)

O diário de Helena Morley é tão preciso que foram levantadas várias hipóteses sobre sua criação. Acho intrigante conhecer estudos sérios sobre uma obra literária. Entretanto as hipóteses contestando a origem do diário me pareceram incômodo de seus críticos, pois Minha Vida de Menina é uma obra de peso que foi escrito por uma mulher na sua pré-adolescência. Isso me fez lembrar as britânicas Mary Shelley e Jane Austen que sofreram o mesmo questionamento. A quem se sinta desconfortável com a inteligência e senso crítico dessas mulheres.

Em meio ao pacato interior, os rápidos pensamentos de Helena Morley em Minha Vida de Menina registram detalhes da vida privada e do autoconhecimento de forma primorosa, espontânea e singular.

Helena MorleyHelena Morley (1880 ~ 1970)

Helena Morley é o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. A autora nasceu em 28 de agosto de 1880 em Diamantina, Minas Gerais. A menina rebelde cresceu respondendo às contradições do seu tempo. Encorajada por seu pai a escrever diariamente, a pequena Alice manteve um diário em que anotava observações sobre o mundo à sua volta. Estudou na Escola Normal e, em 1900, casou-se com Augusto Mario Caldeira Brant, com quem teve seis filhos. Minha Vida de Menina, o diário que Alice escreveu na juventude que cobre os anos de 1893 a 1895, foi publicado em livro pela autora em 1942. A obra causou impacto imediato! Alice / Helena faleceu no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 1970. {Fonte}

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Título: Minha Vida de Menina
Autora: Helena Morley (Alice Dayrell Caldeira Brant)
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 336
Ano: 1998

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~ Vida de Menina (2003) ~

Adaptação cinematográfica do livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley. Dirigido por Helena Solberg, com Ludmila Dayer como Helena Morley.

Filme completo:

A adaptação tem suaves mudanças, como por exemplo, o sujeito que recomenda a ela que escreva diariamente é seu professor e não o pai, mas no geral é fiel a obra original. A Helena do livro é mais espirituosa que a da película, que tem uma personalidade um pouco mais madura, mas sem perder o lado dramático. Ludmila Dayer deu um show como Helena Morley. Enfim, excelente adaptação! Pena que o DVD está esgotado *eu queria tanto inclui-lo na minha coleçãozinha (U_U)*. Uma preciosidade do nosso cinema deveria ser relançada. Fica a dica! (^_~)

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13 respostas em “Livro: Minha Vida de Menina – Helena Morley

  1. Puxa, Lulu, shame on me, nunca tinha ouvido falar dessa obra brasileira. Parece ser aqueles livros ótimos pra ler no começo da adolescência, como Pollyana, não? Ainda mais se passando no final do século XIX, que eu adoro. Você o descobriu recentemente ou já conhecia faz tempo? =)
    Beijinho!

    • Na pré-adolescência sempre tem aquele encanto. Mas para mim foi incrível ler adulta, porque mesmo à história se passando no século XIX, a uma identificação de alguns episódios e também trás à tona lembranças dessa fase de autoconhecimento da nossa vida. E claro, o valor histórico, os detalhes da vida privada.
      Lua, descobri o livro a uns 2 ou 3 anos e foi uma grande surpresa. Já o filme, assisti recentemente (^_^).
      Beijos!

  2. Lulu, nunca tinha ouvido falar nem do livro e nem da escritora. Como pode isso?? Rsrsrsrs
    Ótima sugestão de leitura! ; )
    Beijo!

    • Eduarda, essa é a única obra da Helena Morley. Ela organizou seus escritos e o laçou em livro com intensão de suas netas lerem e conhecerem como era a vida no interior. Minha Vida de Menina é uma preciosidade da nossa literatura, você vai gostar (^_^). De nada! Beijos!

  3. Lulu, eu vi o filme há muito tempo no Canal Brasil! Gostei muito mas não sabia que era baseado em um livro, devia ter desconfiado. Vou procurar com certeza, parece ser incrível!
    Beijo enorme!

  4. Eu sou mais uma que só sabia do filme. Do livro, só tomei conhecimento há pouco tempo. Acho que deve fazer uma boa trinca com “As Virgens Suicidas” e “Garota, Interrompida” (já estou pensando em como seria legal ler os 3 na sequência…). Mais um para a lista 😉
    bjo

    • Michelle, se você gostou do filme, vai amar o livro (^_~).
      Heita! Depois quero ver o resultado dessa trinca (>_<). Ah, nunca li “As Virgens Suicidas” nem “Garota, Interrompida”.
      Beijos!

  5. Pingback: Os 10 melhores de 2014 | Lulunettes

  6. Preciso ler esse livro para a escola mas não estou encontrando nem o livro físico para comprar, nem para leitura online, nem em pdf para baixar, se alguém souber onde posso encontrar esse livro, por favor me diga ou deixe o link aqui nos comentários. Parece ser um livro muito interessante e pelo que eu soube, caíra no vestibular de 2017.

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