Vidas ao Vento, a última viagem de Hayao Miyazaki

Vidas ao Vento - Hayao MiyazakiAdoro ir ao cinema e ir ao cinema assistir uma obra-prima do Hayao Miyazaki é sorriso garantido até para quem vai trabalhar no Carnaval. As animações do Studio Ghibli têm esse poder de nos deixar mais leve (com exceção de O Túmulo dos Vagalumes). Assisti Vidas ao Vento na estreia (28 de fevereiro) e outra vez hoje. E que animação perfeita! Meu coração saltitou de felicidade do começo ao fim \(*o*)/.

Vidas ao Vento conta a história de Jiro Horikoshi (1903 ~ 1982), o famoso criador do avião de combate Zero. Desde a infância o garotinho míope sonha em trabalhar com aviões, de projetar a mais bela máquina que desafia a gravidade. Ele admira o engenheiro aeronáutico Giovanni Caproni, e em seus devaneios encontra-se com o italiano, compartilhando sua paixão pela aviação e ouvindo atentamente os ensinamentos do mentor. Graças a sua dedicação, Horikoshi torna-se um dos jovens engenheiros mais talentosos da indústria aeronáutica japonesa.

Na sua mudança para Tóquio, com o objetivo de estudar engenharia, ele conhece Naoko Satomi. O primeiro grande diálogo que o jovem casal troca é um verso do poema Le Cimetière Marin (O Cemitério Marinho) do poeta francês Paul Valéry: “Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!” (algo como: O vento erga-se!… devemos tentar viver!). Esse trecho tem um papel de forte impacto na narrativa e resume bem a trajetória de Jiro (e creio que também do diretor japonês).

Outra obra comentada é A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O romance é citado por Castorp, um personagem alemão preocupado com o expansionismo nazista, que está hospedado no mesmo hotel (localizado na montanha) em que Jiro e os Satomi estão. Fiquei curiosa para ler o clássico e entender a referência, mas deu para perceber o contexto.

Em outra cena anterior, quando o personagem histórico está em reunião com seus superiores em um café estilo ocidental, toca um trecho de uma das minhas músicas preferida, ‘Zigeunerweisen (Gypsy Airs), Op. 20’, do compositor Pablo de Sarasate. Sou ignorante no assunto música clássica, mas como amo essa melodia a reconheci imediatamente (^_^v).

Um ponto incrível de Vidas ao Vento é a riqueza histórica. Nenhuma das obras anteriores de Hayao Miyazaki tem essa carga realista. Passamos por um Japão dos anos de 1920 a 1930, que inclui acontecimentos como o grande terremoto de Kanto em 1923, um Japão em recessão, pobre e atrasado em tecnologia, ou seja, ainda marcado pelas consequências da crise econômica de 1929 e as tensões do pré-guerra. Não posso deixar de destacar o avião que Horikoshi projetou: o famoso Mitsubishi Zero (veloz e mortal), que foi uma das máquinas japonesas mais importantes na II Guerra Mundial. Por causa do infeliz uso de sua criação, Jiro recusa a realidade e se sente culpado. Em um de seus sonhos com Caproni, o italiano diz que os aviões são invenções maravilhosas, mas que carregam a desgraça, porque podem ser usados como armas devastadoras. Lembrei imediatamente de Santos Dumont. Realmente é triste ver sua paixão ser usado para prejudicar seres humanos.

kaze-tachinu-ghibli-01

Miyazaki adicionou na história do engenheiro a relação bela e madura com Naoko. A trama do casal foi baseada na novela de Tatsuo Hori, intitulada Kaze Tachinu, onde ele relata a relação de um jovem escritor com a esposa doente. Também existe uma antologia em mangá (de 2 capítulos) criada por Hayao, intitulada também Kaze Tachinu, publicada somente no Japão pela revista Model Graphix, que é outra fonte do filme. Enfim, Naoko e Jiro são tão palpáveis que comove. A troca carinhosa de olhares, os gestos, os diálogos são de um casal que se ama e que se sente confortável um com o outro. Ela deu um toque muito bonito e inspirador na narrativa.

Sobre a animação só tenho a dizer que está impecável. Animação tradicional é muito amor (*_*). A dublagem japonesa também está excelente e amei a voz do protagonista e de sua parceira. O versátil Hideaki Anno tem uma voz tão tranquila, impar e elegante. Acho que combinou perfeitamente com a personalidade do Jiro. Já Miori Takimoto que empresta sua voz a Naoko, tem uma voz doce, mas firme.

Marcando novamente presença, Joe Hisaishi ficou a cargo da trilha sonora. As músicas de fundo têm um tom calmo, lírico, acolhedor e principalmente melancólico. Como sempre Hisaishi fez um excelente trabalho! E a música tema ‘Hikoukigumo’, cantada por Yumi Arai / Yumi Matsutoya (ela também cantou a música tema de O Serviço de Entregas da Kiki), é perfeita *essa canção foi amor à primeira vista*.

A construção da história de Jiro, com seus elementos não ficcionais e ficcionais, enriquece a trama abordando questões amplas e transmite os sonhos e sentimentos profundos do personagem / criador. É uma obra extremante comovente!

O vento sopra forte nos momentos finais e além das várias mensagens bonitas e tristes que é passada, a uma emoção dupla, uma mensagem de adeus entre as entrelinhas, uma mensagem de agradecimento aos que acompanharam com afinco os trabalhos do Studio Ghibli, os trabalhos fantásticos e atemporais do grande Hayao Miyazaki. Digo isso, pois o “Obrigado!” tão cheio de sentimento de Jiro me passou a sensação de que o diretor estava agradecendo diretamente aos fãs. Posso estar com meus sentimos aflorados, mas a mensagem está bem clara para mim. A despedida sensível de Hayao-san foi cheia de ternura.

Hayao Miyazaki, muito obrigada pelos sonhos primorosos!

どうも ありがとう (^-^)ノ

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12 respostas em “Vidas ao Vento, a última viagem de Hayao Miyazaki

  1. Olá! Poxa, estou com água na boca de ler isso aqui! Já estou na fúria pra assistir essa animação (sou fãzoca do Miyazaki também), mas incrivelmente ela nao está passando em nenhum cinema aqui em BH. Muito ótimo ler seu texto sobre o filme! =)

    • Sério, Olivia? Nossa, uma pena! (Ç_Ç) Que pecado Vidas ao Vento não está passando em todo Brasil. Bem, espero que o DVD / Blu-ray nacional seja lançado ainda no primeiro semestre de 2014.
      Fico feliz que tenha gostado (^_^).
      Beijos!

  2. Filme incrível, uma obra de arte, você não consegue piscar pois não quer perder nada da animação. A parte do terremoto…caramba! A resenha está muita bonita pois foi feita por alguém que ama o assunto sobre o qual está escrevendo.

    • Verdade, era difícil piscar com tantos detalhes saltando aos olhos. A parte do terremoto é de tirar o folego. Não me lembro de nenhuma animação que o terremoto não seja um chacoalhar da tela. Sim, as animações do Studio Ghibli, principalmente as obras do Hayao Miyazaki e do Isao Takahata, significam muito para mim. Obrigada pelo carinho! (^_^)
      Beijos!

  3. Ainda não consegui assistir 😦
    Mas concordo plenamente com você “Animação tradicional é muito amor!”
    Pelo jeito, “A Montanha Mágica” influenciou muita gente, né? Fiquei curiosa para ler.

    E respondendo (1000 anos depois…) ao seu comentário sobre o Norwegian Wood: achei o filme fraquinho, por isso nem falei dele. Mas isso provavelmente se deve ao fato de eu ter acabado de ler e assistido ao filme. Não tem como competir com a escrita do Murakami. Se você gostou do filme, certamente gostará do livro 😉

    beijo

    • Uma pena, Michelle! Espero que você consiga *torcendo*.
      Ontem eu assisti pela terceira vez “Vidas ao Vento” (*_*). Lindo, perfeito e sem defeito! (*_*)
      Animação tradicional é fantástica! É o nível máximo de beleza.
      E num é! Também fiquei bastante curiosa para ler “A Montanha Mágica” e o outro livro que Hayao Miyazaki tomou como referência.
      Respondendo 1000 anos depois foi ótimo, rs. Eu vi que você também respondeu lá no seu blog (^_^) Massa! Ótimo saber disso (^_~).
      Beijos!

  4. Pingback: Que o vento carregue essas asas até você: Kaze Tachinu [Blu-ray e OST Japonês] | Lulunettes

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  7. Pingback: Livro: Le Vent se Lève – Tatsuo Hori | Lulunettes

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