Livro: 1 Litro de Lágrimas – Aya Kito

1 Litro de Lágrimas - Aya KitoConheço a história da garota Aya desde 2008, quando assisti ao dorama (novela japonesa) soluçando a cada episódio. Sempre torci para que seu diário fosse traduzido em português. E eis que esse desejo finalmente foi realizado.

Aya Kito (木藤亜也, 19 de Julho de 1962 ~ 23 de Maio de 1988) sofria de uma doença chamada Degeneração Espinocerebelar. Essa enfermidade é tão cruel que o corpo definha aos poucos, impossibilitando a pessoa de andar, falar… Uma lista bem extensa de limitações irreversíveis. Entretanto a mente não é afetada, ou seja, o doente tem plena consciência de tudo que acontece.

Os sinais e sintomas começaram a aparecer quando ela tinha 15 anos. Imaginem o desespero dela e o choque da família com a péssima notícia. Uma menina cheia de planos, sonhos e que se esforçava ao máximo para realizá-los, teria sua vida prematuramente interrompida, regredindo até a morte. Aya se questionava por qual motivo a doença havia lhe escolhido.

Sua mãe, Shioka Kito, sugere a Aya que escreva um diário como forma de entender a doença e ajudá-la no tratamento, que infelizmente ainda hoje não existe cura. Aya empenhava-se diariamente a escrever e colocar naquelas páginas em branco tudo que sentia, era um apoio, uma forma de lutar, escrever era uma forma de continuar a viver.

Nesses trechos escolhidos para o livro, Aya quase não comenta do pai. No início ela diz que ele tem um temperamento meio difícil, mas é bonzinho. Em nenhum momento o senhor Kito ajuda a esposa com os cuidados da filha. Pelo que sei da tradicional família japonesa, o pai tem uma relação distante com seus filhos e até com a esposa. A responsabilidade da casa e da criação dos filhos fica a cargo total da mãe. Particularmente o achei um sujeito pouco afetuoso.

Já a mãe, é uma figura bastante presente na vida de Aya. Ela se doou a filha, cuidando e sempre a encorajando em todas as situações. A relação delas é muito bonita, forte e tocante. A parte mais sensível do diário que mostra os laços firmes dessa relação entre mãe e filha é quando Aya definitivamente não consegue mais andar:

“Vou me arrastando ao banheiro que fica a três metros de onde estou. Sinto o corredor gelado. A planta do meu pé estava tão lisa que parecia até a palma da mão. A palma da minha mão e meus joelhos estavam tão duros como deveriam ser a palma dos meus pés. Isso é horrível, mas não tem jeito. Essa era minha única forma de locomoção…

Senti a presença de alguém atrás de mim. Quando parei e me virei para trás, a minha mãe estava se arrastando atrás de mim. Ela não disse nada… apenas derramou gotas de lágrimas no assoalho… Os sentimentos que eu guardava dentro de mim vieram à tona e gritei aos prantos.

Minha mãe me abraçou com força e me deixou chorar o quanto quisesse.

O colo da minha mãe ficou encharcado com as minhas lágrimas e as lágrimas dela molharam os meus cabelos.

– Sei que é triste, mas vamos nos esforçar, Aya. Não se esqueça de que eu estarei com você. Venha para o seu quarto, antes que esfrie demais o seu bumbum. Pode deixar que ainda tenho força suficiente para te carregar nas costas e haja um terremoto ou incêndio, você será a primeira que correrei para salvar, por isso pode dormir tranquila. Não precisa pensar em mais nada. – disse minha mãe me abraçando e me levando ao quarto.” (pg. 141 e 142)

Me senti extremamente tocada com esse trecho. É triste, angustiante, mas ao mesmo tempo uma bela cena. Aya já tinha uma força incrível dentro de si para superar os obstáculos. Porém sua mãe era o pilar dessa força.

Ainda na família, depois que os irmãos souberam da doença degenerativa da primogênita, a irmã dois anos mais nova começou uma relação de amizade com Aya e lhe dava um grande apoio sentimental. Ela até se formou no Colégio Toyohashi Higashi, aquele que Aya foi obrigada a abandonar, e começou o curso de enfermagem para futuramente trabalhar próxima da irmã. E o irmão mais novo, nesta parte do diário já maior de idade, não mantinha um contato direto com a família, mas telefonava e repassava suas economias para os cuidados da irmã mais velha.

A vontade de publicar o diário da filha cresceu em Shioka. Ela organizou trechos importantes de mais de 46 cadernos que Aya escreveu dos 14 aos 20 anos e conseguiu publicá-lo dois anos antes da morte da filha, em 1986. O livro publicado não é só feito pela voz de Aya Kito, mas também nas palavras da mãe e da Dra. Hiroko Yamamoto, nos epílogos. Na sequência para finalizar tem o posfácio (em tom de tristeza, mas também de alívio) e uma nota sobre a patologia nos dias de hoje.

Vídeo: Primeira edição japonesa do diário de Aya Kito, intitulado 1 Litro de Lágrimas. Em 1986, no hospital, Aya e Shioka felizes com a publicação do diário.

A importância desse diário para os portadores de necessidades especiais e para quem sofre de uma doença incurável é de encorajamento. Para os “normais” uma experiência de vida. Mas acredito que as palavras sinceras de Aya também ajudem as pessoas a construírem em si o respeito pelas diferenças, o de ter a capacidade de se colocar no lugar do outro. Um sentimento que ainda carece em muitas pessoas.

O diário de Aya Kito é um livro doloroso, mas passa uma lição de superação, coragem e determinação. Mesmo sofrendo, ela se esforçou e lutou diariamente contra a doença. Espero que suas palavras continuem a transmitir coragem a muitas pessoas e que alcance outras.

1 Litro de Lágrimas - Aya Kito [Ed. Japão]

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Título: 1 Litro de Lágrimas
Título original: 1 liter no namida, 1リットルの涙
Autora: Aya Kito
Tradução: Karen Kazumi Hayashida
Editora: NewPOP
Páginas: 200
Ano: 2013

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  • Adaptações:

Obviamente, todas as adaptações são baseadas na história real e no diário escrito por Aya Kito, onde ela relata sua luta diária contra a doença, até não conseguir pegar mais na caneta.

Mangá ~ 1 Litro de Lágrimas (Volume Único), escrito e desenhado por Kita.

1 Litro de Lágrimas - Kita [Mangá]

Publicado no Japão pela editora Gentosha em 2005, e chegando ao Brasil pela editora NewPOP em 2009, a narrativa do mangá é bem curta, mas cumpre o que promete, que é de mostra a jornada e luta de Aya. Gostei da arte simples e suave da Kita. O desenho é totalmente focado nos sentimentos da protagonista, por esse motivo acredito que o cenário não seja tão detalhado, ou, seja o estilo da mangaká. Não cheguei a chorar, mas fiquei bastante emocionada.

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Dorama ~ 1 Litro de Lágrimas, dos diretores Shosuke Murakami e Takao Kinoshita, com Erika Sawajiri como Aya.

1 Litro de Lágrimas - Kita [Dorama]

A novela possui 11 capítulos e foi exibida entre outubro e dezembro de 2005 na Fuji TV. As personagens e os eventos foram alterados, o enredo tem um tom mais romântico, mas a essência dos sentimentos de Aya está lá. O drama é lindíssimo e comovente! Chorei ao ponto de soluçar em todos os episódios (Ç_Ç). E o encerramento comove tanto que é impossível segurar as lágrimas. Se você quiser assistir, sugiro que separem uma caixa de lenços, porque pode acontecer de você chorar 1 litro de lágrimas.

Quem quiser ouvir o encerramento, à la vonté: K, “Only Human”. Acho essa música muito agradável e melancólica (^_^).

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Filme ~ 1 Litro de Lágrimas, do diretor Riki Okamura, com Yoshimi Ashikawa como Aya.

1 Litro de Lágrimas [Filme]

Lançado em 2005, o longa-metragem foca nos dramas de Aya, nos pontos importantes da sua breve vida retirados de seu diário. Ou seja, a narrativa é próxima da vida real de Aya, sem as alterações do dorama. Sendo bastante tocante, triste e belo! Soube do filme depois que assisti à novela, e novamente, foi necessário mais um litro de lágrimas derramadas.

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16 respostas em “Livro: 1 Litro de Lágrimas – Aya Kito

  1. Lulu, fiquei triste só de imaginar ler esse livro. Não é em qualquer momento da minha vida que consigo ler algo assim, acho que eu choraria litros de lágrimas também. Mas deve ser bonita a parte de superação dela. 🙂
    Beijos!

    • Oi, Lua! (^_^) Acho que o título resume bem os anos de luta e de tristeza da Aya. Verdade, a leitura do diário não é para qualquer momento. Eu comprei o livro ano passado, mas só consegui ler em janeiro desse ano. Sim, é muito tocante a parte da superação, mas o coração ainda dói pelo peso das palavras. Para uma menina da idade dela, eu a acho um exemplo de superação.
      Beijos!

  2. Lulu, fiquei com o coração na mão lendo suas palavras sobre o diário da Aya, quando vi a imagem da capa na aba do que ‘você está lendo’ já imaginei uma história bem triste, mas bonita… Como você disse:

    “O diário de Aya Kito é um livro doloroso, mas passa uma lição de superação, coragem e determinação. Mesmo sofrendo, ela se esforçou e lutou diariamente contra a doença. Espero que suas palavras continuem a transmitir coragem a muitas pessoas e que alcance outras.”

    Acho que choraria um bom livro de lágrimas durante a leitura, ou vendo o filme – que vou querer assistir.

    Beijos!

    • A história da Aya é triste, mas sua força de vontade e a motivação da mãe ajudaram a dar cor. Impossível alguém não se comover e derramar 1 litro de lágrimas. Você começa a refletir se a situação fosse com você ou com alguém próximo ou lembranças vêm à tona.
      Maura, na época que assisti ao filme só tinha com legenda em espanhol. Mas acredito que hoje deva ter em português.
      Beijos, Maura!! (^_^)

  3. Ai, Lulu, não sei se tenho coragem de ler… Teria que me preparar psicologicamente. Como você assiste os doramas? Nessa TV Fuji que você comentou? Sempre quis ver, e até encontrei alguns no Netflix.
    Beijão!

    • É preciso ter coragem tanto para ler e ver as adaptações. Todas são muito tocantes!
      Eduarda, eu baixo os doramas pela net. Tem sites (conhecidos também como Fansub) que legendam os dramas em português e disponibilizam para download. Um trabalho feito de fã para fã! Caso você queria assistir o drama de “1 Litro de Lágrima” é bem fácil de achar. Só colocar na busca do google e você terá várias opções.
      Não tenho certeza, mas acho que pelo Netflix só tem os dramas coreanos. Se você ver essa resposta pode me dizer quais os títulos?
      Beijão!

  4. Que bonito, imagino que não há como não se emocionar com essa história. Não conhecia, mas vou procurar alguma coisa, talvez o filme seja mais fácil de achar.
    A capa do livro é tão linda!

    beijo!

    • A história da Aya emociona até a pessoa com o coração mais duro. Maira, a série / dorama é mais fácil de achar que o filme. Na época que assisti ao filme só tinha legendado em espanhol e talvez em inglês. Hoje pode ser que já tenha em português. Enfim, recomendo qualquer um! Ah, não esqueça a caixa de lenço (^_~).
      Também acho essa capa linda! ❤
      Bjs!

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  6. Lulu, Lulu… como assim você faz um post desses e nem me avisa antes? Fiquei fascinada pela história. Com certeza “Um litro de lágrimas” define bem a trama. Quero ler! E preciso ver o filme também!
    bjo

    • MICHELLE!!!! *pronto, chamei!* (>_<) A história da Aya é muito triste, mas ao mesmo tempo bonita. Sim, o título define bem. Quando Aya descobre sobre a doença, o ‘1 litros de lágrimas’ está lá, resumindo o presente e o curto futuro de Aya. Quando você for assistir, deixe preparada a caixinha de lenço. Depois não diga que eu não te avisei 😉 Bjs!

  7. Assisti esse dorama juntamente a um amigo meu. Imagine dois homens assistindo e chorando com esse dorama. Fiz minha esposa assistir e creio que se juntar nossas lágrimas deve mesmo dar algo próximo de 1 litro…
    De qualquer forma, com essa ascenção do “desafio do balde de água gelada” me recordei dessa triste e fascinante história da garota Aya. E em uma pesquisa se havia o livro me deparei frente à esse blog, pois, como você eu não sabia que esta obra fora traduzida para o português. Comprarei o meu o mais rápido possível!
    Ótima postagem, achei o blog simples e objetivo. Obrigado pela informação.

    • Impossível não derramar nenhuma lágrima! O drama, principalmente, usa todos os meios imagináveis de nos fazer chorar. O que me impressiona na história de Aya, além da sua dolorosa adaptação com a doença, é sua mãe. Shioka é o pilar de Aya, sem ela a jovem não teria forças. A relação entre mãe e filha é extremamente tocante!
      Falakienos, 1 Litro de Lágrimas foi lançado somente em português ano passado! Quando soube do lançamento fiquei contando os dias, rs. Desde 2008 que eu queria ler o diário!
      Adquira, tenho certeza que mais lágrimas caíram. Depois quero saber suas impressões.
      Valeu pelo elogio em relação ao blog! E de nada! (^_^).
      Abraços!

  8. Pingback: Os 10 melhores de 2014 | Lulunettes

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