Livro: A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le GuinPublicado em 1969 e laureado com os prêmios Hugo e Nebula, A Mão Esquerda da Escuridão faz parte da série Ekumen (ou Ciclo Hainish). No entanto, não é um ciclo no sentido de sequência, mas romances com enredos individuais neste universo comum.

“The thing is, they aren’t a cycle or a saga. They do not form a coherent history. There are some clear connections among them, yes, but also some extremely murky ones.” ursulakleguin.com

O Ekumen é uma organização galáctica de coordenação comercial e cultural, cuja função é desenvolver o intercâmbio entre os mundos que o compõem e tentando trazer gradualmente outros planetas a fim de expandir sua esfera de influência de forma pacífica. Para isso, a organização envia embaixadores aos mundos isolados para convencer o planeta a aderir voluntariamente à confederação.

Neste livro, Genly Ai é o diplomata enviado a Gethen, o inóspito planeta Inverno. Inverno é habitado por seres andróginos, não há distinção entre feminino e masculino, todos são seres humanos. Somente em certas circunstâncias, os gethenianos adotam características de ambos os sexos.

A Mão Esquerda da Escuridão tem uma narrativa fluida e elaborada, chega a ser um estudo cultural, sociológico e político, principalmente sobre questões de gênero. Sem quebrar a dinâmica da história, e enriquecendo o mundo explorado pelo Enviado (e por nós), alguns interlúdios são inseridos: contos, lendas e relatórios.

The Left Hand of Darkness

O período de adaptação ao iniciar um livro de Ficção Cientifica é um pouco complicado. Devido aos pormenores da sociedade do planeta Inverno, para mim, essa fase de estranhamento foi uma das mais demoradas. É impressionante a quantidade e qualidade de detalhes sobre a geografia, o clima, os habitantes, os costumes, etc., em 296 páginas.

Outro ponto interessante é o humanismo entre os protagonistas. Le Guin dá ênfase aos sentimentos e emoções, descreve com precisão as relações, e quando uma delas conclui sua visão (Ai), o outro nos mostra outra face (Estraven). A confiança que esses seres distintos depositam um no outro, me deu esperança na humanidade.

O único ponto negativo foram alguns pensamentos machistas do Genly Ai. Sinceramente achei estranho o representante do Ekumen agarrado a papeis de gêneros. E esquisito a autora escorregar logo neste quesito. Mas, não seria proposital? Entre as entrelinhas Ursula não estaria se referindo a superação de preconceitos?! Acredito que sim.

A ação de A Mão Esquerda da Escuridão não é o que interessa, mas a aventura humana relacionada com a descoberta do outro mundo e de outra cultura, analisando as implicações do encontro de dois mundos completamente diferentes. Em outras palavras, uma reflexão mais profunda de perspectiva antropológica e humanista.

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Título: A Mão Esquerda da Escuridão
Título original: The Left Hand of Darkness
Autor: Ursula K. Le Guin
Tradução: Susana Alexandria
Editora: Aleph
Páginas: 296
Ano: 2008

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12 respostas em “Livro: A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

  1. Humm… interessante! E que capa, hein?
    Mas sabe que eu venho percebendo que gosto mais de Ficção Científica nos filmes e séries que nos livros? Talvez porque eu não tenha lido ainda nada que tenha me arrebatado ou porque minha imaginação é limitada em comparação ao que fazem em filmes e séries. Mesmo assim tenho a maior atração e um dos próximos que quero ler é Duna, que você resenhou por aqui. 😉
    Beijinho!

    • Lua, “A Mão…” é bem interessante e os arquivos mesclados a narrativa enriquecem e são ótimos para debates. E a capa é lindíssima!
      Eu gosto de livros de FC e também dos filmes e alguns seriados. Engraçado que no meu caso é o inverso, me sinto mais atraída a ler. É legal trabalhar a imaginação e visitar outros mundos. O livro me passa a sensação de olhar pelos meus olhos. Bem, não sei se consegui me fazer entender ^^
      Se prepare para “Duna”! Recomendo que dobre a atenção. Frank Herbert é detalhista. Depois quero saber o que você achou =]
      Beijos!

  2. Oi, Lulu!
    Eu também sou como a Lua. Gosto de ficção científica, mas nos filmes e séries. Nos livros eu acabo me enrolando nas explicações detalhadas dos universos criados e demoro a engrenar. Mas estou tentando! Aos poucos chego lá!
    bjo

    • Maura, creio que você ia gostar do “A Mão Esquerda da Escuridão” (^_^)
      Se você não conseguir na feira do livro, tem na EV por um preço bem bacana =].
      Beijos!

  3. Oi, Lulu!
    Acabei de descobrir o seu blog, e já estou completamente encantada! Adoro ficção científica, e a sua resenha só aumentou a minha vontade de conhecer o trabalho da Ursula, em especial A Mão Esquerda da Escuridão. Cheguei a conclusão de que preciso dele pra ontem! rsrs

    Mais uma vez, adorei o blog e vou continuar acompanhando. Beijos =)

    • Oi Taciele, tudo bem? Obrigada pelo elogio ao meu cantinho (^_^).
      Oba \o/ Recomendo a leitura de “A Mão…” para os apreciadores de uma boa FC ;D Bem, só pela escrita da Le Guin, que é fantástica, vale a pena!
      Seja sempre bem vinda, Taciele!
      Beijos!

  4. Oi Lulu,
    Eu quero muito ler esse livro. Já li algumas coisas sobre e minha vontade só cresce, principalmente depois de ver essa capa linda. A Aleph sempre arrasa.
    Fiquei pensando no que você disse, sobre os pensamentos machistas do Genly Ai, e me perguntando se realmente não seria intencional, pois a ambissexualidade dos Gethenianos é um ponto que caracteriza a personalidade deles, psiquicamente eles não são nem masculinos, nem femininos, mas ambos, e agem/pensam dessa forma (uma fusão de gênero?). Será que buscando ressaltar isso a autora não enfatizou o lado masculino de Genly Ai? Não sei, porque ainda não li, mas isso é algo que me chama atenção.
    beijo grande,

    • Verdade, a Aleph arrasou. A capa é lindíssima!
      Maira, se jogue na leitura, mas vá sem expectativa, pois pode atrapalhar.
      Acho bobagem caracterizar o gênero (mulher: sentimental e dócil; homem: racional e forte). Tais características são culturais e perpetuadas ao longo da nossa história. Somos seres humanos, nosso gênero não influencia na nossa consciência. De certa forma, Le Guin tentou passar esse pensamento através dos gethenianos. Vi Gethen como o lado preconceituoso (nesta questão) e até o final ele dá escorregadas. Acho que essa personagem serviu como medidor da percepção do leitor, se este está livre de preconceitos ao ler tais mancadas do Enviado.
      Maira, quando você ler “A Mão Esquerda da Escuridão” quero saber das suas impressões (^_^)
      Beijos!

  5. Lulu,
    Eu gosto muito de ficção científica! Nada exercita minha mente como imaginar um mundo completamente diferente do nosso. A Mão Esquerda da Escuridão é, dos livros de FC que li, o meu preferido. Ursula Le Guin adicionou ao livro uma carga emocional que eu acho que em geral falta na FC. Quanto a Genly, acho que ele até foi melhorando ao longo do livro… Mas confesso que torci muito por uma superação completa do preconceito naqueles momentos mais íntimos dentro da barraca…
    No meu post das melhores leituras de 2013 eu considerei esse livro a melhor ficção científica do ano. Se quiser dar uma olhadinha, segue o link:
    http://maquiadanalivraria.blogspot.com.br/2014/01/os-melhores-livros-de-2013.html

    • Oi, Eduarda!
      Eu também gosto muito de ficção cientifica! Num é, mundos diferentes ou questões do nosso mundo causando aquela curiosidade. Além disso, ainda nos faz refletir sobre nossa realidade social, tecnológica, etc. Ótima observação! Também acho que a autora adicionou uma carga emocional que normalmente não é vista em outros livros do gênero. Esse toque fez a diferença! (^_~)
      Duas! Genly melhorou (um pouco) daqueles pensamentos infelizes ao longo do romance. Mas no final ele dá uma escorregada que me deixou O_o Merece passar mais tempo no deserto de gelo (>_<).
      Visitei o seu blog e comentei no post que você me passou o link. Espero que tenha dado certo o comentário.
      Abraços!

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