Livro: As Irmãs Makioka – Jun’ichiro Tanizaki

As Irmãs Makioka – Jun’ichiro TanizakiConsiderada a melhor e mais longa obra de Jun’ichiro Tanizaki, As Irmãs Makioka foi publicado entre 1946 e 1948, dividido em três volumes, depois de ter sido proibido pelo governo japonês durante a II Guerra Mundial por se tratar de um livro indiferente as questões da guerra. O romance cobre o perfil da sociedade japonesa, focando nos episódios da tradicional família Makioka, outrora poderosa, abrangendo o período do outono de 1936, a abril de 1941. Para tecer suas principais personagens, o autor inspirou-se na terceira esposa, Matsuko, juntamente com suas irmãs. As referências de locais, por exemplo, a casa de Ashiya, também são reais.

Depois de perder a mãe e após o pai, as quatro irmãs se encontram em um nível financeiro limitado, já que sempre viveram na opulência antes da morte do patriarca. A narrativa segue a vida cotidiana das irmãs Makioka que vivem na região de Osaka, no oeste do Japão. A casa central, principal ramo da família, consiste na irmã mais velha, Tsuruko, seu marido, Tatsuo, adotado pelo falecido Makioka, e seus filhos. A casa secundária, localizada em Ashiya, consiste na segunda irmã mais velha, Sachiko, seu marido, Teinosuke (também um Makioka adotado), e sua filha, Etsuko. Yukiko e Taeko, as irmãs mais novas, não são casadas e se deslocam entre a casa central e a casa secundária, preferindo permaneceram em Ashiya.

Das quatro irmãs, o autor concentra-se principalmente em três delas, a mais velha, Tsuruko, fica um pouco de fora, principalmente na metade do livro quando ela se muda para Tóquio. Devido a mudança da primogênita, Sachiko e o marido são encarregados de encontrar um pretendente adequado para Yukiko, a terceira irmã, sendo que a casa central não tenha desistido da decisão final.

Sachiko e Teinosuke têm uma relação rara de união respeitosa e amorosa, uma representação convincente, embora de nenhuma maneira irreal. Eles são pessoas comuns, mas a sua bondade, seus problemas, suas preocupações e falhas, servem para cativar. Teinosuke nutre um carinho paterno com as irmãs mais novas de sua esposa, sempre querendo o melhor para elas. De todas as personagens estes dois são encantadores, mesmo não concordando com algumas de suas atitudes.

O foco principal da narrativa é a tentativa da família de desposar Yukiko. Depois de já ter passado da idade adequada para se casar, a urgência de encontrar um pretendente se torna cada vez mais importante. Yukiko tem todos os aspectos de uma mulher japonesa tradicional. Entretanto, apesar destas características os Makioka rejeitam uma longa lista de pretendentes. E para piorar a situação, seu nome foi impresso erroneamente em um artigo de jornal no lugar de Taeko.

“Alguns especulavam que devia ter ocorrido algo bastante grave para que Yukiko, a irmã logo abaixo de Sachiko, continuasse solteira mesmo depois de completar trinta anos de idade, mas de fato nada acontecera. Contudo, na conjunção de fatores que levaram a esse resultado, talvez o que mais pesara fosse a incapacidade das irmãs Makioka — de Tsuruko, a irmã mais velha e herdeira da casa Makioka, como também de Sachiko e da própria Yukiko — de esquecer tanto o estilo de vida luxuoso que haviam levado ao lado do velho pai em seus últimos anos de vida, como a antiga força do nome Makioka. E buscaram tanto um pretendente à altura desse nome que acabaram recusando uma a uma, por serem insatisfatórias, todas as propostas de casamento — de início numerosas como as estrelas no céu — que lhe haviam sido apresentadas. Aos poucos, amigos e conhecidos se impacientaram, as propostas rarearam e, nesse meio tempo, a casa entrou em decadência.” (p. 18)

Taeko, também conhecida como Koisan por suas irmãs, está envolvida com um homem desde sua juventude, mas devido às normas sociais, esta tem que esperar Yukiko se casar. Em contraste com a terceira irmã, a caçula é moderna, usa roupas ocidentais, tem vida amorosa ativa e trabalha, tendo maior interesse de ter construir uma carreira. Outra personagem que gostei bastante pelo choque entre a modernidade e a tradição.

Hitomi_Kiyoshi-Kobayakawa

Sasameyuki (細雪), título original de As Irmãs Makioka, significa algo como ‘neve caindo de forma suave’(?). Relacionada por inúmeros poetas, o título compara a poesia do cair da neve com o cair das pétalas das flores de cerejeiras; passeio muito apreciado pelas irmãs. Além disso, yuki (雪), ‘neve’, refere ao nome de Yukiko (雪子), sugerindo que ela seja a personagem central do romance. Mesmo que no geral seja o olhar de Sachiko que acompanhamos. Um detalhe interessante foi à escolha da gravura ao estilo Ukiyo-e, “Olhar” (Hitomi, 瞳), de Kiyoshi Kobayakawa (1896-1948), estampada na capa da edição brasileira, conseguindo captar a essência do título como também a característica serena, mas penetrante de Yukiko.

A beleza de As Irmãs Makioka é no grau de realidade das personagens e a acumulação de detalhes da cultura japonesa. Também me atraiu a amizade entre as irmãs Sachiko, Yukiko e Taeko, que mesmo divergindo se mantêm unidas. O resultado é a criação de uma narrativa firme, suave, fluente e delicada, melancólica ao mesmo tempo. A obra-prima de Jun’ichiro Tanizaki foi um dos romances mais bonito que já li e merece meus aplausos.

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Título: As Irmãs Makioka
Título original: Sasameyuki, 細雪
Autor: Jun’ichiro Tanizaki
Tradução: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 744
Ano: 2005

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  • Adaptações Cinematográficas:

Sob o mesmo título, a obra teve diversas adaptações para cinema, como também para TV. Cito as três adaptações cinematográficas de origem japonesa, que infelizmente não tive a chance de assistir.

Sasameyuki.-Dirigido-por-Abe-Yutaka-(1950)

Sasameyuki.-Dirigido-por-Shima-Koji-(1959)

Sasameyuki.-Dirigido-por-Ichikawa-Kon-(1983)

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As Irmãs Makioka, de Jun’ichiro Tanizaki, foi o livro escolhido para o mês de janeiro do Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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8 respostas em “Livro: As Irmãs Makioka – Jun’ichiro Tanizaki

    • Um casal encantador e de raro relacionamento do (normalmente infeliz) casamento arranjado. Se o Itakura tivesse sobrevivido, também faria um belo casal com Taeko.

      A gravura que ilustra a capa da nossa edição é belíssima e coincidentemente resume muito bem o romance.

      Abraços, Lua!

  1. Olá!!!!
    Sua resenha ficou Ótima! Eu desconhecia as informações que você falou sobre a capa, ela é realmente muito bonita!!
    Como você viu no meu vídeo sobre o livro, eu não gostei muito dele, mas eu concordo com você quando fala sobre as personagens: elas são realmente muito bem escritas e construídas de modo que é realmente fácil acreditar nelas.
    Também não tive a oportunidade de assistir a nenhum dos filmes, mas estou procurando para ver se consigo assistir logo a alguma das adaptações.
    Novamente Ótima resenha. Nos encontraremos novamente em fevereiro? Laranja Mecânica nos aguarda. ;D
    Seu blog é ótimo e o acompanharei por e-mail!
    Até a próxima!!!

    • Dener, obrigada pelo comentário fofo e educado! Achei a gravura da capa linda e fui pesquisar. Até descobri que existem 100 exemplares de “Olhar” (sorte de quem tem, rs).

      Sobre as adaptações cinematográficas, procura a versão de 1983, a mais famosa (e a mais fácil de achar; nem sei se existe para baixar as outras adaptações). Também indico a buscar com o título em inglês: ‘The Makioka Sisters’. Eu não encontrei nenhuma legenda em português, mas se você souber inglês, encontra facilmente (^_^).

      Vou tentar participar do mês 02 (*tenho que providenciar o livro*). Laranja Mecânica nos aguarda! \o/

      Bjs e até!

  2. Olá, Lulu!
    Eu adorei o livro e o vi mesmo como uma novela de costumes, diria assim, com a intenção do Tanizaki bem clara, que é a de resgatar e apresentar ao Ocidente, o universo japonês, com sua cultura, rituais, normas e regras sociais estritamente bem definidos, pra eles, claro, onde tudo tem um porque e suas razões, desde o mais simples dos gestos, além de mostrar, até certo ponto, como se dá a modernização de um país e as reações de seu povo, o espanto e as alegrias de se ver inserido em algo novo e em constante mutação. Yukiko é o Japão tradicional, que ama os seus, como o amor que ela dedica à filha de Sachiko, e Taeko é o Japão que se alegra com a modernidade ocidental que chega e renova tudo, a sua independência e liberdade. O melhor de tudo é que o livro sendo basicamente uma descrição de tudo e nada, não ficou em nada enfadonho, ao contrário, uma leitura bem gostosa! ;oD

    Gostei muito da sua resenha! ;oD

    Xerinhos, frô!
    Paty

    • Patrícia, vimos o livro praticamente da mesma forma (^_^). Adorei o final do seu comentário “O melhor de tudo é que o livro sendo basicamente uma descrição de tudo e nada (…)” – essa parte define As Irmãs Makioka.

      Agradeço pela visita e comentário!

      Xerinhos pra você também =D

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