[Cortesia] Editora Estação Liberdade ~ Terráqueos

Recebi da Editora Estação Liberdade o lançamento: Terráqueos, de Sayaka Murata, com tradução de Rita Kohl. Exato, da mesma autora do memorável Querida Konbini (*_*).

Terráqueos é o segundo romance de Sayaka Murata publicado no Brasil. O lançamento aconteceu no início do mês de abril, e fiquei surpresa (e muito feliz) ao receber o livro de cortesia. Eu até abracei meu exemplar na empolgação, hahaha. E fiz stories de recebido no Instagram tutupom. Obrigada pelo exemplar cedido, Editora Estação Liberdade! (^_^)

Pela sinopse o romance me parece promissor, pois além de trazer uma menina como protagonista em meio a uma sociedade opressora, da qual a jovem compara curiosamente a uma grande Fábrica de Gente fazendo as seguintes perguntas: “Até quando eu teria de sobreviver? Será que algum dia poderia apenas viver e não sobreviver?”. Murata também manifestará uma discussão das obrigatoriedades sociais do Japão contemporâneo. Heita! Como não ficar interessado, num é?!

Além disso, recebi informações do próximo lançamento de Yoko Ogawa, com tradução de Andrei Cunha, que será publicado em breve: A Polícia da Memória. Resumindo a sinopse, uma ilha é vigiada por uma espécie de “polícia secreta” que tem como objetivo eliminar vestígios de lembranças. Provavelmente teremos uma narrativa melancólica, assim como seus dois romances publicados anteriormente no Brasil (os excelentes O Museu do Silêncio e A Fórmula Preferida do Professor). Curiosa!

A leitura de Terráqueos está sendo realizada. Estou no comecinho, mas já gostando. Por favor, aguardem minhas impressões (^_~). またね。

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O blog Lulunettes recebeu o lançamento Terráqueos de cortesia da Editora Estação Liberdade. Agradeço a confiança neste modesto espaço (^_^).

Livro: Território Lovecraft – Matt Ruff

Chicago, 1954. Atticus Turner, um jovem veterano da Guerra da Coréia e entusiasta da ficção científica, embarca ao lado de seu tio George Berry e de sua amiga Letitia Dandridge numa travessia pelos Estados Unidos para achar o pai desaparecido. Para esse grupo de negros pegarem a estrada já é arriscado. Afinal estamos no período da segregação racial. Além do caminho conturbado com nazistas armados, outros perigos os aguardam em Massachusetts, na mansão do terrível Braithwaite. A busca por Montrose Turner, o pai de Atticus, é a primeira aventura que engloba uma seita macabra conhecida como Ordem Adamita da Aurora Ancestral, uma espécie de Ku Klux Klan com magia. Nesta América segregacionista povoada pelo sobrenatural, o grupo passará por aventuras assustadoras.

Publicado originalmente em 2016, Território Lovecraft, de Matt Ruff, é uma homenagem ao pulp fiction dos anos 1950, como trás uma crítica ao racismo (ainda) presente nos Estados Unidos. O livro é dividido em oito contos que se interligam, mostrando as perspectivas de Atticus, Letitia, Caleb (filho de Samuel Braithwhite), Hippolyta (esposa de George), Ruby (irmã de Letitia) e Horace (filho de Hippolyta e George). A construção da narrativa de Território Lovecraft é bastante curiosa. Como cada conto é dedicado a uma personagem, cada um tem a sua forma de compreender e a resistir à segregação, como também revelar seus sonhos e suas ambições. Acredito que essa forma proposta pelo autor norte-americano faz o leitor compreender o sistema racista em que os personagens (e pessoas na vida real) são obrigados a enfrentar.

O conto em torno da personagem Ruby Dandridge (minha personagem preferida no livro), intitulado Jekyll em Hyde Park (o título é uma clara homenagem ao clássico O Médico e o Monstro, do escritor Robert Louis Stevenson), é o mais intenso (*_*). Em sua história, Ruby, por motivos que não posso revelar por ser spoiler, acaba por tomar uma porção mágica que a torna branca. Com a cor socialmente aceita, ela descobre outra vida, aquela vida que ela poderia ter se não fosse negra. O conto é brilhante, profundo e muito poderoso.

Agora qual a relação do sobrenome do autor H. P. Lovecraft com a narrativa? Além de Atticus ser apaixonado pela literatura pulp fiction, clássicos e terror, invocar o nome de Lovecraft em seu título, um autor notório e autodeclarado racista (no sentido de cor e étnico) dessa época, revela que o que apavora os heróis negros não são as criaturas sobrenaturais, mas o horror do quotidiano com que são confrontados, seja na violência de policiais corruptos, nas detenções arbitrárias, de serem perseguidos, afugentados ou até mortos por racistas perversos, ou seja, a insegurança permanente e de acordo com a constituição. Cada página revela o terror dos afro-americanos durante esse período vergonhoso e familiar ao nazismo. Então o bestiário do outro mundo não soa tão assustador, o pânico real é causado pela violenta e perseguidora realidade.

Cheguei ao livro através da adaptação da HBO lançada em 2020. Desenvolvido por Misha Green, Jordan Peele (Corra!), JJ Abrams e Ben Stephenson, o grupo acertou ao decidir adaptar essa singular narrativa e explorar (ainda mais) a discriminação dos afro-americanos. Para isso precisou haver algumas mudanças e acréscimos, o que tornou a trama mais dinâmica, revelando inclusive fatos históricos, como as Leis de Jim Crow (leis que impunham a segregação racial que vigoraram entre os anos de 1876 e 1965), o Sundown Towns (municípios ou bairros de brancos que praticavam uma forma de segregação racial, excluindo os não-brancos através de uma combinação de leis locais discriminatórias, intimidativas e violentas), o guia de viagem The Negro Motorist Green Book (criado por Victor Hugo Green, o guia para viajantes negros foi publicado entre 1936 e 1966), o Denmark Vesey (nome do bar fictício na série que homenageia o homem que planejou a primeira grande revolta de escravos dos Estados Unidos, em 1822), o Massacre de Tulsa, a história dolorosa do menino Emmett Till, etc. Outro ponto expandido e com ótimo desenvolvimento foi à inclusão da personagem coreana Ji-Ah. No livro existe a menção do protagonista ser veterano da Guerra da Coréia, mas essa informação não passa de uma alusão. Na série esse detalhe é linkado ao enredo central. Felizmente não demonizaram a Coreia, e ainda mostraram uma parte do que o exército americano fez por lá: massacrou os nativos (milhares foram torturados, estuprados e mortos). Como também evidenciaram que Atticus não é um herói, mas uma peça descartável e manipulada pelo governo dos EUA (o que não o abstrai da culpa por suas atitudes de soldado-torturador). No mais, mesmo não apreciando a conclusão da série (preferi o final do livro), achei a adaptação perfeita (Letitia, mon amour!). A série foi deliciosa de acompanhar e impressionante por sua crítica social!

A originalidade de Território Lovecraft me encantou! (*o*) Os personagens são cativantes e acompanhar suas histórias tornou a leitura bastante prazerosa pelo seu dinamismo (*agradeço a Rô pela companhia nessa leitura conjunta. Tivemos ótimas conversas!*). Por fim, acredito que a importância da obra de Matt Ruff, tendo como complemento a magnifica adaptação, é resgatar em como a segregação era um sistema perverso e desumano, pois o racismo, ser perseguido e morto por sua cor de pele ou etnia, estava (e ainda é) institucionalizado.

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Título: Território Lovecraft
Título original: Lovecraft Country
Autor: Matt Ruff
Tradução: Thais Paiva
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
Ano: 2020

Livro: O Fim da Infância – Arthur C. Clarke

Guerra Fria… União Soviética e Estados Unidos estão numa competição tecnológica acirrada para saber qual das duas nações será a primeira a conquistar o espaço. Às vésperas da decolagem de lançar a primeira espaçonave em órbita, ocorre o impensável: enormes naves alienígenas se posicionam acima das principais cidades do planeta. Uma vez fixados, os misteriosos Senhores Supremos irão reorganizar a humanidade, acabando com as guerras, a fome, as doenças e a exploração dos animais, tornando o mundo na definição perfeita da utopia. A humanidade ganhará tal paraíso ao cumprirem a condição de nunca explorar o espaço. O acordo é firmado. Mas os homens podem realmente confiar nos Senhores Supremos? Não teriam eles um objetivo oculto?

O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke, foi publicado originalmente em 1953, e é dividido em três partes: A Terra e os Senhores Supremos, A Era de Ouro e A Última Geração. O enredo se estende em torno de cento e cinquenta anos, os protagonistas mudam, o ritmo é um pouco afetado, a forma como algumas questões tratadas soam um tanto vazias, mas no geral o autor britânico traz uma narrativa original e curiosa de acompanhar, pois somos levados pelos diferentes mistérios que a trama nos oferece.

Quando a raça humana chega ao estado da prosperidade, onde todas as suas necessidades essenciais são atendidas, aparecem alguns personagens que nutrem o sentimento de que o homem perdeu a sensação de aventura, inclusive idealizando a vida anterior (ou seja, a nossa). Suponho que tal abordagem seja a ideia que martelam na nossa cabeça de que o ideal de utopia não existe ou de que na utopia há o lado negativo dos homens se estagnarem. Este pensamento conservador surgiu como mais uma mentira e distorção para desvalidar a ideologia política e socioeconômica comunista e socialista (que não é baseada na utopia, mas na aplicação da ciência e racionalidade numa melhor reorganização do caráter produtivo da sociedade, através de uma transformação/revolução política). É justamente no capitalismo que se cria uma reduzida porcentagem de senhores ociosos (como as famílias donas do mercado financeiro ou de grandes corporações), que se apropriam da riqueza global graças ao suor e sangue dos trabalhadores, principalmente dos países de terceiro mundo. Enfim, ficaria apropriado ao cenário descrito no romance se Clarke explorasse a proibição dos Senhores Supremos através de um grupo de oposição a esse veto. Acredito que a trama teria sido mais empolgante e traria uma boa discussão sobre uma força externa influenciando no funcionamento daquela sociedade.

Um ponto que achei bacana foi ver como o autor imaginou a evolução tecnológica para o futuro (cá entre nós, é sempre legal ler o que se imaginava do que seria o amanhã). Por exemplo, ele levou em consideração a onipresença do computador em muitos aspectos da vida e a mecanização das coisas, mas obviamente não podia prever a chegada da internet e sua revolução.

[Atenção! Este parágrafo contém SPOILER] Quanto ao mistério dos Senhores Supremos, o leitor não descobrirá até o final do livro qual era o real propósito desta missão. Chegando ao fim, a humanidade aprende que os Senhores Supremos não são os mestres do espaço, eles estão a serviço de um poder superior, e revelam que sua tarefa é impedir que a Terra se destruísse para dar tempo para a chegada dos novos humanos. A humanidade alcançará um novo estágio de evolução, essa nova raça desenvolverá habilidades paranormais e o homo sapiens entrará em extinção, fazendo parte de um ciclo. O desfecho me soou um tanto estranho. Posso dizer que não desgostei e nem gostei, mas me surpreendi. Em todo caso, a conclusão de O Fim da Infância passou longe do espírito usual dos livros de ficção científica. [/ Fim do SPOILER]

O que seria o romance O Fim da Infância tomou forma quando Arthur C. Clarke escreveu o conto Guardian Angel, que foi publicado em 1950 na revista New Worlds #8. Em 1952 ele o expandiu em um romance, revisando e incorporando o conto como a primeira parte do livro. Nesta edição da Editora Aleph, o conto Anjo da Guarda e a versão revisada do Capítulo 1 (escrita em 1989) estão incluídos como extras. Há também uma nota à nova edição brasileira e o prefácio do autor datado do ano 2000.

Arthur C. Clarke apresenta em O Fim da Infância um ponto de partida bastante atraente, mas que se perde um pouco no seu desenvolvimento pela falta de ideias que se ajustem melhor a proposta. Apesar dessas poucas falhas, é uma narrativa chamativa, que contém alguns conteúdos interessantes, que tem de modo geral uma boa fluidez e, principalmente, uma ousada conclusão. Por isso entendo que tenha se tornado uma das obras mais populares da ficção cientifica.

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Título: O Fim da Infância
Título original: Childhood’s End
Autor: Arthur C. Clarke
Tradução: Carlos Angelo
Editora: Aleph
Páginas: 320
Ano: 2015