Mangá: Sakuran – Moyoco Anno

sakuran-moyoco-annoPublicado originalmente na revista Evening da editora Kôdansha, Sakuran, da versátil Moyoco Anno, ganhou seu formato tankōbon em 2003. Este curioso seinen trás uma narrativa que abre as portas do distrito do prazer no período Edo.

Kiyoha é uma prostituta de alto status, sendo muito famosa por sua beleza e seu dom inato para a sedução. No famoso bordel Tamagiku, quando a Oiran principal da casa falece, os donos tentam convencer Kiyoha a substituí-la, pois era obvio que ela seria perfeita para tal papel. Voltando alguns anos atrás, quando a protagonista ainda se chamava Tomeki, descobrimos sua origem e seu caráter extraordinário até torna-se essa figura conhecida no distrito da luz vermelha de Yoshiwara.

As mudanças que a heroína enfrenta desde menina até torna-se mulher, mostra uma parcela da vida de uma prostituta de luxo. Quando pequena, ela se recusava a ser trancafiada e servir o bordel Tamagiku e constantemente tentava fugir. Essas fugas, e outros maus comportamentos, resultavam numa punição física violenta. Tornando-se cada vez mais bonita ao crescer, Kiyoha é cotada a ser uma prostituta de alto status, mas ela não acha nada encantador à ideia de satisfazer os desejos de desconhecidos todos os dias de sua vida.

Com uma vida limitada e servil, afinal as prostitutas eram proibidas de sair do distrito (somente poderiam lagar a profissão caso conseguissem pagar suas dividas, ou ao casar), curioso que a paixão é o grande medo das cortesãs. Com uma vida de solidão e abusos, elas tornam-se suscetíveis à má intensão de seus clientes. Então o único caminho para que elas não caiam na armadilha do amor, que pode causar prejuijos imensuráveis, é tornarem-se indiferentes.

Mesmo carregando em certos momentos uma leveza, Sakuran trás um universo em que opera uma realidade. A mangaká desenvolve a narrativa da cortesã de alto status de uma forma crua, deixando pouco espaço para esperança e algum sonho de liberdade.

O único ponto negativo do mangá é se limitar ao passado da protagonista. Vemos a evolução de Kiyoha de uma miserável a uma Oiran, mas não há um desenvolvimento além. Gostaria de ver como ela manteria seu novo pensamento e se ela algum dia chegaria a ter condições de parar de servir essa prisão. Sei que para tal desenvolvimento seria necessário bem mais que um único volume.

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Durante o período Edo (1600 – 1868), com leis restringindo os bordéis, surgiu à criação de distritos murados localizados a certa distância do centro da cidade que ofereciam todo tipo de entretenimento. Foi desses distritos reclusos e fechados que as Oiran surgiram.

Oiran (花魁 – 花 que significa “flor”, e 魁 que significa “primeiro” ou “carregada à frente dos outros”) é considerada a cortesã de status mais elevado. Tecnicamente, apenas as prostitutas de alta classe de Yoshiwara foram chamadas assim, embora o termo seja amplamente aplicado a todas a partir de meados de 1700. Antes disso, em Kyoto, o nome dado ao posto mais alto da cortesã era Tayuu (太夫).

As Oiran se distinguem das prostitutas comuns por serem versadas em várias artes, como conversação, música e caligrafia, chegando até a tornarem-se uma figura ritualizada e famosa fora do distrito. Por seu status e estilo de vida luxuoso, ela era adequada para os daimyo (senhores feudais). Só os mais ricos podiam patrociná-las e ter oportunidade de serem clientes regulares.

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A Oiran tem um estilo de indumentária, penteado e adereços chamativos, mas sofisticados. Seus kimonos têm várias camadas e são brilhantes, estampados e extravagantes. O obi é amarrado na frente (alguns dizem que é para facilitar que se vestisse sozinha depois de atender seus clientes). Com um penteado bastante complexo, como adereço no cabelo usa-se até uma dúzia de kanzashi (grande espeto decorativo para o cabelo, considerado joia) e até três pentes de casco de tartaruga. Outros detalhes da indumentária são a não utilização de tabi (meia) e a okobo (tamanca) era extremamente alta. Já a maquiagem é tradicional e elegante. Os pés e a nuca a mostra eram considerados um detalhe erótico.

Somente a Oiran era servida por uma Kamuro. Kamuro é uma menina ou um menino, entre 6 e 10 anos, vendidos pelos pais, órfãos ou o próprio filho da cortesã, que a atendia em várias tarefas. A Oiran era pessoalmente responsável por sua alimentação e vestuário. No caso das meninas, elas poderiam torna-se prostitutas. Somente a cortesã de status alto detinha duas Kamuro, a cortesã de médio escalão uma, e a prostituta comum de qualquer categoria não poderia ter nenhuma.

Acredito que pelo aspecto econômico e material, afinal os custos para manter tal aparência e treinamento eram elevados, com o tempo as Oiran foram perdendo seu espaço para as Gueixas. Atualmente, as poucas mulheres restantes praticando as artes da cortesã de luxo, sem o aspecto sexual, fazem como preservação do patrimônio cultural.

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Além da excelente narrativa, outra grande atração de Sakuran é sem dúvida o traço sofisticado de Moyoco Anno. Os olhos expressivos da heroína são maravilhosamente bem desenhados e você facilmente se sente seduzido. A capa em si já apresenta uma arte belíssima e bastante convidativa. Destaques aos fios do cabelo no penteado, os mamilos e os pelos pubianos, pois são detalhes que proporcionam naturalidade ao character design. Além disso, é interessante mergulhar no cenário do distrito do prazer. Sobre as páginas coloridas, desnecessário comentar o óbvio.

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Normalmente a edição francesa segue o mesmo modelo da edição japonesa. Que edição! (*0*) Uma das mais bonitas da minha estante, sem sombra de dúvida. A editora Pika foi realmente muito bem sucedida no projeto gráfico de Sakuran, que está altamente extravagante e atrativa como as Oiran.

Apesar do luxo aparente, no mundo das Oiran elas não têm controle sobre suas vidas. Mesmo tendo um status que lhe permitem alguma liberdade, no final, elas compartilham do destino da solidão. Sakuran, de Moyoco Anno, tem o mérito de mostrar o funcionamento do distrito do prazer de Yoshiwara, trazendo uma narrativa amarga e tocante do cárcere que enfrentam as Oiran. Sendo uma releitura feita após alguns anos, Sakuran continua com seu status elevado.

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Título: Sakuran
Título original: Sakuran, さくらん
Autora: Moyoco Anno
Tradução: Fédoua Thalal
Editora: Pika
Páginas: 308
Ano: 2010

Mercado dos Quadrinhos #3

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Volúpia, de Elisa de Azevedo ♥

No sábado passado, dia 17 de setembro, aconteceu em Fortaleza à terceira edição do Mercado dos Quadrinhos. O Mercado dos Quadrinhos é uma feira que reuni vários quadrinistas cearenses independentes que vale muito a pena conhecer. Nesta edição houve dois painéis: Projeto HQ com Raymundo Netto e Daniel Brandão; e Quadrinhos Autobiográficos, com Brendda Lima, Dhio Barroso e Elisa de Azevedo ♥ (*sou muito fã!*).

Foi minha segunda vez e gostei de ter passado uma parte do meu sábado por lá. Além de comer uma deliciosa coxinha (*diabo de coxinha gostosa*), chequei as mesas, conversei com alguns autores, peguei minha encomenda, comprei arte original, prints e fanzines, houve também os tais reencontros calorosos com pessoas queridas (\^_^/).

Agora, vamos às aquisições:

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» Dharilya Sales (Relicário HQ): da fofa da Dharilya, adquiri dois prints e o meigo zine Amanita que comprei para dar a uma amiga. Os prints, um é do Pokémon e o outro é da Bulma, de Dragon Ball. Eu fiquei apaixonada pelo print do Pokémon (*-*). Uma côrralinda, né! De mimo, ela me deu esses quatro adesivos: Psyduck ♥, Squirtle ♥, Pikachu e Clefairy. Eu ainda “exigi” os adesivos do Psyduck e do Squirtle, por serem os meus preferidos, hahaha. Valeu, Dharilya!

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» Elisa de Azevedo (Nefelibata.): a belíssima arte original da Volúpia em tamanho A4, que está como imagem de destaque da publicação (*amei ♥♥♥*), foi encomenda. Além dessa lindeza, também levei essas quatro artes originais e o lançamento A vida é só isso mesmo? (*adorei o título*), com roteiro de Milena Fernandes e arte de Elisa de Azevedo. Só faltou o autógrafo da Milena.

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Já esses são mimos diferentes foi que a Elisa me deu: arte original na folha e uma miniatura de caderno artesanal temática Gata Tricolor ♥ (*já tá enfeitando minha estante*). Também ganhei um adesivo fofinho da Kiki, de O serviço de entregas da Kiki, no traço da Natália Prata. Valeu, Elisa!

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» Netuno Press: a Elisa foi me apresentar ao trabalho da Brendda Lima. Achei a arte dela bacana, então levei dois fanzines de sua autoria: Silêncio, que me interessou pela cor, e o lançamento Manual de Sobrevivência à Vida Adulta. Por ter levado dois zines, pedi um adesivo de gatinho de brinde (>_<).

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» Oi, eu sou Jão: adquiri o zine poética Almar, de João Gabriel. Mesmo eu não sendo uma leitora de poesia, quis me aventurar. Enfim, sempre que adquiro um fanzine, se possível, peço ao autor para autografar. A dedicatória do João ficou tão meiga.

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» Natália Maia: checando as mesas, a arte da Natália chamou minha atenção e ela gentilmente me mostrou seus trabalhos. Como disse, não sou uma leitora de poesia, mas as temáticas dos zines me interessaram. Levei os três fanzines disponíveis: qu{ás}e, Bomba-Relógio e Rastro, que foram poeticamente autografados; também inclui dois delicados marcadores; e um cartão postal do Kung Fury (*adoro esse curta-metragem*). Ah, a Natália retrata várias obras de terror que ela gosta, tipo essa de Carrie – A Estranha que ficou sensacional. Então sugeri os mesmos desenhos em marcadores. (…) Se ela fizesse uma arte de A Bruxa (*-*) (*melhor filme de terror de todos os tempos!!!*).

Muito bom à terceira edição do Mercado dos Quadrinhos! (^_^) Espero que no próximo eu consiga conhecer os artistas Milena Fernandes e Oráculo, que foram anunciados, mas não puderam comparecer (T_T). Também a Milene Correia, que não vi o nome na lista, mas que deveria participar deveria.

Um breve comunicado… Já li todos os fanzines, mas a publicação de minhas impressões irá demorar, pois estou atarefada mais que o normal (Ç_Ç). Então, peço paciência, por obséquio.

Até o próximo Mercado dos Quadrinhos (^.^/)

Mangá: Orange – Ichigo Takano

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Minhas impressões do mangá Orange, de Ichigo Takano, contêm sutis spoiler.

Neste ano conclui a leitura de Orange, de Ichigo Takano, publicado originalmente em 2012 na revista Bessatsu Margaret da Shueisha, e que depois passou a ser publicado pela Monthly Action da Futabasha em 2013. Sua versão encadernada, os chamados tankōbon, totaliza cinco tomos.

Afirmo que a obra de Ichigo Takano foi amor à primeira vista (*-*). Ou como se diz em francês: un coup de coeur ♥ (*e dos grandes!!!*).

Orange começa como qualquer shoujo escolar, sendo por um detalhe: seu pé na ficção cientifica. Em Matsumoto, uma cidade perdida no meio da natureza na província de Nagano, a colegial Naho Takamiya, de 16 anos, em seu primeiro dia de aula no segundo ano do ensino médio, recebe uma carta misteriosa de si mesma 10 anos no futuro, que a aconselha a não realizar certas ações. Com dificuldade de acreditar em tal acontecimento, nossa heroína percebe que tudo o que é dito na carta é verdadeiro, como a chegada do novo aluno de Tóquio, Kakeru Naruse, e os banais eventos rotineiros. Ela logo percebe a importância de sua missão e das pequenas escolhas que terão significativa importância na sua vida e na de seus amigos. Através destas cartas do seu eu do futuro, a Naho de 26 anos, quer que sua eu do passado não tenha arrependimentos e salve Kakeru.

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Ichigo desenvolve uma narrativa comovente, em que é marcada por momentos de felicidades e lembranças que se misturam perfeitamente com temas fortes. O desenvolvimento de Orange é muito bem sucedido e a autora oferece um impacto real de cada decisão tomada pelas personagens. Ela também mantém nosso interesse até nas sequências mais banais. A forma clara e tocante da estrutura dessa história mexe com os sentimentos do leitor. Eu pelo menos me emocionei em várias passagens.

Orange mexeu tanto comigo que meus olhos tinham a tendência de ficar marejados. O ponto em que as lágrimas realmente desceram (*sim, sou chorona*) foi na gincana escolar, presente no quarto volume. A atmosfera doce criada em meio ao esporte, que já carrega uma mensagem de parceria, ficou tocante. Naho, Suwa, Chino, Murasaka e Hagita, tentam repassar para Kakeru, que esconde um pesado drama, que ele não precisa carregar todo esse peso sozinho. Achei esta passagem tão intensa e a mais bela de toda a narrativa (*-*). Vocês podem até imaginar uma cena piegas, mas a mangaká constrói esse comum acontecimento e repassa de uma forma singela a verdadeira definição de amizade. É praticamente impossível não se emocionar com tamanha união.

Outra cena que me deixou com o coração apertado foi no primeiro volume, quando Naho, Suwa, Chino, Murasaka e Hagita do futuro abrem a cápsula do tempo que eles haviam feito 10 anos atrás. Cada um lê sua carta e se divertem com o que escreveram; quando chega a vez da carta do falecido Kakeru, ela não continha nenhuma mensagem para si, somente para seus amigos. Esse sinistro fato trás a dúvida sobre a morte de Kakeru não ser um acidente.

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Sobre o drama de Kakeru Naruse, é uma condição bastante impactante. Ele guarda sérios arrependimentos que causam uma dor tão lancinante e profunda ao ponto de pensar em suicídio constantemente. Ele acredita que o suicídio de sua mãe foi culpa dele. Kakeru repreende seus sentimentos, pois acredita que se falar a respeito irá perder os amigos que tanto preza. Por isso acho que o arrependimento não é o único tema de Orange. Acredito que fala também do poder da amizade, desse suporte que dá coragem para enfrentar qualquer obstáculo, até aqueles que podem levar a caminhos sem volta. O mangá pretende mostrar que a vida, com o apoio de quem nos ama é possível e que a dor pode ser algo controlado quando se existe amor. É tocante ver os esforços de Naho e dos outros em chegar até o coração de Kakeru. Essas ações benevolentes levam a cenas memoráveis.

Quando nos aproximamos da conclusão desse clássico moderno, um suspense é criado. Takano abre rumos que não sabemos como as coisas vão tomar. Jogando a dúvida se todo esse esforço e sacrifico será suficiente. A autora compartilha uma tensão nas pequenas melancolias e alegrias da vida cotidiana, na direção gradual ao desconhecido.

Sobre a construção das personagens, a mangaká conseguiu surpreendentemente desenvolvê-los em apenas cinco volumes. Em séries tão curtas, normalmente a protagonista se sobressai, enquanto os coadjuvantes são quase esboços. No entanto, Ichigo traçou um elenco consistente, permitindo ao leitor de gostar sinceramente de cada um (*particularmente adorei a Takako Chino ♥ e o Saku Hagita ♥*).

Em relação à viagem do tempo, a autora nos dá a seguinte explicação: sua teoria é que, mesmo se mudarmos os eventos conhecidos do passado, não vamos mudar o futuro que conhecemos. Mas, criar uma nova linha do tempo, como um mundo paralelo. Em resumo, a Naho do futuro que enviou a carta nunca saberá se o Kakeru do passado foi salvo.

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No que diz respeito à arte de Ichigo Takano, ela tem um estilo bonito, marcado por rostos redondos e olhos e bocas bem destacados. Os quadros são trabalhados de uma forma peculiar que faz com que o leitor facilmente mergulhe na leitura diante das passagens cheias de doçura, sendo outras de tristezas.

Alguns de vocês devem estar se pergunta a razão das duas classificações: shoujo e seinen. Então, orginalmente o título foi iniciado na revista shoujo Bessatsu Margaret, sendo que a autora e a editora tiveram alguns desentendimentos. Orange passou um tempo parado, acho que foi um ano, quando finalmente reapareceu na revista seinen Monthly Action. Com essa alteração, os dois volumes que haviam sido publicados pela Shueisha foram cancelados, e a obra começou a ser lançada pela Futabasha acrescentando um bônus.

Depois da conclusão da história principal de cada volume, a mangaká nos brinda com uma de suas histórias chamada Un printemps dans les étoiles (no original: Haruiro Astronaut), que foi serializada em 2011 na revista shoujo Bessatsu Margaret. Essa pequena história de apenas cinco capítulos, narra os tormentos adolescentes de gêmeas idênticas e rapazes bonitos. É uma narrativa leve e descontraída. Achei legal incluírem como bônus, pois dá uma acalmada depois dos acontecimentos de Orange.

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My precious! ♥

Acompanhei Orange em francês, e lá foi lançada uma edição limitada do ultimo tomo: junto com o quinto volume a editora acrescentou um box bem resistente para pôr os demais tomos. Um mimo interessante que custou uns dois euros a mais que a edição normal. Adquiri, e como o destino gosta de me trollar quando o assunto é encomenda internacional, o pacote ficou perdido durante algumas semanas e depois encontraram (*ainda bem, pois o item havia esgotado*). Pense na chatice de esperar dois meses para ler (Ç_Ç). Eu já pretendia comprar a edição nacional de tão curiosa (>_<). Lembro que vi uma moça lendo o ultimo volume no ônibus e eu lá discretamente olhando, hahahaha. Quando finalmente chegou, ainda tive que me preparar psicologicamente, pois depois do ultimo volume não teria mais Orange na minha vida (*exagerada*).

Após cinco tomos brilhantemente conduzidos, esta joia em forma de mangá nos oferece uma narrativa forte e detentora de valores. Acredito que Orange transporta e quebra um pouco dessa repressão dos sentimentos ainda comum entre os japoneses, pois além da mensagem da narrativa, no final a autora escreve uma carta para os leitores. Destaco o seguinte trecho: “Si un jour vous rencontrez quelqu’un comme Kakeru, je vous supplie de le sauver. Dites-lui qu’aucune vie n’est destinée à être abandonnée dans ce monde.” (tradução livre: “Se um dia você conhecer alguém como Kakeru, peço-lhe para salvá-lo. Diga a ele que nenhuma vida se destina a ser abandonada neste mundo”). Orange, de Ichigo Takano, é uma obra honesta e original, que nos faz viver momentos puros e sinceros. Sobre o final… Que final! Que final! (*o*).

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Título: Orange
Título original: Orange, オレンジ
Autora: Ichigo Takano
Editora: Akata
Número de volumes: 5 volumes
Ano: 2014 ~ 2016

Livro: O Castelo de Yodo – Yasushi Inoue

o-castelo-de-yodo-yasushi-inoueO Castelo de Yodo, de Yasushi Inoue, publicado originalmente em 1955, é a segunda obra que leio do autor japonês nascido em Asahikawa, Hokkaido. Havia me presenteado com este romance há alguns anos e estava esperando o tal momento certo para lê-lo. Este momento finalmente chegou e foi uma das leituras mais intensas que já tive (*suspira*). A razão de tamanha intensidade? Bem, aprecio imensamente este período histórico da terra do sol nascente (^_^).

Japão, século XVI, Período Azuchi-Momoyama (1573-1603): vários clãs poderosos estão em guerra civil. Oda Nobunaga, do clã Oda, uma figura importante da força política durante o Período Sengoku (1467-1573), avança em seus planos de unificação com maestria, até que morre durante o Incidente de Honnō-ji (ocorrido em 1582, refere-se ao seppuku forçado do daimyō Oda Nobunaga sob as mãos do general Akechi Mitsuhide). Foi neste momento que o filho de um camponês-guerreiro, o general Toyotomi Hideyoshi, que servira Nobunaga, sucedeu seu antigo senhor. Sendo que na morte do regente, Tokugawa Ieyasu toma o poder e funda o Xogunato Tokugawa, tornando-se o primeiro xogum do ultimo xogunato da história do Japão (ordem dos três xogunatos que existiram: Kamakura > Ashikaga > Tokugawa).

Diante desse panorama histórico, quem relata os detalhes dessas inúmeras batalhas e das três figuras unificadoras do Japão é Chacha (茶々), filha de Azai Nagamasa, sobrinha de Oda Nobunaga e futura Yodo-dono (淀殿). Chacha é uma princesa de alto escalão, filha mais velha de Oichi, irmã de Nobunaga. Após a morte do pai, do avô e de seus irmãos e da destruição do castelo de sua família, sua mãe e suas irmãs, Ohatsu e Ogo, são poupadas da morte. Com o segundo casamento de Oichi com Shibata Katsuie, seguem outros desentendimentos e novamente um castelo em chamas aparece diante dos olhos da heroína, levando a morte de sua mãe e de seu padrasto. Diante de todas essas mortes violentas, Chacha tem que se tornar forte para não vacilar. Ela acaba virando concubina de Toyotomi Hideyoshi, o homem que matou sua família e tornou-se após a morte de Oda o homem mais poderoso do Japão.

A história é baseada em fundamentos históricos sólidos, incluindo principalmente o papel de uma figura muito importante, Toyotomi Hideyoshi, considerado o segundo “grande unificador” do Japão, o primeiro é Oda Nobunaga e o terceiro é Tokugawa Ieyasu. Assim como seu antigo senhor, Hideyoshi queria deixar o Japão forte, enquanto que o regime de Tokugawa foi de reclusão durante mais de 200 anos e internamente era autoritário com a população.

A narrativa tem um desenvolvimento incrível. Faltam-me palavras para expressar o quão à trama é extraordinária e a escrita fluida. Também é importante destacar que o magnífico relato desse valoroso período da história japonesa seja passado através dos olhos atentos de uma mulher corajosa, orgulhosa e notável. Com seu poder limitado, afinal Chacha era mulher, acredito que a heroína fez o possível para que seu filho com Hideyoshi, Hideyori, fosse o sucessor do pai.

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Pintura do século XVII. Representação de Yodo-dono (Chacha).

Como Chacha foi uma figura histórica feminina notável, por sua importância, gostaria de compartilhar a primeira e mais curiosa referência sobre a dama de Yodo: Yoshitsune Takadachi Shin. Datado do século XVII, Yoshitsune Takadachi Shin é uma peça de teatro de marionetes (jōruri) que conta a história do conflito entre Minamoto no Yoshitsune e seu irmão, o xogum Minamoto no Yoritomo. Embora a narrativa da peça se passe no século XII, e com base em versões anteriores da história deste conflito, ela faz fortemente alusão ao cerco de Osaka, em que as forças de Tokugawa derrotaram o clã Toyotomi, levando a morte de Chacha e Hideyori. A mudança de período na trama era para evitar a censura dos Tokugawa. O caráter da personagem Kyō no Kimi / Shizuka Gozen inspira-se fortemente em Yodo-dono.

Achei peculiar a construção das personagens em destaque. Acredito que Yasushi Inoue construiu-as de forma bastante realista. O tom poético, elemento importante da literatura japonesa, fica nos momentos íntimos, nos pensamentos e na contemplação das estações. O completo inverso aparece quando a “realidade” é narrada. Creio que isso dá um toque de riqueza na história, pois lida com as percepções do ser humano diante das informações passadas pelo meio e como melhor utilizá-las.

Só para esclarecer, há um grande número de personagens citados que não desempenham um papel importante na narrativa e acabam passando despercebidos aos olhos de algum leitor, mas que foram historicamente de extrema influência para um lado ou para o outro, como é o caso de Ishida Mitsunari, que liderou o Exército do Oeste na Batalha de Sekigahara, apoiando até o fim o clã Toyotomi; e Date Masamune que serviu tanto os Toyotomi nas invasões à Coreia (Guerra Imjin), como os Tokugawa nas campanhas em Osaka.

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Pintura do século XVII. Retrata o Cerco de Osaka: A Campanha de Verão (decisiva batalha entre os clãs Toyotomi e Tokugawa).

O romance não permanece somente em meio às batalhas, assassinatos, castelos sitiados e queimados, seppuku, reféns, alianças e traições… Estão reunidos também todos os ingredientes para um grande afresco histórico. O Castelo de Yodo está cheio de informações sobre as tradições e a sociedade japonesa da época, como o estatuto da concubina, o estilo de vida da aristocracia, as tradições guerreiras, a política, a cerimônia do chá, e principalmente o estilo de vida e o nível de poder da figura feminina da classe alta.

O título japonês 淀どの日記, Yodo dono nikki (O diário de Yodo-dono) faz menção aos diários escritos por nobres. Além da curiosa referência histórica, a ideia de que o romance é o diário de Chacha, e podemos considerá-lo, foi uma intenção precisa no quesito do protagonismo ser feminino. Afinal como mulher, que é mais considerada uma peça para as relações dos clãs, a heroína somente teria suas percepções “ouvidas” através dessas páginas em que relata suas transações cotidianas. Ou poderia ser também um costume desse período, pois de acordo com os estudos de Hisayasu Nakagawa, autor de Introdução a Cultura Japonesa. Ensaio de Antropologia Recíproca, no século VXI e época Edo, expressar abertamente um sentimento era considerado vulgar.

Recentemente comecei a assistir o anime Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, que resumindo superficialmente fala sobre rakugo (monólogos humorísticos). Estou adorando a série! (^_^) Vocês devem estar se perguntando qual a relação da animação com a obra de Inoue? Na verdade nenhuma diretamente, rs. No entanto, no primeiro episódio uma personagem coadjuvante comentou a seguinte frase durante a apresentação do senhor Yakumo Yuurakutei.

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Sinto exatamente essa sensação (^.^).

Eu me sinto exatamente desta forma e provavelmente com esta cara, hahaha. Fico imersa, em estado de concentração total quando estou a ler coisas do meu interesse. O Castelo de Yodo narra justamente sobre um período histórico do Japão que aprecio demais (*-*). Deparar-me com essa sensação que resume perfeitamente o que sinto foi uma coincidência agradável. Além disso, a leitura dessa obra extraordinária veio também num momento bastante propicio (^_^).

Apesar da multiplicidade de personagens e da abundância de fatos históricos, Yasushi Inoue consegue guiar-nos nesta trama complexa. Um terreno fascinante para explorar o período Azuchi-Momoyama. Como comentei anteriormente, fiquei fascinada com esta prosa que me levou a sensações maravilhosas (*-*).

O Castelo de Yodo, de Yasushi Inoue, é um belo afresco da turbulenta e fascinante guerra civil e unificação japonesa, mas também o retrato de uma heroína trágica, de uma mulher que mesmo estando na alta classe foi movida de acordo com a vontade desses três unificadores, tendo a única opção de encontrar a felicidade nos cenários que lhe eram propostos. Um livro essencial! Sim, virou romance do coração ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: O Castelo de Yodo
Título original: Yodo-dono Nikki, 淀どの日記
Autor: Yasushi Inoue
Tradução: Andrei Cunha
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 312
Ano: 2013