Livro: Kyoto – Yasunari Kawabata

kyoto-yasunari-kawabataRealizei a leitura de Kyoto, de Yasunari Kawabata, publicado originalmente em 1962, no mês de maio deste ano com uma querida amiga. A demora em escrever minhas impressões se dá pela dificuldade em expressar as sensações que senti ao ler esta impecável obra. Ainda estou no mesmo estado, mas algo aflorou quando conheci a cidade de Kyoto neste ano. Então chegou o momento de tentar escrever alguma coisa.

Ambientado no período pós-guerra, Kawabata nos leva a conhecer a história da jovem Chieko, filha adotiva de um comerciante de quimonos, Takichiro, e sua esposa, Shige. Acidentalmente Chieko acaba conhecendo Naeko no templo de Yasaka. Devido à semelhança física, Chieko leva a crer que essa moça pudesse ser sua irmã gêmea. Através dessa descoberta, ela tentará buscar as sequências desses eventos que a fizera tornar-se parte da família de tecelões.

O plano de fundo usado para a narrativa das irmãs está na antiga capital Kyoto com seus festivais, os feriados religiosos, a beleza da natureza, as estações do ano e o cotidiano japonês. Naquelas páginas o autor salienta de uma maneira suave a importância da preservação dessa identidade, que de certa forma estava tentando sobreviver às mudanças mundiais. Nota-se a nostalgia dos valores da tradição da arte, ou seja, que a produção milenar artesanal estava sendo substituída por uma produção mercantil sem sentimentos.

O que mais me impressionou em Kyoto foi à forma que o Nobel japonês, agraciado com o prêmio em 1968, apresentou uma história singela moldando-a com uma grande delicadeza e modéstia. A discreta atmosfera criada apresenta uma qualidade narrativa impecável. Eu fiquei imersa no esplendor daquelas páginas, na descrição de uma simples ação, da vida cotidiana, no fabrico de peças tradicionais e na beleza da cultura japonesa.

Quanto ao título original, Koto (古都), em tradução literal seria “antiga capital” (os kanji: 古 = antigo; 都 = capital). Referindo-se claramente à antiga capital japonesa: Kyoto. Por causa dessa clara alusão, muitas das traduções optaram por colocar no título o nome “Kyoto”, como na França e no Brasil, por exemplo. Só que existem edições em inglês que podem ser encontradas com o título de “The Old Capital”.

Um detalhe que achei cuidadoso na edição da Editora Estação Liberdade foi o da tradutora Meiko Shimon incluir um glossário com definições das eras, festivais, personalidades, monumentos, entre outros, citados durante todo o romance. Essa preocupação que ela teve não deixa o leitor perdido quando algum elemento cultural japonês aparece.

Kyoto, de Yasunari Kawabata, apresenta uma narrativa que caminha com uma sensibilidade e elegância única, cuja riqueza literária e artística deslumbra da primeira até a última página (*eu não estou exagerando*). Um tributo à antiga capital japonesa que causa naquele que ler uma sensação mística de doce intimidade. Kawabata repassou a poesia e emoção do que é Kyoto, do seu forte significado cultural. Eu sei, porque senti a ternura do abalo em mim quando a visitei em outubro deste ano ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: Kyoto
Título original: Koto, 古都
Autor: Yasunari Kawabata
Tradução: Meiko Shimon
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 256
Ano: 2006

4 anos de Lulunettes!!!!

4-anos-de-lulunettes_ghibli-dream_by-ameruCom a quantidade de coisas para fazer e um inconveniente chamado doença, acabei esquecendo o aniversário deste modesto cantinho. Dia 18 de novembro, o Lulunettes completou 4 anos de existência (^_^).

Continuo a achar este espaço extremamente enriquecedor para minhas leituras, é como se fosse uma extensão do livro. A interação que tenho com os leitores que deixam seus comentários também me é estimulante. E as amizades que cultivei através do Lulunettes se tornaram preciosas.

Eu não sou boa com palavras de agradecimento, mas deixo meu obrigada por lerem e comentarem no que digo. Pode não ser profissional, está longe disso de fato, mas é feito com o carinho de uma leitora que encontra nos livros uma sensação de amor inexplicável e tenta repassar esses sentimentos por aqui (★^O^★).

Coleção Completa Grandes Nomes da Literatura + [TBR Book Jar Nomes da Literatura]

[TBR Book Jar Nomes da Literatura]Após seis meses entre visitar a banca semanalmente, perder alguns volumes e correr atrás dos faltosos, finalmente conclui os 28 títulos da Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura.

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Coleção completa! (^_^v)

Como comentei nessa publicação, para que os livros não fiquem tempo demais na estante sem serem lidos, decidi criar uma TBR Book Jar com as obras da coleção. Nomeei esse longo projeto de [TBR Book Jar Nomes da Literatura]. Segue abaixo as regras, com uma pequena modificação.

Funcionamento da [TBR Book Jar Nomes da Literatura]:

  1. Os 28 títulos serão lidos mensalmente entre Janeiro/2017 a Dezembro/2018. Ou seja, em 24 meses;
  2. Será lido um livro por mês, sendo que em quatro desses 24 meses serão lidos dois livros no mês;
  3. O que definiu dois livros no mês foi à quantidade de páginas da obra. Por exemplo, caso o livro sorteado tivesse poucas páginas, como O Curioso Caso De Benjamin Button que contém 56 páginas, foi realizado mais um sorteio. Definindo assim o mês com dois títulos;
  4. O sorteio foi previamente realizado e pode ser consultado nas tabelas abaixo;
  5. Leitura finalizada, publicar as impressões até o ultimo dia do mês.

OBS.: Na regra que havia divulgado anteriormente, tinha a opção de sortear mensalmente o livro que seria lido no próximo mês. Entretanto, para melhor organização das leituras, afinal não vou ler somente os livros TBR Book Jar, já realizei o sorteio do projeto inteiro.

Talvez a modificação fuja um pouco da proposta da TBR Book Jar, mas acredito que esta simples mudança seja benéfica para organizar melhor outras leituras. Enfim, aqui as tabelas de 2017 e 2018:

tbr-book-jar-nomes-da-literatura_cronograma_2017_lulu     tbr-book-jar-nomes-da-literatura_cronograma_2018_lulu

(Clique na imagem para ampliar)

Sobre o livro A Fugitiva, de Marcel Proust, que é o sexto volume da série de Em Busca do Tempo Perdido, de acordo com algumas pesquisas, os livros podem ser lidos separadamente que não há comprometimento da leitura. O mesmo vale para O Pai Goriot, de Honoré de Balzac, que faz parte de A Comédia Humana.

Aos colegas leitores que ficaram interessados pelo projeto, fiquem a vontade para participar. Vocês podem fazer a sua própria TBR Book Jar ou me acompanhar nesses dois anos. Para quem for me acompanhar, simplesmente siga as tabelas. No entanto lembrarei no final de cada mês nas mídias sociais do blog (Twitter e Google+) o livro que será lido no mês seguinte.

Animados para o [TBR Book Jar Nomes da Literatura]? Eu estou bastante, pois será um interessante e longo caminho a percorrer (^_~).

Livro: O Museu do Silêncio – Yoko Ogawa

o-museu-do-silencio-yoko-ogawaPublicado originalmente no ano 2000, O Museu do Silêncio, de Yoko Ogawa, narra sobre um museólogo, narrador da história, que é contratado por uma rabugenta velha senhora para a criação de um museu em sua propriedade. O museu em questão preservará a passagem do tempo, a memória, a vida e a morte dos habitantes de uma remota vila.

Os objetos reunidos anteriormente pela velha, e agora pelo museólogo contratado, devem descrever com exatidão o falecido. No entanto não é qualquer peça que será posteriormente exposta, os objetos escolhidos devem conter características marcantes e serem representativos do que foram essas pessoas em vida.

Assim como o personagem-narrador é caraterizado pelo seu dever, as demais personagens são apresentadas igualmente por suas funções e não por nomes. Além da velha impaciente, que é a idealizadora do Museu do Silêncio, temos sua dedicada filha adotiva, o jardineiro faz-tudo, a criada e os pregadores do silêncio, que são monges vestidos por uma pele de bisões-dos-rochedos-brancos de uma seita misteriosa que defendem o desaparecimento das palavras. Além da presença constante dessas figuras, temos outras que existem para reforçar a união deles. E claro, a alma e a memória dos mortos transmitidos pelos objetos recolhidos.

Com um enredo bastante curioso em um limite de espaço, o ambiente não identificado em que a história se passa, que às vezes me parece estar no fim do mundo, ganha uma aura mística. Eu fiquei com a impressão de que a narrativa acontece numa fronteira entre a realidade e o irreal.

Por o narrador ser um experiente museólogo, temos um apanhado geral do trabalho cuidadoso desses profissionais. Particularmente achei interessante conferir o processo de catalogar, preservar, reparar e projetar o futuro espaço. Ou seja, todo o passo a passo da criação da alma desse mundo particular que é um museu. No caso do romance, na criação de um mundo irreal e silencioso.

[Atenção!!! Este parágrafo contém SPOILER] Conclui a obra sem captar muito bem se o assassinato daquelas mulheres foi realmente pelas mãos do jardineiro, ou, se ele somente recolheu os mamilos como peças destinadas ao museu. Tendo a ficar com a segunda opção, pois não teria sentido o assassinato proposital, já que a proposta do museu é esperar a morte para depois agir. Mas também fico a pensar que além dos objetos talvez o museu almeje uma variação de falecimentos. Bem, acredito que a autora acabou de nos levar a um beco sem saída. Ou sou eu que estou sem conseguir encontrar o caminho? [/ Fim do SPOILER]

Quanto à escrita de Yoko Ogawa, ela nos oferece ao mesmo tempo uma simplicidade e sutileza. Combinando também com um ritmo lento que casa perfeitamente com a atmosfera que começa suave e torna-se cada vez mais sombria e cheia de simbolismo no decorrer da narrativa.

Em relação à arte da capa, a imagem utilizada é “Detalhe de Grande Buda”, referente ao Grande Buda de Nara (Nara-no-daibutsu) localizado no Templo Todaiji, na cidade de Nara, Japão. Combinou muito bem com a obra, pois além do tema do romance, a figura dos pregadores do silêncio dá a impressão de serem monges de uma antiga seita budista.

A leitura de O Museu do Silêncio me fez lembrar um filme japonês que adoro, chamado Depois da Vida (no original: Wandafuru Raifu), do diretor Hirokazu Koreeda. Na trama, os falecidos estão numa espécie de purgatório para escolher e reviver durante a eternidade um momento marcante de sua vida. Acho que o filme veio à mente, porque o museu endereçado aos mortos da obra de Yoko Ogawa fala de certa forma de um tipo de eternidade.

O Museu do Silêncio, de Yoko Ogawa, é um romance pungente e difícil de explicar. O assunto principal é a memória, mas os temas são muitos e interligados de modo que acabamos por nos perdermos como o protagonista ao percorrer a linha de ligação da vida e da morte. Leitura mais que recomendada! (^_^) Também sugiro que confiram a entrevista com a autora, e o comentário da tradutora Rita Kohl sobre o romance.

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Título: O Museu do Silêncio
Título original: Chinmoku Hakubutsukan, 沈黙博物館
Autora: Yoko Ogawa
Tradução: Rita Kohl
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 304
Ano: 2016

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Recebi este livro como cortesia da Editora Estação Liberdade.