Livro: História do Novo Sobrenome – Elena Ferrante

Publicado originalmente em 2012, História do Novo Sobrenome, de Elena Ferrante, é o segundo livro da tetralogia chamada Série Napolitana, que conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. Nesse segundo volume é apresentada a juventude da narradora Elena “Lenu” Greco e de sua amiga Raffaella “Lila” Cerullo.

História do Novo Sobrenome inicia exatamente onde a narrativa deixou o leitor em A Amiga Genial (no casamento de Lila e Stefano, onde houve o incidente do qual Cerullo nunca irá perdoar Carracci). O enredo então segue os acontecimentos das duas amigas através dos anos sessenta. Anos estes que trazem o pleno desenvolvimento de Nápoles, com seus novos bairros modernos. Para os jovens comerciantes do antigo bairro, eles sentem que é a oportunidade de investir em variadas lojas no centro da cidade. No entanto a narrativa não permanece somente no bairro napolitano, grande parte da trama se passa na praia, na temporada de Lenu e Lila na ilha de Ischia; quando acontece um surpreendente desenrolar e mudanças profundas na vida das duas jovens com a chegada da família Sarratore.

Agora casada com um homem que ela despreza desde os primeiros momentos de vida juntos, Lila vive num confortável status financeiro. Por ser dotada de talentos prodigiosos, ela terá um papel fundamental no sucesso das lojas do marido, que firmou parceria com a família de agiotas Solara. Devido a sua parcela de trabalho, a nova Sra. Carracci gastará com os parentes e sua melhor amiga. Devido ao seu caráter indomável, Lila pagará o custo com as ações do marido violento. Mas apesar das surras, ela não se curva.

Por outro lado, Lenu continua insegura de si e desconfortável com sua origem. Essa insegurança a faz duvidar de suas disposições intelectuais e de seu aspecto físico. Porém com muito esforço em meio às confusões da vida de Lila, da restrita condição financeira de sua família e de seu próprio turbilhão mental, ela conseguirá empreender um caminho para a universidade, onde estará entre os estudantes de famílias influentes; famílias estas que podem direcioná-la a um futuro, a uma realidade que não seja o ambiente degradante de Nápoles.

Com a narração deliciosa do ponto de vista de Elena Greco, Ferrante continua com um desenvolvimento poderoso que acompanha com muito tato a evolução das vidas dessas personagens, mas sempre mantendo com desenvoltura a relação ambígua entre Lenu e Lila, que apesar das diferenças, os bons sentimentos entre elas são inegáveis. Lenu continua fascinada e estimulada pela personalidade e autoridade de Lila, enquanto que a atitude de Lila em relação à Lenu flutua entre generosidade e malícia.

Em História do Novo Sobrenome continuamos a acompanhar a esperança de cada uma das amigas, cada uma a seu modo, em escapar da realidade medíocre de sua origem. Tentativa onde a expectativa se torna escassa e difícil diante do destino para o qual seus amigos de infância dificilmente escapariam.

Este segundo volume está cheio de reviravoltas e acontecimentos arrebatadores. É visceral acompanhar os diferentes personagens e suas famílias no nível e no modo de vida nos aspectos dos amores, ciúmes e violências. Para mim História do Novo Sobrenome manteve a qualidade narrativa de A Amiga Genial, ou seja, um romance excelente. Quanto à escrita de Elena Ferrante, continua viciante e cheia de desenvoltura.

Elena Ferrante remete em História do Novo Sobrenome um talento ímpar na descrição fascinante da sociedade napolitana dos anos 60 em que a educação, a diferença de classe e a condição da mulher, são assuntos magistralmente abordados.

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Título: História do Novo Sobrenome
Título original: Storia Del Nuovo Cognome
Autora: Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 472
Ano: 2016

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Mangá: O homem que passeia – Jiro Taniguchi

Meu primeiro contato com Jiro Taniguchi foi através dos mangás O Livro do Vento (Editora Panini) e Gourmet (Editora Conrad). Lembro que havia achado o conteúdo curioso e bem diferente daquilo que eu lia na época (^_^).

Publicado originalmente em 2003 na revista seinen Morning e posteriormente ganhado seu formato tankoubon pela editora Kôdansha, O homem que passeia, do mestre Jiro Taniguchi, ilustra os pequenos prazeres que repentinos ou esperados passeios podem proporcionar. A edição nacional faz parte da coleção Tsuru, da editora Devir, que reúne obras de importantes mangakás, entre clássicos e contemporâneos. O homem que passeia foi o mangá de estreia da coleção; além disso, trouxe novamente, depois de nove anos, obras de Taniguchi ao Brasil.

O mangá de Jiro Taniguchi é uma obra bastante peculiar. De fato, há poucos diálogos, o curioso na história é seguirmos o personagem nos seus passeios despretensiosos e nos ater a cada detalhe da paisagem, do céu, dos edifícios, da vida diária. Acredito que o intuito de O homem que passeia é exalar a poesia na banalidade do cotidiano um tanto esquecida pelas inúmeras responsabilidades da vida. Captando essas paisagens, sentimos os sentimentos em admirar aquilo que nos rodeia e que inúmeras vezes passam despercebidas. Então através dessa mensagem singela, o mangaká nos faz procurar entender a beleza que rodeia seu passeador (*e consequentemente a nossa*): pássaros voando, árvores, neve, chuva, o Monte Fuji, mar, rio, becos e incluindo pessoas que cruzam o caminho do protagonista.

Há também vários one-shots após a narrativa principal, mas gostaria de destacar um em particular. Eu já havia lido em scanlation (e adorado!) e foi uma surpresa encontrá-lo aqui (^o^). Refiro-me ao one-shot Noite de Lua (no original: Tsuki no Yoru), que é baseada no romance Sanshiro, de Natsume Soseki. Tsuki no Yoru foi publicado originalmente em 1993 na antologia AERA COMIC’S Nippon no Manga. Nessa narrativa, acompanhamos um jovem rapaz que acaba por seguir um misterioso gato preto e é transportado para o Japão do início do século XX. Lá ele vive breves momentos que fazem parte da trama de Sanshiro Ogawa. Inclusive Soseki aparece e é comentado sobre seu problema gástrico. Para apreciar e entender melhor a história, recomendo como pré-requisito a leitura do romance (^_~).

Durante a leitura houve uma forte identificação com o personagem de Taniguchi. O homem que passeia causou em mim uma boa lembrança nostálgica. Eu, por exemplo, quando morei algum tempo numa pacata cidade da França, passava meu tempo livre perambulando pela cidade, mas principalmente na região do lago, onde eu comprava pão para dar de comer aos patinhos e cisnes (*hoje eu sei que dar pão é bastante prejudicial ao animal, mas na época da minha pré-adolescência eu não fazia ideia. Afinal era uma atividade comum entre os nativos*). Ficava lá na margem observando o horizonte e ordenando meus pensamentos. Era tranquilizante. O resultado desse passeio despretensioso era aquela agradável sensação de renovação. Por isso entendi completamente os sentimentos do nosso querido passeador (^_^). Bem que eu queria perambular tranquilamente por aqui (no Brasil), mas o fato de nosso país sofrer com a influência do capital estrangeiro acaba que castrando nosso crescimento econômico, colaborando para a falta de investimentos em serviços básicos de urbanização e em outros inúmeros setores, consequentemente aumentando a pobreza e dificultando a ação de uma simples atividade, infelizmente (T_T).

O homem que passeia, de Jiro Taniguchi, oferece uma leitura bastante pessoal, que vai atingir o leitor em menor ou maior grau, vai depender do seu nível de sensibilidade. No meu caso me provocou sensações particularmente profundas. Por isso recomendo que a leitura seja feita num ambiente calmo. Primeiro, porque a arte merece ser contemplada, e segundo, porque o mangá exala uma tranquilidade deveras agradável ♥ ♥ ♥ ♥ ♥.

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Título: O homem que passeia
Título original: Aruku Hito, 歩くひと
Autor: Jiro Taniguchi
Tradução: Arnaldo Oka
Editora: Devir Livraria
Páginas: 244
Ano: 2017

Livro: Anna Kariênina – Liev Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Assim começa, com essa afirmação infeliz e tão verdadeira, o clássico russo de Tolstói.

Anna Kariênina, de Liev Tolstói, começou a ser publicado na revista Ruskii Véstnik (em português: O Mensageiro Russo) entre 1873 a 1877. Porém por desentendimento do autor com o editor quanto a questões políticas, o final acabou não sendo publicado e Liev teve de publicar por outro meio. No ano seguinte, em 1878, a primeira edição integral do romance surgiu.

Dividido em oito partes o clássico russo narra a trágica história da condensa Anna Kariênina (também chamada de Anna Arcádievna). Sendo uma mulher bonita e esposa de uma grande personalidade do país, Aleksiei Aleksándrovitch Kariênin, do qual ela afirma ser um homem integro, mas um marido incapaz de sentimentos. Por esse frio matrimônio, ela acaba se sentindo atraída pelo jovem conde Aleksiei (Aliocha) Kirílovitch (Kirílitch) Vrónski.

Entretanto, uma das grandes obras de Tolstói, não fala somente de adultério e da diferença gritante da punição social para homens e mulheres, sendo a mulher a mais prejudicada. Acrescentando riqueza ao romance, o autor apresenta histórias de outros núcleos familiares que estão ligados à personagem-título, como Konstantin (Kóstia) Dmítrich Liévin, um rico proprietário de terras que sente dificuldade em administrar seu patrimônio, seu eventual casamento e sua luta interna em questões de fé; da princesa Iekatierina (Katierina, Kátia, Kátienka) Aleksándrovna Cherbátskaia (também chamada de Kitty); assim como de Dária (Dáchenka, Dólienka) Aleksándrovna (também chamada de Dolly) que é irmã de Kitty e esposa de Stiepan; Stiepan Arcáditch Oblónski, irmão de Anna, que trai Dolly com a preceptora de seus filhos; e entre outros personagens de maior ou menor importância.

Retrato de uma jovem senhora (a chamada Anna Kariênina), de Aleksei Mikhailovich Kolesov, 1885, Museu Nacional de Varsóvia, Polônia.

Por sua considerável quantidade de páginas, Anna Kariênina explora uma gama de tópicos da Rússia do final do século XIX, que incluem o panorama do sistema agrário (com os mujiques (camponeses) sujeitos a um senhor), das grandes cidades (Moscou e São Petersburgo), a política do regime monárquico czarista, a fé cristã ortodoxa, a moralidade, o gênero e claro a vida domestica e social da classe dominante.

Por sua riqueza de elementos, foi curioso perambular pela decadente, atrasada, burocrática, falida (econômica e socialmente) da Rússia Czarista através da obra de Tolstói. De adentrar no sistema majoritariamente agrário do país, o qual colabora para o atraso e impede mudanças estruturais à sociedade, como a Reforma Agrária; e também da elite vira-lata superficial, bisbilhoteira, hipócrita e subserviente as potências inglesa e francesa. Características essas que lembram bastante o Brasil, com seus latifúndios e uma elite escória subserviente (*convenhamos que atualmente a entreguista elite nacional em nada mudou. Continua atrasando o desenvolvimento do nosso país*).

Retrato de Liev Tolstói como um lavrador em um campo, de Ilya Repin, 1887, Galeria Estatal Tretyakov, Moscou, Rússia.

No entanto me impressionou como todos os personagens são trabalhados em cada pormenor de sua personalidade; inclusive os personagens secundários são também bem estudados. Tolstói revela suas qualidades e defeitos, nunca os fazendo de ícones, mas seres de carne. Esse cuidado quanto às características consegue nos mergulhar com veemência em suas almas. Por isso mesmo as julgando eu não consegui sentir nenhuma antipatia por nenhuma personagem. A revelação do íntimo me fez compreender as incertezas, os sacrifícios e os medos de cada um. Sem dúvida um dos destaques mais fenomenais de Anna Kariênina é como Liev Tolstói constrói o íntimo das personagens.

Minha passagem favorita do romance foi sem dúvida a cena da declaração codificada entre Liévin e Kitty. Um momento de infinita delicadeza e o mais interessante seu teor autobiográfico. Já o momento que me impressionou foi à descrição da fatalidade de Anna Arcádievna (*dá para sentir toda a tristeza e extrema angústia da personagem em seus momentos finais*). Quanto aos personagens favoritos, criei uma simpatia por Dolly e Aleksiei Kariênin.

Nem simples e nem complicado, o estilo de escrita de Liev Tolstói apresenta um ritmo que exala força e grandeza. Suas descrições das maneiras, da vida desocupada da elite, do trabalho árduo dos camponeses, das preocupações com a alma e com a vida, do peso das convenções sociais… Liev nos oferece distintas pinturas da Rússia Czarista.

A leitura de Anna Kariênina foi realizada com uma querida amiga. Compartilhar essa leitura com a Raquel me trouxe conversas enriquecedoras (^_^). Além disso, como minha leitura foi feita totalmente pelo livro físico notei que meus braços ficaram torneados (*seja fitness lendo calhamaço, hahaha*). Enfim, nesta edição da Cosac & Naify tem um texto muito bom do Rubens Figueiredo, chamado Duas Famílias em Uma Só. Também inclui uma árvore genealógica, Lista de Personagens (*que me ajudou bastante*), uma minibiografia Sobre o Autor, Sugestões de Leitura e por fim uma pequena lista das obras publicadas de Tolstói na falecida Editora Cosac & Naify.

Anna Kariênina, de Liev Tolstói, é um romance merecedor do título de obra-prima. A primeira vista, pelo seu tamanho, o livro parece assustador, mas o fato é que a narrativa fascina pela sua altíssima qualidade literária. Este grande clássico russo me conquistou completamente (♥\*-*/♥).

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Título: Anna Kariênina
Título original: Anna Karenina, Анна Каренина
Autor: Liev Tolstói
Tradução: Rubens Figueiredo
Editora: Cosac & Naify
Páginas: 816
Ano: 2011