Livro: As Máscaras do Destino – Florbela Espanca

As Máscaras do Destino, de Florbela Espanca, é um livro de contos publicado postumamente em dezembro de 1931. A obra é dedicada à memória do irmão, Apeles Espanca, que faleceu num trágico (ou intencional?) acidente durante um voo de treino com um hidroavião em 4 de junho de 1927. A morte do irmão, e outras razões pessoais diversas (como matrimônios fracassados e saúde debilitada), devastou tanto Florbela que ela tentou suicídio em 1928. Houve outras tentativas, até que na noite de seu 36º aniversário, no dia 8 de dezembro de 1930, ceifa sua própria vida.

Este pequeno, mas profundo livro integra na obra florbeliana o amadurecimento literário da escritora portuguesa no terreno dos contos. O conteúdo da obra, que tem como tema central a perda, inclui oito contos: O Aviador, A Morta, Os Mortos não Voltam, O Resto é Perfume, A Paixão de Manuel Garcia, O Inventor, As Orações de Soror Maria da Pureza e O Sobrenatural. Há também um prefácio, intitulado As máscaras dramáticas da prosa de Florbela Espanca, muito bom do pesquisador e professor Fabio Mario da Silva.

Alguns contos são rápidos de ler, outros nem tanto pelo nível de detalhes (o que merecia notas de rodapé para compreensão de algumas referências), mas todos têm em comum o caráter lírico tão comentado da poetisa portuguesa. A expressão poética da intensa dor de Florbela é sentida na alma.

O impactante Os Mortos não Voltam foi sem dúvida o favorito; inclusive virou preferido da vida! A narrativa desse conto é simples, mas o seu crescente desenvolvimento e desfecho trás a veracidade do que é a insuportável e perpétua dor da perda. Os Mortos não Voltam é tão autêntico e fiel aos sentimentos de destroços pela morte que um ente querido nos causa, que me senti devastada por alguns dias.

Tinha ouvido falar de Florbela Espanca anteriormente, afinal ela é um dos grandes nomes da literatura portuguesa. Na seleção do livro para o desafio, pensei em escolher sua poesia, dado que Florbela é famosa pelo gênero poético. Mas verificando sua bibliografia, As Máscaras do Destino me chamou bastante atenção por tratar de um tema bastante intenso, pessoal e avassalador. Enfim, é um livro difícil de comentar, mas fácil de sentir.

.

Título: As Máscaras do Destino
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 116
Ano: 2016

Livro: Rogue One. Uma História Star Wars – Alexander Freed

Baseado no roteiro de John Knoll, Gary Whitta, Chris Weitz e Tony Gilroy, Rogue One. Uma História Star Wars, de Alexander Freed, é a romantização do maravilhoso filme dirigido por Gareth Edwards. O romance foi originalmente publicado em dezembro de 2016, alguns dias após o lançamento do longa-metragem nos cinemas.

A narrativa de Rogue One segue um grupo de rebeldes em uma missão desesperada para roubar os planos de uma arma misteriosa e extremamente poderosa possuída pelo Império: a Estrela da Morte, arma capaz de destruir planetas inteiros. A história se passa pouco antes dos eventos do Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977).

A protagonista Jyn Erso é filha de Galen Erso, o cientista forçado pelo Império a desenvolver a Estrela da Morte. Depois da captura do pai e da trágica morte da mãe, a menina fica aos cuidados do extremista rebelde Saw Gerrera, que a orientou e treinou em combate até que seu salvador se desconecta dela. Quinze anos se passaram e uma mensagem holográfica gravada por Galen para Gerrera, que será levada pelo piloto de carga que desertou do Império, forçará Jyn a ajudar a Aliança Rebelde.

No livro é acrescentado mais detalhes e algumas suaves modificações. Da expansão vale destacar: a história de Jyn Erso é levemente expandida; tomamos conhecimento dos pensamentos mais íntimos da heroína e de seus seguidores; a rivalidade entre Orson Krennic e Grand Moff Tarkin é mais exposta; o olhar de algumas figuras no momento da destruição de Jedha; o acréscimo da perspectiva do Almirante Raddus, incluindo uma breve história de sua espécie; e o final explora o ponto de vista de cada personagem relevante e também oferece uma pequena diferença em relação ao filme na entrega dos dados da Estrela da Morte.

Jyn Erso, a melhor heroína de Star Wars.

Eu não sou fã de Star Wars. Com exceção de Rogue One e O Mandaloriano (2019), no geral, acho os filmes medianos (Episódios I, II, III, IV, V, VI e Han Solo) ou desastrosos (Episódios VII, VIII e IX). Quando assisti no cinema o Episódio I: A Ameaça Fantasma em 1999, não foi porque eu conhecia a franquia – na verdade eu nem fazia ideia do que era Guerra nas Estrelas, hahaha –, simplesmente aceitei o convite de ir ao cinema com uma colega do colégio. O contato com os demais filmes foi quando comecei a namorar meu honorável marido (*que é muito fã*). Até achei algumas coisas bacanas (como a animação Clone Wars (2003)) e outras criativas (o figurino e o design de Star Wars é original e bonito), mas só. Realmente nunca me empolguei. Até que… Fui assistir Rogue One (obviamente estava acompanhando meu marido). Gostei tanto de Rogue One, que no final do filme eu estava chorando (aquela cena final da Jyn e do Cassian é emocionante) e, pasmem, fui assistir pela segunda vez no cinema. Filmaço! (*o*)

Minha preferência por Rogue One é por conta de apresentar os rebeldes, personagens que não sejam os entediantes Jedi ou seus antagonistas Sith (sendo que as poucas cenas do Darth Vader em Rogue One são as mais empolgantes de toda a franquia, por mostrarem a real imponência e poder do Lorde Sith (*por favor, entreguem Star Wars à equipe que produziu Rogue One*)). Podemos facilmente nos identificar com as particularidades e determinação dos rebeldes que atuam na linha de frente, mas também com suas fragilidades. São personagens bastante críveis. Outro ponto é que a narrativa de Rogue One tem todo um clima de humanidade, de desacertos, de aprendizado, de união e de lutar fortemente por um objetivo comum. É uma trama dramática que lembra o tom dos dramas de guerra. O leitor / telespectador sente que os personagens têm algo a perder, e vibra com cada avanço, como lamenta cada perda.

Rogue One (*o*)

A respeito de Jyn Erso, que protagonista incrível e muito bem construída. Ela é esperta e boa guerreira por ter crescido em meio a conflitos, mas vulnerável por sua trágica história e amável por seu íntimo almejar uma vida em paz. Os eventos iniciais forçam Jyn a ajudar a Aliança, mas ela acaba manifestando o mesmo desejo do pai, que a motiva a colaborar com os rebeldes e principalmente a inspirá-los. Sem dúvida, Rogue One nos apresenta a melhor e mais profunda heroína de Star Wars. No filme, a atriz Felicity Jones entrega uma atuação memorável!

Quanto a Força, achei bem interessante a forma sutil da sua presença: no cristal Kyber portado por Jyn e no devotado Chirrut Imwe. Afinal, o Império Galáctico caçou e exterminou os Jedi (o início da matança começa no Episódio III: A Vingança dos Sith (2005) com a Ordem 66). Então a Força é tida como perdida, mas durante a narrativa ela timidamente unifica e guia os corajosos rebeldes na missão.

Rogue One. Uma História Star Wars, de Alexander Freed, é uma ótima adaptação literária por incrementar ainda mais a melhor narrativa de Star Wars. Se você adorou o filme tanto quanto eu, você vai apreciar e se emocionar com a romantização. No mais, que a Força esteja conosco (^_^).

.

Título: Rogue One. Uma História Star Wars
Título original: Rogue One. A Star Wars Story
Autor: Alexander Freed
Tradução: Felipe CF Vieira
Editora: Universo Geek
Páginas: 384
Ano: 2019

Conto: O Relato de um Homem Supersticioso – Thomas Hardy

O Relato de um Homem Supersticioso, do romancista e poeta inglês Thomas Hardy (1840 – 1928), foi publicado pela primeira vez em 1891 na revista Harper’s New Monthly Magazine, e incorporado em 1894 na coleção de contos Life’s Little Ironies. Em linhas gerais, o conto narra uma série de ocorrências até à estranha morte de William Privett.

Este conto da Era Vitoriana de autoria de Thomas Hardy é um mimo da debutante editora Legatus, que na última semana de abril enviou aos seus futuros leitores o intrigante O Relato de um Homem Supersticioso (*obrigada!*). Para receber o arquivo em PDF, basta cadastrar seu e-mail no site da editora (^_~).

O curioso por trás de O Relato de um Homem Supersticioso é que o título e o enredo aparentemente simples revela uma narrativa que vagueia entre a realidade e uma história de fantasma.

A realidade é de antemão entregue no título, que sugere aos leitores que o narrador torna os eventos apresentados mais dramáticos. Outro ponto é que os personagens centrais, William e sua esposa Betty, são trabalhadores comuns que fazem tarefas corriqueiras numa ordinária vila na qual a comunidade parece unida. Tal detalhe na ambientação facilita aos leitores da época a se identificarem, tornando assim os acontecimentos mais concretos.

Enquanto que os episódios sobrenaturais são revelados pelo sino manejado pelo sacristão, pela crença popular da Véspera do Solstício de Verão, pelas mariposas de moinho, pelo córrego Longpuddle, e principalmente, pelo momento que Betty passa roupa até tarde da noite.

Hardy torna a trama tão crível que o leitor contemporâneo consegue se relacionar facilmente com o enredo simples. A construção dessa narrativa me fez lembrar as histórias de espíritos ou fantasmas narrados por familiares e conhecidos (*algumas delas contadas ao redor da fogueira*). Enquanto lia, senti como se estivesse ouvindo uma dessas histórias. Que nostálgico!

Neste pequeno e tão bem estruturado conto, Thomas Hardy sutilmente instiga o leitor a interpretar as opiniões tendenciosas do narrador. Enquanto lemos (e até quando concluímos) O Relato de um Homem Supersticioso, somos manipulados a pender para o lado da superstição. Afinal o homem supersticioso é a voz ativa. Sendo que em outros momentos a razão vem à tona, e os eventos ocultos podem ser facilmente interpretados como uma mera coincidência e exagero. O mais divertido é que cabe ao leitor decidir no que acreditar; tal qual quando ouvimos por aí histórias espantosas.

.

Título: O Relato de um Homem Supersticioso
Título original: The Superstitious Man’s Story
Autor: Thomas Hardy
Tradução: Giancarlo D’Anello
Editora: Legatus
Páginas: 12
Ano: 2020