Mangá: A Menina do Outro Lado ~ Vol. 3 – Nagabe

O final do segundo tomo promove a deixa para o reencontro de Shiva e sua tia. Partindo desse ponto, o início do terceiro volume nos oferece um momento de tensão indescritível desse reencontro que acaba com o rapto da garotinha por sua misteriosa tia, do qual está auxiliada pelos brutais soldados do Reino de Dentro. Nessa curta perseguição, que é dominada pela violência dos soldados e pelo desespero de Sensei, Nagabe nos oferece uma sequência de quadros maravilhosamente desenhados. O mangaká consegue passar o tom devastador, cruel e comovente da forçada separação. Evento este que é o ponto de partida para novos mistérios acerca de Shiva.

Agora sem Shiva, o Forasteiro entra num dilema se deve ou não tentar trazer a menina de volta. Afinal, ela está com sua tão adorada e aguardada tia. Apesar disso Sensei chega à conclusão de que deve salvar sua protegida, pois o reaparecimento da velha senhora lhe é suspeito e ele se pergunta por que os soldados, que antes maltrataram a garota, de repente começam a protegê-la. Diante dessas suspeitas de que a menina não está segura, nosso protagonista recebe a ajuda do Amaldiçoado sem cabeça e de seus entusiasmados companheiros quadrúpedes e alados.

Enquanto isso, Shiva retoma sua antiga vida. Ela e a tia se instalam no vilarejo do leste – pequeno vilarejo rural que fica na fronteira mais distante do Reino de Dentro. A rotina começa a voltar ao normal com as tarefas diárias e a interação com os vizinhos. No entanto um turbilhão de emoções contraditórias acerta Shiva e seu coração permanece incerto: existe a alegria de reencontrar sua única família, mas também existe o carinho por seu salvador. Bem, a partir daqui não revelarei mais nada. O que posso dizer é como Nagabe nos surpreende com o que acontecerá com nossos protagonistas e com os habitantes do infortunado vilarejo.

O comovente volume ofereceu uma série de contrastes e poesia em meio ao encontro da violência e da intolerância com a pureza. Testemunhamos as contradições entre a animalidade e a humanidade, toda essa dualidade domina a narrativa desses capítulos. Tudo isso é reforçado pelo elo envolto de muita ternura e cumplicidade que une os protagonistas. Pois por um lado temos Sensei com sua aparência sombria e demonizado por sua condição; o Amaldiçoado é definitivamente mais humano que os próprios homens, já que ele se preocupa com Shiva e não hesita em protegê-la. Enquanto a garotinha, que está na mira das armas de seus semelhantes, é a personificação da inocência.

Eu adorei o terceiro tomo de A Menina do Outro Lado (*o*), porque além da arte sofisticada de Nagabe manter o primor na singela expressividade das personagens e nas cenas ternas e dinâmicas, os capítulos trouxeram bastante ação e estenderam de uma forma arrebatadora a trama. Novas questões surgiram mostrando a intensão do Reino de Dentro e os mistérios dúbios que cercam Shiva. Em suma, mergulhar no mundo fascinante e cruel de Totsukuni no Shoujo é sempre um prazer (^_^).

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Título: A Menina do Outro Lado
Título original: Totsukuni no Shoujo – Siúil, a Rún / とつくにの少女 – Siúil, a Rún
Autor: Nagabe
Volume: Vol. 3
Tradução: Renata Garcia
Editora: DarkSide Books
Páginas: 176
Ano: 2019

Mangá: Le Secret de L’Ange (Hakoniwa no Soleil) – Kawabata Shiki

Le Secret de L’Ange (título original: Hakoniwa no Soleil), de Kawabata Shiki, mesma mangaká de Rouge Éclipse (título original: Sora wo Kakeru Yodaka), foi publicado na revista shoujo Margaret entre 2016 e 2017, e posteriormente reunido em 4 tankoubon pela editora Shûeisha.

A priori, a protagonista de Le Secret de L’Ange, Asahi Sena, é uma jovem comum do ensino médio. No entanto, todos os anos, especificamente em 06 de abril, é para ela uma data infeliz. Na infância a bondosa Asahi frequentou um curso de desenho onde se tornou amiga da doce professora Yûki Tobari e de seu colega tímido e talentoso Tenji Shukuya, a quem ela apelidava de “Anjo” (no original a pronúncia do nome de Tenji é parecida com a palavra “tenshi”, “anjo”, em japonês). Os momentos passados com seus queridos amigos eram para ter se transformado em memórias felizes. Porém a escola foi incendiada e a senhorita Yûki assassinada por Tenji, que após confessar o homicídio foi condenado. A tragédia marcou Sena, e desde então, ela nunca viu seu querido amigo, como também nunca aceitou a conclusão da investigação. Em uma de suas visitas anuais ao túmulo da professora que tanto adorava, ela acaba conhecendo o irmão mais novo de Yûki, o alto, bonito e botânico, Itsuki Tobari.

Ao longo dos volumes, mesclado ao presente, vamos conhecendo aos poucos as memórias das personagens, que não inclui somente as figuras centrais, mas também da falecida professora e da mãe da heroína. Essas variadas recordações são as peças do quebra-cabeça que envolvem o mistério da morte de Yûki. Obviamente ao retornar a essas lembranças é despertada uma delicada mistura de melancolia e nostalgia.

[Atenção!!! Esses parágrafos contêm SPOILER] Quando a infância de Tenji é finalmente revelada, descobrimos detalhes significativos do segredo. Na ocasião em que era um garotinho, ele era maltratado pela madrasta e enteada de seu pai, então a amizade com Yûki e Asahi era seu único refúgio. Pelo amor que Tenji nutria por elas, ele faria qualquer coisa para protegê-las. Outro ponto que acrescenta detalhes aos mistérios são os fragmentos da memória de um passado esquecido de Asahi. Diante dessas lembranças acabamos facilmente entendendo o que poderia ter acontecido na realidade.

O silêncio proposital de pontuais personagens é naturalmente para preservar, proteger aquele que lhe é querido. Com a revelação da inocência de Tenji, mostra que não há nenhum verdadeiro culpado pela morte da professora Yûki. Kawabata entrega na sua obra um retrato bastante humano e complexo de seus personagens, principalmente a maneira individual que cada um sofre com a angustiante situação. [/ Fim do SPOILER]

Quanto à arte de Kawabata Shiki, ela tem um estilo típico do shoujo deste período, mas não deixando de trazer a sua identidade. No entanto, comparando com Sora wo Kakeru Yodaka, seu traço se tornou mais firme, eu diria até mais elegante. Ah, e que capas lindas, não é mesmo! (\*o*/) Estou apaixonada por cada uma delas, mas sem duvida minha preferida é a do quarto volume.

Le Secret de L’Ange (Hakoniwa no Soleil) tem seus clichês típicos do shoujo mangá. Particularmente não me importo com clichês, contanto que sejam bem desenvolvidos. Então este é o caso da obra de Kawabata Shiki, que trás uma narrativa cheia de charme, interessante e que foge do shoujos escolares convencionais.

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Título: Le Secret de L’Ange
Título original: Hakoniwa no Soleil, 箱庭のソレイユ
Autora: Kawabata Shiki
Editora: Akata
Número de volumes: 4 volumes
Ano: 2018

Mangá: Uzumaki – Junji Ito

Uzumaki, de Junji Ito, foi publicado originalmente na revista semanal seinen Big Comic Spirits de 1998 a 1999, e sendo compilado em três tankōbon pela editora japonesa Shôgakukan; no ano 2000 foi publicado um capítulo especial intitulado Galáxia. A primeira aparição da obra no Brasil foi através da falecida editora Conrad, que publicou em 2006 os três volumes sob o título Uzumaki – A Espiral do Horror. Após 12 anos, os brasileiros ganham uma segunda edição de uma das obras mais famosas do mestre do horror japonês.

A adorável estudante Kirie Goshima, personagem principal e narradora onisciente, começa sua história com a vista para Kurôzu. A pequena cidade natal de Goshima é infernizada pela loucura e caos da uzumaki (“espiral”, em japonês). Ela e o namorado Shuichi Saito testemunharam um fenômeno que começará inofensivo, quase invisível, antes de interferir na vida de todos e, eventualmente, tomar posse de toda a cidade.

A desordem começa com o comportamento extremamente estranho do pai de Shuichi, no qual passava os dias trancado em uma sala observando atentamente um número impressionante de objetos que acumulou em formato de espiral. À medida que os capítulos são introduzidos, onde as narrativas são mais ou menos independentes, mas acabam se conectando com a chegada da conclusão, são expostos os horrores de outros personagens que foram influenciados pela obscuridade da uzumaki. O pandemônio se multiplica, cada vez mais perturbador, cada vez mais frequente, e nada parece ser capaz de retardar a influência da espiral nos habitantes de Kurôzu.

O que me agrada nas obras de Junji Ito é como ele oferece um ambiente aparentemente comum e retira dessa normalidade um incômodo, um pânico, uma loucura ou uma obsessão que se entrelaça até consumir a circundante do cotidiano (\*o*/ ~ Deveras empolgante!). As minhas narrativas preferidas de Uzumaki foram os capítulos 05 “Pessoas Contorcidas” (*eu diria que esse enredo dramático é o Romeu & Julieta do horror japonês*) e 07 “Caixa-Surpresa” (*realmente, é esquisito saber que corpos estão apodrecendo debaixo da terra. Particularmente acho o ato do enterro algo grotesco. A cremação é menos macabra, e, além disso, higiênica*).

Quanto à arte de Junji Ito, eu diria que é única e com personalidade (*_* Adoro!). Em Uzumaki, Ito consegue causar um desconforto ao leitor, não apenas pelas monstruosidades físicas e psicológicas reveladas, mas igualmente pelas expressões das personagens, onde o medo está constantemente estampado.

Incluído na edição temos textos de apoio de Kleber Ricardo de Sousa, de Artur Coelho e do ex-diplomata e agora escritor Masaru Sato. Os responsáveis pela publicação não identificaram os dois primeiros sujeitos. Quanto ao texto analítico assinado pelo japonês Masaru Sato, é curioso como ele compara os paralelos da trama de Uzumaki com o Marxismo. Pelo que eu entendi, o clássico de Ito é uma obra anticapitalista, que apresenta uma virtude quase profética: de prever que um dia o capitalismo levará o mundo ao desastre. Nisso eu concordo, o capitalismo está levando a humanidade à calamidade. A crise financeira caminha ladeira abaixo desde os anos 70, e a explosão daqui a pouco acontece. Por fim, há uma nota biográfica do mangaká.

Minha única crítica à edição nacional é não ter páginas coloridas. O que foi uma economia desnecessária por parte da editora, afinal a edição é bastante onerosa (¬_¬). Quanto ao trabalho gráfico, entendo que o selo Tsuru tem um padrão, mas eu tinha preferência que Uzumaki fosse publicado em três tomos numa box, pois além de confortável de ler, teríamos uma edição mais bonita.

Uzumaki, de Junji Ito, apresenta um enredo singular e atemporal. Engraçado que senti novamente a sensação de estranheza que me foi provocada na primeira leitura (realizada na edição publicada pela Conrad); enquanto que nessa releitura, com mais idade, se percebe como o horror de Ito é sofisticado, perturbador e eficaz. O cara é sensacional! (^_^) Uzumaki se destaca como um dos pináculos de sua criação, uma obra-prima simplesmente perfeita.

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Título: Uzumaki
Título original: Uzumaki, うずまき
Autor: Junji Ito
Tradução: Arnaldo Oka
Editora: Devir Livraria
Páginas: 656
Ano: 2018