Aviso! + Instagram

Olá, pessoal! Tudo bem com vocês?

O blog vai ficar um tempinho parado por conta das minhas pequenas férias. Vou passar duas semanas no Japão (^_^). Nesse período não vou publicar nada por aqui. Mas vou postar alguma coisinha no instagram que criei para o blog: instagram.com/lulunettesblog/

É isso. Até logo! (^_^/)

Anúncios

Livro: Encontro com Rama – Arthur C. Clark

Publicado originalmente em 1973, Encontro com Rama, de Arthur Charles Clarke, é considerado um dos romances mais famosos do escritor britânico. Depois do lançamento, a obra foi agraciada com os principais prêmios da ficção científica, os prêmios Hugo e Nebula.

Após a destruição de uma parte da Europa Ocidental por um asteroide em 11 de setembro de 2077, para evitar tal catástrofe, os governos estabeleceram um projeto que antecipa a chegada de objetos celestes do espaço profundo que podem colidir com a Terra, chamado Spaceguard. Durante um pouco mais de meio século, a humanidade foi evoluindo tecnologicamente, colonizando a Lua, Marte, Mercúrio e vários outros satélites naturais. Sempre em alerta, o sistema Spaceguard detecta um gigantesco artefato que está se aproximando do Sistema Solar e que pode ser um problema. Atentos e curiosos com as particularidades estruturais nada convencionais do enigmático objeto, ele é batizado de Rama. Passando a ser estudado, uma experiente tripulação é enviada na espaçonave Endeavour com a tarefa de explorá-lo num curto espaço de tempo. Enquanto isso, os embaixadores das colônias reagem de maneira diferente a essa situação sem precedentes.

Calculou-se, então, a órbita e resolveu-se o mistério – substituído por outro ainda maior. O 31/439 não percorria a órbita normal, em elipse, de um asteroide, retraçada com a precisão de um relógio no intervalo de alguns anos. O objeto era um errante solitário entre as estrelas, fazendo sua primeira e última visita ao Sistema Solar – pois movia-se tão depressa que o campo gravitacional do Sol jamais poderia capturá-lo. Iria passar como um raio pelas órbitas de Marte, Terra, Vênus e Mercúrio, ganhando velocidade no caminho, até contornar o Sol e partir novamente rumo ao desconhecido.
.
Foi nesse ponto que os computadores começaram a piscar o sinal “Oi, gente! Temos algo interessante!”, e, pela primeira vez, o 31/439 chamou a atenção dos seres humanos. Houve uma breve acesso de entusiasmo no centro de operações do Spaceguard, e o vagabundo interestelar foi rapidamente dignificado com um nome, em vez de um número. Muito tempo atrás, os astrônomos tinha esgotado a mitologia greco-romana; agora, exploravam o panteão hindu. Assim, o 31/439 foi batizado de Rama. (p. 12)

Clark invoca uma abordagem muito bem desenvolvida do que seria o primeiro contato da raça humana com uma inteligência extraterrestre. Ok, existem obras com tal temática na literatura, na TV e no cinema, onde as interpretações da aparência e interação do alienígena variam de uma forma humanoide com apenas alguns detalhes diferentes da espécie humana, ou formas cabeçudinhas a lá ET Bilu (*lembrem-se: Busquem conhecimento! hahaha*), ou ainda formas estranhas que basta um tradutor para uma fácil comunicação. No entanto, o escritor britânico imagina uma vida extraterrestre tão radicalmente alienígena que é praticamente impossível entendê-la ao modo humano de pensar. É por essa ideia sensata, que a pesquisa dos tripulantes da Endeavour traz uma narrativa bem-sucedida e com um ritmo envolvente (*-*).

Normalmente há um período de adaptação para adentrar na narrativa em determinados romances de ficção científica. O que é completamente normal, já que é necessário redobrar nossa imaginação para essa realidade desconhecida. Por essa razão, eu demorei um pouco para concluir a leitura pela dificuldade em imaginar as particularidades de Rama. Fiquei tão atônica quanto as personagens, e assim como elas, tentei entender e colocar alguma lógica na natureza desse estranho objeto que veio do espaço profundo. Entretanto Arthur C. Clark não nos deixa na mão, sua narração é detalhada, no entanto didática e bastante agradável de ler. Acredito que o autor quer repassar aos seus leitores – sejam eles novatos ou veteranos do gênero, sejam eles conhecedores, simpatizantes ou leigos das questões do universo – simplesmente a sensação de estranheza sentida pelos exploradores. Creio que o autor faz um excelente trabalho nesse sentido (^_^).

O comandante Norton concluíra há muito tempo que certas mulheres não deveriam ser admitidas a bordo; a ausência de peso exercia em seus seios efeitos muito perturbadores. Já era difícil quando ficavam paradas; mas quando se punham em movimento, dando início às vibrações harmônicas, era mais do que qualquer homem de sangue quente poderia suportar. Ele tinha certeza de que pelo menos um acidente espacial grave tinha sido causado pela distração da tripulação, após o trânsito de uma oficial bem acolchoada pela cabine de controle. (p. 67)
.
.
Para todos os seus companheiros da nave, Boris Rodrigo era uma espécie de enigma. O calado e digno oficial de comunicações era estimado pela tripulação, mas nunca participava inteiramente de suas atividades e sempre parecia um pouco afastado – marchando ao som de um tambor diferente.
.
E de fato marchava, já que era membro devoto da Quinta Igreja do Cristo Cosmonauta. Norton nunca conseguiu descobrir o que tinha acontecido às quatro anteriores, como também desconhecia os rituais e as cerimônias da Igreja. Mas o principal dogma de sua doutrina era conhecido: acreditava-se que Jesus Cristo era um visitante do espaço, e toda uma teologia fora construída em torno desse pressuposto.
.
Talvez não fosse surpreendente que uma grande proporção de seus devotos trabalhasse no espaço, num cargo ou outro. Invariavelmente, eram eficientes, conscienciosos e absolutamente confiáveis. Todos gostavam deles e os respeitavam, especialmente porque nunca tentaram converter ninguém. No entanto, havia também algo ligeiramente estranho neles; Norton nunca pôde entender como homens com treinamento técnico e científico tão avançado conseguiam acreditar em coisas que ele ouvia cristeiros afirmarem como se fossem fatos incontroversos. (p. 78 e 79)

Durante toda a história Rama é o centro das atenções. Apesar disso, há pormenores quanto algumas características sociais da raça humana. Os detalhes não são aprofundados, mas suficientes para interpretar que a humanidade ainda está se transformando. Apesar dos homens terem avançado na área tecnológica, as informações reveladas na trama mostram que a humanidade sofreu uma sutil modificação das relações humanas, mas ainda estão estagnados em conceitos pré-definidos. Como vocês puderam conferir nas citações acima: o comandante Norton comenta que não aprecia trabalhar com certos tipos de mulheres por serem uma distração. Uma indicação de atraso, onde ainda há disparidade social entre os gêneros. Outro ponto, é a presença do membro da Quinta Igreja de Cristo-Cosmonauta na tripulação e em outras áreas de importância, indicando um domínio religioso sobre questões políticas do regime. Afinal, cultos e religiões em geral são sempre um sintoma de carência material e desintegração social. Enfim, não sei se o autor teve a intenção com esses detalhes de mostrar que a humanidade ainda precisa evoluir como sociedade, mas são informações que acredito mostrar certa estagnação social.

Encontro com Rama não é uma obra da Ficção Cientifica com ação a lá laser em toda cena, e sim uma retratação do que poderia ser nosso primeiro contato com uma vida inteligente alienígena. Uma ideia mais curiosa e empolgante! (^_^) Diante desse cenário que brinca com a realidade, Arthur C. Clark mostra que a exploração do desconhecido demanda tempo e recursos para ser estudado e, claro, compreendido. Por isso, numa realidade totalmente diferente da nossa e num curto período de tempo para explorar, as dúvidas são mais comuns que as respostas.

.

Título: Encontro com Rama
Título original: Rendezvous with Rama
Autor: Arthur C. Clark
Tradução: Susana Alexandria
Editora: Editora Aleph
Páginas: 288
Ano: 2015

Livro: Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes – Makoto Fukami e Kentaro Miura

Publicado no Japão em 23 de junho de 2017 juntamente com o 39º volume do mangá, Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes (tradução livre: Berserk – O Cavaleiro do Dragão das Chamas) foi ilustrado por Kentaro Miura e escrito por Makoto Fukami, este último trabalhou na produção da animação de Berserk do ano de 2016. Beruseruku Honoo Ryuu no Kishi é a primeira romantização oficial de Berserk, revelando uma parte inédita do universo do mangá. A narrativa do romance se baseou num específico quadro que aparece no mangá, em que rapidamente descreve o passado do Apóstolo Grunbeld.

Dividido em prólogo, quatro capítulos (com seus subcapítulos) e epílogo, acompanhamos a trajetória de Grunbeld Arqvist no pequeno reino Grant, passando por sua juventude, pela trágica morte de sua mãe (que lhe ensinou a usar a espada), pelo sequestro dele e de outras crianças do reino por forças do Império Tudor, o confinamento na fortaleza, a doutrinação violenta para servir os Tudor, a amizade com Bénédicte (sacerdotisa cega), Edvard (potencial sucessor do trono de Grant) e Sigur (nobre e posteriormente líder da cavalaria), a aparição do Beherit (ou Behelit), sua posição como comandante, a resistência à invasão do Império Tudor, e por fim, como ele se tornou o poderoso Apóstolo conhecido como O Dragão das Chamas.

Estava curiosa para conhecer o passado deste importante Apóstolo, o poderoso inimigo que Guts, trajando pela primeira vez a armadura concedida pela bruxa Flora e sua aprendiz Schierke, consegue rachar a resistente couraça de cristal. Quando Arqvist nos é apresentado no mangá, seu carácter difere dos demais Apóstolos que seguem Griffith no Novo Bando do Falcão. Os trejeitos e a interação que ele apresenta com seus aliados e inimigos o configura como um guerreiro honrado (sem dúvida uma honra questionável, mas, ainda assim, uma figura confiável) e nada sádico. Fukami prestou atenção nesses detalhes do personagem, ou, Miura enfatizou tais elementos do singular Apóstolo. Independente, a origem que encontramos no romance traz justamente o espírito guerreiro de Grunbeld.

Personagens

Por já ter certa intimidade com a obra, Makoto conseguiu com desenvoltura trazer a essência do mundo criado por Kentaro em Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes. É bem interessante de acompanhar a história de Arqvist diante das perdas, do enclausuramento, de seu desenvolvimento como guerreiro, das amizades que surgiram através de momentos difíceis, da traição e por fim do Sacrifício. Um detalhe da história do protagonista que mais me agradou foi sua origem: Grunbeld Arqvist descende do orgulhoso povo do extremo norte conhecido como os Caçadores dos Oceanos (ou Leões-marinhos), que tem a característica física de indivíduos de grande estatura. Com somente 14 anos o protagonista já era um jovem maior que os garotos da sua idade, e atingindo a fase adulta ele chega a uma estatura ainda maior que os homens de sua etnia.

O único ponto que me incomodou na narrativa foi uma cena de um dos estupros que acontecem no decorrer do livro. No mangá cenas desse naipe estão lá para mostrar a degradação dessa realidade; e acredito que até o momento a agressividade dessas cenas foram colocadas em contextos. Não sou contra a exclusão desse artifício nas narrativas, afinal e infelizmente estupros existem, mas numa trama esse ato grotesco deve aparecer em situações que vão enfatizar algo e não gratuitamente. Por isso acredito que Fukami exagerou incluindo o abuso de uma criança na invasão do templo de Grant. Foi uma cena totalmente desnecessária. Por outro lado, creio que o autor revela, até certo ponto, que essa violência aplicada nas personagens femininas são de dominação e humilhação de seus corpos.

Quanto a escrita de Makoto Fukami, ela não é nada sofisticada (*bem, a tradução pelo menos me passou essa impressão*), no entanto é um estilo funcional e direto. Os acontecimentos avançam com rapidez, mas sem parecer atropelados. Já as ilustrações de Kentaro Miura, que são dez no total, estão detalhadíssimas e simplesmente sensacionais!!! (*antes de ver a imagem da sacerdotisa Bénédicte, pela descrição, não a imaginei tão infantilizada =/ Bem, achei seu character design parecido com o da Sonia*).

Grunbeld Arqvist

[Atenção!!! Esses parágrafos contêm SPOILER] Minha parte preferida de Beruseruku Honoo Ryuu no Kishi, sem dúvida, foi a do Sacrifício. Eu me surpreendi com o rumo que a história tomou até chegar neste ponto. Pois fiquei me perguntando como Grunbeld abdicaria do carinho por seus companheiros pelo forte desejo de guerrear. Achei o desenrolar criativo, e acredito que Makoto tenha se animado ao escrever o capítulo final, principalmente no momento quando o Behelit é ativado pelo desespero do seu portador; visto que a narração, mesmo com seu tom simples, apresenta uma aura na descrição, nos detalhes apresentados, que faz o leitor visualizar com facilidade a escuridão envolvendo Arqvist, as quatro figuras da Mão Divina (ou Mão de Deus) interagindo e o influenciando a aceitar o pacto e o Dragão Flamejante, por um momento, exitando. Sério, ficou formidável!

Sabemos que para o portador do Behelit ativado alcançar os seus desejos, é necessário uma troca, um sacrífico valioso que defina a sua humanidade, mas também a rejeição da humanidade. Enquanto o Sacrifício de Griffith foi um descarte brutal e sem arrependimento pela morte de seus companheiros, o de Grunbeld foi concluído devido a profecia e pelo pedido de Bénédicte para encontrar o Falcão Branco (ou Falcão da Luz). Se a sacerdotisa de Grant e a guerreira Sigur não estivessem condenadas a morte (o confronto com o traidor Edvard as deixou extremamente feridas), acredito que Arqvist não teria abdicado de suas valiosas amigas. E se o protagonista não aceitasse o pacto, creio que ele teria sido liquidado ou controlado pela Mão Divina.

Outra parte que achei muito curiosa foi a descrição de Void, o líder da Mão de Deus. Comenta-se sobre sua vestimenta, que inicialmente é descrita por Grunbeld como uma veste de sacerdote e depois corrigida para feiticeiro. A roupa de Void no mangá faz parte da sua forma demoníaca, e eu nunca a associei com vestes religiosas. Contudo, a descrição feita pelo Apóstolo no romance combina em como o enigmático Cavaleiro Crânio se refere ao líder da Mão Divina no mangá, ele o descreve como “pregador”. Essa associação fortifica uma particularidade do principal antagonista da série, dando inclusive um superficial indício do que foi Void. [/ Fim do SPOILER]

Meu exemplar ♥

Na França, a editora Glénat anunciou a publicação do romance e em 17 de abril de 2019 chegou as livrarias francesas. Eu tinha feito a pré-venda, então praticamente assim que meu exemplar chegou iniciei a leitura. Pois é, estava bastante curiosa, afinal eu adoro Berserk (^_^). Ah, o livro também foi publicado em outros países, como na Alemanha, na Espanha e nos Estados Unidos, por exemplo. Então se você lê num desses idiomas recomendo a aquisição, já que por aqui a Panini nada anunciou (*mas acredito que o Brasil ganhará uma edição… Só não sei quando*).

Como vocês puderam ver, Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes é indicado para os leitores veteranos da obra de Kentaro Miura. Então, se você, colega leitor que acabou lendo minhas impressões e ficou interessado, recomendo primeiramente a leitura do mangá até pelo menos o volume 35, para depois se aventurar no romance. Indico essa ordem, pois é necessário saber o contexto do Behelit, o que é a Mão Divina, quem é Griffith e o Bando do Falcão.

Eu gostaria que a origem de Grunbeld Arqvist tivesse sido adaptada em mangá, mas como Kentaro Miura demora para publicar os capítulos da história original, seria um desejo um tanto inviável. Por esse motivo, o formato prosa foi a melhor escolha para expandir o universo de Berserk. Sem sombra de dúvida o formato romantizado me agradou, e espero que os demais Apóstolos tenham suas origens reveladas (*eu tenho curiosidade de conhecer o Irvine*). No geral, Makoto Fukami fez um bom trabalho com Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes.

.

Título: Berserk – Le Chevalier du Dragon des Flammes
Título original: Beruseruku Honoo Ryuu no Kishi, ベルセルク 炎竜の騎士
Autor: Makoto Fukami
Ilustrações: Kentaro Miura
Tradução: Anne-Sophie Thevenon
Editora: Glénat
Páginas: 172
Ano: 2019