Quadrinho: O Corvo (Edição Definitiva) – James O’Barr

O Corvo é a famosa série de quadrinhos do norte-americano James O’Barr. A gênese dessa tão conhecida obra de arte é bastante sombria… Antes de se alistar na Marinha, o jovem James vê sua vida desabar no dia em que sua noiva morre atropelada por causa de um motorista alcoolizado. Carregando sentimentos de desespero, o autor inicia O Corvo como um meio de suportar a dor. Além da tragédia pessoal, ele também é inspirado por uma notícia de um jornal de Detroit sobre o assassinato de um jovem casal. Este trabalho, publicado originalmente de forma independente em 1981, lhe trouxe uma verdadeira saída para a tristeza, a raiva e o desejo de vingança que atormentava a sua mente.

Devido ao estrondoso sucesso, The Crow acaba sendo publicado pela editora americana Caliber Comics em 1989 e ganha em 1994 uma trágica adaptação cinematográfica, com o lindo Brandon Lee (1965 – 1993) no papel de Eric Draven. Posteriormente produzidos, a criação de O’Barr recebe mais três filmes, uma série de televisão, jogos para consoles, jogos de cartas, músicas e inúmeros livros e quadrinhos publicados por várias empresas.

A versão final (ou edição definitiva) chegou primeiramente ao mercado editoral norte-americano em 2017 e contém uma série de desenhos originais, uma sequência inédita (que foi retirada de edições passadas pelo motivo do quadrinista não ter se sentido a vontade para produzir nos anos 80) e vários textos. No Brasil a edição nacional publicada pela DarkSide Books apresenta o mesmo conteúdo, porém com o trabalho gráfico mais sofisticado e sombrio. Ou seja, nossa bela edição que vale muito a pena! (^_~)

Acredito que a narrativa de O Corvo seja bastante conhecida, mas sempre é necessário trazer a tona o drama dessa história. A trama gira em torno do desafortunado Eric Draven. Ele e sua noiva, Shelly, são um casal apaixonado, cheios de sonhos e uma vida pela frente para viverem juntos e felizes. No entanto, como estamos falando de uma narrativa trágica, numa noite o casal é atacado por uma gangue. Eric é baleado na cabeça e fica paralisado, assistindo Shelly ser brutalmente espancada, estuprada e, por fim, morta. Mais tarde, Draven morre na sala de cirurgia. A busca por vingança contra os assassinos era tão forte que Eric acaba sendo ressuscitado e guiado por um corvo. Tendo essa chance, ele metodicamente busca e mata os culpados dessa violência. Quando não persegue suas presas, ele fica na residência que dividia com Shelly, passando a maior parte do tempo relembrando os momentos de afeto que teve com sua companheira. No entanto, a ausência da amada é uma tortura para ele. Sua dor emocional é tão intensa que Draven se automutila.

Difícil não ser tocado pelo testemunho desse homem tão machucado que na realização desta HQ procurou uma maneira de acalmar o sofrimento. Sentimos toda a dor e raiva do autor através de Eric Draven, como igualmente a frustração do desamparo diante de uma tragédia tão injusta. Observando com atenção o enredo, os desenhos e os textos, acredito que a obra vai além da vingança, ela também é uma tentativa de autoperdão, já que O’Barr sentia uma acentuada sensação de culpa e impotência diante da morte prematura de sua amada (Ç_Ç). Eu fiquei com o coração devastado durante e quando concluí a leitura. Precisei de um tempo para acalmar o coração. Por essa sensação visceral proporcionada por uma obra que transmite sentimentos tão sinceros, tão humanos, que O Corvo tornou-se um dos meus quadrinhos preferidos da vida ♥.

Quanto a arte de James O’Barr, é um estilo singular que mescla beleza e devastação. O traço também se modela com os momentos apresentados, então vai de um estilo suave ao se referir aos sonhos ou lembranças do protagonista, e de uma vez volta a realidade violenta, se traduzindo num traço mais carregado. Particularmente eu acho que a arte de O’Barr apresenta um estilo incomum que denota elegância (*-*).

Eu não sou uma leitora assídua de quadrinhos ocidentais (*prefiro mil vezes os mangás*), mas mesmo lendo uma quantidade pequena eu encontrei em O Corvo um poder que não há, ou raramente há, em outros títulos. James O’Barr impressionantemente nos faz sentir sua imensa tristeza. Um trabalho de aspecto melancólico que resulta numa narrativa comovente e bastante dolorosa. Uma obra de atmosfera sombria que foi utilizado como um refúgio para a dor, merece estar no patamar dos quadrinhos clássicos. Simplesmente perfeito e indispensável!

.

Título: O Corvo
Título original: The Crow
Autor: James O’Barr
Tradução: Érico Assis
Editora: DarkSide Books
Páginas: 272
Ano: 2018

Anúncios

Livro: Jane Eyre – Charlotte Brontë

Publicado originalmente em 1847 com o título Jane Eyre: An Autobiography e sob o pseudônimo de “Currer Bell”, o maravilhoso e crítico Jane Eyre, de Charlotte Brontë, narra em primeira pessoa às experiências de vida da personagem-título.

Em algum lugar no norte da Inglaterra do final do reinado de George III (1760 – 1820), vamos acompanhar alguns estágios da infância à vida adulta de Jane Eyre. Após o falecimento da mãe, ela é acolhida por Mr. Reed, seu amoroso tio materno. Infelizmente para a menina, seu tio morre pouco depois dela se juntar à família em Gateshead Hall. A viúva Mrs. Sarah Reed / Gibson odeia a pequena Jane por acreditar que seu marido cuidava mais da sobrinha do que de seus próprios filhos. Com esse medíocre sentimento, a nova tutora negligência e abusa da menina, incentivando inclusive seus filhos (John, Eliza e Georgiana) a agirem com a mesma hostilidade. Devido alguns acontecimentos, a jovem é encaminhada para a decadente escola de caridade para meninas, Lowood School; onde ganha uma preciosa amiga (a moribunda Helen Burns), mas sofre inúmeras privações e opressões da instituição comandada pelo tirânico clérigo e diretor Mr. Brocklehurst. Jane sobrevive aos anos em Lowood e se torna professora. Ela então decide disponibilizar seus serviços enquanto preceptora colocando um anúncio (atitude corajosa para uma mulher da época). Assim, acaba chegando a Thornfield Hall, onde será responsável pela educação de Adèle Varens, uma pequena francesa recolhida pelo mestre da propriedade, Mr. Edward Rochester.

Felizmente eu não conhecia nenhum detalhe do clássico de Charlotte Brontë. O que colaborou para que eu fosse surpreendida em todos os momentos dos 38 capítulos (^_^). Jane Eyre é um romance bastante fluido e a construção da narrativa apresenta um ritmo tão atraente que torna a trama da nossa heroína uma leitura maravilhosamente agradável de acompanhar (*-*). Também vale destacar as descrições, que envolta por um véu cinzelado, apresenta uma adesão completa dos tormentos e dos meandros da ligação harmoniosa entre as personagens e os cenários.

Charlotte Brontë, retratada em 1850 pelo pintor George Richmond.

O que mais me surpreendeu neste clássico foi à própria Jane Eyre. Se levarmos em conta a publicação original da obra, certamente podemos dizer que Jane é uma mulher vanguardista. Ela tem opinião, tem uma vontade feroz de independência e é uma figura que se revolta na medida do possível contra injustiças sociais. O notável no desenvolvimento da heroína é como a autora a constrói. Eyre não é aquela típica boa moça por natureza, sua personalidade é moldada pelas dificuldades que ela experimenta e pelas pessoas que ela conhece. Este tipo de particularidade na construção dos pormenores da personagem mostra como Charlotte era uma escritora atenta a influência das condições de vida do indivíduo. Atenta que o caráter é moldado pela vivência.

Como os romances da Era Vitoriana (1837 – 1901) estavam ligados às questões e preocupações da sociedade britânica, os autores tentavam trazer para suas obras detalhes que fossem baseados na realidade da vida do século XIX. Em Jane Eyre a exposição e crítica apontam com ênfase na condição da mulher comum e na metodologia truculenta de ensino. A condição da mulher sempre depende da sua classe social. Porém todas têm em comum, caminhos delimitados. A mulher burguesa limitava-se a vida doméstica e a compromissos sociais. Enquanto que as possibilidades para as mulheres da classe baixa eram reduzidas a trabalhos domésticos para famílias abastadas ou operárias de uma fábrica. Para aquelas que tinham uma boa educação, mas sem dote (como é o caso das irmãs Brontë), tinham as opções de serem professoras de meninas ou governantas da pequena e alta burguesia. Quanto à instituição de ensino, a escola Lowood é retratada como um inferno na terra, onde os funcionários tratam as crianças na base do medo e da humilhação, inclusive com castigos físicos e psicológicos. A ação sobre essas crianças é mais intensa, pois estamos falando de uma classe desfavorecida. Não há duvida que a triste experiência da protagonista tenha vindo por inspiração da vida da própria autora. Charlotte e três de suas irmãs passaram parte da juventude num colégio interno. Lá elas tiveram uma experiência terrível, sendo inclusive privadas de alimentação. Suas irmãs mais velhas, Maria e Elizabeth, faleceram ainda meninas devido aos maus-tratos.

É inútil dizer que os seres humanos deveriam contentar-se com a tranquilidade. Eles precisam da ação. E, se não a encontram, irão criá-la. Milhões estão condenados a um destino mais pacato que o meu, e milhões vivem uma revolta silenciosa contra sua sorte. Ninguém sabe quantas revoltas, além das revoltas políticas, fermentam na multidão da vida das pessoas na Terra. Tem-se a crença de que as mulheres, em geral, são bastante calmas, mas as mulheres sentem as mesmas coisas que os homens. Precisam exercitar suas faculdades e ter um campo para expandi-las, como seus irmãos costumam fazer. Elas sofrem de uma restrição tão rígida, e de uma estagnação tão absoluta, como os homens sofreriam se vivessem na mesma situação. É um pensamento estreito dos serem mais privilegiados do sexo masculino dizer que as mulheres precisam ficar isoladas do mundo para fazer pudins e cerzir meias, tocar piano e bordar bolsas. É fora de propósito condená-las, ou rir delas, se elas desejam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou que fosse necessário para pessoas do seu sexo. (p. 199 e 200)

Na verdade, muito de Jane Eyre é autobiográfico. Jane é um reflexo dos momentos dolorosos que marcaram a vida da autora, como a perda prematura da mãe e das irmãs, o já referido colégio interno e o trabalho como preceptora. Charlotte também compartilha com Eyre sua aparência considerada simples e seu estado civil de solteira. Mas Brontë dá a sua heroína uma relação… Uma relação com um desenrolar bastante dramático.

A relação de amor entre Jane e Rochester vai além da paixão. Antes de serem amantes, eles se tornam amigos, fazendo com que o relacionamento se baseasse numa comunhão de espírito, mais do que em um sentimento puramente físico. Até porque a jovem protagonista humildemente admite ter um físico comum, e ela diz mais de uma vez que Mr. Edward não tem uma aparência atraente. Então a afeição que eles sentem um pelo outro é, portanto, ainda mais autêntica e majestosa em sua originalidade e, sem dúvida, ainda mais comovente para os leitores que apreciam um amor refinado (*o*).

Quanto à escrita de Charlotte Brontë, ela é cheia de prazer, de doçura, de um charme mágico e de uma perfeição que beira o inigualável. Nota-se que a mais velha das Brontë coloca na sua criação seu corpo e sua alma, fazendo de Jane Eyre um duplo de si mesma. Um trabalho íntimo que ela precisava manifestar. E o manifestou de uma forma belíssima.

A leitura de Jane Eyre foi realizada em 2017 (*inclusive entrou para a lista de melhores leituras daquele ano*) com uma queridíssima amiga. Obrigada pela companha, best friends R. (\^o^/). Como o romance agradou e cativou ambas, o tom da nossa conversa foi obviamente de empolgação. Tipo assim: ヾ(●゚v゚)人(゚v゚○)ノ, hahaha.

Jane Eyre, maravilhosa adaptação para televisão de 2006 da BBC.

Livro concluído, eu fui assistir, com meu honorável marido, a adaptação de 2006 da BBC com roteiro de Sandy Welch e com direção de Susanna White. A minissérie conta com quatro episódios e tem no elenco principal a atriz Ruth Wilson como Jane Eyre e o ator Toby Stephens como Edward Fairfax Rochester. A minissérie é bem sucedida por adaptar com fidelidade à obra original. Claro que há alguns detalhes acrescentados, modificados ou apressados na trama, mas nada que comprometa a história. Quanto às personagens, elas apresentam a característica física e de personalidade descritas no romance (*e que olhar profundo do Rochester*). Não vou me prolongar nos elogios, pois minhas palavras não fariam jus à força que Ruth e Toby deram aos seus papéis. No geral, eu simplesmente amei esta adaptação!!! (*o*) Virou, compartilhando o mesmo patamar de Norte & Sul (2004), a série de época do coração.

Jane Eyre, de Charlotte Brontë, concentra uma beleza literária difícil de expressar em palavras. É um trabalho perfeito, e sem dúvida, um dos melhores clássicos que eu já tive o prazer de ler. Sim, tornou-se um livro marcante, um dos preferidos da vida. Não é possível se decepcionar com esta pérola da literatura que revolucionou a ficção em prosa.

.

Título: Jane Eyre
Título original: Jane Eyre
Autora: Charlotte Brontë
Tradução: Anna Duarte e Carlos Duarte
Editora: Martin Claret
Páginas: 780
Ano: 2014

Mangá: Le Mari de Mon Frère (Otouto no Otto) – Gengoroh Tagame

Le Mari de Mon Frère (título original: Otouto no Otto; tradução livre: O Marido do Meu Irmão), de Gengoroh (Gengorou) Tagame, foi originalmente pré-publicado na revista seinen Gekkan Action entre 2014 a 2017, e mais tarde ganhando o total de quatro tomos publicados pela editora japonesa Futabasha.

Com mais de vinte anos de carreira, o mangaká Tagame é conhecido por seus trabalhos na demografia Bara (薔薇, “rosa”). Diferente dos mangás Boy’s Love (BL), que são feito por mulheres para mulheres, o Bara é produzido por homens gays para homens gays. Enquanto que o BL ainda tem forte presença da heteronormatividade entre o seme (ativo) e uke (passivo), no Bara inexiste tal distinção. O mangá de / para macho apresenta romance entre homens, mas geralmente essas narrativas trazem conteúdo adulto, temas mais realistas ou até autobiográficos. Ou seja, mesmo sendo contrapontos, BL e Bara não fazem parte do mesmo universo. Bem, quanto ao estilo da arte, assim como em qualquer demografia, o visual do mangá Bara pode variar, mas normalmente mostra homens bem masculinos com corpos musculosos, corpulentos e peludos.

Em Le Mari de Mon Frère, Gengoroh se afasta de seus trabalhos vigorosos para fornecer a um público mais amplo uma história que desconstrói ideias pré-concebidas e ainda persistentes da homossexualidade. Acompanhamos a vida cotidiana do divorciado Origuchi Yaichi e de sua filha Kana. Um dia dessa comum rotina de um pai atencioso e de sua criança energética será abalado pela chegada do canadense Flanagan Mike, que se casou com o falecido Ryōji, o irmão gêmeo de Yaichi, e que veio ao Japão para cumprir uma promessa. Na infância os gêmeos eram inseparáveis, mas como acontece na vida, seus caminhos foram gradualmente se afastando. A princípio o protagonista não sabe como reagir com o cunhado gay. Contudo a doçura e curiosidade de Kana por seu já amado tio canadense é o estopim para os preconceitos de Yaichi serem quebrados. Assim a narrativa vai sendo construída com a evolução de Origuchi, o vínculo amigável que ele cria com Mike e claro compreendendo e eternizando a memória de seu falecido irmão.

Mesmo que em todo o mangá a trama se foque na mente de Yaichi, a pequena Origuchi Kana é uma figura importante e decisiva na organização dos pensamentos do pai. Sendo uma criança curiosa com aquilo que desconhece, ela tem o genuíno desejo de simplesmente entender. Com essa real sinceridade, Kana traz uma lição de humanidade, da importância de compreender e respeitar o outro independente da sua orientação sexual. Passando a mensagem de que o preconceito com o natural amor entre dois homens ou duas mulheres é totalmente sem sentido. Sim, você querendo ou não, a homossexualidade é uma orientação sexual originária. Sempre existiu e sempre existirá. Então não entendo a preocupação que alguns têm com pessoas do mesmo sexo firmando uma união.

O autor também nos apresenta outras situações com diferentes personagens que simulam episódios vividos e conhecidos pela Comunidade LGBT, como o gay ser considerado uma má influência somente por ser homossexual, e o mais frequente e angustiante de todos, jovens extremamente inseguros e receosos de revelar sua homossexualidade aos pais com medo de represálias violentas.

Para tornar a obra mais informativa, Gengoroh Tagame teve a grande ideia de oferecer curiosidades da cultura LGBT. Essas informações estão espalhadas entre alguns capítulos, e incluem: casamento gay, triângulo rosa (símbolo usado por homens homossexuais nos campos de concentração nazista), bandeira arco-íris, bandeiras do orgulho, a origem da frase “sair do armário”, a origem da Parada do Orgulho LGBT (revelando que a parada de São Paulo é a maior do mundo! *sendo esquecida a liderança do Brasil em outro ranking mundial: é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo!!!*), orgulho gay, etc. Informações curiosas que nem sempre são conhecidas em profundidade. Particularmente achei essas curiosidades essenciais.

O casal Mike e Ryōji.

Tirando a parte dos conflitos internos e da transformação de Yaichi que são bem trabalhados, nota-se que o tema da trama é desenvolvido de uma forma superficial. Diante disso, a ausência da questão política fica evidente. Como as condições de qualquer fator social estão atreladas às questões econômicas, o dos LGBT não seria diferente. Afinal, as condições das minorias estão relacionadas às questões de classe. Por isso senti falta da determinante posição política (esquerda ou direita). O lado político é fator essencial, pois é onde se define o objetivo de qualquer movimento. Afinal de contas, ser político LGBT, não significa ter posturas pró-LGBT. Prestem atenção na esquerda pequeno-burguesa e nos fascistas. No lado da esquerda pequeno-burguesa, a defesa dos LGBT é mais uma ação demagoga. Neste caso tomo como exemplo o próprio Canadá, que é um dos países do Imperialismo membro da OTAN (organização militar que destrói inúmeros países para tomar a força seus recursos. Participou inclusive da guerra no Iraque), tem atualmente o moderninho primeiro ministro Justin Trudeau que é todo “feminista” e “pró-gay”, mas está lá apoiando a invasão da Venezuela. Inclusive colaborando com os Estados Unidos no descarado desejo de roubar o petróleo e o ouro dos venezuelanos, e nesse processo ansiando na eliminação definitiva de seus opositores (incluindo homossexuais venezuelanos contra tal invasão). Então eu te pergunto: o que adianta um sujeito se dizer abertamente homossexual ou apoiar a causa LGBT, se na prática ele defende uma política de direita que estraçalha a população? Já no caso dos fascistas, a defesa é na verdade mais uma opção de repressão. Neste caso o melhor exemplo é o Brasil, onde em todos os níveis do atual governo de extrema direita, que é abertamente declarado contra a Comunidade LGBT, aplicará a estranha lei contra a homofobia. Será mesmo a lei aplicada para a proteção dos LGBT ou para aumentar ainda mais a repressão contra a população / às minorias / à esquerda? Enfim, somente uma ação realmente prática em defesa dos trabalhadores (que inclui também as minorias), dando poder e segurança econômica, melhoraria a vida de todos os reprimidos.

Da mesma forma, senti falta de uma profundidade quanto à visão moderna dos japoneses sobre a homossexualidade, já que na sua constituição o casamento (com todos os direitos e obrigações legais) de cidadãos homossexuais ainda não é permitido. Seria interessante que Gengoroh tivesse nos revelado mais detalhes, pois sendo o atual governo nipônico de extrema direita, que vem aplicando políticas repressivas contra os trabalhadores, prejudicando ainda mais os setores mais frágeis (mulheres, LGBT e imigrantes), seria interessante a visão de um nativo gay assumido. Para quem não sabe, no Japão tem as mesmas peças desprezíveis que conhecemos tão bem por aqui, aquelas figuras que proliferam na mídia típicas frases bem reacionárias contra a Comunidade LGBT, como, por exemplo, os chamando de improdutivos e que “portanto, não contribuem para a prosperidade da nação”. Ou mesmo leis de caráter extremamente autoritárias da própria constituição japonesa quanto à esterilização forçada de homens trans para que eles simplesmente possam realizar a alteração de gênero em suas identidades (O_O Quanta tirania!!!). Uma pena o mangaká não ter revelado essa podridão. Mas ele dá alguns indícios sobre o existente preconceito.

Dorama de Otouto no Otto (2018) ♥.

Obvio que o tema principal de Otouto no Otto é o lugar da homossexualidade na sociedade. No entanto a obra de Tagame apresenta outras qualidades. Por ser uma narrativa que se passa num contexto diário, as diferenças culturais entre o Canadá e o Japão, entre Mike e a família Origuchi, é narrada de uma forma didática. Então vemos vários choques culturais, como: é natural no ocidente a demonstração de afeto por seu companheiro, familiares e amigos. Enquanto que no Japão o externalizar das emoções é uma ação rara até entre familiares; Tatuagens no ocidente é moda. No entanto na terra do sol nascente ainda é um forte símbolo dos círculos da máfia Yakuza (*na maioria dos onsen (águas termais) é proibida a entrada de pessoas tatuadas – tatuagens de qualquer tamanho!*); e claro, a culinária (*¬*).

Quanto à arte do Tagame, não é um estilo que me agrade, mas tenho de concordar que ele desenha seus ursões com capricho. Inclusive, inclui alguns agrados aos seus fieis leitores gays. Por outro lado, as personagens femininas me pareceram esquisitas (O_o). Tanto Hirata Natsuki (ex-esposa de Yaichi) e Kana são encorpadas e entroncadas, principalmente a menina. Achei bizarro esse character design feminino masculinizado. Como Gengoroh é um mangaká de obras Bara, ou seja, praticamente só desenha homens atarracados, então suponho que ele não tenha tanta prática de desenhar personagens do gênero feminino.

Edição francesa de Le Mari de Mon Frère.

Minha leitura de Le Mari de Mon Frère aconteceu em junho do ano passado na caprichada edição francesa. Na França a editora Akata caprichou no lançamento desse título. Todos os volumes foram publicados com a qualidade do projeto gráfico da edição japonesa; sendo que no lançamento do quarto volume, tinha a opção da edição com a caixa para armazenar os demais tomos. Por ser resultado de uma colaboração direta entre a editora francesa e o Tagame, esta fofa rígida caixa de papelão trás ilustrações inéditas! Inclusive tem estampado um pequeno autógrafo do mangaká (^_^) (*adorei o detalhe do ursinho*).

Pelo sucesso da obra, Otouto no Otto ganhou uma adaptação em live-action no Japão. O dorama estreado em março de 2018 na NHK BS Premium com total de três episódios, tem direção de Teruyuki Yoshida e Yukihiro Toda. No elenco, temos: Sato Ryuta no papel de Yaichi; Baruto Kaito (ex-lutador de sumô originário da Estónia) como Mike; a linda Nakamura Yuri no papel de Natsuki; e Nemoto Maharu dando vida a Kana. A adaptação televisiva é bastante fiel. A novela, que tem uma agradável e melancólica fotografia, trás a leveza e as questões narradas no mangá, mas com uma força mais enfática que toca fundo o coração. A intensidade do olhar, dos pensamentos, dos conflitos internos e da progressiva mudança de Yaichi foram maravilhosamente bem desenvolvidas. Eu não consegui segurar as lágrimas na cena em que Origuchi chora pela primeira vez a morte do irmão; é uma cena rápida, um tanto silenciosa, mas tocante. Também vale destacar a participação da meiga Natsuki, já que os diálogos que ela tem com o ex-marido o ajudam na sua evolução como pessoa. E claro, é impossível não se encantar com a linda personalidade da Kana-chan e de sua amiga Yuki-chan (Hirao Nanaka). Como em qualquer adaptação existem cenas complementares, esses pequenos detalhes acrescentados engradeceram a narrativa no seu drama e trouxeram um pouco mais o tom enfático que eu esperava. Além disso, os atores tinham uma interação espontânea, me parecendo realmente amigos; e o Baruto faz a mesma cara simpática do Mike, hahaha. Para mim o dorama funcionou melhor. Eu gostei bastante! (*-*) Achei mais apaixonante e emocionante que a obra original.

Em suma, achei Le Mari de Mon Frère divertido e uma boa oportunidade de conhecer, pelo menos um pouco, o trabalho do mangaká Gengoroh Tagame. Entretanto, eu não fiquei encantada pela obra, pois como comentei anteriormente, a abordagem sobre o tema foi trabalhada de uma forma suave e eu gostaria que tivesse sido algo mais enfático. Mesmo me desagradando nesse sentido, o título tem seus méritos e merece ser lido e compartilhado, porque o importante ato de amar é um direito de todos (^_~). Ah, para quem ficou interessado, Otouto no Otto será publicado no Brasil pela editora Panini.

.

Título: Le Mari de Mon Frère
Título original: Otouto no Otto, 弟の夫
Autor: Gengoroh (Gengorou) Tagame
Editora: Akata
Número de volumes: 4 volumes
Ano: 2016 ~ 2017